De quem é a culpa?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pruritrat

Trilha Sonora: Minha História - Chico Buarque de Hollanda.

“Meus colegas de copo e de cruz”(comecei bem!) estão sempre com a cabeça fervendo de ideias. Dias desses eles me propuseram um desafio para escrever especificamente sobre os amigos de infância. Pensei em vários que tive, mas resolvi falar dos meus companheiros de sangue. São aqueles camaradas que ninguém gosta de lembrar, mas que, no fundo, alguém sempre curtiu um pouco eles.
Os nomes são até bonitinhos. Ectoparasitoses, que são os parasitas que vivem no exterior do corpo do hospedeiro, e Escabiose, doença parasitária causada pelo ácaro, etc. Isto é, nada mais do que piolho e pira, nessa ordem (O que seria de mim sem o Google?). Os hospedeiros somos nós, mas não lembro de ter cobrado alguma diária por isso.
Não sei por que as pessoas têm um certo pudor em falar e admitir que tiveram piolho. Ora, quem nunca os teve? Se alguém negar isso é porque não teve uma infância sadia.
Saí em busca de depoimentos sentimentalmente sinceros. Mas o problema consistia em como abordar esse assunto.
- Qual a sua relação com o piolho?
- Quem?
- Com o piolho.
- Olha, cara, eu namorei com o Piolho já faz tempo, mas ele me deixou pra ficar com a Solange Batidão...
- Não. Não. Eu estou falando daquele chato. Ôpa! Do piolho.
O Chato nem é tão chato assim, porque todo mundo sabe que a coceira é gostosa. Mas vamos levantar o nível da conversa.
Marquei uma consulta com a dermatologista só pra saber o que ela dizia. Ela veio com aquela linguagem técnica chata e com um ar de que só sabia disso porque estudou na faculdade. Quem ela pensa que engana? Um minuto e meio depois do início da consulta, ela me despachou e receitou o sabonete Pruritrat. Essa médica é das antigas.
- Toma. Passa isso.
- Já é minha receita?
- É! E, Por favor, leve esta outra receita para o próximo paciente.
- Eu hein!!!
Para mim, esse bichinho é o maior responsável pala minha adoração por cafuné. Quem nunca dormiu no colo da mãe quando ela, com as duas mãos, abria aquele caminho em busca dos mais ariscos? Nossa! O barulhinho deles espocando entre as unhas era uma sinfonia mórbida.
As pessoas desprezam, mas esquecem que o piolho já foi tema de canção. É só lembrar da letra: “a moça que tem piolho, seu moço, não vai à festa. Quando a moça vai dançando, seu moço, o piolho desce escorregando pela testa”.
Minha irmã dizia que morria de vergonha de mim. Nós estudávamos na mesma escola e toda manha, quando íamos pegar o ônibus lotado, eu sentia aquele puxão na camisa seguido de um beliscão. Toda manhã. Todas as vezes. Até que um dia eu, muito irritado, não resisti e perguntei ainda dentro do ônibus.
- Mana, por que tu me beliscas sempre que subo no ônibus???
- É porque sempre tiro um “boi” das tuas costas.
Ouvi aqueles risos contidos dos outros passageiros e notei aqueles olhares a procura de outro “boi” na minha roupa.
Nesse dia, me convenci que deveria acabar com o problema. Afinal, é uma questão de higiene. Na escola, conversei com um amiguinho que administrava uma “fazenda”. Só para abate.
- O que tua mãe passa?
- Creolina.
- Não. Creolina, não! Isso se usa para limpar vaso sanitário. Não vamos chegar aos extremos.
- Então raspa a cabeça.
- Não. Magrinho assim...Vou ficar muito igual.
- Ah! Passa Pruritrat.
Já convencido, passei a usar o tal sabonete duas vezes ao dia. O cheiro era tão forte quanto o da creolina e a espuma sempre caia nos olhos, o que me dava a exata noção do quanto os bichinhos estavam sofrendo. Era capaz de escutar gemidos...
Depois de alguns dias em tratamento, já não havia nenhum deles para contar os dias de vacas gordas. E ainda hoje deito no colo da minha mãe para receber aquele cafuné gostoso, mas agora na esperança de que ela não encontre mais nenhum.
                                                           (Por Fabio Castro)

INSTANTÂNEO (V)

(Trilha sonora: Love; Pink Floyd)

Uma confissão tão singela
explodiu
em letras elétricas
na tela do computador.
Em mim e nela
gravou-se.

(Renato Gimenes)

TEORIA DA TÁBULA RASA

(Trilha sonora - por acaso, o barulho dos carros, imerso no maldito trânsito!)

Eu posso concordar que um homem
tenha a alma feita de cera,
e que o tempo, os outros,
o mundo,
lhe gravem a experiência
a lapis, a dedos
a faca, a livros,
a lágrimas e sorrisos,
e que haja até
alguma dor
nisso tudo.

Eu posso conceber
que tudo isso molde
a cera ao ponto
dela não ser mais lisa,
e que passe a ter
montes, redemoinhos
e texturas -
mesmo buracos.

