De quem é a culpa?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

ABRIGO N° 1 (de Marcos Salvatore)

by Andre de Dienes

Por que me olha assim?
Por que fica?
Por que divide a sua comida, o cigarro, a bebida comigo?
Por que atravessar a cidade na chuva pra isso?

- Imagino que seja esse o meu caminho.
O meu destino.
Eu moro aqui.

sábado, 29 de janeiro de 2011

NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR (Por Eva Füresz))

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.

Trilha Sonora: Ordinary Love – Sade Adu.

Por quê eu sangro?

Porque eu mergulho.

Para te olhar,

Eu preciso sangrar.

Para te sentir,

Eu mergulho.

Sangrar e mergulhar?

Ou será mergulhar e sangrar?

Pouco importa.

Ainda sim,

Mergulho e sangro

VIDA!

(Por Eva Füresz)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

PAPO DE PARAENSE (de Jhones Lobato)


Trilha Sonora: Pinduca



*Só sendo paraense pra entender o texto!*

Um dia eu tava buiado, pensei em ir lá em baixo comprar uns tamatás.

Tava numa murrinha, mas criei coragem, peguei o sacrabala e fui.

Chequei tarde só tinha peixe dispré. O maninho que estava vendendo

tinha uma teba de orelha do tamanho dum bonde. O gala-seca espirrou em

cima do tamatá do moço que tinha acabado de comprar, e no meu tembéim.

Ficou tudo cheio de bustela...Axiiiiiii, porcaria! Não é potoca, não.

O dono do tamatá muquiou o orelha-de-nós-todos, mas malinou mesmo.

Saí dalí e fui comer uma unha. Escolhi uma porruda! Égua, quase levei

o farelo depois. Me deu um piriri. Também...perece leso, comprar unha

no veropa. Comprei uns mexilhões, um cupu e um pirarucu, mto

fiiiiiirme, mas um pouco pitiú.

Fui pra parada esperar o busão. Lá tinha duas pipira varejeira fazendo

graça. Eu pensando com meus botões...ÊEEEE, ela já quer... Mas, veio

um Paar-Ceasa sequinho e elas entraram...Fiquei na roça, levei o

farelo. O sacrabala veio cheio e ainda começou a cair um toró,

égua-muleke-tédoidé, pense num bonde lotado. Eu disse: éguaaaaaaaa,

voimbora logo.

No sacrabala lotado, com o vidro fechado por causa da chuva, começa

aquele calor muito palha. Uma velha estava quase despombalecendo. Daí

o velho que tava com ela gritava arreda aí menino pra senhora sentar

aí do teu lado. O menino falou: Hmm, táááááá cheirooooso..



http://jhoneslobato.blogspot.com/2010/09/papo-de-paraense.html

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ABRIGO II (de Ana Maria Rocha)

Trilha Sonora: Is That All There Is, Peggy Lee.

Queria não ter te conhecido,
vivo a ilusão,
a esperança do teu abrigo,
o meu é a solidao

A solidão do meu contigo

Jardim (Por Milton Meira)

(Trilha sonora - diálogos de filmes de Ingmar Bergman)

No livro
Cala uma sombra.
Nega-se a palavra...
Rega-se uma imagem.

Milton Meira - um engenheiro formado em Belém do Pará que além dos elementos que regem a construção, dedica-se, também, às artes, sem compromisso com as palmas acadêmicas.

miltonaugustomeira.blogspot.com

Harold´s Hits 2 - Por Paulo Emmanuel.

NÓS - pelo traço implacável de Paulo Emannuel

Fábio Castro
Marcos Salvattore

Marlon Vilhena
Renato Gimenes

NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR (VERSÃO PAULO EMMANUEL)

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.

Brilhante versão do mestre Paulo Emmanuel para o último desafio!


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

EXISTÊNCIA (de Juliana Calonico)

Trilha sonora: Momento -...Pedro Abrunhosa


Há um vazio
Uma vontade de fugir
Há um espaço em branco
Lacunas não preenchidas

Existem vãos
Onde ficarão resquícios de vida
Existem versos perfeitos
Que na prática concretizaram

Houveram poesias
Juras
Entre poetas
Que em silêncio se amaram...

"NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR" (Por Fabio Castro)

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.


Trilha Sonora: “Todo amor que houver nessa vida” (Frejat / Cazuza) & “Ne me quitte pas” (Jacques Brel – Interpretada por Maysa).

