De quem é a culpa?

quinta-feira, 31 de março de 2011

O TÍTULO SÓ DEUS SABE (de Haroldo Brandão)

A trilha é do caralho.


Eu sou o cara dos anos 70
Filho do parricídio
E da geração pré-aids
Eu era a ovelha negra
E aqui estou de bermuda e chinela
sem solo
Talvez precise descartar
O que nunca precisei!
Tudo é bobagem
Exceto a presunção
e a vontade de dizer
nunca
O mundo é um moinho
Tritura semdó

TARDIA PAZ (de Juliana Calonico)

Trilha Sonora: Down em mim, Cazuza.

Sentia uma ânsia horrível.
Uma vontade imensa de vomitar o mundo filho da puta que a habitava.Trancou a porta,engoliu todos os comprimidos do frasco.Exatamente os trinta.Deixou que a água deslizasse por sua garganta.
Fechou os olhos e ficou a imaginar o universo perfeito.
Estranho era o seu mundo.Não se encaixava, desde menina sofria com sua diferença clara perante as amigas.
Tentou ser igual,tentou ser uma adolescente comum mas sua fome de mundo a fazia, mesmo que não admitisse ,um ser diferente.
Enquanto as outras decidiam qual a melhor faculdade,ela simplesmente não pensava em nada.
Achava o futuro algo distante demais.
Seria meu Deus ela uma pessoa anormal?
Não podia só existir?Não bastava deixar o ar entrar e sair?
Diante de suas dúvidas,deixou a vida entrar pelo nariz e tentou seguir.
Casou-se cedo demais.Teve filhos cedo demais e descobriu que o que pensava a respeito da vida, era o certo.
Mas foi tarde demais...
Sentiu então uma aconchegante sensação.
Uma paz tardia,seria um belo final...

A REDENÇÃO DO PORTO RECÍPROCO – FIRMAMENTO (de Marcos Salvatore)

by Federico Fellini


Para: Juliana Calonico, com amor. “Minhas mãos são tuas. Minhas, suas luas nuas”.