Mas não posso admitir
que se conceba que mesmo
a mais maleável das ceras
não possua
um ponto de ruptura.

(Renato Gimenes)

O SOPRO DO LOBO DOS PORCOS (VERSÃO: RENATO GIMENES)

(Trilha sonora: Pink Floyd, especialmente "Confortably Numb")

A limusine estacionou na frente do Hospital às 10:30. Pontualmente. O motorista, ágil e de uma solicitude automática desce de seu posto e abre a porta de trás. Passam por elas três pares de pés bifurcados.


O último a sair, metido em um terno preto, diz:
- Pode ir embora, obrigado.
Os três pares de pés bifurcados sobem uma rampa e chegam à entrada do hospital. Um médico, cabelo e barba branca muito bem aparadas, roupa verde clara, os espera.
- Bem vindos, senhores, sigam-me por aqui
Atravessam o hall de entrada do hospital, viram em uma entrada à direita e seguem para os elevadores. Sobem até o sexto andar. Depois, seguem à esquerda por um longo e estreito corredor, até se sentarem nas confortáveis cadeiras de uma pequena sala de espera.
- Aguardem um momento, senhores, que nós os chamaremos.
Os três acenam discretamente com a cabeça. Se entreolham.
Silêncio e espera. Nada em suas faces redondas, em seus narizes retos e pequenos olhos castanhos traíam alguma emoção. Apenas introspecção e espera. Depois, cabeças baixas, queixos colados aos peitos - menos o de terno, que olhava para o teto, distraidamente.
Cinco minutos, e o médico retorna:
- Senhor Cícero, senhor Heitor, senhor Prático, por favor, me acompanhem.
Os três seguem o médico por um curto corredor até pararem em frente a uma porta. Quarto 609.
- Ele está aqui, senhores.
Adentram. Quarto belo e simples, verde, chão bege bem claro. Uma cama, monitores de batimentos cardíados, cilindros de oxigênio. Soro. Um criado mudo com uma jarra de água. Os três se perfilam aos pés da cama. O médico aproveita para checar as aparelhagens e anotar alguns números.
Sobre a cama, o lobo. Entubado. Magro. Respiração longa, pausada. Seguia o ritmo da máquina. Inconsciente.
Cícero rompe o silêncio:
- E então, doutor, qual é a situação dele?
- Má, senhor. Má. Não vou dar esperança nenhuma. Anos e anos de sopros, de tórax inchado e expandido. Vocês se lembram como ele ficava roxo...
- Sim, eu me lembro. Nada a fazer?
- Não, senhor, nada. Vou deixá-los a sós.
O médico sai. Cícero baixou a cabeça. Um lampejo de respeito passou pelo olhar de Heitor. Prático, atrás dos óculos escuros, permanecia impassível.
Cícero se aproxima da cama. Toca a pata do lobo. Por anos e anos temera aquela pata, correra dela. Agora a tocava, com um misto de pena, tristeza e resignação. Condoía-se. Os olhos, marejados.
Som de um telefone celular, vindo do paletó preto.
- Alô! Sim, é ele. Estou em uma visita social. Melhor, privada. Sim, sim, está confirmada a reunião da diretoria. Se decidiremos a compra da fábrica de cimento? Sim, é hoje. Três horas, perfeito. Estarei lá. Tchau.
Cícero olha discretamente para Prático, com um olhar de constrangimento e reprovação. Heitor, que olhava tudo do canto do quarto, explode:
- Porra, Prático! Puta que o pariu, nem aqui? NEM AQUI?!?!? NEM EM UMA HORA COMO ESSA? Tudo bem, eu sei como você se sentia em relação à ele! Mas, porra, um pouco de respeito com um rival!
- Rival não, inimigo. Você sempre soube que éramos nós ou ele.
A voz de Prático era calma e monocórdica.
Cícero se volta, transtornado:
- Diabos, Prático, no que você se transformou? NO QUE VOCÊ SE TRANSFORMOU, PORRA???
- Em nada. Apenas é o meu nome. Sempre foi...
Prático sabia o que se passava. Todos sabiam o que se passava. E cada um deles, a seu modo, sabia que aquilo, um dia, iria acontecer.
Cícero, entre lágrimas:
- Ele não está mais aqui! Vocês não entendem? PERDEU TODO O SENTIDO!
Heitor, comovido:
- Calma, Cícero, calma...
- Calma como, Heitor? Como? Passamos toda nossa vida fugindo dele! E agora, o que temos? O QUE NÓS TEMOS?
Prático entendia bem aquela pergunta. Pensou nela anos e anos, silenciosamente. Por um breve momento, sentiu uma leve compaixão por seu irmão mais novo, tão avoado, tão preocupado em ser feliz de forma tão simples. Seu irmão lhe causava sentimentos contraditórios: orgulho pela sua felicidade em viver em uma casa de palha, e perplexidade por viver de forma tão modesta em uma uma casa... de palha.
Depois, por detrás dos óculos escuros, mirou Heitor. "Tão preocupado e tão cabeça-dura", pensou. Se orgulhava dele, mas sempre teve a vívida impressão de que o irmão mantinha-se na iminência de se tornar algo importante, de realizar algo grande, mas nunca completava tudo o que podia fazer. Não sabia se o irmão sentia medo, se lhe faltava auto-confiança. Aquela casa de madeira lhe parecia não um lar, mas uma condição: nem palha, nem tijolos.
Cícero, um pouco mais calmo, diz à Prático:
- Eu sinto tanta falta da época em que você usava aquele macacão...
- Eu sei, irmão, eu sei.
Prático sabia. Secretamente, vinha se preparando para aquele momento. Sabia que devia tudo ao moribundo na cama. Não que sentisse pena, ou responsabilidade - afinal, era dele o projeto da casa de tijolos. Se perguntou, mais de uma vez, se ele mesmo e toda sua praticidade não haviam contribuído para aquele fim. Sentia-se vazio, mas não culpado. "Era assim que devia ser", pensava. "Coisas da vida".
Os três se entreolharam. "É hora de irmos", disse Prático.
Os outros dois assentiram.
Fazem o caminho de volta pelos corredores, em silêncio. Retornam à frente do hospital. Se entreolham, mais uma vez.
- Para onde vão? O carro deve chegar logo.
- Eu tenho um teto de palha para trocar. E você?
- Hoje, nada. Quero andar, tomar um café, talvez.
- Então vou indo. Vejo vocês mais tarde.
- Sim, mais tarde.
Se cumprimentam, sorriem, e saem. Um para cada lado. Prático aguarda na calçada, quando chega a limusine.
Entra:
- Para a Practical & Brothers.
- Sim, senhor.
Prevenira-se contra aquele momento. Deixara o macacão jeans pelo terno. Sabia que precisaria das empresas, da limusine, de tudo. Um dia, o lobo lhe faltaria e, acreditava, não poderia jamais confiar em um sujeito tão auto-destrutivo quanto aquele.
Não deixava de sentir como era estranho que cada um dos irmãos fosse um para cada lado. Mas a prática, confiava, lhe dava sempre alguma resposta para tudo. "Coisas da vida", murmurou.