Foi isso, não foi?
Tudo se fez naquela noite.
O último local,
O último gole,
A última hora
E a mesma vontade de ir.
Mas um olhar, apenas num único olhar
Encontramos tempo para mais um drink.
O mesmo drink,
A mesma sede,
O mesmo copo – afinal, temos o mesmo vício –
O encontro das salivas,
E uma outra vontade de ir.
Até que fomos!
Foi isso, não foi?
De repente éramos nó,
Éramos pó de nós mesmos,
Éramos amantes,
Éramos vibrantes,
Éramos melados,
Éramos significante e significado,
Éramos um par correlato.
Não hesitamos em nos ligar em uma cama.
Às vezes redonda,
Às vezes quadrada,
Às vezes retangular,
Às vezes molhada,
Às vezes metálica,
Às vezes na vertical...
Estávamos profundamente ligados
Pelo corpo,
Pelo sexo,
Pelos lábios,
Pelos seios,
Pelos pelos molhados
Em nós mesmos...
Nos assentamos em nossos corpos,
Loteando-os,
Semeando-os,
Delimitando-os,
Descobrindo-os,
Até tornarmos proprietários deles.
Levamos tempo nisso, muito tempo!
Foi isso, não foi?
Mas o tempo nos convenceu
Que precisávamos de mais tempo.
E conseguimos, não foi?
Mergulhamos em busca de dias,
Horas,
Minutos,
Segundos, que fossem.
É o tal Carpe Diem...
E assim nos permitimos,
Submergimos,
Esquecemos,
Utilizávamos todo o tempo que tínhamos.
Devíamos ao tempo!
Porque era isso que queríamos,
E por isso nos esquecemos...
Foi isso, não foi?
Esquecemos que já não tínhamos tempo
Para as pessoas,
Para outro olhar,
Para mais uma bebida,
Para o último drink,
Aquele que nos ressignifica,
Que nos prepara para esse
E futuros mergulhos.
Banalizamos tudo.
Simplificamos tudo.
Viramos “lugar-comum”.
Mas pouco nos importávamos.
Era isso que queríamos!
E juntos, dizíamos:
- Não custa nada! Não vai custar nada!
Era sempre assim.
Nos comportávamos sempre assim.
Porque para nós nada custava nada.
Até sangrarmos muito!
Foi isso, não foi?
Era sempre assim!
Mergulhávamos até sangrarmos.
Pois só após sangrarmos,
É que percebíamos o quanto doeu.

(Por Fabio Castro)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR (versão Vilhena)

(por Marlon Vilhena)

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.


Trilha Sonora: Sinfonia Nº 5 em Dó Sustenido Menor (Gustav Mahler).


Um poeta sangra amor dentro de um maço de cigarros.
Um poeta é um fodido a farejar num cabaré.
Meu poeta diz amém às putas pobres de Bukowski.
Meu poeta não tem pátria, não tem lar, nem mesmo fé.

Um poeta não se faz numa gaiola abrilhantada.
Um poeta não espera sua morte por perdão.
Meu poeta planta um mar de danações e regozijos.
Meu poeta ensaia a vida em cima de um papel de pão.

Um poema não se escreve, colhe-se das tempestades.
Um poema tem a forma de um tornado de saudades.
Um poema nunca pede para ser revelação.

Meu poema é um mergulho em ossos, carnes e acidentes.
Meu poema é um comboio de fantasmas delinquentes.
Meu poema nada sabe do que seja redenção.

BRISA (de Marcos Salvatore)

by Sara Saudkova

(para Baby Suporte – Natália Lemos. Você pediu, aqui está, sem eira nem beira)

Mas meu irmão, a Brisa não se cala, não para de me acabar, de ser feliz
Quer que eu diga coisas que nem ela diz, só sabe amar e curtir
Me escraviza em seu tesão, só me dá dando no chão
Aos seus pés, amarrados meus braços, pernas, minhas mãos

Se perdeu pra sempre na canção, se agarrou a mim em seu caminho, sem perdão, sem dever
Quer meus ombros pra se unir ao amigo incestuoso que sou, a um irmão
Minha voz de menino para dormir, não sei dizer não, não sei ser ou não ser
Me beija, me abraça, me casa, a Brisa me dá comida na mão, é toda minha

Me dá força e coragem, experiências em latim, me bebe a saliva, me dá provação, proteção
Mordendo e arranhando à carne viva, me carrega em seu ventre
Põe o labo B de um disco ok do Lupicínio, bom para felação
Quer que eu a mastigue, quer que eu a goze junto com seu choro e capricho

É meu consolo, meu interior, é o que eu sou capaz
É minha Yoko Ono, meu curso superior, meu pouco de paz
Meus acordes que se unem, é o amor
Minha Nina Simone, minha Joni Mitchell

