De quem é a culpa?

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FANTASIAS DO NARIZ (Por Haroldo Brandão)

Trilha Sonora: King Crimson.

O homem calvo pensa calmamente e reflexivamente sobre a Vida: como ela é dura, sem sentido.
Quem sabe a arte não dá algum significante mais profundo. O homem absorto viaja em elucubrações... os templos e montes do Himalaia... ao som de flautas marroquinas... De repente, o homem sente uma inquietação. Alguma coisa o traz à realidade, o liga novamente à Terra, precisamente ao redor do nariz. É uma ligeira coceira. O homem, aborrecido pelo incômodo, utiliza o polegar e indicador da mão direita pressionando a ponta do nariz de modo a arrasar com a maldita coceira. Fazia isto traquilamente quando, de repente, toda a ponta de seu nariz solta, desliga-se da cartilagem-osso e permanece entre seus dedos, sob seus olhos arregalados.

2011: PROCURE ACRESCENTAR BOM SENSO

Uma última observação: os votos para o ano novo. Todo mundo sempre deseja ao próximo uma boa saúde, dinheiro no bolso, um bom emprego, um carro novo, uma casa nova, felicidade, ou simplesmente um tudo-de-bom-pra-você-e-sua-família. Eu procuro desejar bom senso às pessoas. É algo que, podem perceber, está faltando há muito tempo em todos os lugares: em casa, no trabalho, na escola, no trânsito, nas decisões políticas, nas decisões particulares. O ser humano, principalmente o urbano, se acostuma rapidamente com tantas situações disparatadas, absurdas, que passa a assimilá-las como se fossem absolutamente naturais. Se houvesse um pouco mais de bom senso no planeta, haveria menos guerras por motivos escusos, menos intolerância religiosa, menos acidentes e atropelamentos nas cidades, menos reclamações por serviços mal prestados, menos corrupção, mais e melhor distribuição de renda, mais desenvolvimento público e privado, mais controle e preservação ambiental, mais educação, mais saúde, mais empregos, mais felicidade, mais harmonia. Em sua próxima lista de votos para o ano novo, procure acrescentar bom senso. Para os outros e para si próprio. E procure se renovar sinceramente com este bom senso, tenho certeza de que lhe fará bem.

BOA FESTA DE ANO NOVO! E MUITO BOM SENSO PARA TODOS, SEMPRE!

Fragmentos Etílicos (IV): Ao Último Cavaleiro Ausente

Trilha Sonora: Grilos da Cidade Velha, burburinhos e copos brindando.

(Sequência: Celi Abdoral (título); Fabio Castro; Marcos Salvatore; Marlon Vilhena)


Sim! Pergunte-me se vivo
O encontro com a morte pode
ser doce

Como a última gota de sede
Como o começo do sono numa rede

Criam-se rosas negras e belas
Fazem-se orações de pedra
Quedam-se luzes de madrepérolas
No orvalho de poemas brutos

Sim! Os poemas são delicadamente brutos
E as rosas continuam
Belas e negras
Negras e belas

Nos sabem os corvos
De asas tortas


[PS.: Para quem se alimenta de corações assados.]

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

FUMAR É ALGUÉM (de Marcos Salvatore)

Ava Gardner & Gregory Peck

Por favor, não note se cruzar por mim
Eu obedeço ao que não tem idade
Por isso erro, vivo e bebo a sede da verdade
Já sei das armadilhas dos batons carmim 

E sou por acaso, não me imite
Meu futuro não será lembrar o passado ou qualquer limite
Basta-me de atraso, de breu, de povo
Quem manda em mim sou eu, de novo e de novo

Só quero um abrigo da chuva e do sol
Uma briga, uma amiga pra dividir um lençol
Alguém que me dê segredos pra guardar
Estrelas, arco-íris, desejos cadentes para amar

Porque fumar é alguém, amanhã também
É um sinal, um rival, mas não conte isso a ninguém
Isso é só meu e das sobras das idas e vindas
Já sou um cara à fim de amizade, de planos, do além

Tentando não escorregar no limo da cidade
Quero abraços não apertos de mão
Nada pra enxugar, pra secar, nada de sermão
O cigarro é um companheiro de lágrimas

Um trago, um gole, um vinte, um gesto largo
Um som para momentos incríveis, inglórios
Ficar junto e se sentir por aí, pelo doce ou pelo amargo
Pra esquecer de se lembrar dos relógios

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tudo tem Limite.

Trilha sonora: “Baby", “Tigresa” e “Você não entende nada" – Caetano Veloso.

Não sei ao certo como se diz:
Quatro noites, quatro intensas noites
À beira do mar, das dunas, da mata, da saia...
Três noites, três intensas noites
Sob o céu, o sol, o suor, a lágrima...
Duas noites, duas intensas noites
Entre pernas, tapas, seios, dentes...
Uma noite, só uma, apenas uma intensa noite
Sem ar, sem mar, sem céu, sem pernas...