(Renato Gimenes)

Carmela

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: risos de crianças no quintal, brincando com folhas secas.



Carmela colheu estrelas partidas no céu, colou pedaço por pedaço, reformou a noite. Entoou uma canção surda, dançou ciranda e se esbaldou de chocolate. Chamou a chuva, sentiu as gotas, correu com a brisa, sangrou os pés, dormiu de abraço com a terra. Caminhou mil léguas, caminhou mais mil, cheirou, tocou, amou. Carmela acena das gravuras, do sonho dos homens, de todas as esquinas, de cada desejo. Carmela convida, dá as costas e é.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O malandro conciso

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Eu Bebo Sim (Luís Antônio e João do Violão), na voz de Elza Soares.


Curto
e grosso, amor.
Curto e
grosso.

INSTANTÂNEO (IV)

(Trilha sonora: Eric Satie, "Gymnopédies")

Se Van Gogh
tivesse uma segunda chance
para pintar o olhar do amor
teria pintado
o teu olhar

domingo, 28 de novembro de 2010

Resposta à esquecida arte de olhar as estrelas.

Trilha Sonora: Kashmir - Led Zeppelin.


A saudade, 
Palavra bela!
Somente em Língua Portuguesa
Existes.
Lua,
Rua,
Brincadeiras,
Bate-papo na calçada.
saudade!
De um tempo feliz,
Conversar,
Criança, 
Radinho de pilha.
Quanta Saudade!


                       ( Por Eva Fürész)

O sopro do lobo dos porcos (Versão Fabio Castro)

Trilha Sonora Haiti - Caetano Veloso e Gilberto Gil.


O Lobo de preto
E caveira no braço
Chegou na casa
Dos três porcos traficantes
Contou até três
E soprou com fuzil:
Pei! Pei! Pei!
- Sai daí, vagabundo, a casa caiu!

                               (Fabio Castro)

sábado, 27 de novembro de 2010

O sopro do lobo dos porcos (versão Vilhena)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Cálice (Chico Buarque)


Diga que sim, capitão.

Senhor, sim, senhor.

Nagasaki e Hiroshima, genocídio pela paz mundial. Veja só, a paz mundial. Sopro de deus a varrer certezas para baixo da miséria humana.

Ghandi da Índia e de Nobel, Mahatma de bondade e de religião, estralhaçado por ideias de cadaverina
                                        trinitrotolueno
                                        verdade em fedentina

Um clique e seja feita a vossa vontade, amém.

Clique.

Senhor, sim, senhor.

Guevara de ideologias, Che de revoluções, soldado da nova ordem. Pega da tua arma para fazer o bem, elevar Fidel e fazer o bem, sangrar e fazer sangrar e fazer o bem, torturar e sequestrar e fazer o bem. Guerrilhas, força e coragem, depois morte. Depois volta. Ressuscita em juventudes e camisetas rubras de ternura dura. Não a perdeste: ela é que se vendeu.

Enquanto isso, um tango argentino num cabaré argentino ao som de Perfidia, de Gardel argentino.