Me senta as costas com seu cinto de sair, para que eu me zangue e soque forte
Tem a tara fecal de comer gala com comida, “porra Brisa, o que é isso?”
Não me joga fora nem quando está cansada, me pinta com cores vivas, pomba pra cima
Me dá leite do peito para a sede se eu pedir, se eu pedir muito, se deixar

Cicatrizes pelo corpo e na alma me deixam confuso e sem par
E a calma que não cansa, nem poupa, sobrou arrastada pelos cabelos onde não há norte, nem sul
Pois a Brisa arrancou meus pêlos, um a um, de leste a oeste, a barba por fazer de super homem
Em seu poder minha língua, meus pentelhos e dedos: hímen de tocar baladas

Me pinta de Bozo para uma boa sodomia, me chupa se eu broxo,
Quer meu creme em seu rosto, bitoca no seu nariz
Vai rir sem parar se eu pedir para ir embora, eu garanto, ela diz: “pode ir”
A beleza é uma exceção entre opostos, eu prometo, eu avanço

Não me fale dos riscos, já sei das noites caladas e brancas
Que é tudo muito lindo, muito lento e sem paradas, paredes ou intentos
Mas prefiro o que quero não o que imagino querer
É tudo culpa da dor, peço perdão se não me entende

Eu não bebo, eu não rango, mas meu pau conhece os planos dela, apenas confia nela
Estou à vitaminas e tequitos de frango à semanas
Salvatore sem fogueira para queimar, sem incenso ou confissão
Imenso de fogo, de terra, de água e de ar, de magia do amor para dar

E a soma disso sempre muda de ângulo, de firmamento no mar
Eu a temo, eu a amo, eu a odeio em nossos momentos
Eu a quero por ser a assim e a mim, no gerúndio e no presente
Só quem ama me entende e tem alguém pra cuidar

MARTA MORTTA BLUES (de Marcos Salvatore)

by Erwin Olaf

- num sô doida
você não tem noção
de como estou me sentindo
de como ando toda assim
de mão beijada

bêbada
vendo o corpo para me consumir
vou tentar me perguntar
um porquê que não adivinho
de transar com quem quiser
me amar ou pagar
uma taça de vinho
mas vou dar a volta por cima
eu vou me cuidar
me levar para outro lugar
isso é o suficiente pra mim?
talvez não, quem sabe?
eu sou controversa, eu grito,

só sei assim
pavio curto, eu sou péssima
busco prazer em bocas e tatos
de arte e cultura – eu admito.
depois me enturmo com os ratos
teoria pura, fardo leve
de mesura gasta, obscura

de preencher qualquer espaço
essa batalha é só minha
- por que tem sempre tanto a dizer?
sou uma recriminação passageira
papel higiênico usado
para escrever conjecturas indefesas
tenho desenhado você
em letras carmim,
nas paredes dos bares da vida
poesias te chamando de querido ou querida,
com palavrões de transa franca

- doida é o teu xiri!
venho esperando por caronas de lugares vagos,
amantes ou amigos que sempre me ofereçam um trago
você me ligando, implorando
sem dor,
nem dívidas,
apenas pensamentos claros
só que eu cobro mais caro
você não
- a dúvida morava somente em seu perdão
e o meu te guardava
sempre uma nova canção
maliciosa,
perene,
inútil,
destra suja;
eu me lembro,
eu voltei,

eu voltei,
eu voltei...
eu falo mesmo,
mas exijo
quer mesmo saber?
se não quer e não sabe,
eu não digo,
ou melhor
vai te foder,
vai mesmo por esta,
eu insisto e não calo

há essa hora
atrás dessa porta

- "num sô doida"
só não quero lembrar

que você foi embora

POR OCASIÃO DOS 395 ANOS DE BELÉM DO PARÁ

(Trilha sonora: Cesarea Évora & Pedro Guerra, "Tiempo y Silencio"; R.E.M., "Everydody Hurts")

De que te defendes, cidade?
Os teus canhões, para onde apontam?
Quem eles querem afastar?

Teus corsários franceses?
Já se foram.
Os piratas ingleses?
Não vieram.
Os invasores holandeses?
Não chegaram...
Os galeões espanhóis?
Naufragaram...
Teus índios aldeados?
Já desceram,
Já morreram,
Já renasceram
Em outros contextos mais pobres.

De quem te defendes, cidade?
De mim – que teme os teus ratos?
De mim – tão preso a contratos?
De mim – e meus amigos rotos?
De mim – e minha lucidez de tragos?
De mim – estudioso dos teus textos tortos?
De mim – perdido em teus interstícios vários?
De mim?
De mim?!?!