                                                   (Por Fabio Castro)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

INSTANTÂNEO (XVII)

(Trilha sonora: Cesarea Évora, "Sodade")

Há sinais teus por toda parte.
Em casa, mas principalmente
em mim.


(Renato Gimenes)

1º DECANATO (de Marcos Salvatore)



by Brassai

Um fantasma assombra minha casa
(...)
O fantasma sou eu
(...)
Adeus Ano Novo



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NÓS, DO BIGODE DO MEU TIO, DESEJAMOS AOS AMIGOS, SEGUIDORES E LEITORES UM FELIZ NATAL.
ABRAÇOS FRATERNOS.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O SACO DO PAPAI NOEL (VERSÃO DE FABIO CASTRO)

Trilha Sonora: A cara do Brasil – Celso Viáfora e Vicente Barreto

O mês de dezembro é a época do ano em que as pessoas se superam no quesito falsidade. É claro que não são todas, mas a maioria desempenha muito bem essa habilidade. Tudo em nome do espírito natalino.
            Não, gente, não sou um daqueles pessimistas estilo segunda geração romântica. Mas é que não posso fechar os olhos (ou o saco) para esses detalhes que, digam-se de passagem, nem o Bom Velhinho aguenta em seu saco.
            Basta fazer uma pequena comparação nas relações interpessoais a cada mês do ano. Você irá constatar que dezembro é “o que há” de mais hipócrita.
            Vamos começar por fevereiro, porque todo mundo sabe que o ano só começa efetivamente aí. Nesse mês geralmente acontece o carnaval, com os bailes bombando e as pessoas se conhecendo.
- Oi, tudo bem? Me empresta teu isqueiro.
- Empresto. Você é linda. Eu te amo.
            Dizer que ama alguém já no primeiro encontro é a máxima desse mês. E o que é pior: muita gente ainda acredita.
            Em março, mês que se comemora o dia internacional da mulher, as roseiras penam. O dia 8 é uma data muito esperada para algumas.
- Parabéns, amor, pelo dia.
- Obrigada, querido, pelas rosas.
- Paixão, lava essa calça pra mim e põe meu jantar.
- Já, já minha razão.
O que é isso, gente, a mulher está presente todos os dias e merece ser cortejada. 
            Em abril, além do glorioso dia primeiro, há a Semana Santa e as pessoas começam a se programar.
            - Na Semana Santa irei para o Retiro.
            - Retiro Espiritual?
            - Que espiritual que nada! Retiro é nome de um balneário. Vou tomar todas.
            - Jesus te ama.
            Maio é para as noivas. É engraçado existir um mês do ano para as pessoas programarem o próprio enforcamento camuflado no dia mais feliz da vida. É aí que tudo começa, gente! Mas a mulheres desse mês estão em vantagem das do mês seguinte. Junho é o mês do santo casamenteiro. Santo Antônio fica sobrecarregado de tantos pedidos. O desespero é tanto que encenam até o casamento na roça. Sem noivado, claro. Talvez seja para aliviar a tensão.
            Julho é o mês que as pessoas dizem descansar. É o período de férias das crianças para desespero dos pais. É o mês da separação, porque aí os casais juram que não traem, que são sinceros, honestos e que estão morrendo de saudade dos filhos.
            Agosto é o mês que você pensa em sumir. Porque é só aniversário. Você já reparou na quantidade de leoninos e virginianos que você conhece? Ir à festa é ótimo, mas dar presente...
            Em Setembro, na semana da pátria, nem se fala. Tem gente que até se fantasia de verde e amarelo para ver o desfile militar sob um sol escaldante. Tudo tem limite!!!
            Outubro não! Outubro é a época do ano em que a verdade prevalece. Afinal, a “Nazica” tem poder...
            Em novembro há o ritual em que se homenageiam as pessoas que já se foram. Até aí muito justo. Mas há gente que nunca teve uma relação amigável com o finado e acaba exagerando nas mensagens póstumas.
            Já em dezembro, como disse antes, é o mês que as pessoas estão com a carga toda. É preciso ficar bem atento, porque há várias situações de manifestação.
            Imagine uma confraternização com seus colegas de trabalho (Sílvio Santos vem aí!). As pessoas – não são todas, reforço – que lhe deram rasteira durante o ano todo são as primeiras a lhe felicitar com uma carga emotiva – depois de umas cinco ou nove geladas – que chega assustar.
            - Olha! Eu desejo tudo de bom pra ti. Que você seja muito feliz, tenha muita paz e muita saúde...
            - Valeu! Obrigado!
            E elas chegam mesmo a chorar, se sentindo muito íntimas mesmo sem você nunca ter aberto a geladeira delas. E todo esse discurso vem acompanhado de beijos melados na mão, abraços desconcertantes e algumas gotas de suor de um dia de farra. Pior que isso só panetone com frutas cristalizadas.
            Festa de condomínio também merece destaque. Essas celebrações sempre são antecedidas por uma missa e culminam com uma farta ceia. Aqueles vizinhos que sequer lhe dão bom dia e passam o ano reparando no que você faz para fofocar com seus participam mais pela “boca livre” do que exatamente pela simbologia religiosa a que se propõe a festa.
            Mas como sou otimista, há reuniões que realmente valem a pena. Principalmente quando você está com seus amigos e amigas do peito.
            - Na nossa festinha vou com um pretinho básico.
            - Ê, menina, isso não vai dar problema?
            - Por quê daria? Eu paguei caro.
            - E você vai acender a que horas?
            - Acender!? Por quê eu queimaria meu vestido.
            - É disso que você está falando? Poxa!
            Janeiro é um mês sem vida. Ele consta no calendário só pra cumprir tabela. É o momento do ano em que as pessoas dizem ter renovado suas esperanças e expectativas.
            No primeiro dia de janeiro um casal conversa.
            - Amor, o que vamos almoçar hoje?
            - O que sobrou da ceia de ontem.
            Passa logo, janeiro.
                                                 (Fabio Castro)
           