AR
Quando eu era moleque, uma noite acordei com o barulho de discussão entre os vizinhos, ou melhor, não eram vizinhos, eram marido e mulher. Levantei e fui mijar na ponte – sempre que fico curioso ou com medo me dá uma tremenda vontade de cagar ou mijar, até hoje – a lua raiava gélida, repleta de pedaços de vidro. Foi quando ouvi o barulho de um tapa na cara de alguém e em seguida uma porta se abrindo no final da vila. Era o marido correndo da mulher. Ela carregava um caldeirão ainda fervente de caranguejos (o marido era peixeiro, pedófilo e covarde), ainda deu tempo dele dar dois pulos pra fora de casa, só para escorregar e se esborrachar de cara na vala. Ela se aproximou dando pulinhos frenéticos:
- Filho da puta!
Ele quase não conseguiu gritar quando ela derramou toda a água fervente de caranguejo em suas costas. Ainda tremendo ele a derrubou, alcançou o utensílio doméstico e arrebentou a cabeça da mulher a paneladas. O engraçado é que os dois desmaiaram quase ao mesmo tempo, completamente nus. Fico imaginando a razão da briga, da nudez intolerante a um tapa. Quanto a mim, voltei a dormir.
Não sei porque contei isso. Bom, o fato é que quando contei pra Mazzi ela se mijou todinha de tanto rir. Hum, a Mazzi: ótima fêmea, ótima amiga. Uma mulher de um cinismo machista, essa é a palavra, machista. Fã de Costinha e Ronald Golias. Mas acho que não sei falar sobre isso.
Gostava do meu peito largo e branco, dos sinais que o enfeitavam, minhas mãos. Dos meus ombros abertos e atentos, do meu jeito de mover o pescoço toda vez que me chamava a atenção, do meu sorriso quieto e indulgente. Disse que se tivesse nascido homem gostaria de ter um pau igual ao meu, ficava olhando pra ele enquanto eu dormia. Era comum me acordar com um “bola gato”. Tirou fotos minhas dormindo, das minhas pernas, da minha bunda que ela dizia ser a bunda de homem mais obscena que já tinha visto. Mas minha voz definitivamente era o seu objeto de maior desejo. Me ligava no trabalho só pra me ouvir dizer sacanagens, uma vez uma cliente do banco me pegou falando o seguinte: - “Me deixa enfiar só mais um dedinho, eu sei que cabe”.
Quando passei na prova para a turma de dramaturgia, me deu de presente um grampo de cabelo seu, um grampo simples, barato até, e me disse, banalizando: enquanto você enxergar valor nesse grampo velho, sempre será um homem maravilhoso e sempre fará qualquer mulher feliz.
- Pera lá, virou novela mexicana agora, porra? Um grampo? Faltou a choradeira, não faltou?
- Tem razão. Então enfia o grampo no cu.
Nabuco um dia foi buscá-la, ela desceu as escada com um pouco de porra pendurada o canto da boca. Ela apontou e disse, enquanto eu os observava do terraço: - “Ai amor, tira pra mim esse restinho de maionese?”. Mal pude olhar quando ela a beijou depois dizendo: - “Hum, eles fazem aqui mesmo? Precisa de mais sal.”
Ela nem sempre era esnobe ou cruel. Havia uma disparidade qualquer no seu temperamento, um ponto de fusão gradativo e totalmente fora de lógica. Uma vez eu me atrasei para um encontro na sala de aula. Ela queria fazer amor na mesa da professora, vestida de enfermeira e rabiscando desenhos obscenos. Eu cheguei meia hora depois do combinado e a encontrei aquela enfermeira chorando na última carteira, perdida: - “Fiquei preocupada, nunca mais me deixe assim seu filho da puta, eu... te amo pra cacete, seu merda”.
Foi a única vez que ouvi aquilo e acreditei.
Segurou meu rosto com as mãos e disse com lágrimas de raiva: - “Nunca use isso contra mim, senão eu corto o teu saco e jogo pros urubus comerem. É melhor você me amar, seu palerma”.
FOGO
Dava dinheiro pros meus livros, embora na época eu não precisasse de dinheiro, pois tinha um bom emprego. Ela me comprava roupas descoladas, me ensinava a falar e comer bem. Nabuco sempre soube. Ele a amava mais do que tudo. Eu ainda não sabia que ele era impotente. Nunca entendi muito bem o relacionamento dos dois, mas sempre o considerei um bom sujeito pra ela. Aprendi com a maturidade emocional do Nabuco que o amor é uma questão de matemática e flexibilidade moral.
Mazzi e eu fodíamos por prazer? Não sei. A felicidade nunca tem certeza, é simplesmente concepcional, fragmentada, derivada e original: temporal de chuva com sol. Talvez por não termos mais o que fazer, deixávamos que o dia seguinte decidisse.
- Escuta! A foda é a cura pro existencialismo, paranóia, neura, carência... política escrota.
- Isso é psicologia de banheiro. Não sei se me encaixo nisso, mas te acho cada dia mais gostosa.
- Faça amor, não faça guerra. Só o sexo conquista e se apodera. Guerra é para broxas. Quer conquistar? Então... ame. E enfia no rabo a carência, a culpa, a moral.
- E se eu não for correspondido?
- Bom, não existe esse negócio de amor por correspondência, existe?
Um dia me apaixonei pela Débora, uma aluna de bumbum em forma de coração; me apaixono o tempo inteiro, desde garoto. Mazzi sabia disso. Quando tentei terminar ela sorriu meio assim, mas me deu boa sorte.
- Você é quem sabe, belo. Hã?
Capaz. Estava passando por um corredor com a Débora e a vi subindo as escadas com outro garoto. Levei correndo a Débora para um ponto de ônibus qualquer e voltei como um foguete para o sótão do teatro, ele estava quase em cima dela quando o empurrei e o pus pra correr abaixo de porrada. Ela riu, disse: - “Eu sabia”.
- Você é uma cobra. Eu devia era te dar na cara até sangrar.
- Então vem. Eu quero ver moleque, ou será que ainda não tem um homem aí dentro só pra mim?
A peguei pelos cabelos, dobrei seus ombros e fizemos amor por trás com tanta intensidade que depois ela me agarrou pelas pernas e prometeu nunca mais tentar me fazer ciúmes. Larguei da Débora no dia seguinte.
Uma noite colocamos remédio pra dormir no uísque do Nabuco e ele apagou. Ela queria foder em cima dele, na mesma cama que ele, raspou os pentelhos da boceta e do rabo pra ocasião. Arrastamos o Nabuco da cozinha para o segundo andar da casa. Ela dizia: - “Nós matamos ele, vamos comer ele também”. Foi a única vez que dormimos juntos - eu, ela e o Nabuco claro.
Não contei que ela era viciada em antidepressivos. Na verdade ela nunca ligou para teatro, mas seu psiquiatra os receitou para aliviar o estresse. Ela dizia que o seu remédio era eu.
Gostava de me ouvir lendo pra ela enquanto esperava pela próxima ereção com o meu pau na boca, fazendo trejeitos de cinema mudo, olhinhos de boneca.
Odiava contos eróticos. Preferia os policiais; dizia que sexo é apenas um pau, um cu e uma boceta: - “Pronto, aí está o de sempre”. Contos policiais tinham trama e sexo por todos os lados, morte.
Sempre vidrei em músicas de streep tese. Pedia e ela que tirasse a roupa devagar, muito devagar, queria ficar olhando, curtindo sua pele morena, suas coxas torneadas e sua bunda de mulata que me deixavam sem palavras enquanto dançava pra mim. Seus peitos tinham um quê de pornografia barata, de aluna boqueteira, de secretária cuzeira. Marrons. Brincava com a fartura deles, me sentia um rei.