Alguém fala de flores e de canhões, e já a nova ordem ganhou novo apelido. DOI-CODI: deportação: estado de direito sem direitos: patriotismo engomadinho. Um violão quebrado na sarjeta, sob o vendaval que se aproxima dos arranha-céus e das prisões. Olhos vermelhos e cegos. Unhas extirpadas, dedos esmagados.

Pau-de-arara é quem manda nessa joça.

Fala.

Não falo.

Dá-lhe porrada.

Senhor, sim, senhor.

Diga que sim, subversivo.

Não.

Arranca-lhe a humanidade fora.

Senhor, sim, senhor.

Sopra-lhe a dignidade longe.

Senhor, sim, senhor.

Mais força, mais força.

Senhor, sim, senhor.

Lobo ou porco, tanto faz. É a mesma coisa.
                                       É o mesmo filme.
                                       É a mesma joça.

Confissões da poltrona

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Bestinha (Raimundos)


Olhei a apresentadora do programa infantil sorrindo e fazendo trejeitos estúpidos pra crianças estúpidas na tevê, e foi então que resolvi ficar excitado, pra variar, arreganhar aquelas pernas lindas de puta de academia de ginástica, arrancar a calcinha dela com os dentes. Não, melhor seria estourar a calcinha com as mãos numa puxada só, levantar aquele corpo esculturado por lipoaspiração, dietas ridículas e vômitos pós-refeição e enfiar a boca bem ali no meio, sentir o perfume de rosas misturado com urina seca, forçar de verdade.

Não sei por que pensei que ali tem cheiro de rosas.

Esqueci minha xícara de café do lado.

Puxei o zíper pra baixo e libertei o Companheiro.

Sem chance. Fico de barraca armada toda vez que vejo essa cadela no ar. E querem me convencer de que isso é programa pra crianças. Ainda por cima, do tipo das inocentes. Nem quando eu tinha a idade delas eu era inocente ou imbecil desse jeito.

Tô desempregado, olhando pra tevê pela manhã, tomando café preto, mas sei bem o que é uma vadia quando vejo uma. Sorrisinho besta como aquele ali não me engana. Amanhã eu saio pra procurar trabalho, agora tenho mais o que fazer.

Essa aí deve cheirar muita farinha no camarim do estúdio. Dá pra perceber pelas olheiras mal disfarçadas com a maquiagem. Deviam despedir o maquiador pela incompetência, é o que eu acho.  Ou então ela deve trepar muito à noite, sair pra boates, fazer plantão junto com outras putas de boates pra receber por fora aquilo que ela gosta mesmo de fazer. Dar pros caras. É isso que ela gosta de fazer. Ela não me engana. Conheço bem a laia.

Vão querer me dizer agora que apresentadora de programa infantil de repente é tudo santa? Só rindo.

Vamos lá, Companheiro. Presta atenção direitinho nela. Você já conhece o serviço. Tá careca de saber como é que é.

Há-há-há.

Mandei o chefe à merda ontem, por isso tô aqui hoje, sentado na minha poltrona, praticando meu mantra. Fico de saco cheio rápido de sujeitinho querendo dar uma de sabe-tudo pra cima de mim. Querendo me passar sermão de bons costumes, de respeito aos colegas de trabalho e o escambau. Tudo porque me achou no banheiro do escritório lendo uma revista daquelas bem sujas de sacanagem, daquelas que se compra em promoção do tipo pague-duas-e-leve-três em bancas de revistas. Foda-se, todo mundo é filho sem mãe e ninguém admite a própria sujeira na qual tá metido. Resumindo: foda-se.

Aliás, o que aquele bosta fazia no banheiro, me espionando? Na certa, tava querendo alguma coisa comigo, e como sabia que eu não sou desses, veio com essa história de nhém-nhém-nhém. Engomadinho puxa-saco do diretor da firma. Puxa e lambe o saco, só pode ser.

Agora a puta de academia de ginástica começa uma cançãozinha escrota, pedindo pras crianças estúpidas acompanharem batendo palmas. Elas batem palmas. A câmera dá um close no corpo dela.

Eu acelero.

Meu Companheiro na pole position, a duzentos e quarenta por hora.

Há-há.

Do nada, me veio uma imagem da minha professora da quinta série, aquela de Ciências. Qual o nome dela, mesmo? Hoje deve ter mais de setenta anos, ou pode ter morrido, mas eu não tô nem aí. O que eu lembro era que ela gostava de mim, não sei o porquê. E nem era bonita naquela época. Que diabos. Deu vontade de fazer as honras nesse momento com ela, olha só. Não, não era bonita, ela gostava de mim, mas eu nunca gostei de Ciências.

E uma lembrança da minha segunda babá, essa sim, era jeitosa, dezenove anos, eu não tinha ainda completado dez. Ah, aquela vez que ela deu um cochilo junto comigo depois do almoço, meus pais estavam fora trabalhando. Eu acordei, fiquei olhando pra aquilo tudo na minha frente e só pensei em sentir qual era o gosto daqueles peitos. Baixei a blusa sem mangas dela só um pouquinho e botei na boca. Minha primeira vez. E a vadia fingindo que continuava dormindo. Virou a cara pro lado, mas me deixou ali, aproveitando aquele seio pequeno e macio. Ela tinha feito de propósito, com certeza, a depravada. E ainda preparou leite com chocolate e sanduíche pra mim, mais tarde.