O SACO DO PAPAI NOEL (VERSÃO DE RENATO GIMENES)

Trilha sonora: músicas do filme "O segredo dos seus olhos")


Me foi dado escolher de direito
o que tirar e por, com efeito
do saco do Papai Noel.

Escolha difícil em princípio
posto que desde o início
continha omissão cruel.

Mas, se se escolhe em vista
do que se quer por partilha
a despeito de qual falha houver,

Segue aqui pequena lista
que dedico com todo o respeito
ao amigo, onde estiver:

Do saco do Papai Noel,
- bolsa medieval -,
Tiro comida aos pobres
Retiro moedas às putas
Retiro dotes às noivas
Tiro remédios às pestes
Me lembro de ti, São Nicolau!

Do saco do Papai Noel,
- Armazém de presentes de luz -,
Tiro a paciência de Jó
Tiro o Deus de Spinoza
Tiro a convicção de João Batista
Tiro a oração de São Francisco.
Deixo ali os pregos da cruz.

Do saco do Papai Noel,
- Espaço do tamanho do mundo -,
Tiro continentes de liberdade
Retiro mares de felicidade
Retiro povos e pontos-de-vista
Tiro horizontes de perspectivas.
Atiro a vulgaridade ao fundo.

Do saco do Papai Noel,
- abrigo quente e vermelho -,
Retiro o olhar da minha amada
Retiro o sorriso de minha filha
Retiro doces toques e sucessos
Tiro vasto desejo e alegria.
Deixo ali todo o nosso receio.

Do saco do Papai Noel,
- matéria para o pensamento -,
Retiro das galáxias o tempo
Retiro das folhas a cor verde
Retiro a revolução dos planetas
Tiro o pulsar das dobras da mente.
Largo buracos negros de ressentimento.

Do saco do Papai Noel
- a anti-caixa de Pandora -,
Tiro toda a Esperança
Tiro Cora Coralina,
Tiro poesia como presente
Retiro ato que não termina.
Recolho o ódio e as armas do Agora.

(Renato Gimenes)

CURARE (de Marcos Salvatore)

by Frida Kahlo

Que nome eu dou pra mim?

Imaginando as suas cores e os tons de rosa da pele e da boca
Me concebendo de novo e de novo enquanto tiro a sua roupa
Falando quase comigo tão assim que ninguém percebe
Com você me tomando enquanto me bebe

Me deixando ser tomado de um só gole
Para matar sua sede, para que você me console

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O SACO DO PAPAI NOEL (de Marcos Salvatore)

by Michael Zichy

- Dizem que Nicolau é nome de Santo.
- É, esse é que é o papo. Então, mostra os peitinhos.
- Nossa padre! Seu saco é tão cabeludo. Quase me engasgo com um pentelho branco.
- Nem tanto assim. Opa, cuidado com os dentes. Faz carinha de raiva.
- Seu pau está salgado. Parece até um picolé de chouriço. (...) Cadê meu picolé?.
- Para de graça, pavulagem. Você fala demais. Nem parece uma freira. Assim não rola o crime.
- Se eu engolir, pode dar o do Natal? Vi uma Azaléia no Comércio, de morrer.
- Fica de boa. Agora toma o teu leite!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

CHUVA DA TARDE

(Trilha sonora: Jorge Benjor, "Chove chuva"; Celso Sim/Oswald de Andrade, "Chove Chuva Choverando"; special thanks to Marlon Vilhena)


Chove choro de nuvem prateada
que cobre com véu transparente
os prédios da cidade quente
ansiosa por ser lavada
de si mesma purificada
por cada gota, pingente.