Mazzi não tinha amigos, nem amigas, apenas a mim e ao Nabuco. Um casal de três: a mulher, o marido complacente e um amante com uma energia agressiva. Uma harmonia perfeita em sua imperfeição. Naquele período eu nem escrevia mais. Estava absorvido por ela. Envolvido naquele trem, naquele troço.
Uma vez me deu um tapa, a sério, quando eu disse que precisava de um tempo só pra mim. Eu não reagi procurei entendê-la e ela disse: - “Você não gosta de mim, só me usa como uma prostitutazinha, se me amasse não me deixaria te humilhar, deveria me dar na cara também. Homem tem que se impor”. Foi aí que começou o fim.
Em relação a violência nunca conheci mulher mais masoquista que a Mazzi. Pedia pra apanhar com desejo e paixão: - “Me dá-lhe, me dá porrada, cara. Soca esse bocetão quente”. E eu comecei a gostar daquilo. Seus hematomas começaram a aparecer e os meus também, pois nossa dependência estava em estágio muito avançado. Ligávamos para prostitutas que topavam e Mazzi era especialmente cruel com elas. Dava de cinto, chinelo, chicote, o que doece com mais intensidade. Humilhava as garotas e até obrigou uma a mijar na sua cara, famosa chuva de ouro, se não quisesse apanhar mais.
Pedi a ela que parasse com aquilo, que pra mim já bastava, mas ela não ouviu, como sempre. Fiquei puto. A menina saiu de lá e tomou providências.
Um dia a polícia apareceu. Foi o Nabuco que me tirou da cadeia. Abafou-se o caso.
Eu era menor de idade e eles se responsabilizaram por mim. Soube depois que o delegado a obrigou a felação para me soltar senão todo mundo ia em cana.
Depois daquilo eu sumi por uns tempos, fugi, tentei viver uma vida normal, mas Mazzi me perseguia aonde eu fosse.
Me procurava pelos bares, fazia escândalos. Envelhecíamos em praça pública.
Meses se passaram. Quase um ano. Eu sabia que ela voltaria aos comprimidos e talvez para a bebida seu vício mais antigo. Imagino aquela mulher lindíssima entrando e saindo de bares e boates, acompanhada por vagabundos de todas as idades, apanhando de cafetões e cafetinas. Sendo roubada. A cocaína foi um próximo degrau.
Fiquei desempregado e mergulhei nas apresentações, passei a morar com o grupo em quitinetes apertados e mal cheirosos, sem água, sem banheiro. Minhas economias me diziam que eu teria que voltar para casa: três mil quilômetros de tudo que eu não queria mais. Quando voltei de algumas apresentações por comida em praças e shoppings alguém me esperava na porta do teatro.
ÁGUA
Nabuco me procurou pra pedir que voltasse senão ela se mataria. Eu disse que não. Ela quando soube fez a única coisa que achou mais digna: tomou vários comprimidos com vodca pra dormir e só acordou no hospital.
- Amor, me perdoa amor. Eu não faço mais, eu juro, mas volta pra mim, não vai embora, senão eu faço uma besteira.
Dizia isso e parava de vez em quando para vomitar num balde ao lado da cama.
- Fico com você, depois volto pra casa.
- Você não tem casa menino. Nunca vai sair de Jundiaí, seu besta. Vai sempre estar aqui.
Olhei pra ela e senti pena, não era nem de longe aquela mulher maravilhosa e cheia de cor que eu conhecera.
Seu estado piorou, pois seus excessos a condenaram. Seu corpo cansou de tantos vícios e abusos. Apenas seus belos olhos castanhos continuavam a lutar pela vida. Até hoje penso que olhos castanhos são subestimados.
Ia ao hospital e lia pra ela. Gostava de histórias de redenção, de honra na luta, de amor recíproco. Gostava de Humberto Eco e me disse que o nome de um de seus personagens me daria sorte um dia se eu voltasse a escrever.
Na noite em que morreu me fez seu último pedido: queria me chupar pela última vez. Me queria dentro dela de novo. Fizemos amor chorando juntos, muito delicadamente. Foi o melhor orgasmo da minha vida.
Atendi a seu pedido, não queria ser lavada depois de morta, queria morrer com meu cheiro em sua pele, com um pouco de mim ainda dentro dela. Me pediu que recitasse “Voz e Coração”, um poema que tinha feito pra ela nos velhos tempos e que adorava o final: - “...eu ando sim, eu ando assim, tão voz e coração”.
Eu o escrevi de presente pra ela na noite em que me apresentei pela primeira vez, na noite do grampo de cabelo. Consegui o papel depois que um garoto se matou. O pai jogou fora sua coleção de Raul Seixas, então ele pirou e bebeu veneno de rato.
Esse poema se perdeu, nunca mais o encontrei, só me lembro do final. Gosto de acreditar que foi ela quem o roubou naquela tarde.
- Seu emburrado, eu sempre te amei, sempre... Baby.
- Não roube a minha fala, Mazzi.
- Está chovendo. (...) Qual o peso da chuva lá fora?
- É o peso que damos a ela.
Tomei sua mão esquerda e disse em seu ouvido o que levei anos e anos para dizer novamente a uma mulher: - “Adeus meu amor, obrigado”.
TERRA
Desço a rua, uma alameda com ladrilhos cor de merda no sereno. Atravesso o carnaval incolor com as mãos nos bolsos da jaqueta jeans, caminho aquilo que chamo de lar, suas ruas estreitas, suas esquinas, longos horizontes de carrinhos de cachorro-quente com batata, pastelarias e caldos de cana, pequenos cinemas, pequenos teatros, sebos, percebo os velhinhos das praças, dos pombos...
Não pude deixar de me sentir um coadjuvante do que vivi. Nunca chorei por ela, só por mim. E o que a vida me ensinou daqueles anos foi a sempre ter um mínimo de fé no ser humano, em qualquer ser humano, que tudo pinta e perde a cor na hora certa. Que sonhar demais atrofia os sentidos. E que a felicidade não é para otários.
Lá fora, pessoas trancando suas portas, olhando pela fresta da janela. Masturbadores do ego, sempre tão preocupados com atenção e afirmação. A embriaguês e a prostituição são reações naturais do viver alquebrado. Aqui fora todos se consomem fora do prazo de validade.
Nabuco, pobre Nabuco. Fechou o teatro e nunca mais alugou o prédio. Nunca mais o vi. Acho que ela também o amava, mas do seu jeito, pois ele cuidava dela, mimava, protegia. Só não pôde protegê-la de si mesma. Ela foi a única mulher de verdade que eu conheci. Não quis menos do que isso. Não quis passar o resto da vida amando mal.
Paguei minhas contas e voltei pra casa com três moedas no bolso. Não produzi nada além de mim mesmo. Embarquei e durante a viagem me senti cada vez mais e mais longe do meu porto seguro, sendo levado em direção ao mar, ao alto mar, depois...
Olhei para o farol e me perguntei: O que viria agora?
Hum, é óbvio. Talvez o infinito. Talvez um cigarro. (...) Ficar na minha e soprar, até a espera terminar.
Então abraço o infinito. Dou um trago depois de gozar na boca de cada reticência. Mas a pergunta continua lá:
- O que vem depois da terra?
FIM.


