De quem é a culpa?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

EU SEI, MAS NÃO DEVIA (de Marina Colasanti)



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Par/ímpar (Por Renato Gimenes)

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(Trilha sonora: qualquer coisa do AC/DC e Aerosmith, no bar do Mauro)


Par/ímpar
pisque duas vezes
você ganha -
pisque três
eu me perco!

Na dança dos números
te colores, conversamos -
lutamos contra o sono.
Lutamos – nos conhecemos
enquanto acordamos
um para o outro:
par/impar.

Par/impar:
pisque duas vezes
você ganha,
pisque três
eu sucumbo...

No fundo, sou um fraco
fortificado por ti, Um -
ímpar singular.
Brilho vermelho e rosa
em pele negra
luar de brilho de olhos
em luz par.

Par: caneta e papel
fecundados pela tua
impar luz singular.

Par/ímpar:
pisque duas vezes
você ganha,
pisque três
eu pereço.

A traça (por Renato Gimenes)

-->
(Trilha sonora: silêncio)


A traça
traça o rastro
como caminho
que passa
no papel parede -

Rastro de traça
arrastado
até o buraco
onde se passa
o prazer
da traça,

que come o papel
onde se esgarça
o traço da escrita
em brasa
parada pelo buraco
do prazer
da traça.

O prazer da traça
traça um nada
na brasa
da escrita
que passa
deixando rastros
de uma vida
que se esgarça
diante da traça
e seu prazer
de nada.

Fica na parede
do papel em brasa
os rastros e os traços
do prazer da escrita
mesmo interrompida
pela traça
e seus buracos
do nada.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O QUÊ? (de Haroldo Brandão)





Porque no início era um imenso silêncio





Cósmico




Porque depois houve um imenso barulho





Cômico




E agora tantas vozes, ânsias, verbos e desejos





Caóticos!



Janelas Discretas nº 7 (Marcos Salvatore)


Colocou o neto no colo, enquanto se balançava na cadeira, o consertador de cucos: - "Vamos contar urubus". Um, dois... e o pequeno dormiu.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

ANJOS DA NOITE (de Wilson Barros)

 
Monólogo de Lola (Chiquinho Brandão)
 
"Eu não fiz nada, porra!
Eu não fiz nada!
Por que eu?
Porque eu sou veado?
Por que?
Porque eu me visto de mulher e acredito nisso?
Eu sou a fantasia barata de todos vocês.
E vocês?
Que me ignoram com essas caras de imbecis.
Seu bando de bunda-moles!
Passivos!
Mesmo com toda a promiscuidade vocês nunca deixaram de ser muito bem comportados.
Eu conheço o sonho de todos vocês seus veados, frouxos!
Suas esperanças são pobres.
Miseráveis!
Hipócritas!
Vocês gostariam mesmo era de serem mulherzinhas, maridinhos.
Se pudessem teriam um bando de filhinhos.
Uma fileira de adoráveis monstrinhos.
Mas pode esquecer essa merda toda!
Banheiros imundos,
Bancos traseiros de carros,
Sombras,
Sexo escroto,
Pelo meio,
O tesão sempre no lugar errado,
Quem?
Ninguém vai reagir não, né?
Burros!
Burros, passivos, escrotos.
Quê que vocês fizeram do Brasil?
O que vocês fizeram da sexualidade?
Que merda vocês fizeram da...
Que merda?"

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 5 (de Marcos Salvatore)


a dignidade intelectual que se foda
viva o subconsciente coletivo
também o cerveja gelada
a algazarra condenada
com penitência de três sábados, dois domingos
trocentos feriados largos
bem acompanhados em papo furado
em território de caça
um ou dois tragos num cigarro emprestado
você me olhando, lá do outro lado
tem gente que te espera pra bater um papo
pra curtir um som desembaraçado
viva até aquela tremenda mancada
bebeu demais, falou demais
rolou assim
pouco grana mas muito amigos
tanta coisa pra se ouvir
pra falar
pra curtir
pra sentir
prostíbulos da cidade, bares cavernosos
colo de puta que escuta
o mundo é grande, é vida nova
é dessemelhante por uma leitura
não existem interpretações mútuas
somente pensamento soltos
uma intenção desfruta um grande sonho
inteiro e quente, doce-amargo,
flor despetalada, fantasiosa
mal-me-quer engarrafado
artesanal
como qualquer invento
me saca às terças e quintas
me carrega e acha pouco
e aqui me encontro, eu acho
de novo no Chaco