Chove chuva, arreio da tarde
decerto para alguns irritante:
fazer das marquises abrigo,
pintar de lentidão o Forte
para que depois, no estio
se siga a vida, atordoante.

Chuva chove tua brincadeira
de derrubar frutas das árvores:
fugir de mangas cadentes
escorregar na grama dos parques,
desviar de galhos insolentes
Pular as poças derradeiras.

Chove chuva faca afiada
que divide em dois o dia:
encontrar a quem se anseia
antes ou depois da chuva?
Fazer relógio de água fluida
que do meu tempo se faz guia.

Chove chuva choverando
nos quintais e telhados amores,
ver um mimo se realizar:
derrubar dos galhos as flores
a formar tapetes de cores
para neles você andar.

(Renato Gimenes)

SE... (ou Poema das Oportunidades Perdidas)

(Trilha sonora: Simon & Garfunkel - "El Condor Pasa")


Se
Aquela afirmação,
contradissesse,
Aquela dor,
acatasse.
Aquele favor?
Pedisse!
Aquela música,
ouvisse...

Se
Daquele pão
comesse,
Daquele caminho
seguisse,
Daquele sangue
jorrasse!
Daquele prazer
gozasse...

Se
Daquela cruz
carregasse,
Aquela linha
transpusesse,
Naquele abismo
caísse,
Daquela doença
sucumbisse.

Se
Aquele poder
tivesse!
Aquele sol
brilhasse,
Daquela barriga
nascesse,
Aquele sinal
abrisse...

Se
Daquela janela
aparecesse,
Aquele coração
batesse,
Naquele momento
definisse,
Deste ponto final
parasse...

(Renato Gimenes)

INSTANTÂNEO (XVI)

(Trilha sonora: conversa telefônica)


Para nós,
tenho uma proposta:
contradizer os pesadelos.

(Renato Gimenes)

INSTANTÂNEO (XV)

(Trilha Sonora: espera de um lado da rua, em meio ao trânsito inclemente e motoristas psicopatas de plantão)


O outro lado da rua
ainda é
uma grande distância...

(Renato Gimenes)

Causo de expediente (IV)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: zumbido alto de um espectrofotômetro de absorção atômica.


Chegando o Natal e o Ano novo, daí acontecem conversas assim.

— Então, tudo certo pra Marudá?

— Só dia 28.

— Mas por quê?

— Vou passar o Natal com meus pais e meus filhos por aqui mesmo, só depois vamos pra lá.

— Entendi, só que você sempre arruma as malas com uma semana de antecedência.

— Já percebeu que eu tô indo bem devagar nesse final de ano?

— Tô vendo. Quando chegar a Marudá, vai se esticar na rede na frente da casa, segurar uma panela no chão e esperar um caranguejo entrar ali. Só aí é que o almoço vai ficar pronto.

— E eu não vou me levantar pra ir até a praia, não. Vou esperar a maré subir pra poder tomar banho. Aí vai ser perfeito.

Acaba o ácido da reação química. Preparo um pouco mais da solução. Volto para o lado do equipamento de análise.

— Pode crer.

— E não é?

O LADRÃO DE OBRAS COMPLETAS II, A MISSÃO (de Marcos Salvatore)