quarta-feira, 30 de março de 2011

TEMPORALIDADE (de Milton Meira)

(Trilha sonora - Caetano Veloso, "Oração ao Tempo")
Meu tempo é rumo
Sumo
Em uma sombra
De eras.
(Por Milton Meira)

terça-feira, 29 de março de 2011

AS FACHADAS E OS PASSOS

(Trilha sonora: Wilson Simonal, “Zazueira”)


Segue. Tu vais, agora,
andando em direção às praças largas,
às praças velhas, em teu passo pequeno,
moreno e apressado.

Segue atrás da matéria
que viabiliza teus sonhos,
passando em meio às fachadas
das casas que testemunham
teus passos.

Pouco a pouco, mistura teus passos
ao passado destas fachadas mudas,
maquiadas de tinta,
castigadas de chuva
e vento, enquanto
entre um compromisso
e outro,
uma preocupação
e outra,
um ônibus
e outro,
um cigarro
e outro,
uma saudade
e outra,
sente tuas músicas
dentro de ti,
tuas trilhas sonoras
de tua vida jovem.

Pouco a pouco,
estas fachadas mudas
falarão contigo
sussurrando
seus segredos
não com palavras,
mas com linhas,
com cores,
com ângulos,
com arestas,
com matemática,
desabrochando detalhes
que dar-se-ão
aos teus olhos.

Teus olhos
que nasceram
para compreender
a beleza,
e para levá-la
às tuas mãos
que comporão
no papel
as noites
e sombras
que tanto amas.

Teus olhos
e mãos
que te farão
confidente
das fachadas
que hoje
te veem passar.

(Renato Gimenes)

ANTEPASSADO

(Trilha sonora: Simon & Garfunkel, “Voices of Old People” “Old Friends/Bookends Theme”)

Para Josefina Margarida de Oliveira (1907? - 1995)

De ti,
me lembro
dos xingamentos
que me faziam rir
e das palavras
mais velhas
do que toda a idade
que tu tiveste.
Mais velhas
que o século que te gerou,
palavras provindas
de outros tempos
palavras provindas
de outras bocas
de outras épocas
de outra memória
portadora de um tempo
que parecia não ter tempo.