Eu não reclamei.

Nem um pouco.

Apresentadoras de programas infantis são todas umas gostosas, já percebeu, Companheiro? E todas devem ser doidas pra trepar, isso pra mim é fato. Elas fazem pose de comportadas, mas fora das câmeras devem ir direto trepar com os amigões, depois de brincar com os amiguinhos fazendo papel de ridículas. É uma coisa saudável, afinal de contas.

Fico me perguntando por que diabos toda apresentadora de programa infantil tem que ser tão gostosa. Essas coisas estão mais pra programa erótico, isso sim.

Não é à toa que tem tanto filme pornô com fetiche de colegiais sendo curradas na sala de aula, diretores de escola dando lições particulares pra garotas levadas em seus escritórios, com direito a tapas na bunda e estocadas pra dar o bom exemplo, e por aí vai.

Só pra falar o mínimo.

Você tá indo bem, camarada. Tá quase lá. Só mais um pouco.

Repara de novo naqueles peitos enquanto ela pula com a criançada. Não é mesmo uma beleza? E as pernas, então? Ih, olha lá a bunda, agora que ela deu uma viradinha e começou a requebrar o quadril, fazendo charme com aquela boquinha fazendo biquinho.

Eu sei bem onde essa boca poderia ser útil.

Aí.

Isso.

Aí mesmo, porra.

Assim, pronto. Tá tudo certo, Companheiro. Mais uma vez não vacilou na batalha. Vou deixar você assistir um pouco do programa aqui, na poltrona. Tá cansado, eu sei.

Quer cantar junto com ela?

Há-há-há.

Pego a xícara esquecida. O café tá frio. Engulo assim mesmo.

Levanto a garrafa térmica, despejo mais um pouco pra nós dois. Um brinde à puta de academia de ginástica. Bom dia.

Amanhã vou procurar trabalho, prometo.

Será que ali no meio tem realmente cheiro de rosas?


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Talidomida Mon Amour (de Marcos Salvatore)


Num apartamento vazio, semi iluminado pelas luzes da noite que invadem a janela, um homem senta, encosta-se na parede, acende um cigarro, e, taciturno, olha para um telefone.
No andar de baixo, alguém deitado no chão da cozinha, olhando para o teto, ouve seu disco preferido dos Stereophonics:

No apartamento em frente, um casal faz amor no corredor entre o banheiro, o quarto, a sala e a cozinha. Sussurram num diálogo só de diminutivos.
No décimo, uma jovem que chora, limpa a maquiagem borrada, sozinha. Ao seu redor, jogados com raiva no chão, pequenos pedaços de papel, rabiscados com pequenos poemas alados. Linhas, linhas.
Numa janela aberta para a noite, dois velhinhos juram, mais uma vez, amor eterno. Ela fecha os olhos e se enrubesce, aceita um beijo no peito do seu único e verdadeiro cavalheiro, se entregando de novo, de coração aberto.
Ao mesmo tempo, uma criança se diverte, assiste a um programa de TV, toma seus remedinhos de ninar nenê. Um a um pro dodói parar de doer.
Janta devagar pra não deixar de comer, faz dever com dedinhos lindos de morrer, brinca o pé com o cachorro e o cachorro com o seu pé.
Um telefone toca e do outro da linha uma voz de mulher, voz cheia de carne e sangue, num tom de quem chorou noites inteiras:
- Sou eu. Estou indo até aí pra te matar.
- Não se atrase. Os comprimidos logo vão fazer efeito.


INSTANTÂNEO (III) : SÃO PAULO

(Trilha Sonora: Ira!)

Meu amoroso oásis de vitrines
e de concreto e de luzes
alimentado por tanto cansaço
tanto café e tanta fumaça!

INSTANTÂNEO (II) : RIO DE JANEIRO

(Trilha sonora: variados sambas de Partido Alto)

Teus aluguéis caros
e o sangue nas calçadas da Lapa
Quase roubaram
o amor que sinto por ti

CASTIGO (de Ana Maria Rocha)

Trilha Sonora: Sonata para piano n.º 29 (Beethoven) Appassionato e con molto sentimento

Eu me castigo

me castigo do viver,

de sofrer com o viver,

de estar sublime ao viver.

Mas, o que é de fato viver?

Significante X Significado

Trilha Sonora: Expresso 2222 - Gilberto Gil.