Ah, cidade,
Somos feitos da mesma matéria -
Sonho, cimento e mania.
Miramos a mesma liberdade -
Vastidão da tua baía.
Partilhamos do mesmo destino -
Porto de chegada e partida.
Banhamo-nos no mesmo desgosto,
Imersos em vulgaridade colorida.
Irmanamos na mesma penúria -
Artigo de camelô da esquina.
Nos ferimos em auto-flagelo -
Sangue em devoção à Maria.
Habitam-nos as mesmas mulheres:
Meu Amor, filha e filha.
Motorizados na mesma pressa
De trânsito, calor e agonia,
Testemunhamos a mesma miséria -
Lixo e mendigos nas guias.
Lavamo-nos na mesma chuva -
Força que as tardes esvazia,
Seguimos os mesmos passos
Na dureza da lioz pedraria.
Contemplamos os mesmos monumentos -
Sobras de galicismo e lusofilia.
E de memória traçamos itinerário
De cosmopolitismo e história tardia,
Por entre as velhas fachadas das casas
E seus rostos de azulejaria.
Sob as sombras verdes dos parques
Entre turistas, grama e argila,
Espero com minha parca crença
De perspectivas, criação e poesia,
Que tua mutêz ruidosa ouça
- mesmo que não seja ainda -,
Meu rogo a ti, cidade à deriva:
Não me apontes teus canhões por um dia.

(Renato Gimenes)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

INSTANTÂNEO (XX)

(Trilha sonora: Titãs, "Miséria")

Comer
Do frio pastel de nada
Com gosto de pena
Tunel de passagem
Do suor ao vazio
Sob a chuva.

(Renato Gimenes)

ALEGRIA DO FALO EM SUA LÍNGUA (de Marcos Salvatore)

by Irving Penn

Aprendi a gostar de dias imperfeitos
Quando é assim, sempre pego meu violão e retorno ao truque
Esperando pelo dom, pelo som, por um abutre
Mínimo múltiplo comum de um irmão

Pela mulher de trastos e acordes de aço enferrujado
Acentos agudos em espaço um da máquina de escrever
Biotônico estelar, milenar, cavalar
Que faz da gota de leite pendida no bico de um seio um compasso

Não me ofereço sem lutar, sem ter sido escasso
Sem ter ido mais fundo e em falso, meu bem
Meu coração de sete notas menores viaja
Sem troco e talento de cobre, sem bolso, sem preço ou vintém

Sustenindo seu tronco em minhas mãos
Das minhas letras penetrando suas ancas de dedilhada, incestuosa mãe
Ainda não falo em sua língua, meu crocodilo não chorou
Mais azougue escorrendo dos meus dedos para sua boca

Sua cura é a comida pra essa fome de camponês urbano
Só o que tenho pra te dar em exagero é o que eu tenho pra te dar
Ninguém é forte bem alimentado de ilusões
Estou onde posso estar e ser, sem favores para dever

Quando posso esclarecer que sangra onde tive outrora asas
Penas arrancadas pra escrever certo entre linhas tortas
O toque da doce fêmea esperando pelo sal
Do amante rude e imprudente

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Ora, merda

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Procreation of the Wicked (Celtic Frost), na versão mais do que absurda do Sepultura.

as formigas se enfileiram, seguem-se pela rachadura na calçada.
o pé grande com tênis de R$ 139,90 decreta o fim pelo alto.
um defunto diz valei-me, deus, que o demônio quer comer meu rabo,
começando pelo colhão.
deus esvazia o cinzeiro e com voz de ressaca pelos ventos ressoa
que se foda, arranja-te sozinho praí que eu tenho mais o que fazer.
as formigas fogem, desembestam, esmigalham-se.
uma barriga sente fome, um avião despenca.
um estupro por excelência nos Andes.
um vômito por excrescência em Istambul.
o defunto levanta um cotoco viril da terra,
deus assoa o nariz e vai buscar aspirina na prateleira.
ora, merda.
porque sim.