De ti
chegavam
por detrás dos óculos

memórias de Lampião
e do alívio
que se seguiu
à sua morte

e de como o café paulista

ajudou a matar

o teu pai.

Em mim, causaste
esta necessidade de História
que eu amo e que me amaldiçoa.

De ti, também me lembro
de como tuas palavras
traziam
em meio ao papel

velho e encardido

do livro de orações

- mais decorado do que lido -

a proximidade do diabo
a proximidade de Deus
a proximidade dos santos
a proximidade do Juízo Final
a proximidade do perdão
brotando do livro roto,
desfeito, gasto, sujo
e sussurrado diariamente
às seis da tarde.
Palavras
misturadas ao gosto
do café, do pão e da manteiga
que antecedia o teu cheiro
de sabonete antigo,
que eu sentia
antes de dormir,
não sem antes
ouvir as cantigas
também de outros tempos
legadas pela tua voz baixa
que, vez ou outra,
noticiava a vida
dos parentes andarilhos
e migrantes.

Me lembro bem
do dia em que o Nada
começou a se apossar de ti,
domingo, à mesa do almoço:
o Nada se instaurou em ti
naquele pequeno engano
quando você ia nos servindo
ketchup pensando ser refrigerante.
Você riu. Você recebeu o Nada
com um sorriso.

E eu vi os dias passarem
e eu vi o tempo curvar-te
e eu vi como o Nada
paulatinamente
tomou o lugar
das orações,
de Lampião,
de nossos nomes,
e do Dia do Juízo
tornando
a perplexidade
cada vez mais
companheira da memória.

A mim,legaste
o horror ao Nada e o temor
de que nem o Apocalipse sobraria...

Quando por fim
o Nada ganhou,
me foi apresentada
aquela sensação extrema
de ruptura irremediável
feita de madeira,
cimento e terra
e pranto
que a tudo transforma
em passado
e que tem o poder
de fazer o Nada
se espalhar
em pequenas gotas -
e algumas delas
me molharam.

Em mim,
instauraste esta luta
para que essas gotas
nunca virem oceano,
e a convicção
de que a relva
que te recobre,
assim como as lápides,
são monumentos
que por si só
não subsistem.

(Renato Gimenes)

segunda-feira, 28 de março de 2011

CRONIKETA VII (Histórias de Raquel e Solange)

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Folhetim – Chico Buarque.

Quarta-feira de cinzas, Raquel e Solange faziam um balancete do bloco de carnaval que participaram, na noite anterior, em Santa Teresa, no Rio.

- E aí, Quelzinha, o que houve? Teve uma hora que você sumiu...

- Menina... conheci um americano escândalo!

- Sério?!

- O quê? Desse tamanho. De perder de vista.

- E aí? Conta, conta!!

- E aí nada. Ele não falava uma palavra em português e você sabe que o meu inglês não existe. No máximo que rolou foi um beijinho no rosto.

- Que horror, Quequel!!

- E você, Sô, por onde andou?

- Eu continuei um pouco no bloco, mas logo me dispersei quando me agarrei com aquele russo espetáculo, lembra?

- Tá brincando? Aquele que era de fechar o comércio?

- Isso! Esse mesmo.

- Menina!... mas ele falava português? Porque russo eu sei que você não fala...

- Nem uma palavrinha.

- E como vocês se comunicavam?

- A mão dele falava português fluentemente.

- E eu presumo que a sua, russo.

- Desde pequena. Você não sabia que as mãos são poliglotas?

- Ai, Sô, não sei como você tem coragem!

- Hum... hum... tão menina, tão mulher e tão tola.

CRONIKETA VI (História do garçom Théo)

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: O último dia – Paulinho Moska & Billy Brandão.

Final de noite, zona sul de São Paulo, havia ainda cinco mesas ocupadas num restaurante sofisticado quando uma quadrilha anunciou o assalto.

- Bandido: Isso é um assalto. Passem todo o dinheiro do caixa e as joias.

- Garçom Douglas: Por favor, moço, vamos passar, mas não atire.

Enquanto o garçom Douglas recolhia o dinheiro, alguns gritos foram ensaiados, mas logo abafados pela demonstração das armas de fogo. O garçom Théo observava atentamente todo o bando e foi acometido por um sentimento que transitava entre o pânico e o desejo.

- Bandido: Rápido com isso, rapá. Não tenho o dia todo. Ei, vagabundo! Solta esse telefone. Quer levar um tiro, seu merda?

- Garçom Douglas: Por favor, moço, não nos machuque!

- Bandido: Vou logo avisando que se não tiver muito dinheiro aí, vamos comer o cu dos garçons.

- Garçom Douglas: Por favor, moço, não faça isso? Estamos trabalhando e já é final de expediente. Todo mundo aqui tem família. Faz isso não!