by Willy Ronis

Gente boa a Cida: lourinha, vinte e poucos anos, estatura mediana, olhos claros; uma Kate Bush de sandálias. Tinha sempre um sorriso diferente para cada situação: - “Ai, odeio borocoxô. Que nó!”. Nunca vi a Cida triste. Um barato a garota. Adorava sermões, por isso ia sempre dava em cima dos padres, pastores evangélicos (pagavam bem), monges budistas etc.
Há quanto tempo freqüentava os mesmos lugares? Dois meses? Alguns anos? Alguns dias? Não saberia dizer: - “Só o filé do boi!”. Apenas comia quando tinha fome, dormia quando tinha sono, transava pra se divertir e bebia quando se sentia só, mas apenas com coroas broxas que pagavam tudo – “Ai, homem bonito dá tanto trabalho!”. Mas ela os amava do seu jeito. Também gostava de mulheres, mas só as bem vestidas e com sotaque falso de cultura fashion. Era fã de Carpenters e os Zombies: - “Hum! Adoro!”.
Ainda era uma mulher. Gostava de maquiagem, festas, roupas e livros, realmente apreciava mais o próprio livro do que a leitura. Contemplava o seu toque, o seu cheiro. Lia-os como se sua vida dependesse disso; não entendia muita coisa, mas a gente perdoa. Era boa num monte de coisas, mas não ótima: pintava, costurava e tinha mania de ser enfermeira, uma vez aplicou uma injeção de anticoncepcional em sua gata que quase aleija a bicha. Muito atrapalhada, só comia em pratos de plástico porque tinha medo de quebrá-los e depois ter que limpar a sujeira.
De motel tinha tudo: toalhinhas, xampus, sabonetinhos. Carregava até mesmo as garrafinhas já vazias do frigobar – tinha coleções. Seus coroas lhe bancavam bem, mas faltava alguma coisa em sua vida, pensava: - “Preciso me espertar. Será que eu faço o Desu?”. Lembrou dos livros só de brincadeira.
Há muito reservara um lugar secreto para seus desejos, delírios e prazeres. Cercava-se de coisas que lhe transmitiam razão, proporção, satisfação. Lendo, sentia-se protegida do mundo lá fora: - “Não quero me sentir sozinha”.
As bibliotecas da cidade estão sempre super lotadas de vazio. As livrarias têm vendedores que não lêem nada. Muitos livros são guardados dentro de banheiros ou pior – “Ai, que horror! Vira essa boca pra lá!”. Chegou a conclusão de que precisava salvá-los (e pronto!) de um destino como aquele; daria a eles um lugar em que se sentissem em casa: a sua.
Quando roubou seu primeiro livro? Nem ela lembrava. Fugira tão tranquilamente que parecia querer ser descoberta. Trocara os cartões verdadeiros por falsos, feitos por ela com carimbos improvisados e uma paciência e técnica digna das pinturas em grãos de arroz – “Ai se a Tia Izaira me visse agora!”.
Na verdade quase se entregou só pra ver se alguém acreditaria. Algo dentro dela toda gritava: “- Fui eu! Fui eu! Estou roubando um livro, não podem ver? Oiii!”. Amava o poder que um roubo bem sucedido lhe emprestava: -“Ai, também não é assim, né?”.
Por que os levava? Por que não os lia e depois devolvia? Não saberia responder a isto, nem a nada que lhe parecesse normal. O limite do mundo é o inevitável: “Ai, que lindo! Deixa eu anotar!”.
Sentia-se uma assassina, uma criminosa, uma estupradora das páginas: “Ai, eu sou de pirar o cabeção!”. O gozo de conseguir não ser desmascarada lhe creditava mais confiança para a próxima vez. Só deu zebra uma vez – “Ai, não fala disso! Não aceito!”; é que ela tinha medo de barata e quando puxou um livro da estante uma voadora pulou em sua blusa e entrou. Cida deu um berro que acordaria até o Papa, fez um escândalo. Nunca desconfiou que já desconfiavam dela.
by Lisa yukavage
À noite bebia, dançava e espreitava as pessoas normais que não roubavam livros: tão completas quanto as obras que usurpava. Cogitou roubar alguém, mas onde a guardaria? Em que estante cabe alguém? Somente ela. De vez em quando tinha esses momentos de carência singular. Amava a vida como a um amante atencioso, menino de dezesseis anos: - “Ai, para, senão eu choro!”.
Meses depois a culpa invadiu seu coraçãozinho de flor: - “Foi!”. Resolveu devolver os livros e partir pra outra. Era sua missão: - “Ai, adorei!”. Quando chegou a vez do último, pegou aquele homenzinho com cara de galinha gripada querendo se dar bem com seu exemplar: - “Ah, ladrão! Não quero! Não deixo!”.
Deveria ter denunciado ali mesmo a patifaria do verme atrevido, mas resolveu segui-lo e ver no que dava. Não quis nem saber. Foi atrás do cachorro até o bar, depois pegou a mesma van que ele. Ouviu o frentista falando do papel. Fingiu que também estava apertada e recebeu de pronto um rolo enorme pra chantagem. O resto vocês já sabem.
- Não dou nada! Vai tomar no olho do cu!
- Olha o palavrão! Sabe o que é ô Zé? Você não tem alternativa. Ou me dá o livro e limpa a bundinha com o papel que eu tenho aqui, ou sai daí todo cagado e eu te desmascaro amanhã de manhã. Eu te conheço. É um covarde, só não sei se é burro.
- Pelo amor da puta merda, me dá só um pedacinho, só um tequinho esfola prega mesmo já serve. Não ta me ouvindo, não?
- Então me dá o livro, anda. E vamo logo que já tá empesteando só vatapá.
- Não vou rasgar esse livro, vadia. Ele também é meu, roubado honestamente. Também não me dou por vencido. Vai ter que fazer melhor do que isso, sua piranha.
Levantou-se e puxou as calças com o chocolate ainda crocante escorrendo em suas pernas. Empurrou Cida no chão e saiu correndo dando uns pulinhos engraçados com as pernas abertas - acho que tentando não sujar ainda mais as suas calças. Gritou: - “Vai tomar no cu da tua bunda”.
Foi engraçado o susto do frentista vendo aquele homem correndo como um macaco de circo cagado em sua direção. Não pensou duas vezes: pegou a mangueira de água e começou a dar umas rimpadas no safado, achando que fosse assalto.
E lá vem a Cida, com seu vestidinho de hiponga de boutique e seus saltos quebrados, tropeçando e caindo, caindo e tropeçando: - “Pega ele! Pega ele!”.
- Isso, dá-lhe nele, dá-lhe mesmo, que ele tentou pegar na minha piriquita enquanto eu mijava de cócoras lá atrás. Aliás, eu acho que ele é doido, caga e nem limpa a bunda, credo!
Enquanto Rubens apanhava de mangueira, deixou cair o livro. Cida correu e o juntou do chão, dando no pé logo em seguida. Correu na direção da estrada dando risada, a todo vapor, mas antes virou para ele, que ainda apanhava uma pisa do frentista, e mostrou o cotoco do dedo dando passinhos de forró. Fazendo pouco do trouxa.
- Me larga caralho, foi ela quem me roubou!
E ela, de longe:
- Olha o palavrão! E é bem feito, seu mal educado. Heheheheh.
Deu uma rasteira no funcionário do posto e saiu que nem um doido atrás de Cida.
- Filha da puta!!!! Devolve o meu livro!
Ela saiu gritando divertida que nem a Goldie Hawn. Quando estava quase sendo alcançada, um caminhão parou perto deles e dois caminhoneiros gigantescos desceram:
- Larga a menina aí, ô folgado pó de broca!
- Pô péra lá, desculpa aí.... é que... é que...
- Que desculpa o quê? Vai levá uns copinho mermo. E engole o choro!
A Cida se divertia: - “É mesmo, é mesmo, um puto!”.
Depois da surra, largaram Rubens vomitando no meio fio e ofereceram uma carona pra Cida.
- Vai pra onde boneca?
- Ai, Paris!
- Há! Pode deixar que a gente tem um mapa.
FIM
(Adeus, meu amor. Seja boazinha.)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O saco do Papai Noel (versão Vilhena)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: passos lentos e pesados de bota pela rua.