NÃO TEM NADA DEMAIS (de Marcos Salvatore)

by Arthur Fellig "Weegee"

Você não quer beber, não quer falar
Não quer fumar porque está desempregado
Isso te faz beber o caldo calado e sonhar
Com aquele emprego no estado

Isso não é sua vida últil, não é o fim, não é azar
O barato da neura é a paranóia que dá
Não tem nada demais em contar as moedas num bar
A gente ainda pode estar e beber lá no Bazar

Até o dia em que você se toque
E não queira mais viajar para outro lugar
Nem saber do Bigode, meu amigo, eu juro que juro
Que te dou um toque pra um próximo concurso público

Mas se continuar com essa cara
Eu te canto um som do Sérgio Sampaio que ninguém resiste
Pra sambar por aí, prisioneiro solto na patifaria
Naquele Carnaval de varar, de alegria, de noite e de dia

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O revelado

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: -------



Vai pela estrada um mendigo de ti mesmo, quebrando galhos e plantando cacos de venenos no asfalto. Vai com o nariz arrebitado, cheirando flores putrefatas, regadas com gemidos e pontadas de agulhas. Vai o mendigo de ti mesmo, vai. Segue pisando duro em fumaças de ferrugem, atravessando máquinas de fuligem, engolindo a própria voz no furacão. E segue hilariante, pronto a morrer e a combater dragões nos descaminhos que se repetem e se cansam.
Continua pela via que esfria na noite do deserto o teu mendigo de temores. Rege orquestras de abutres a rondar carcaças, declamando amor em ira, cuspindo do alto de precipícios. Gargalha o teu mendigo tal qual criança que não sabe que jamais soube voar. Gargalha em borbulhas, agora que o sol assassina e a festa é no princípio do horizonte.
Faz a última oração o mendigo de ti mesmo em meio ao pó. É tempo de fechar o calabouço: dobraduras rangem. Range o coração, enquanto os pássaros cantam na eternidade a repousar lá fora.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Harold's Uordi‏ (de Paulo Emmanuel)

Amigos,
Estou estreando esta tira que terá debut na França, na revista franco-paraense La Bouche du Monde, do amigo Edu Barbier. Apreciem sem moderação.
Abs
Emman



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

CONTUMAZ (de Celi Abdoral )

Trilha Sonora: Jards Macalé

Ando muito apaixonado pela Celi, mas não conheço sentir o que sinto sem viver o que sinto, por isso estou postando um poema/comentário sensacional, que revira alegria e salta pro amor; presente dela para o meu "Mergulho sem sangrar". Tomei a liberdade de também dar um título.
Beijos do Sal.


nem sabe como chegou lá
tava muito bêbada.
já foi acordar com o sol
esquentando o colchão.
levantou de mansinho,
mas, chutou sem querer,
uma carteira de cigarro amassada
que perambulava pelo quarto.
fuçou a casa na ponta dos pés
passando os dedos em tudo o que via.
(entediou-se)
decidiu voltar pra cozinha,
andava nua.
a pia tava um lixo, a casa uma bagunça;
não ligou.
catou dois copos, uma panela e um coador.
acendeu a boca do fogão com um isqueiro gasto
que só servia mesmo pra isso.
Fez café. Preto.
adoçou.
serviu os copos e levou para o quarto.
parou na porta e ficou olhando.
passou a mão na bunda dele
(deu beijinhos)
acorda vadio....
(grunido)
fiz café.
ai que ressaca, quero água.
cara a tua cozinha tá uma bagunça
e a pia um nojo (riu...)
(beijo na boca)
po-de-crê.
deu um puxão nela pro colchão
viu??também sou bom de judô,
esqueci de te dizer isso ontem.
vem cá vem.
[...]
treparam o dia todo
e por mais três dias.
o resto, a casa, a bagunça;
todas as outras coisas
ficaram lá
coaguladas na indiferença.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR (POR RENATO GIMENES)

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.


(Trilha sonora – Friedrich Nietzsche, Piano Works; Richard Strauss, Also Sprach Zarathustra, em especial as seções "Von der Wissenschaft" e "Der Genesende")

Se é de sangue
a lição aprendida
para quem mergulha
No Abismo,
Eu devo dizer
Que estive lá,
Bem no fundo!
E mergulhei
No rio de sangue
que nele corre.

E aquele sangue abissal
Penetrou nas minhas veias
E me instalou o abismo
Quando mergulhei
Em mim mesmo.

E aquele sangue
Era escuro
Era gelado
Era sombrio
Era feio
Era feito
Veneno
Tinha efeito
Alucinógeno
Tinha desfeito
Meu mundo
Quando o tingiu
Com suas tintas
De desejo
de finitude
e de morte.

Aquele sangue
Era meu!

E, mesmo hoje,
- Depois de tantas sangrias,
Depois de tanta profilaxia, -
Algo dele ainda corre
Em mim
E me traz
À consciência
A proximidade
Do Abismo
Que multiplica-se
Pelas coisas,
Pronto
Para rachar-lhes
A superfície
E continuar
Sua lição
Sanguinolenta
A cada mergulho:

Sangra-se
Quando se abisma
Ao mergulhar no outro.