- Garçom Théo: Cala a boca, Douglas, você não entende nada de assalto.

sábado, 26 de março de 2011

Leave us kids alone

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: I Don´t Wanna Grow Up (Tom Waits), Another Brick In The Wall (Pink Floyd).


— atenção, crianças.
Vaias.
— crianças, o que é isso?
— hey, teacher, leave us kids alone.
— como é?
— velha escrota.
— você, pra sala do diretor.
Vaias.
— todos vocês.
— reforma educacional já, galera.
— crianças, onde aprenderam isso?
— a gente sabe das coisas, fessora.
— é, a gente é bão, fessora.
— é bom, e não bão.
— então tá bão.
— me ponham no chão!
Vivas.
— reforma já.
— me larga.
— larga o Joãozinho.
— ah,tinha que ser o Joãozinho.
— a gente detesta suas piadas, sabia?
— é, a gente detesta.
— a gente não acha que você nos representa fidedignamente.
— fi o quê?
— cala a boca.
— ai!
— crianças, por favor.
— você também, sua velha escrota.
— olha os modos!
Vivas.
— issoaê.
— vai, Joãozinho, conta uma piada.
— a fessora pediu pra que cada aluno formasse uma frase com uma palavra que ela indicaria, então
— ah, essa é escrota.
— afinal de contas, o que é isso, escroto?
— quieto, soldado.
— soldado?
— sentido!
— cumé?
— ah, droga, que pobreza.
— socorro!
— fessora, é por um bem maior.
— vocês enlouqueceram!
Vaias e vivas.
— não, não ponham fogo nos livros!
— issoaê.
Vivas.
— anarquia! anarquia!
— vamos montar barricadas.
— o que é isso, barricada?
— tu é burro mesmo, hein!
— tô com fome.
— não tem mais hora do recreio.
— issoaê.
— quero ir no banheiro.
— vai ter que esperar, o banheiro fica do outro lado do corredor, e a gente entrou em guerra.
— quero ir pra casa.
— galera, precisamos nos unir por algo maior que a fome ou a vontade de fazer pipi. entendido?
— há-há-há, ele falou pipi.
— Joãozinho, essa foi a tua última risada. você vai servir de exemplo.
— hein?
— cumé?
— exemplo! será que alguém aqui prestava atenção nas aulas?
— ele fala bonito, né?
— quieto, soldado!
— que tipo de exemplo?
— o do tipo de sacrifício.
— crianças, por favor!
— sabe o que é? minha mãe vai ficar preocupada se eu não aparecer na frente da escola hoje.
— uma pena, mas já está decidido.
— crianças, eu imploro!
— alguém amordaça a velha!
— hummgrrrfff-hhhuuuummmgrfgrf!
— issoaê.
Vivas.
— depois vai ser a senhora.
— juro que não conto mais piada.
— tarde demais, Jão. abram a janela!
— não, por favor, por favor!
— essa não, ele tá mijando na calça.
— juro que não falo mais nada!
— já era.
— mamãe não vai gostar nada disso. vai me deixar de castigo.
— lembre que é por uma boa causa.
— é.
— precisamos de um exemplo, e calhou de ser você.
— um piadista infame a menos na Terra.
— é.
— quieto, soldado!
— mas que soldado?
— ssshhhhhh!
— olha só, já tá todo fedendo de xixi.
— pode levantar.
— não!
— vamos lá, vamos lá!
— pela reforma!
— pela reforma!
— lá vem o diretor!
— joga ele logo!
— soldados, as barricadas na porta.
— mas que soldados?
Diretor na porta.
— o que está acontecendo por aqui?
— hummmm-hhhhrrruuhhmmmmhuhhhhhmmmmgrgrgrgf!
— professora, mas o que é isso?
— we don´t need no education.
— mas hein?
— e ainda se dizem educadores, pelamor!
— muito bem, vamos parar já com isso. vou chamar seus pais agora mesmo.
— pega! pega!
Rebuliço.
— me larguem!
— pela causa!
— issoaê!
Vivas.
Diretor deitado de bruços no chão, braços contra as costas.
— essa brincadeira já passou dos limites.
— não é brincadeira.
— é.
— é ou não é brincadeira?
— não é. soldado, cale-se!
— que história é essa de soldado?
— por favor, não!
— e o Joãzinho, por que não tá lá embaixo?
— ah, é.
— não!
— sim.
Joãozinho cai gritando.
Vivas.
Joãozinho estatelado no pátio.
Rebuliço.
— reforma já!
— hhhuuummmggggrrrrrhhhhh!
— agora a fessora.
— socorro!
— amordacem o diretor também.
— vamos conversar.
— velho escroto.
— mas que menino mal-educado.
— a gente sabe das coisas, diretor.
— é.
— o senhor pensa que sabe.
— vocês são apenas crianças!
— apenas crianças?
— ele não tem respeito pela gente.
— ele nunca vai entender a causa.
— mas que causa, diabos?
— olha a boca, soldado!
— ah, já tô cansado desse papo de soldado, viu?
— a gente precisa de ordem por aqui!
— sem essa. tô indo embora.
— soldado, isso é incontinência!
— eu tô com fome, isso sim.
— soldado, ordem!
— papai disse que ia me levar pro cinema saindo daqui, deve já estar me esperando lá fora.
— ordem, que diabos!
— olha a boca.
Vaias.
— menino, me escuta.
— silêncio, diretor. não tá vendo que a gente tá numa crise de movimento por aqui? um pouco mais de respeito.
— issoaê.
— é.
— fui. dá licença. pode me passar minha mochila?
— volte aqui, soldado.
— seus pais vão receber notificações disso tudo, estão me ouvindo?
— fechem a boca dele.
— ggggrgrgggggghhhhhhhhfffff!
— agora a fessora. pra janela, vamos.
Rebuliço.
— soldado, não se atreva a abrir a porta!
— prefiro ir pro cinema com meu papai. vai ter hambúrguer, refrigerante e sorvete.
Silêncio.
— quem sabe um chocolate também.
Silêncio.
— pensando bem, eu também tô com fome.
— é.
— é.
— o que há com vocês? ordem!
Rebuliço.
Professora no parapeito da janela.
Diretor suando muito.
— nada de comida.
Vaias.
— não agora, depois! depois!
Vaias.
— bora embora?
— bora.
Vivas.
— e a causa?
— que causa, papai do céu?
— será que mamãe me leva pro cinema agora também?
— vou perguntar pra minha.
— quem sabe eu peço uma pizza pro almoço, né? ia ser legal!
Vivas.
Rebuliço.
— desculpa aê, fessora.
— é, desculpa aê também, diretor.
— não podem fazer isso! e a reforma?
— ah, desencana.
— issoaê.
— Jão, foi mal! tá ouvindo? foi mal!
— preciso ir no banheiro antes.
— qual é o filme que tá passando, hein?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Concepcional de A REDENÇÃO DO PORTO RECÍPROCO - Concepcional (de Marcos Salvatore)