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 4 (de Marcos Salvatore)

Não vou me convidar pra tua vida

Mas espero que mereça

E entenda

Sem danos

Que eu amanheça em outra festa


CONSUELO, SUPORTE (de Marcos Salvatore)

by Frida Kahlo


Nada mais patético do que ruas e praças com nomes de santos e políticos. Sempre pensei muito nisso. Tudo besteira, porque estamos sempre procurando, mesmo, é uma chave para o nosso coração.

Por isso, gosto de ligar pra Consuelo e ouvir ela murmurando em dois pólos (acha que todo mundo pensa que ela é doida), cada dia mais gostosa, ao telefone:

- "Depois da tarde chuvosa um anoitecer de lânguida contemplação do ser e do nao ser, bom pra cair de cabeça em piscinas secas e sentir o sangue, quentinho escorrer...".

Esse é que é o papo, super rebimboca da parafuseta.

Ela nunca lê um livro inteiro (auto ajuda é dose), só passa a vista nas orelhas e resenhas curtas, nunca fala coisa com coisa. Culpa dos remédios tarja preta, dos barzinhos de abraço (onde todo mundo está sempre feliz) e das mudanças trimestrais de Igreja Evangélica - acaba sempre dando para todos os pastores.

Em época de eleição, vai e vem lá está ela, apaixonada por algum candidato de sobrancelhas juntas, comedor de fetos e velhinhas.

Ela chora em falsete, toda sentida: - "Ninguém admite Sal, e pode até ser neura minha, (cai no choro, logo, de vez) mas sinto que o paraense odeia carimbó... (lembram do Zacarias chorando?) o pior que eu também, que merda, (tenta segurar a coriza e o chorro ao mesmo tempo, mas se engasga) queria tanto dançar essa porra - Uuuuuhhhh, uuuuuhhhhhhh, uuuummmmmm. O paraense não gosta de ninguém!".

Dramático, não? 

Do outro lado da linha eu tento ser mais indulgente: - "Eles que se fodam, baby! A burguesia politizada só quer saber do dela e aparecer. MORTE AOS PARASITAS!".

A Consuelo adora quando eu falo alto. Lembra do Pai dela. Depois disso, topa tudo. Paga todas.

O pior vocês nem imaginam: houve um tempo em que ela achava que eu era o cara pra ela; me ligava umas trinta vezes por dia. Quando sacou que não ia rolar novela mexicana, bebeu Q-Boa. Deixou um bilhete escrito assim: "Se me ama, morre comigo. Ainda tem chumbinho na gaveta debaixo da pia. Só não te esquece de deixar a porta aberta, que ninguém tem bola de cristal".

Passou. Quando me disseram que ela estava legal, fumei o quinquagésimo sétimo cigarro e depois subi. Ela dormia bem. Saí. Fiquei um tempo rondando as janelas da cidade. Nada lá fora. nem sombra, nem verde. Sem músicas novas, sem propostas novas. A gente merece estar assim, passando o tempo todo pelo medo de ficar de fora. Pagando mico. Gato por lebre total. Pura burrice.

Meses depois, ela me liga para contar uma grande novidade: estava convertida e tinha emagrecido dez quilos através uma dieta religiosa que consistia em mantras inspirados em leituras diafragmáticas de bulas de remédio, prisão de ventre induzida por purê de banana, masturbação (pelo menos sete vezes ao dia, sapatos apertados, bobó de camarão frio e doses matutinas de xixi. Isso mesmo. Xixi humano.

Nem preciso dizer que a vida sexual da Consuelo virou do avesso. Vocês sabem o que é Urofilia? Bom... digamos que certa madrugada, em plena Rodoviária, acompanhada de minha pessoa, Consuelo começa a passar mal. Tinha bebido muitíssimo e se alimentado pouco.