Sangra-se
Quando se abisma
Ao mergulhar no hímen.

Sangra-se
Quando se abisma
Ao mergulhar na pele.

Sangra-se
Quando se abisma
Ao mergulhar só.

Sangra-se
Quando se sabe
Que se sobrevive
Ao abismo
Quem galvaniza-se
Na dor

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

FRAGMENTOS (de Ana Maria Rocha)

Trilha Sonora: A madrugada e um piano.

desnudar,
revestir,
descobrir,
Uma guerra neurótica;
fenda:
no Eu,
clamor:
do Eu,
desabafo:
Meu,
ocultado pelos sentidos
rejeitado pelos domínios

NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR (de Marcos Salvatore)

by Edward Hopper

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.

Trilha Sonora: Postal de Amor, Zezé Motta; músicas assombradas.
SEXTA
Depois de horas, acordo de pau duro. Cinco e meia da manhã. Não dá mais pra dormir. Vou lá fora com um café amargo e um cigarro bem aceso. Brindo com a lua nua. Canto bocejando, imito o Pato Donald:
- Ela vem pela montanha, ela vem (...) hora da nova velha história. Maldita placa. Ainda não, querida. Ainda não.
Gosto de me espreguiçar, sentir o estalo de ossos e músculos. Uma vez fiz minha tora estalar. Nunca mais. Na parede da cozinha, um relógio e os minutos, sempre atrasados. Estou sempre atrasado.
- Não olhe assim pra mim. Eu não melhorei. Estou com fome. Pode me dar de comer?
- Se você me pagar.
- Como quer ser paga?
Mão direita enfiada na cueca; esquerda saudando o dia. Quem tem medo do dia? Quem tem medo de envelhecer sem ter crescido? Sem molduras para mostrar? Apenas acenos discretos, incertos. Quem disse o quê?
- Mergulhamos de mãos dadas?
Lá fora uma placa de trânsito diz: - “PARE!”. Não quero pensar na Sexta. Minha rua tem dessas coisas. Não consigo parar.
- Você mora aqui sozinho?
- Sim. Felizmente os fantasmas da casa também moram sozinhos.
Ainda me vejo igual, vulgar, sem tesouros que ultrapassem minha capacidade de fazer melhor, de querer mais. Só vale a pena improvisar se souber o que vem lá. Uma leitora falou que eu tinha a mente doentia. Deus a abençoe, eu sou mesmo uma besta.
- Vivemos o que podia ser vivido, não foi?
- O que viver tem a ver com isso?
- Queria muito ter salvado você, ter protegido você, ter cuidado de você... você era a minha borboleta. Poderíamos ter perdido os dentes juntos.
- Então, perdoamos um ao outro agora?
- Ainda não.
Simplesmente feliz. Sem Sexta-feira pra colher e basear. Contente por ter sobrevivido aos escombros que fizeram parte do amor e da guerra. Ainda há pouco eu achei um grampo de cabelo e meu coração não reclamou, apenas disse: - “Pior”.
- Sua gala está com gosto de leite. O que andou comendo?
- Leitoras de livros de auto-ajuda.
Não quero mais lutar com isso, não quero respostas, não quero que aconteça nada. Tudo mudou sem que eu movesse uma palha. A posse de uma mulher na presidência, acidentes, enchentes, segregação racial, social, tudo bem bonito, bem legal, tudo igual. Como o macarrão de ontem que devoro com as mãos. - não tenho mais talheres, nem detalhes. Logo estarei tratando de revirar o lixo do vizinho, escondido, como um cachorro pulguento, de manhã e de tarde.
- Vai descobrir que nada cai do céu e que certas coisas são muito difíceis de dar.
- Lembra quando eu te disse pra confiar em mim? Apenas confiar? Eu te fiz uma promessa e cumpri.
- Se esqueceu de confiar em mim. As promessas se acabaram, não pode mais barganhar admiração e tesão.