Colocar nome e slogan (que aqui considerarei como parte do nome) em estabelecimento comercial, independente do segmento, é coisa séria. Alguns metem os pés pelas mãos. Quando o resultado não é o esperado, a coisa pode ser bem divertida. Fico imaginando quais os critérios de escolha das chamadas que ficarão, à vista de todos, expostas na frente desses recintos.
Resolvi perguntar. As respostas foram as mais variadas:
- Faz referência à minha família.
- Achei sonoro.
- Tenho um cachorro que se chama assim.
- Acho que achei bonito.
- Sei lá!
Dando um giro pela cidade e região metropolitana, não é incomum se deparar com certas pérolas que, se possível, tentarei enumerar aqui em categorias.
Na categoria dos equivocados, o “Hotel Litoral”, em São Brás, praticamente no centro da cidade, tem como vista panorâmica o terminal rodoviário ou, talvez, os constantes alagamentos após uma chuva grossa. Perto dali, há a “Escola Adventista São Brás”. Aí você pode perguntar: qual o problema? Bom, a não ser o fato dos adventistas não cultuarem santos. Nenhum.
Na travessa Humaitá, em frente ao “Hospital Saúde da Mulher (Hospital extremista, feminista), há o bar e restaurante “Ph1 e Ph2”. O nome faz referência, segundo minha assessora da área de saúde, às células imunológicas encontradas no sangue. O local deve ser frequentado por vampiros, cuja especialidade da casa é o prato de pescoço de galinha ao molho pardo e a bebida é uma boa e velha sangria. Parece que existe outra definição na área da Química. Mas, mesmo que eu esteja errado, nada justifica esse nome.
Um amigo meu teve um bar que se chamava “Bocadillo”, que quer dizer sanduíche, refeição ligeira. Bom, além das pessoas lerem Bocadilo, na redondeza, a não ser que alguém perguntasse, só ele sabia o significado do nome. Sugeri que ele pusesse um mini dicionário espanhol-português-espanhol no cardápio. De sanduíches claro!
Na categoria dos não inspirados, há proprietários que gostam de colocar na frente do estabelecimento coisa do tipo “Bar sem nome”, dando, desta forma, nome ao bar. O motel “Cê que sabe” pressupõe dúvida que pode levar todo o planejamento de uma noite ou de um dia por água abaixo. Melhor seria algo como “Foi bom pra você?” ou “Não se afobe” ou “Tá decidido!” ou “Já era!”.
Na categoria dos bairristas, há aqueles que, eu acho, não deram certo nos seus estados. “O Gauchão” e “O Gaúcho”, os dois na João Paulo II, se orgulham em dizer que vendem “o verdadeiro churrasco gaúcho”. Vem de onde essa carne? De Porto Alegre? Deve demorar muito. Eu acrescentaria: “O verdadeiro churrasco gaúcho feito em Belém”. Já o “Recanto Paraibano" é frequentado por paraenses.
Na categoria dos “não colou”, alguns comércios têm nomes que não pegam ou não pegaram nem por decreto. O Refúgio dos Anjos (Anjos? Só se for fantasiados durante o carnaval) é conhecido como o ”Bar da Ângela”; o bar “Encontro dos Amigos” era o “Copo Sujo” (e esse fazia jus ao pseudônimo).
O Bar do meu amigo Dorico fez o percurso inverso, pois jamais teve nome pra pegar. Chamávamos de trailer, mas isso não é nome. Porque trailer é trailer! Tanto é que, bem próximo dele, havia o “Bar do Bujaru”, um trailer também, que trocava de nome, involuntariamente, conforme o grau etílico dos clientes. Passava a ser “Bar do Jaburu”.
Nomes longos também são comuns em algumas casas. Nessa categoria, a dos prolixos, certos nomes podem acarretar alguns contratempos. Veja o caso de dois amigos que conversam ao telefone:
- Alô? Ei, cara, eu estou indo lá no THE OLD SCHOOL ROCK BAR. Passa lá.
- Onde? Como? A ligação tá ruim. Não entendi!
- Passa aqui no THE OLD SCHOOL ROCK BAR. Estou te esperando.
Não é loucura. É porque até você terminar de dizer o nome do bar, você já chegou nele, fora o nó que você dá na língua. Outro desse que quase não coube na fachada foi o “Game Planet Lan House e Cyber Café”. Ora, nesse caso, o proprietário pode até se defender, mas se o problema não estiver na redundância da informação entre game e lan house, certamente estará no nome “café”, já que lá não se vende nem guaraná tuchaua fracionado.
Na categoria dos MSN (muito sem noção), alguns lugares pararam no tempo ou perderam o bom senso. A maioria das lojas de conveniência da cidade fecha às 22h. Depois desse horário, você é inconveniente. O dono do “Belém Grill” é dono e flanelinha e os fregueses devem sair com indigestão após ouvirem aquele teclado. O bar “Vinil” só tem DVD, o bar “Copa 70” é tri e não penta, e o restaurante “Bombom de Alho” é sem comentários. Nossa... até rimou.
          Certo dia, estava almoçando com os amigos num restaurante muito bom e simpático que se chamava Laphayette (é assim mesmo: com “ph” e dois “tês”), em Mosqueiro. O meu amigo, querendo ser gentil, estabeleceu um diálogo com o dono do local.
- Olha, seu Laphayette, parabéns! A comida estava uma delícia.
- Ah!... Obrigado...
Um breve silêncio foi interrompido quando o simpático senhor esbravejou:
- Passa daí, Laphayette!! Cachorro nojento!
Olhei para meu amigo que se enterrava de vergonha e disse baixinho:
- Pergunta a raça, diz que o cachorro é lindo e depois vamos embora.
Deveríamos ter percebido que a placa imitava a forma de um basset.
        Na categoria dos descolados, alguns nomes são até interessantes. A trilogia “Doca Espeto”, “Dom Espeto” e “Dom Visconde” têm em comum, além da aliteração, o fato de ou venderam espeto ou de ficarem na Doca. É um inferno! Vivem lotados. Haja espeto! “A Toca” é um local onde as pessoas ficam de "toca". Os garçons “viajam” mais que o dono e não tem cerveja gelada. Me pergunto por que eu ainda vou lá.
Observando esses desencontros, gente, dentre tantas possibilidades que seriam cansativas enumerá-las aqui, até por que me concentrei mais nos bares (por que será?), não estranhe se algum dia você passar pela rua vir algo do tipo:
“Cemitério the last parade: cyber café e lan house 24h – Mortos têm área VIP”.
                                                                     
