De quem é a culpa?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pruritrat

Trilha Sonora: Minha História - Chico Buarque de Hollanda.

“Meus colegas de copo e de cruz”(comecei bem!) estão sempre com a cabeça fervendo de ideias. Dias desses eles me propuseram um desafio para escrever especificamente sobre os amigos de infância. Pensei em vários que tive, mas resolvi falar dos meus companheiros de sangue. São aqueles camaradas que ninguém gosta de lembrar, mas que, no fundo, alguém sempre curtiu um pouco eles.
Os nomes são até bonitinhos. Ectoparasitoses, que são os parasitas que vivem no exterior do corpo do hospedeiro, e Escabiose, doença parasitária causada pelo ácaro, etc. Isto é, nada mais do que piolho e pira, nessa ordem (O que seria de mim sem o Google?). Os hospedeiros somos nós, mas não lembro de ter cobrado alguma diária por isso.
Não sei por que as pessoas têm um certo pudor em falar e admitir que tiveram piolho. Ora, quem nunca os teve? Se alguém negar isso é porque não teve uma infância sadia.
Saí em busca de depoimentos sentimentalmente sinceros. Mas o problema consistia em como abordar esse assunto.
- Qual a sua relação com o piolho?
- Quem?
- Com o piolho.
- Olha, cara, eu namorei com o Piolho já faz tempo, mas ele me deixou pra ficar com a Solange Batidão...
- Não. Não. Eu estou falando daquele chato. Ôpa! Do piolho.
O Chato nem é tão chato assim, porque todo mundo sabe que a coceira é gostosa. Mas vamos levantar o nível da conversa.
Marquei uma consulta com a dermatologista só pra saber o que ela dizia. Ela veio com aquela linguagem técnica chata e com um ar de que só sabia disso porque estudou na faculdade. Quem ela pensa que engana? Um minuto e meio depois do início da consulta, ela me despachou e receitou o sabonete Pruritrat. Essa médica é das antigas.
- Toma. Passa isso.
- Já é minha receita?
- É! E, Por favor, leve esta outra receita para o próximo paciente.
- Eu hein!!!
Para mim, esse bichinho é o maior responsável pala minha adoração por cafuné. Quem nunca dormiu no colo da mãe quando ela, com as duas mãos, abria aquele caminho em busca dos mais ariscos? Nossa! O barulhinho deles espocando entre as unhas era uma sinfonia mórbida.
As pessoas desprezam, mas esquecem que o piolho já foi tema de canção. É só lembrar da letra: “a moça que tem piolho, seu moço, não vai à festa. Quando a moça vai dançando, seu moço, o piolho desce escorregando pela testa”.
Minha irmã dizia que morria de vergonha de mim. Nós estudávamos na mesma escola e toda manha, quando íamos pegar o ônibus lotado, eu sentia aquele puxão na camisa seguido de um beliscão. Toda manhã. Todas as vezes. Até que um dia eu, muito irritado, não resisti e perguntei ainda dentro do ônibus.
- Mana, por que tu me beliscas sempre que subo no ônibus???
- É porque sempre tiro um “boi” das tuas costas.
Ouvi aqueles risos contidos dos outros passageiros e notei aqueles olhares a procura de outro “boi” na minha roupa.
Nesse dia, me convenci que deveria acabar com o problema. Afinal, é uma questão de higiene. Na escola, conversei com um amiguinho que administrava uma “fazenda”. Só para abate.
- O que tua mãe passa?
- Creolina.
- Não. Creolina, não! Isso se usa para limpar vaso sanitário. Não vamos chegar aos extremos.
- Então raspa a cabeça.
- Não. Magrinho assim...Vou ficar muito igual.
- Ah! Passa Pruritrat.
Já convencido, passei a usar o tal sabonete duas vezes ao dia. O cheiro era tão forte quanto o da creolina e a espuma sempre caia nos olhos, o que me dava a exata noção do quanto os bichinhos estavam sofrendo. Era capaz de escutar gemidos...
Depois de alguns dias em tratamento, já não havia nenhum deles para contar os dias de vacas gordas. E ainda hoje deito no colo da minha mãe para receber aquele cafuné gostoso, mas agora na esperança de que ela não encontre mais nenhum.
                                                           (Por Fabio Castro)