- Sal. Se eu te pedir uma coisa tu fazes?
- Claro. O que é? Desenrola.
- Dá uma mijadinha, bem quentinha, na minha boca?
- Tu tá doida, caralho? Tá pensando o quê? Que novidade é essa?
- Mas eu tô passando mal. Mal!!

Mordido com a falta de noção da Consuelo e também com a falta de bares de rock contemporâneo na cidade, sou levado por ela até a rua de trás do Amarelinho. Ela ajoelha enquanto eu entorno uma latinha vorazmente.

- Já?
- Peraí (solto um arrôto paralelepípedo). Bora.

Não sei bem como descrever a cena, mas... lembram dos biscoitos Scooby? Pois é. Enquanto eu me sentia o próprio Riachão, Dona Consuelo quase desmaia pelos múltiplos orgasmos.

Tento convidá-la para um programa mais light, mais cool:

- Tem alguém te comendo ultimamente?
- Ando muito mal fodida. Por quê?
- Ué, o de sempre. Da Toca a gente desce, ou sobe, dependendo da ressaca paudurecente.

E foi assim que nos tornamos bons e velhos amigos de foda. Até que um dia você se olha no espelho e tudo que vê é um homem morrendo numa cruz. 

TODA FILOSOFIA (de Haroldo Brandão)

by Hina Aoyama


Toda filosofia se resume ao próprio umbigo

Se não me encontro

Estarei para sempre perdido

O externo não tem sentido

Se não acho o meu equilíbrio

                 

Passo toda uma vida tentando

Achar o sentido...

E o sentido é o Amor 


Quanto mais se dá
                  
Mais se recebe

Simples

Como o sol que nasce todo dia!



               

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

HÁ LUGAR PARA DOIS (de Marquês de Sade)



Há Lugar para Dois

Uma belíssima burguesa da rua Saint-Honoré, de aproximadamente vinte e dois anos, gorduchinha e roliça, carnes as mais viçosas e apetitosas, todas as formas modelares ainda que um pouco cheias, e que acrescentava a tão fartos encantos presença de espírito, vivacidade, e gosto o mais aguçado por todos os prazeres que lhe proibiam as rigorosas leis do himeneu, decidira, havia quase um ano, arranjar dois ajudantes para seu marido que, sendo velho e feio, a ela não somente desagradava muito, como também cumpria mal, se não raramente, os deveres que, talvez, com um pouco mais de desempenho, poderiam acalmar a exigente Dolmène - assim se chamava nossa bela burguesa. Nada mais bem combinado do que os encontros marcados com esses dois amantes: Des-Roues, jovem militar, ficava normalmente das quatro às cinco horas da tarde e das cinco e meia às sete chegava Dolbreuse, jovem negociante com o rosto mais bonito que se pode ver. Era impossível fixar outros momentos; eram os únicos em que a Sra. Dolmène estava tranqüila: de manhã, era preciso estar na loja e, à tarde, também tinha de aparecer por lá algumas vezes, ou então o marido voltava, e deviam falar de seus negócios.


