De quem é a culpa?

sexta-feira, 29 de junho de 2012

PERDOANDO DEUS (de Clarice Lispector)

 Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.
Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

LAMENTO PELA MORTE DO MEU CARALHO (de Jim Morrison)


Lamente pelo meu caralho
dolorido e crucificado
Eu procuro conhecê-lo
Adquirindo conhecimeto da alma
Você pode abrir paredes do mistério
show de strip

Como adquirir morte no show da manhã

Morte na tevê que a criança absorve
Mistério mortal que me faz escrever
O trem lento, a morte de meu pau dá a vida

Perdoe as pobres velhas pessoas que nos deram a entrada

Ensinado-nos deus na oração de criança na noite

guitarrista

sábio satir antigo
Cante sua ode ao meu caralho

descuido é lamento

Endureça-nos e guie-nos, nós congelados
Células perdidas
O conhecimento do cancer
Para falar ao coração
E dar o presente grande
Transe do poder das palavras

Este amigo estável e a besta de seu jardim zoológico

Garotas com cabelos selvagens
Mulheres florescendo em seu ápice
Monstros da pele
Cada cor conecta
Para criar o barco
Qual balança a raça
Podia todo o inferno ser mais horrivel
Do que agora
E real?

Eu pressionei sua coxa e a morte sorriu


Morte, velho amiga

A morte e meu pau são o mundo
Eu posso perdoar meus ferimentos em nome da
Sabedoria, Luxuria,romance

Sentença em cima de sentença

As palavras são lamento curativo
Para a morte do espírito do meu caralho
Não tem nenhum significado no fogo macio
As palavras me feriram e vão me deixar bem
se você acreditar

Todos juntem-se agora e lamentem a morte do meu caralho

Uma lingua de conhecimento na noite de pluma
meninos ficam loucos na cabeça e sofrem
Eu sacrifico meu pau no altar do silêncio




quarta-feira, 27 de junho de 2012

PROVÉRBIOS DO INFERNO, de William Blake (1757-1827)

by William Blake
No tempo de semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência.

Aquele que deseja e não age engendra a peste.

O verme perdoa o arado que o corta.

Imerge no rio aquele que a água ama.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio vê.

Aquele cuja face não fulgura jamais será uma estrela.

A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.

À laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas.


As horas de insensatez, mede-as o relógio; as de sabedoria, porém, não há relógio que as meça.


Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço.


Toma número, peso & medida em ano de míngua.


Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas próprias alas.


Um cadáver não revida agravos.


O ato mais alto é até outro elevar-te.


Se persistisse em sua tolice, o tolo sábio se tornaria.


A tolice é o manto da malandrice.


O manto do orgulho, a vergonha.


Prisões se constroem com pedras da Lei; Bordéis, com tijolos da Religião.


A vanglória do pavão é a glória de Deus.


O cabritismo do bode é a bondade de Deus.


A fúria do leão é a sabedoria de Deus.


A nudez da mulher é a obra de Deus.


Excesso de pranto ri. Excesso de riso chora.


O rugir de leões, o uivar de lobos, o furor do mar em procela e a espada destruidora são fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano.


A raposa culpa o ardil, não a si mesma.


Júbilo fecunda. Tristeza engendra.


Vista o homem a pele do leão, a mulher, o velo da ovelha.


O pássaro um ninho, a aranha uma teia, o homem amizade.


O tolo, egoísta e risonho, & o tolo, sisudo e tristonho, serão ambos julgados sábios, para que sejam exemplo.


O que agora se prova outrora foi imaginário.


O rato, o camundongo, a raposa e o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo e o elefante espreitam os frutos.


A cisterna contém: a fonte transborda.


Uma só idéia impregna a imensidão.


Dize sempre o que pensas e o vil te evitará.


Tudo em que se pode crer é imagem da verdade.


Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha.


A raposa provê a si mesma, mas Deus provê ao leão.


De manhã, pensa, Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.


Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.


Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.


Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.


Da água estagnada espera veneno.


Jamais saberás o que é suficiente, se não souberes o que é mais que suficiente.


Ouve a crítica do tolo! É um direito régio!


Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra.


O  fraco em coragem é forte em astúcia.


A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão ao cavalo como apanhar sua presa.


Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtém.


Se outros não fossem tolos, seríamos nós.


A alma de doce deleite jamais será maculada.


Quando vês uma Águia, vês uma parcela do Gênio; ergue a cabeça!


Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pôr seus ovos, o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.


Criar uma pequena flor é labor de séculos.


Maldição tensiona: Benção relaxa.


O melhor vinho é o mais velho, a melhor água, a mais nova.


Orações não aram! Louvores não colhem!


Júbilos não riem! Tristezas não choram!


A cabeça, Sublime; o coração, Paixão; os genitais, Beleza; mãos e pés, Proporção.


Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível.


O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja.


Exuberância é Beleza.


Se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.


O Progresso constrói caminhos retos; mas caminhos tortuosos sem Progresso são caminhos de Gênio.