— Está quase na hora, vamos sair daqui a pouco.

Crianças, crianças, mais crianças. Papai Noel resmungou com sua consciência enquanto suava debaixo de toda aquela pança e daquela barba espessa, sentado na cadeira, pensando em onde diabos se metera. Tanto esforço para ganhar o que, afinal? Simplesmente um muito-obrigado? Nem tapinha nas costas recebera durante todo aquele tempo.

Desejava do fundo de seus vícios um bom e demorado gole de qualquer coisa que esquentasse a garganta e anuviasse os pensamentos. Estava cansado. Sempre a mesma roupa a cada final de ano, pirralhos e pirralhas querendo, querendo e querendo, nunca ninguém lhe perguntava o que ele queria, somente lhe cobravam, cobravam e cobravam. Ele próprio já estava afogado em cobranças da esposa em casa. Essa era outra que só sabia pedir, jamais oferecia, e sempre reclamava do que recebia.

Papai Noel estava de saco cheio.

Quando vieram lhe proporcionar aquele emprego, muito tempo atrás, disseram que seria divertido e que não precisava se preocupar com nada, era como tirar doce de criança. Claro que literalmente isso não poderia ser feito em hipótese alguma, arranharia a imagem do velhinho sorridente e boa-praça. Ah, mas que dava vontade de vez em quando, isso dava.

Perdera o espírito de Natal em alguma curva anos atrás. Era uma constatação bem ruim para os negócios, sabia disso, mas também tinha seus próprios problemas, aliás, problemas muito maiores do que ficar se preocupando em presentear moleques mimados e rabugentos. O mundo estava no final dos tempos, realmente. Se as pessoas não se importavam mais com a ideia de bondade, de fraternidade e de generosidade naquela época do ano, por que ele deveria desfazer sua barba por isso? Difícil pensar em algo desta natureza, algo que se debatia violentamente dentro de si. Muitos dependiam dele, ou ao menos tais pessoas pensavam que sim. Papai Noel tinha certeza de que este tipo de dependência, no fundo, não passava de um bom drama barato da vida e suas circunstâncias, já que toda a segurança e as crenças que rodeiam a mesma vida poderiam ser radicalmente viradas de ponta-cabeça em um piscar de olhos, mas não podia argumentar: ninguém possuía ouvidos para lhe escutar quando era para falar a sério assim.

— Só mais cinco minutos. Confere?

— Confere.

Inspirou profundamente, segurou a respiração por um momento e pôs-se a soltar o ar aos poucos, como em um ritual de concentração. Seria o que qualquer um imaginaria caso o visse naquele estado, porém não passava de um ato de resignação pura e simples. Carregaria aquele saco imenso mais uma vez nos ombros porta afora enquanto alguém lhe diria um feliz-natal murcho do final do corredor. O mesmo feliz-natal murcho de sempre. E sem tapinha nas costas.