Por sinal, a Sra. Dolmène havia confidenciado a uma de suas amigas que ela gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem assim muito próximos um do outro: a chama da imaginação não se apagava, ela assegurava; desse modo, nada mais temo do que passar de um prazer a outro; não era difícil retomar a ação, pois a Sra. Dolmène era uma criatura encantadora que calculava ao máximo todas as sensações do amor; pouquíssimas mulheres conheciam-nas como ela própria e, em virtude dos seus talentos, reconhecera que, depois de muito meditar, dois amantes valiam muito mais do que um; com respeito à reputação, era quase a mesma coisa, um encobria o outro; poderiam se equivocar, poderia ser sempre o mesmo a entrar e sair várias vezes durante o dia, e com relação ao prazer, que diferença! A Sra. Dolmène, que temia em particular a gravidez, bem segura de que seu marido jamais com ela cometeria a loucura de lhe arruinar a cintura, havia igualmente imaginado que, com dois amantes, havia muito menos risco, quanto ao que temia, do que com um, porque, dizia ela, na condição,de excelente anatomista, dois frutos se destruíam mutuamente.
Certo dia a ordem fixada nos encontros veio a se alterar, e nossos dois amantes, que nunca se tinham visto, conheceram-se de maneira engraçada, conforme mostraremos. Des-Roues foi o primeiro, mas chegara muito tarde, e como se o diabo tivesse se intrometido, Dolbreuse, que era o segundo, chegou um pouco mais cedo.
O leitor inteligente percebe de imediato que, da combinação desses dois pequenos erros, deveria acontecer, infelizmente, um encontro infalível: e assim sucedeu. Porém, mencionaremos como isso se deu e, se possível, ocupemo-nos desse assunto com toda decência e moderação que tal assunto já por si muito licencioso, exige.
Por obra de um capricho bastante bizarro - mas tão comum entre os homens - nosso jovem militar, cansado do papel de amante, quis, por uns momentos, representar o da amante; em lugar de ser amorosamente abraçado por sua divindade, quis, por sua vez, abraçá-la: em resumo, o que está embaixo, coloca-o em cima, e, por essa inversão de posição, inclinada sobre o altar onde normalmente se oferecia o sacrifício, era Sra. Dolmène que, nua como a Vênus calipígia, e encontrando-se estendida sobre seu amante, apresentava, diante da porta do quarto onde se celebravam os mistérios, o que os gregos adoravam com devoção na estátua que acabamos de mencionar, essa parte mui bela que, em suma - sem sair à procura de exemplos tão remotos - encontra tantos adoradores em Paris. Tal era a atitude quando Dolbreuse, acostumado a entrar sem dificuldade, chega cantarolando, e vê por um ângulo o que uma mulher verdadeiramente honesta não deve, segundo dizem, jamais mostrar.
O que teria causado grande prazer a muitas pessoas fez com que Dolbreuse recuasse.
- O que vejo? - exclamou -... Traidora... é isso que me reservas?
A Sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:
- Que diabo tens tu, - diz ela ao segundo Adônis - sem deixar de se entregar ao outro - não vejo nisso nada que te cause muito pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.
Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir-se do sangue-frio de sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com isso.

JANELAS DISCRETAS Nº 3 (de Marcos Salvatore)


O melhor momento do amor é aquele, segundos antes de se perceber apaixonado.

Um mistério une os sorrisos.

Boa tarde, é quarta-feira - O calendario esta repleto delas.

Isso é bom.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 2 (de Marcos Salvatore)

Bom dia a todos.

Olho pela janela e a manhã nublada me dá uma vontade de fumar que puta que o pariu!

Existe um bom motivo para nunca acordar cedo à terças-feiras.

Será que ainda dá tempo de ir atrás dela?

Talvez, quem sabe até, pegar minhas chaves de volta.(...) Quem sabe?


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 1


Muita atividade ao leste da cidade - Antes cedo do que sempre.


UM TREM PARA AS ESTRELAS (DE CACÁ DIEGUES)




DREME - Tá ruim, Brother!

VINA - Segura Dreme, segura! Droga , droga de vida Dreme, que merda!

DREME - Para de reclamá, pô. Cê só vive reclamando. Tu qué sabê duma coisa, tu é chato à beça, xará. Só sabe reclamá. Vai vê que foi por isso que a Nicinha se mandou. (...) Vina, me ajuda Brother, fala comigo, diz qualqué besteira.

VINA – Dreme, sacanagem, faz um esforço seu merda. Pára de sangrá. (...) Nova York, lembra, confete de luz?

DREME - Bem que esse trem podia sê um avião, um avião não, um foguete, um foguete que tivesse levando a gente pras estrelas, like a dream.