Melhor matar um bebê em seu berço que acalentar desejos irrealizáveis.


Onde ausente o homem, estéril a natureza.


A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.


Suficiente! ou Demasiado.


*


Os Poetas antigos animaram todos os objetos sensíveis com Deuses e Gênios, nomeando-os e adornando-os com os atributos de bosques, rios, montanhas, lagos, cidades, nações e tudo quanto seus amplos e numerosos sentidos permitiam perceber.


E estudaram, em particular, o caráter de cada cidade e país, identificando-os segundo sua deidade mental;


Até que se estabeleceu um sistema, do qual alguns se favoreceram, & escravizaram o vulgo com o intento de concretizar ou abstrair as deidades mentais a partir de seus objetos: assim começou o Sacerdócio;


Pela escolha de formas de culto das narrativas poéticas.


E proclamaram, por fim, que os Deuses haviam ordenado tais coisas.


Desse modo, os homens esqueceram que todas as deidades residem no coração humano.



* * *


Origem do texto: Da tradução de José Antônio Arantes. São Paulo, Iluminuras, 1987.

Há uma edição bilíngue disponível: William Blake. Poesia e prosa selecionadas. S.P., Nova Alexandria, 1993.




UMA só Lei para o Leão e o Touro é Opressão.

 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

PURGATÓRIO CINCO ESTRELAS (de Marcos Salvatore)


by Mariel Clayton

o mundo me tateia,
encontra os lábios
me verifica os dentes
depois lava as mãos

entretanto,
conserva a distinção, o instinto primal
entre o preconceito e a luta de classes:
fornicação, fornicação, fornicação

me esparrama pelo chão -
“se não for apanha o bolo”.
se eu não luto, não bato, não grito,  não morro
nunca tenho opinião, não corro

entretanto,
me oprime sem reservas:
pão que o diabo amassou
- subconsciente coletivo,ansioso.

me joga às feras do circo.
purgatório cinco estrelas, duvidoso:
vendo o meu corpo por almoço, por janta
também minhas certezas, sentimentos, incertezas

entretanto,
me agarro a qualquer esperança:

bom dia de gente
qualquer riso de alegria, qualquer um mesmo
de criança, de velho, de humano,
que cora ao sorrir

Mas só dá pra acender um cigarro
E esperar, e escrever minha fossa
- Desenhar minha fala na mesma medida
Em que viver puder ser parecido com... viver

eu queria chorar,
talvez um dia eu possa


sexta-feira, 22 de junho de 2012

ACORDE MAIOR (de Marcos Salvatore)


