De quem é a culpa?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O SOPRO DO LOBO DOS PORCOS (VERSÃO: RENATO GIMENES)

(Trilha sonora: Pink Floyd, especialmente "Confortably Numb")

A limusine estacionou na frente do Hospital às 10:30. Pontualmente. O motorista, ágil e de uma solicitude automática desce de seu posto e abre a porta de trás. Passam por elas três pares de pés bifurcados.


O último a sair, metido em um terno preto, diz:
- Pode ir embora, obrigado.
Os três pares de pés bifurcados sobem uma rampa e chegam à entrada do hospital. Um médico, cabelo e barba branca muito bem aparadas, roupa verde clara, os espera.
- Bem vindos, senhores, sigam-me por aqui
Atravessam o hall de entrada do hospital, viram em uma entrada à direita e seguem para os elevadores. Sobem até o sexto andar. Depois, seguem à esquerda por um longo e estreito corredor, até se sentarem nas confortáveis cadeiras de uma pequena sala de espera.
- Aguardem um momento, senhores, que nós os chamaremos.
Os três acenam discretamente com a cabeça. Se entreolham.
Silêncio e espera. Nada em suas faces redondas, em seus narizes retos e pequenos olhos castanhos traíam alguma emoção. Apenas introspecção e espera. Depois, cabeças baixas, queixos colados aos peitos - menos o de terno, que olhava para o teto, distraidamente.
Cinco minutos, e o médico retorna:
- Senhor Cícero, senhor Heitor, senhor Prático, por favor, me acompanhem.
Os três seguem o médico por um curto corredor até pararem em frente a uma porta. Quarto 609.
- Ele está aqui, senhores.
Adentram. Quarto belo e simples, verde, chão bege bem claro. Uma cama, monitores de batimentos cardíados, cilindros de oxigênio. Soro. Um criado mudo com uma jarra de água. Os três se perfilam aos pés da cama. O médico aproveita para checar as aparelhagens e anotar alguns números.
Sobre a cama, o lobo. Entubado. Magro. Respiração longa, pausada. Seguia o ritmo da máquina. Inconsciente.
Cícero rompe o silêncio:
- E então, doutor, qual é a situação dele?
- Má, senhor. Má. Não vou dar esperança nenhuma. Anos e anos de sopros, de tórax inchado e expandido. Vocês se lembram como ele ficava roxo...
- Sim, eu me lembro. Nada a fazer?
- Não, senhor, nada. Vou deixá-los a sós.
O médico sai. Cícero baixou a cabeça. Um lampejo de respeito passou pelo olhar de Heitor. Prático, atrás dos óculos escuros, permanecia impassível.
Cícero se aproxima da cama. Toca a pata do lobo. Por anos e anos temera aquela pata, correra dela. Agora a tocava, com um misto de pena, tristeza e resignação. Condoía-se. Os olhos, marejados.
Som de um telefone celular, vindo do paletó preto.
- Alô! Sim, é ele. Estou em uma visita social. Melhor, privada. Sim, sim, está confirmada a reunião da diretoria. Se decidiremos a compra da fábrica de cimento? Sim, é hoje. Três horas, perfeito. Estarei lá. Tchau.
Cícero olha discretamente para Prático, com um olhar de constrangimento e reprovação. Heitor, que olhava tudo do canto do quarto, explode:
- Porra, Prático! Puta que o pariu, nem aqui? NEM AQUI?!?!? NEM EM UMA HORA COMO ESSA? Tudo bem, eu sei como você se sentia em relação à ele! Mas, porra, um pouco de respeito com um rival!
- Rival não, inimigo. Você sempre soube que éramos nós ou ele.
A voz de Prático era calma e monocórdica.
Cícero se volta, transtornado:
- Diabos, Prático, no que você se transformou? NO QUE VOCÊ SE TRANSFORMOU, PORRA???
- Em nada. Apenas é o meu nome. Sempre foi...
Prático sabia o que se passava. Todos sabiam o que se passava. E cada um deles, a seu modo, sabia que aquilo, um dia, iria acontecer.
Cícero, entre lágrimas:
- Ele não está mais aqui! Vocês não entendem? PERDEU TODO O SENTIDO!
Heitor, comovido:
- Calma, Cícero, calma...
- Calma como, Heitor? Como? Passamos toda nossa vida fugindo dele! E agora, o que temos? O QUE NÓS TEMOS?
Prático entendia bem aquela pergunta. Pensou nela anos e anos, silenciosamente. Por um breve momento, sentiu uma leve compaixão por seu irmão mais novo, tão avoado, tão preocupado em ser feliz de forma tão simples. Seu irmão lhe causava sentimentos contraditórios: orgulho pela sua felicidade em viver em uma casa de palha, e perplexidade por viver de forma tão modesta em uma uma casa... de palha.
Depois, por detrás dos óculos escuros, mirou Heitor. "Tão preocupado e tão cabeça-dura", pensou. Se orgulhava dele, mas sempre teve a vívida impressão de que o irmão mantinha-se na iminência de se tornar algo importante, de realizar algo grande, mas nunca completava tudo o que podia fazer. Não sabia se o irmão sentia medo, se lhe faltava auto-confiança. Aquela casa de madeira lhe parecia não um lar, mas uma condição: nem palha, nem tijolos.
Cícero, um pouco mais calmo, diz à Prático:
- Eu sinto tanta falta da época em que você usava aquele macacão...
- Eu sei, irmão, eu sei.
Prático sabia. Secretamente, vinha se preparando para aquele momento. Sabia que devia tudo ao moribundo na cama. Não que sentisse pena, ou responsabilidade - afinal, era dele o projeto da casa de tijolos. Se perguntou, mais de uma vez, se ele mesmo e toda sua praticidade não haviam contribuído para aquele fim. Sentia-se vazio, mas não culpado. "Era assim que devia ser", pensava. "Coisas da vida".
Os três se entreolharam. "É hora de irmos", disse Prático.
Os outros dois assentiram.
Fazem o caminho de volta pelos corredores, em silêncio. Retornam à frente do hospital. Se entreolham, mais uma vez.
- Para onde vão? O carro deve chegar logo.
- Eu tenho um teto de palha para trocar. E você?
- Hoje, nada. Quero andar, tomar um café, talvez.
- Então vou indo. Vejo vocês mais tarde.
- Sim, mais tarde.
Se cumprimentam, sorriem, e saem. Um para cada lado. Prático aguarda na calçada, quando chega a limusine.
Entra:
- Para a Practical & Brothers.
- Sim, senhor.
Prevenira-se contra aquele momento. Deixara o macacão jeans pelo terno. Sabia que precisaria das empresas, da limusine, de tudo. Um dia, o lobo lhe faltaria e, acreditava, não poderia jamais confiar em um sujeito tão auto-destrutivo quanto aquele.
Não deixava de sentir como era estranho que cada um dos irmãos fosse um para cada lado. Mas a prática, confiava, lhe dava sempre alguma resposta para tudo. "Coisas da vida", murmurou.

(Renato Gimenes)