by Ralph Gibson

(...) Aproximou sua boca de mim e disse, quase sussurrando: - “Baby, preciso te mostrar uma coisa, vem.”
Olhei devagar para os lados. Os outros do grupo continuavam o exercício, que demoraria mais uma meia hora. Fui atrás dela na ponta dos pés.
Exercícios de interpretação são levados a sério no início, mas depois nos cansamos de imaginar minhocas cobrindo nosso corpo, ou de chorar olhando um copo d’água.
Chego ao camarim e antes de bater na porta ela abre e sou puxado com violência para dentro. Um abajur coberto por um lenço vermelho, uma poltrona e um espelho imenso usado pelas alunas de balé, esperavam com ela.
Lá estava ela: uma Sade Adu severa e altiva, mais velha e com um pau de borracha enfiado na bunda - foi difícil tirar aquilo de lá.
Pouco tínhamos de Eva e Adão. Eu queria muito me tornar um escritor de grandes peças para teatro, de contos e romances. E ela era apenas a mulher do dono do prédio. Seu temperamento era distante, quase indiferente, nas aulas estava sempre olhando para baixo, para o além, por vezes eu a via perdida em pensamentos, olhando uma janela.
Meus dezessete anos rodrigueanos me tornaram forte e cínico por causa dos livros que devorava com amor, dia após dia. Sempre tive um humor andrógino, encarava as pessoas e as desafiava a me ouvir, a se explicarem de novo e de novo. Escondia minha timidez roendo as unhas de dia e mergulhava na palidez da noite, sempre à noite, nunca o dia. Sempre aparentei ter mais idade do que tenho. Eu me sentia confuso e indeciso, perfeito para me entregar ao amor ou ao ódio.
Eu tinha a mente frágil, fértil, de menino colecionador de sensações, prodígio no trabalho e nos estudos, mas um pervertido da melhor espécie. E ela era um poema longo, um conto a ser descoberto e lido, com seu jeito de andar e olhar.
- Vem cá, Baby. Quero a sua língua onde eu mandar.
Assim era ela, só amava mandando, nunca pedia, nunca obedecia: - “Agora aqui, ali, devagar, com força, ainda não”. Inevitavelmente escravos um do outro. Determinados a viver algo sem nome e sem razão.
Umas lésbicas da companhia gostavam de sair conosco e ela se divertia vendo uma peidando na cara da outra. Também amava me assitir fazendo amor com todas. Chamava-me de romântico, debochava do meu jeito carinhoso e atencioso com as mulheres. Dizia que jamais haveria alguém pra mim se eu continuasse agindo assim. Acho que ela estava certa. Tenho uma natureza compassiva, compreensiva, sempre canalizei minha violência interior para sexo e para defender aqueles que amo.
Às vezes me pergunto se aprendi tudo com ela. Não saberia dizer. Apesar de todo o malabarismo de corpos, ela gostava mesmo era do velho papai e mamãe. Ficávamos horas revezando, suando, tomando fôlego, ar, depois que gozava me mandava sair de cima e ficar calado por pelo menos uns quinze minutos, dizia que homens não sabem o que dizer depois do sexo, por isso só falavam merda. Coisas interessantes só são ditas uma vez. Não se repete a exceção, por isso procurávamos nossos rostos na penumbra, e os encontrávamos vagando, longe um do outro e sem expressão mensurável.
Ensinou-me a fumar e a beber devagar. A só comer quando tivesse fome. Dizia que homens feios nunca são amados, por isso que eu fosse bonito sempre, que eu me preservasse do tempo e dos vícios e que guardasse meu pau só para mulheres lindas. Que jamais implorasse por sexo, que putas não sofrem por amor e sim por dinheiro. Que não tivesse ilusões. E principalmente a respeitar a opinião de quem quer que fosse. A verdade é o limite.
Era casada com o dono do prédio, o Nabuco. Ele era contador. Sempre achei o nome do sujeito um afrodisíaco a mais para o chifre, como uma predestinação maternal, natalina, consentida desde o útero, como uma sina. (...)
Continua...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Folhas secas ao vento