SÁBADO
Me espreguiço de novo pra ter certeza que o sono já era. O agora é suave e delicado como uma coceira que ainda não coçou. Como uma primavera sem flautas, mas blues, que nos relaxam pouco antes de terminar.
- Veja o sangue na água. Veja como brilha! Minha primeira vez. Nossa primeira última vez.
Entro. Cago. Limpo a bunda. Bato uma olhando os satélites. Depois aparo os pentelhos encorpados. Não quero pensar no Sábado. Estou com a mesma toalha a dias, com o mesmo isqueiro, preciso comprar um cinzeiro, o chão está terrível. Misturo o shampoo com água, pra render. Que sabonete, o quê? Sabão regente em barra. Preciso varrer a casa. Pode aparecer alguém. Não consigo escrever. A placa lá fora diz “PARE” e eu nem tenho carro.
- Acredita em anjos?
- Acredito em asas quebradas.
Pode vir alguém? Varro amanhã. Parar com o quê?
Meus pensamentos estão soltos e carnívoros, como loucos que dominam um hospício. Me penduraram num poste lá fora, perto da placa de “PARE!”, estão por aí.
Estou ouvindo a Amy. Que voz maravilhosa ela tem.
- Posso ficar com esse disco? Você me dá?
- Pode levar o que quiser se ficar e me ouvir. Só não tente me fazer feliz. Não gosto mais da sensação de que o mundo é maravilhoso.
- Vai demorar muito?
Ligo a TV: ...dias de sol após as chuvas de dezembro. Mentira! Vai chover até São Pedro ficar doido do cú. Só para em junho essa merda. Capaz mesmo!
- Cor preferida?
- Cor de merda no sereno.
Reparo no engordurado do fogão – só uma boca funciona, a do forno. É bacana fritar ovos nele. Noto a louça suja na pia, com pedaços de tudo que sobrou das últimas duas semanas, ainda umedecida pelo morno pingar da torneira.
- Acredito em fazer alguém feliz, em cuidar de alguém. O resto é fruto de languidez e paciência. Mas dizer “eu te amo” também serve. Só não aceito que usem isso como desculpa pra peidar na minha presença.
- Até parece que você acredita no amor.
- Vem cá. Ainda sinto o meu perfume em suas coxas.
- Não me tente.

DOMINGO
O riso das lembranças me ofende - ainda acordadas? A força da felicidade alheia ameniza a morbidez. Como é que está lá fora? Ainda amo todas as mulheres que amei?
- Segure na borda enquanto eu te abraço.
- Devagar. Quero sentir. Quero que a noite não saiba que estamos aqui.
Eu não sabia que o céu podia ser assim, quase de manhã. O que é um céu estrelado? Dá pra ler o futuro? Não quero pensar no domingo. Estou aqui, noutro lugar.
- Sua mão diz que você não vai ser rico, mas vai dar pra viver.
- Nunca fumei um back, nunca funguei um pó. Mas aquele chazinho...
- Seu palhaço! Estou falando a sério.
- Posso tatuar seu nome no meu braço?
- Melhor não. O que tatuaria ao redor do meu nome?
- Correntes.
Comi uma coroa ontem. Daquelas com voz de garotinha. Tenho feito muito isso. Sessenta anos. Meti a beiça na xotona suculenta. Que maminhas! Tirou a dentadura pra chupar melhor. Ah, o contato do meu pênis com a pele murcha! E quando eu puxava, o ar saía: - Abhuph, abhuph!
- Você acredita em via láctea?
- Nunca entendi. Tento ser um agnóstico não praticante. Oh, Baby. Quero que sangre em minha boca.
- Oh, eu te amo seu filho da puta doente.
Não quero lembrar daquele cheiro de feijão verde, de água sanitária. Aquela égua tentou me dar um terra. Tive que dar uma bifa na velha. Ela chorou, chorou muito. Apanhou na boca, mas deixa pra lá. Não quero pensar no Domingo.
- Você queria me ver. Já me viu. Agora pegue suas coisinhas e vá.

SEGUNDA
O que pode ser chamado de tudo? Rascunhos de poemas? É, só que tudo o que eu quero é ir embora daqui. Mudar. Ir pra outro lugar. Não me conheço mais.
- Desista. Você nunca vai sair de Belém. Essa cidade é o céu e o mármore do inferno pra você. E nós sabemos o quanto você adora sofrer, só pra dizer depois: - “Eu estou sofrendo”.
Sempre quis dizer a frase: - “Estou fazendo as malas”. Quantas vezes já ouvi isso? Não quero pensar na Segunda.
- Pior pesadelo?
- Minha casa.
Pode ser que me apaixone quando voltar a acreditar no amor. Como num conto de férias. Como num filme em preto e branco. Beijar a Audrey, beijar sua voz, o seu sorriso, aqueles seios míopes, aquele olhar quietinho.
- Segunda-feira pode achar que já contou algumas histórias. Mas as outras histórias estão por aí, esperando para serem vividas por alguém como você.
- Já te falei que não te amo mais? Que nunca te amei?
- Já.
Quando eu era moleque, sempre me perguntava o porquê de coisas boas acontecerem a alguns e a outros não. Nunca acreditei em fatalidade. Fatalidade é coisa de novela. Novela é só cornada, putaria, isso é um fato. (...) A culpa foi minha.
- Me desculpe por tudo que disse. Só falei por que você me machucou.
- Não sou nada do que você pensa. Também sou de carne e osso, preciso de tempo.
- Cara, como você é um egoísta. Tempo pra quê? Pra me tornar igual a você?
Já é um novo dia e eu ainda não dormi. Estava lá fora vendo os fogos de vista iluminarem aquela maldita placa lá fora. Só entrei porque a solidão é um vício de foder. Não sei mais repartir o que não pode ser tocado.
- Nós sangramos. Nos afogamos, morremos. Estava tudo aqui. Só precisava ir mais fundo.
Portishead me ajuda a sofrer em silêncio. O mundo é maior se você sabe o que fazer com ele. Algumas alegrias são a porta de entrada das eternas alergias. Vou me livrar daquela placa. Eu não sou especial.
- Não fique assim, não chore.
- Eu te amo, porra!
- Diga de novo.
- Vai-te pra merda!