                                                                              (Por Fabio Castro)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O início do fim: uma versão

(por Marlon Vilhena)


Trilha Sonora: pratos se espatifando no chão, panelas ressoando nas paredes, e Break On Through (The Doors) estourando as caixas de som.


- Ei, as previsões dizem que o mundo vai acabar em 2012. Uma coisa é boa nessa história, não teremos que terminar de pagar as prestações do carro. Mas e o resto?
- Me passa uma cerveja.
- Ouviu o que eu disse?
- Vai começar o jogo na TV. E não esquece a calabresa, por favor.

* * * * *

- Amor, eu tava aqui pensando.
- Ah, não, a essa hora?
- Mas, amor.
- Três e meia da manhã. Não acha que é muito clichê discutir a relação agora, não?
- Tá vendo como você é?
- Eu, não. Sou só o seu marido, eu não me enxergo, é você quem me enxerga.
- Precisamos conversar a sério.
- Pode ser no café da manhã?
- Mas, amor. A nossa vida, o nosso relacionamento não anda lá essas coisas, e o mundo correndo o risco de terminar logo, logo. E esse seu ronco também não ajuda em nada.
- E frita uma calabresa bem gorda pra acompanhar a torrada, por favor.
- Mas, amor.
- Apaga a luz do abajur, tá? Te amo, querida. 

Às três da madrugada

[Contribuição de um amigo, o Haroldo Brandão, para o nosso canto literário nesta vasta e ampla rede mundial. Salve, camarada. E agradecemos pela participação e reconhecimento.]



Belém 40 graus
Harold...! tantos anos!
Onde está o jovem presunçoso na ala esquerda do vapor?
Onde está o Homem se escondendo na capa dos niilistas?
Aqui está o homem otário fazendo perguntas básicas sobre escolhas
                                                                                         [irreversíveis...

O fantasma da poesia se perdeu às três da madrugada... até antes,
Alguns anos antes, é uma pena
Pois libertava a alma sofrida de todo poeta.

A vida é uma equação não resolvível de fácil solução para quem escolhe o auto-
                                                                                                                    [engano
           (na próxima eu melhoro, doce ilusão)
Enquanto isso tudo acontece, nada acontece.

Precisamos de verdade.
Deus perdeu seu lugar no jogo
A Ciência é um reserva carente de condições para diminuir as angústias da
                                                                                                               [Alma...

Mas, o que é isto, Alma?
Esta palavra atravessa os séculos e já não satisfaz,
Já não anima.

O cientista mais competente sofre de auto-engano
Assim como o padre, o pastor, o papa e o dalai lama...

O admirável mundo novo é o admirável velho mundo...
De novo.

Conexões às três da madrugada
Na cidade quase nada...
E eu já não tenho nada de mim.


(Haroldo Brandão)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

FUMO (de Florbela Espanca)



Trilha sonora: Raimundo Fagner
Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, plenas de carinhos
Os dias são outonos, choram, choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredos
Invoco o nosso sonho, estendo os braços
E é ele, ó meu amor, pelos espaços
Fumo leve que foge entre meus dedos.

Para: Djenane Filocreão, Jacqueline Veras, Maria de Deus e Paty Cereja.

SOBRE O TEU GOSTO

(Trilha sonora: Bob Dylan, Belchior, Led Zeppelin)

Da primeira vez que te encontrei
eu ainda não conhecia o teu gosto.
Tu eras música, aproximação,
embriaguez e esquecimento.
Tinhas pés ágeis, e decisão.
Mas, ainda da primeira vez,
teu gosto veio como revelação:
gosto despretensioso de liberdade,
de risco e de inusitado, gosto
de pura juventude,
de fruta madura ainda segura ao galho,
gosto de maçã e tabaco,
de pão e de pólvora,
de água salgada, de algodão.

E, daquela vez, teu gosto me acompanhou
pelas ruas da cidade,
sem nunca sair de mim...
Quando finalmente deixou minha boca
foi para virar memória
que viveu no que eu tenho
de mais profundo: minha pele.