Levantou-se da cadeira e olhou ao redor. Esticou os braços para a frente, jogou o quadril para os lados, alongava-se como podia. Poucos ainda se encontravam por ali, a grande maioria já havia sumido por todos os cantos. Fitou o saco no chão. Precisava, como em todas as vezes, buscar os presentes no salão para guardá-los e levá-los consigo, acomodados todos de forma que nenhum deles chegasse estragado. Este sim, um ritual que jamais podia esquecer.

Alguém lhe acenava apressado para que o acompanhasse. Desceu alguns degraus de onde estava e encaminhou-se com o saco rubro ao lado, quase arrastando-o. Aquele acessório de tecido sedoso e brilhante de natal, mágico, milagroso, estava vazio após tantas horas, como vazias de vontade própria iam suas pernas para onde lhe indicavam.

*****

Chega em frente ao casebre, para e descansa o saco no chão, próximo ao meio-fio. Passara por algumas pessoas durante o trajeto, que sequer se viraram para ver o sujeito desengonçado e cabisbaixo de vermelho, suor na testa e um cansaço infinito do mundo.

— AÍ, camarada, perdeu o trenó?

Risadas atrás, e Papai Noel nem se digna a encarar o humorista. Levanta a cabeça para melhor averiguar o estado da residência. Algumas goteiras novas no teto, com certeza, pensou ao avistar nuvens irritadas à distância. Uma fraca luz de lâmpada incandescente esgueirando-se pela única janela do casebre. Alguém surge pela porta entreaberta.

— Papai Noel?

Papai Noel acena com uma expressão que pode tanto significar olá-a-todos quanto por-favor-finja-que-eu-não-estou-aqui. A criança espera a visita ilustre aproximar-se da entrada. Olha meio desconfiada do saco para o homem, do homem para o saco. Era o terceiro de quatro. E era a primeira vez que via o bom velhinho tão de perto, e ele não se parecia muito com aquele que costuma ser simpático e risonho em filmes e desenhos. Dissera que queria ver Papai Noel de perto, por isso ficara acordado até mais tarde naquela noite, para presenciar o momento da grande chegada. Não pensara que Papai Noel viria a pé até ali.

Põe a mão ainda calçada com a luva branca no ombro do pequeno, enquanto se esquiva para que o saco possa passar pelo batente estreito da porta. No lar de dois cômodos, sala-cozinha e quarto-banheiro, encontra o resto da família reunida. O mais velho ajuda o segundo irmão a encontrar seu par de chinelos de dedo, sua única proteção para os pés. A mãe procura dar o resto de leite de seus seios para o bebê, uma garotinha franzina e de boca ávida, que por muito tempo virá a reclamar de fome, até que o minúsculo estômago se acostume àquilo a que alguns chamam destino.

O terceiro filho, ainda encarando Papai Noel de um modo suspeito, quer saber se tem presentes para todos dentro daquele saco grande, bola de futebol, carrinho, bonecos, essas coisas. Papai Noel o encara e monta o que imagina ser uma expressão amável no rosto.

— Tem comida pra ceia.

Tira uma marmita de frango com arroz e couve do saco, depois um bom pedaço de bolo com cobertura de glacê enrolado em papel-alumínio do saco, depois uma vasilha com três fatias de bisteca de porco frias e meio ressecadas do saco, depois outra vasilha com cinco almôndegas mergulhadas em molho ralo de tomate do saco, depois um pequeno saco plástico amarrado na ponta e repleto de farofa gordurosa do saco.

— Feliz natal pra todos.

Papai Noel ensaia um rô-rô-rô. Engasga-se com um nó gigante lá no fundo da garganta.

Cantiga

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: rádio de pilha chiando algo de Roberto Carlos ao fundo.


Dona Joana explicou o mundo inteiro ao preparar o café da manhã e esquentar o pão com manteiga espetado no garfo.

Depois, enquanto mexia na panela o arroz e refogava os legumes, falou sobre a vida e a felicidade. Enquanto vinha do fogão o cheiro de cebola frita com azeite, Dona Joana dissertou sobre as mazelas e as feridas dos homens.

O sol batia obliquamente na janela, lançando raios de um amarelo intenso sobre a borda da mesa. A filha mais velha ajudava a catar o feijão do dia seguinte, cabelos presos em um coque atrás da cabeça. A filha do meio lavava a louça, areava as panelas e sentia o cheiro de comida de mãe que impregnava os pulmões e as paredes que chamavam de lar. Sorria um sorriso cheio de estrelas para Dona Joana. Dona Joana lhe respondia com olhar de mãe, cálido olhar de mãe.

A filha mais nova varria o chão e dançava uma valsa galante com a vassoura, enquanto a filha mais velha ria e lhe chamava a atenção. Dona Joana falava sobre os dias, sobre as noites. Dona Joana alertava sobre as intrigas e as fofocas. A filha do meio guardava os pratos e foi quando um deles bateu na borda da pia e se espatifou no chão. Todas olharam, a valsa cessou, a colher na panela não mexeu. A filha do meio olhou para o chão de vergonha, pediu desculpas, mãe, foi sem querer. Dona Joana chegou junto, abraçou a filha e divagou sobre quedas e acasos. Arrumou-lhe os cabelos com a palma da mão e um beijo e voltou ao arroz, jogando-lhe a cebola por cima. Pegou do sal com a ponta dos dedos e o despejou na panela, ao mesmo tempo em que virava os legumes e sussurrava uma cantiga de ciranda de sua infância.