AUDREY HEPBURN


 



A atriz Audrey Hepburn escreveu 10 dicas de beleza incríveis quando pediram para que revelasse seus segredos:


 

  1. Para ter lábios atraentes, diga palavras doces.
  2. Para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas.
  3. Para ter um corpo esguio, divida sua comida com os famintos.
  4. Para ter cabelos bonitos, deixe uma criança passar seus dedos por eles pelo menos uma vez por dia.
  5. Para ter boa postura, caminhe com a certeza de que nunca andará sozinho.
  6. Pessoas, muito mais que coisas, devem ser restauradas, revividas, resgatadas e redimidas; jamais jogue alguém fora.
  7. Lembre-se que, se alguma vez precisar de uma mão amiga, você a encontrará no final do seu braço. Ao ficarmos mais velhos, descobrimos porque temos duas mãos: uma é para ajudar a nós mesmos, a outra é para ajudar o próximo.
  8. A beleza de uma mulher não está nas roupas que ela carrega, ou na forma como penteia o cabelo. A beleza de uma mulher deve ser vista nos seus olhos, porque esta é a porta para seu coração, o lugar onde o amor reside.
  9. A beleza de uma mulher não está na expressão facial, mas a verdadeira beleza de uma mulher está refletida em sua alma. Está no carinho que ela amorosamente dá, na paixão que ela demonstra.
  10. A beleza de uma mulher cresce com o passar dos anos.

domingo, 2 de setembro de 2012

MAIS UMA MARIA (de Mariah Aleixo)

by Valerie Neuzil

 

Acendi a luz, incomodando meu amor que dormia ao lado. Abri a porta rumo à sala, onde estavam dormindo as visitas. Tomei o antialérgico que estava na caixa de remédios para interromper a rinite crônica. Apanhei qualquer objeto que fizesse escrever. Encontrei qualquer lugar onde se pudesse organizar os períodos, simplesmente porque nessa madrugada constatei: preciso escrever sobre a Leila Diniz.

Não, não é porque a Rita Lee escreveu que “toda mulher quer ser amada, toda mulher quer ser feliz, toda mulher se faz de coitada, toda mulher é meio Leila Diniz” e lá vem a Mariah querer analisar o que a Rita quis dizer sobre a situação das mulheres na sociedade com base nessa música. Não, não é isso.

Não é porque a Leila Diniz virou um certo lugar-comum-do-feminismo- brasileiro-contemporâneo, posando com a barriga de gravidez despudoradamente de fora, falando abertamente de temas tabu como sexo e fazendo coisas que mulheres “de família” não deveriam fazer, em plena época em que a dicotomia “de família/ sem família” fazia todo sentido para avaliar a “honestidade” das mulheres.

Não é porque a Leila Diniz conseguiu conciliar carreira profissional bem-sucedida, maternidade e beleza (afinal, não é esse o objetivo de quase-toda-mulher-moderna?). Não, não é isso!

O fato é que precisei escrever sobre a Leila Diniz porque decidi que a minha filha irá se chamar Maria Alice (calma, isso não é o anúncio da minha gravidez, são apenas planos para um futuro incerto).

Maria Alice é a personagem interpretada pela Leila Diniz num filme do Domingos de Oliveira: Todas as Mulheres do Mundo. Na família da minha mãe todas as mulheres têm Maria atrás ou na frente, no caso da Maria Alice, o Maria viria na frente, preenchendo o pré-requisito. Nesse ponto é até melhor que Mariah, porque o Maria só aparece nele quando deixa o H de lado.

Maria Alice porque minha falecida avó paterna se chamava Leila. O que ouvi e ouço falar- não pelo meu pai – mas de pessoas que foram próximas de minha avó, é que ela gostava de sair com as amigas, tomar “umas” de vez em quando e jogar baralho. Jogava vôlei quando jovem, dizem que se envolveu em vários casos amorosos, era advogada e tinha o temperamento doce.

Se a Maria Alice chegar um dia, vai ter tudo a ver com as mulheres do meu mundo; assim como espero fazer parte do mundo dela. Acima de tudo, espero que ela tenha um mundo próprio, escolhendo/conhecendo suas músicas, seus filmes, suas atrizes/atores, suas bandeiras e seus amores, seus tantos “eus.”

Fico me perguntando se isso de falar sobre o “eu” e encontrar os “eus” de dentro da gente não é uma questão assim “universal”, sabe, que envolve todo mundo, seja homem, seja mulher. Olha, deve ser isso sim, afinal, até a tal da Viviane Mosé disse isso... Mas não é por acaso que os meus “eus” do passado presente e futuro têm tanto Leila Diniz.