TERÇA
Dobrei tantas esquinas. Qual delas me levou até a Terça? Em qual delas me perdi? O que conto não tem começo, nem fim. Meu limite se esqueceu de me levar.
- Agora sua virgindade está dentro de mim. Seu sangue e meu sêmen irão fecundar esta piscina pra sempre.
- Você promete?
- Eu prometo.
Não quero pensar na Terça, ou pior, nela. Vê? Tento afastá-la, mas me aproximo das conjugações familiares. Escrevo pra Terça-feira. Não me tire isso também. Ninguém lerá isto. Estou velho e gordo demais para amar.
- Com o tempo você vai descobrir o que nós fomos. Não existem certezas. Minha vida não cabe dentro da sua. E a sua não cabe dentro da minha. Quer um exemplo?
- Em ordem cronológica, por favor.
- Cínico.
Lembro que a Terça sorria mais, sabia mais. Suas injeções na perna ainda me fazem rir. O brilho dos seus olhos ainda está no fim do túnel e ainda é madrugada. Estou confuso depois de ter arrancado a porra da placa. Pare. Pare. Pare. Chega.
- Amei você também. Nunca estive nem aí.
- Acredito em você. Mas eu estava aqui.
Não gosto de lembrar que agora que finalmente estou pronto, simplesmente a Terça não está aqui pra me dizer isso. Estar pronto demora, não é?
- O que vai fazer com aquela placa?
- Um sacrifício.
Como é que eu te encontro de novo? Em qual esquina? Vinte minutos de algo novo não serão suficientes pra aprender. Se alguém me quiser não vou mais me querer pronto.
- Ih, a maconha que eu fumei me fez perder a noção.
- Deixa eu ver. Uh, essa é da boa. É da boa!
- Você não é normal.
Já passou, não é? Meus truques se esgotaram. Tá tudo aí. Meu coração não é de pedra e isso é novo pra mim. As despedidas têm sempre uma cor de azul e prata. É assim que recordamos. Corro, corro e abraço a Terça às gargalhadas. Que bom! Que bom!
- Melhor ir devagar. Momentos bons sempre se esgotam.
- É a última coisa que eu faço por você. Mas eu precisava fazer isto, eu te devia isto. Como se chama isso? Me diz.
- Se chama tortura. Se chama dor. Mas não importa, você não me pediu nada, eu fiz isso por que eu quis, não é mesmo?
- Depois o viciado sou eu.

QUARTA
Eu sou um débil. Estou agora fazendo desenhos invisíveis no céu com o dedo médio. Os tons vermelho de Rembradt compartilham a piada comigo. Não consigo sair.
- Me faz perguntas que já sabe a resposta.
- Pra que quero tempo? Pra fazer o quê?
- Não quero te perder, não sem saber que estou te perdendo.
- Não quero ser perdido. Como poderia? Teria que te amar, não é?
Fui feliz em algum lugar no meio disso. Logo vou estar fazendo isso ou aquilo. Quarta sempre falou que eu não tinha par. Não quero pensar nela.
- Estou com frio. Me cubra com o calor do seu peito de ombros largos. Me deixe suspirar no seu ouvido.
Meu amor só descansa. Não estou certo de ter sido amor de alguém. Toco em mim com a ponta dos dedos. Me perdôo se amei demais, se não soube o que fazer com isso. Eu quis bastante. Eu quis de mais.
- Só vim dizer adeus. Agora que eu te amo, posso ir.
- Você primeiro, obrigada.
- Baby?
- Sim?
- Obrigado. Seja boazinha.
- Pra onde você vai?
- Pra casa.