O feijão está limpo, mãe, disse a mais velha, que já se dirigia ao outro lado da mesa com faca e verduras a postos. Dona Joana a olhou de lado, buscou o rosto da primogênita e encontrou o da caçula, encostada à mesa, mãozinhas pareadas à altura dos olhos bem abertos, prestando atenção à irmã que se punha a cortar talos e folhas para a salada. Dona Joana buscou a filha do meio, esta carregava os cacos do prato até a lixeira.

O sol se intrometia até o meio da cozinha, esquentando o alumínio da vasilha com o feijão catado; os feixes do sol, que cruzaram quilômetros de um nada vasto e frio para chegar até ali. O sol bateu em cheio nos cabelos soltos da mais nova, explodindo a beleza de menina em mil outras minúsculas belezas. A filha mais velha disse à irmãzinha para ter cuidado, ficar só olhando, a irmãzinha fez que sim e escondeu o nariz entre os dedos.

Dona Joana não falou mais nada, nem sobre a morte nem sobre a esperança. Foi embalando, devagar, todo o universo em sua cantiga de ciranda. Viu que sua infância se espelhava e se espichava nas três pequenas. A do meio voltou com o sorriso de estrelas para os pratos, a mais nova deu uma risada curta, a mais velha lhe dirigiu uma cumplicidade sem palavras. Dona Joana limpou as mãos na barra da camisa. O sol chamou todas a brincar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ETERNO (de Ana Maria Rocha)

Trilha Sonora: Clair de Lune, Beethoven.

Há tantas flores que sentimos,
Há tantas rugas que dividimos,
Algumas descartamos
Outras, tao e sem importancia eternizamos.
Do que vale a vida, com tantas poucas coisas?
coisas que afloram o nosso viver,
que nos fazem viver,
que realçam o meu viver
me eterniza,
que me vibra
e solidifica

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sonrisas y estrellas

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: regatones.


Envolto em pisco de
Santiago
me chegam
         Sidney
me abraçam
         Cartagena
me acenam
         Brasília
me gargalham
         Verona
me saúdam
         Londres
me encantam
         Lima
me brindam
         Salvador
me apresentam
         Montreal
me acompanham
         Campinas
me acolhem
         Iquique
me esperam
         Belém

y me quedo bien
en la noche de sonrisas
         y de estrellas
y um corazón
se despetala grande
         y duradero

INSTANTÂNEO (XIV)

(Trilha sonora: Joe Cocker)

Passa da meia-noite,
duas horas da manhã
e o encanto continua:
Cinderela, que ela durma!
Ficamos nós com a abóbora...

(Renato Gimenes)

UM TEMPO AMOROSO

(Trilha sonora: Joe Cocker)

Desde o advento
de mim e de ti
instituiu-se um tempo
que se imiscui
entre os segundos,
que preenche o vazio
entre o passado
e o presente,
que ultrapassa
as fábulas,
que refunda
o cotidiano.

Neste tempo
o relógio é vassalo
e os afazeres são mordomos
de prazeres soberanos:
amar, viver, narrar, rir,
construir, dançar, cantar,
comer, beber, aninhar.

Neste tempo
viver é um grito melodioso
um ruido harmonioso
um tumulto apaziguador:
sons de revolução pacífica
que depõe a tirania
do tédio.

Neste tempo
tudo o que existe
entre nós e o mundo
jamais se reduz ao mesmo:
tudo é sentido que conecta
esta imensa diversidade.

E, sendo tempo soberano
sua vontade faz de tudo
obra e vida:
de cada conversa, poema,
do sexo, usina;
de cada carinho, pincelada,
de cada sorriso, travessia.
De cada posição, escultura,
de cada gesto, fotografia,
de cada movimento, cinema,
de cada toque, caligrafia.
De cada memória, arquitetura,
Cada olhar, luz do dia,
De cada reencontro, narrativa
de nossa História, biografia.

(Renato Gimenes)

Meia-noite e meia

Trilha Sonora: Cotidiano – Chico Buarque de Hollanda.

Madrugada fria.
Há Chico Buarque ao fundo,
Há ainda cigarros na carteira,
Há uísque na garrafa,
Há um corpo sedento ao lado.
Perfeito!!
                    (Por Fabio Castro)

FÉ (de Marcos Salvatore)

Nazaré




Do fundo apertado de um ônibus lotado
No cruzamento de Catorze e Conselheiro
É possível ver dois campanários
 
 

Capuchinhos