Da segunda vez, tu já tinhas
gosto de expectativa,
que, logo, se converteu
em gosto de especiarias:
cravo, canela, açafrão, pimenta do reino.
E tu já tinhas gosto de café, gosto de moura
que seduziu portugueses e espanhóis,
gosto de Andaluzia, temor dos Reis Católicos!

Já da terceira vez, tu viestes
com o gosto das manchas solares
e da penumbra que é tua amiga!
Gosto de mundo nascido das Mil e Uma Noites
e daquilo que Vatsyayana
seria incapaz de conhecer!
Gosto de pele, gosto de completude,
gosto de alegria,
de futuro que se intromete,
gosto alegoria
do amor que se prefigura...

(Renato Gimenes)

INSTANTÂNEOS (I)

(Trilha sonora: Raul Seixas)

Eu tenho medo todas as vezes
que uma deformidade sentimental qualquer
aparece na minha janela

(Renato Gimenes)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Manifesto de poder

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: É (Gonzaguinha)


À beira do Pacífico, da esquerda para a direita: Dani Beck, William Suzuki, Marlon Vilhena (foto por Danilo Maretto)

Que possas dizer te amo
como quem diz te amo a um reflexo na poça d’água no final da rua.

Que possas cantar te amo
quando todos se calam em discursos despachados em três vias.

Que possas declamar te amo
se o dia se perdeu em poesias de fuligem e telas de cristal líquido.

Que possas assoviar te amo
após telejornais de maquiagens e desencantos.

Que possas entoar te amo
depois da fome, do medo e da carnificina.

Que possas sussurrar te amo
nos corredores de hospitais até o último suspiro.

Que possas ecoar te amo
dia a dia, peito a peito.

Que possas perceber te amo
num pranto baixo e nos braços que acalentam.

Que possas cultuar te amo
na mão pobre e calejada ao sol.

Que possas partilhar te amo
na gorjeta raquítica do reles prato feito.

Que possas decidir te amo
perante um buquê de nuvens à beira-mar.

Que possas compreender te amo
numa lágrima acenando adeus no embarque.

Que possas enxergar te amo
no desenho pueril da esperança com lápis de cera.

Que possas espalhar te amo
pela solidão que impregna o coração manchado de desilusão.

Que possas concluir te amo
de um abraço à terra molhada cheirando a vida.

Que possas alcançar te amo.
Que possas alcançar te amo.

2000 !!!!

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Agradecemos a todos os visitantes por terem passado por aqui, e esperamos que todos tenham encontrado um pouco de alegria, de beleza, de risos, de pensamento.

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Repetimos: suas palavras são importantes para nós!

A esquecida arte de olhar as estrelas

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Assim Caminha a Humanidade (Lulu Santos)


Olhar as estrelas.

As pessoas não têm mais tempo de olhar as estrelas. Todas preocupadas com roupas, carros, drinques, olhares provocantes, economias, jogos, estradas, nenhuma se lembra de levantar os olhos para a noite. Luzes artificais ofuscam a visão, ninguém as enxerga. As guerras e as crises tomam conta dos noticiários, ninguém se lembra delas. Até mesmo as crianças não se interessam mais pelo que está acima de suas cabeças, pois os pais não se preocupam com o que está acima de suas próprias.

Parte de uma conversa:

"Eu acredito que na Idade Média as pessoas eram mais felizes."

"Mas como você pode dizer algo assim? Mais felizes, naquela época em que havia mais fome, mais doenças, mais guerras, e que era normal morrer com menos de quarenta anos?"

"Hoje não é diferente, talvez seja pior. Você pode morrer a qualquer momento por um atropelameto, por uma bala perdida, por vários meios. As guerras hoje em dia até matam mais do que antigamente. E o número de doenças aumentou absurdamente, assim como a gravidade delas. Só que naquele tempo você podia olhar para o céu à noite e admirar um pouco o mundo em que vivia. Naquele tempo você se sentava à mesa junto com sua família e contava histórias, aproveitava algumas horas com os seus. Naquele tempo você podia contar as estrelas, pois a vida era viver os detalhes dos dias e das noites. Você olha para o céu à noite?"

Silêncio.

"Você não gasta a maior parte do seu tempo pensando em como pagar suas contas, quando pagar suas contas, quando poderá comprar sua casa, seu carro, fazer o curso que você tanto quer, enfim pensando apenas em como viver amanhã?"

Silêncio.

"As pessoas parecem se esquecer das coisas simples da vida. Como olhar as estrelas no céu. Como fazer um jantar em volta da mesa com o pai, a mãe, os filhos, os irmãos, repartindo a comida e os casos do dia. Parecem se esquecer de viver hoje. Pensando no amanhã, sim, porém vivendo hoje também. O mundo anda muito mais acelerado do que há quinhentos anos ou mais, mas ainda somos humanos, do mesmo jeito que éramos naquela época cheia de fome, guerras e doenças. Se as crianças não olham mais as estrelas, isso é um mau sinal. E isso é culpa nossa."

Ah, as estrelas. Simplesmente olhar as estrelas. Como faz falta.