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Móbile (Moska).


Naquele tempo solitário que se adianta, que se acelera em direção à retina gasta, tudo voltará a ser folhas secas ao vento. Mas até lá há de haver um lugar calmo à sombra para os que se vangloriam de pouco. Nem mais nem menos: exato: o equilíbrio do caos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Trecho de A REDENÇÃO DO PORTO RECÍPROCO (de Marcos Salvatore)

by Jan Saudek


(...) Acho que a primeira vez foi quando eu apareci na aula de improvisação. Ela fez questão de deixar claro que o meu sotaque era irritante. Olhava-me com interesse e desdém, como se eu estivesse sempre nu, ou sempre mal vestido.
Na escuridão da sala, deveríamos dar as mãos e sentir frio, muito frio. Ficamos em frente um do outro, e quando a luz apagou ela largou minhas e mãos e esfregou as suas no meu pau, por cima da calça: - “Meu frio se aquece de outra forma”.
Ajoelhou-se e enfiou meu pau imediatamente na boca. Fiquei com medo que acendessem as luzes e nos pegassem naquilo, ao mesmo tempo em que torcia para que continuasse até o final. Sua língua e dentes trabalhavam de tal forma que senti meu saco quase sendo dilacerado. Guardei um silêncio só comparável ao de monges tibetanos diante do fogo. Por fim, gozei profundamente, uma pequena lágrima quente abandonava a cruzada em meu queixo, sabia que ela engoliria tudo, até a última gota. Só não gostei do que ela fez em seguida: As luzes se acenderam e ela, na frente de todos, me beijou com toda a sua força, língua e pulmões, me deixando sem ação. Todos riram. Tive a sensação de ter chupado meu próprio pau por tabela. Saí correndo de lá e me tranquei no banheiro pra vomitar e chorar de vergonha e humilhação.
Olhei pra minha calça e tremi quando percebi o sangue: ela tinha esfolado meu pau com os dentes.
Coloquei o que tinha na mochila e fugi de lá como um ladrão; saí pelos fundos. Prometi que não voltaria mais.
Menti.
Na semana seguinte eu estava lá, disposto a ficar todos os horários, querendo mais; perdia o sono, batia punhentas homéricas pra ela, sempre ela; tive febre por dois dias:
- Vagabunda. Você é a mulher mais vadia que eu já conheci.
- Hum, você não conheceu muitas mulheres, mas tem potencial para conhecer todas que quiser, só precisa trabalhar essa timidez de interior e transformá-la em pau duro.
Trepávamos em qualquer lugar. Ela gostava de ser pega. Gostava de gritar, de chamar atenção. Num cemitério havia um enterro, e depois do velório entramos na capela, trancamos a porta e os seus berros certamente podiam ser ouvidos a quilômetros dali, até o morto a ouviria trincando os dentes enquanto eu castigava, sem perdão, seu botãozinho cor de rosa: - “Me deixa segurar na cruz, me deixa! Eu quero o padre, eu quero dar pro padre também, eu quero o pau do defunto!”. Hum, a Mazzi realmente não era normal.
Eu a chupava com poder e desejo, Virginia Woolf não chuparia uma mulher com tanta vontade e decisão. Adorava a sua carne, suas dobras, seus gemidos ora terríveis ora preguiçosos, submissos a minha língua obcecada.
É até engraçado, mas só aprendi o nome de certas coisas que fazia com ela recentemente, cunilíngue é uma delas. (...)

Continua...