by Irving Penn

Precisava de um som. Então, abri a janela e olhei para a cidade. Ainda estava lá. Não se esqueceu de estar.  Vigésimo andar. No playground alguém toca gaita, “almost blue”, do Chet Baker. Num tom completamente estranho. Não resisto, desço. Ninguém lá. A música continua, atravessa a rua. Sobe a Carlos Gomes. Insiste que eu a acompanhe. Maior toró em pleno corredor verde. Corro. Quase escorrego numa casca de manga. Existia um coreto em plena Praça Santuário, penso nisso antes do sinal da cruz. Às vezes também sou um agnóstico não praticante, coisa de avó.
Belém é uma cidade delirante no Círio: tem hotéis, motéis, templos, puteiros, ensino médio, botecos, passeatas, boates, carnaval e... igrejas, com seus padres e freiras famintos de amor para dar. Ah, também (aqui entraria um trompete) tem outdoors espalhados por toda a cidade parabenizando seus políticos pelo aniversário (aqui, palmas). Ou seja: estamos aqui, não estamos? Quase dezenove horas.
Sabe, a gente olha esse lugar e pensa: - Belém são as pessoas. E é isso, cara. Ficamos por causa das pessoas. Até as mangueiras são como pessoas que nós conhecemos, sabemos. E a chuva é... o nosso jazz. Toda lembrança é nossa última casa.
E eu estava lá, na Basílica, esperando a chuva passar. Olhava para o céu, para o Centro Arquitetônico, assoviando os primeiros acordes de “New York, New York”, pensando nos olhos tristonhos da Liza Minelli, quando olho pra dentro e vejo o Toronagá, sentadinho, todo piedoso, batucando seu sambinha no banco da igreja. Vou até ele e pergunto, na maior: - “Como é, Toronagá? Tá aí, na reza, mesmo?”.
Preciso dar um parágrafo pro amigo. Eu conheci o Toronagá no mesmo dia em que vi sua mulher quebrando uma cadeira nas costas do infeliz. Ele era dono de um restaurante, e era casado com uma maranhense “boca de ferro”, chamada Roxita, mas ele só chamava ela de Micomi. Puro xodó de cu do japonês. O fato é que a Micomi o destratava de todas as maneiras possíveis (e impossíveis), na frente de todos e por qualquer coisa. Uma noite ele pegou a cabocla “fazendo a barba” de um taxista baixinho e barbudo que tinha um apelido engraçado de “Puí”, só era conhecido como “Puí”. E não deu outra: deu umas boas “cabomgadas” no chofeur e partiu pra cima da Micomi que nessa hora se alterou - pegou um banco velho e saiu correndo atrás do Toronagá, praticamente pelada, (seus peitos caídos batiam em seu queixo enquanto corria). Correu atrás dele até, mais ou menos, os fundos da basílica. Chegando lá aconteceu o seguinte: Toronagá, de costas para Micomi, ainda corria quando ela lançou a cadeira e a câmera lenta fez o resto. Ele ficou ali mesmo estirado na escadaria, todo quebrado, por um bom tempo. Depois teve polícia e o escambau. Mas o fato é que quando recobrou os sentidos, Toronagá não era mais o mesmo. Dispensou o boletim de ocorrência, dispensou a polícia e voltou para casa, chegando lá (nisso todos estávamos lá, é claro, inclusive eu, que sou pouco fofoqueiro) ele chamou por ela três vezes. Nada. Provavelmente tinha fugido com o Puí. Ele então se vira para todos e diz triunfante: - Tô livre. O restaurante é de vocês. De hoje em diante eu moro na rua.
Foi a maior boca livre da paróquia, acho que até o padre da basílica apareceu pra comer um suchi com uísque paraguaio. No dia seguinte procuraram a embalagem de maionese e não encontraram.
Quanto ao Toronagá, pobre Toronagá, vagou um pouco por aí. Hoje vive de bicos, favores, uns aqui, outros ali. Nunca mais foi o mesmo. Virou cachaceiro mal amado. Sempre chora quando ouve “Xapuri do Amazonas”, da Nazaré Pereira. Caso sério, brôu.
- Tô esperando uma dona que vai me pagar trinta reais por segurar o lugar dela pra novena. Tô a fim de tomar uma. Te convido, tu. Mas aquela filha da puta parece que não vem.
- Fala direito, porra. Não, obrigado, meu grande. Toma aqui uns dez pelo sambinha pé-de-chinelo. Vê se reza um pouco. - Esqueci que o Toronagá era budista. Imagina, um budista manguaceiro e chorão.
Bom, a chuva passou e do lado de fora sinto alguém me tocar a perna direita com um guarda chuva. Era o Seu Zézinho, o ceguinho. Na sua placa estava escrito “Deus ceja lovado”. Gostei do erro. Tinha um quê de ingenuidade proposital, de anárquico-religioso; lembrava cerveja.
- Qual é a de hoje, Seu Zézinho?
- A “par de rabo” veio hoje, mas já foi embora. Uma freira com aquele rabo tem muito que confessar, não acha?
- Não acho nada, Seu Zé. Só acho que o senhor anda enxergando demais. Toma aqui, ainda tem uns dez cigarros.
- E o do troco? Tenho rezado pelo senhor. Vai ser hoje.
- É “mermo”, é? Tó, seu ceguinho morto de safado. Eh, eh, eh...
- Te abençoe, meu filho.
Seu Zézinho nem sempre foi cego. Era galanteador, lírico, recitava versos pras meninas. Uma das tantas versões que conta é que ficou cego por causa de uma puta que ele enamorava e um dia cismou em “xixar” na cara do velho. Ela tinha bebido o dia inteiro e então o jato quente e ácido proveniente de tanta cerveja, vinho e cachaça, cegou o pobre definitivamente.
Aquele “te abençoe”, me fez um bem do cacete. O velho sempre me emocionou e eu nunca soube dizer o por quê. Nossas conversas são sempre assim, meio sem noção, rápidas. Divertidas. Imagino aquele velhinho sacana como um rei, sim, um maldito rei destronado. Pai de todos, irmão de todos, mas vagabundo por opção, desejo e vocação. Do seu reino só sobraram a hemorroida fiel e aquele guarda-chuva fedido. Mas se Deus existir, e eu acredito, se ele existir, espero que olhe por aquele filho-da-mãe genial, pelo amor da puta merda. Seu Zézinho.
Ponto de ônibus. Sinto falta de algo. Era o meu cigarro. Fico aflito, incomodado, chateado. A ansiedade não me dá escolha, então compro uma pipoca com bastante sal e manteiga. Foi jogo rápido: mastigava e pensava no tesão que eu sentia toda vez que encontrava uma mulher de óculos. Lá vem o Canudos-Praça Amazonas. Entro, pago com meia. O cobrador fica puto quando vê a minha cara de pilantra. Sento perto da janela. Uns dois pontos depois, sobe a Deusamor: coroa “par de rabo”, cheia de sei-lá-o-quê que toda mulher devia ter, evangélica, casada com pastor, contralto de coral, e etc., etc. e é claro, todos os outros eteceteras que uma mulher maravilhosa deve ter debaixo daquele vestidinho colado na pele. Olha pra mim, sorri pra mim e eu me arrepio todo, cabeça, tronco e membro grosso. Senta ao meu lado e eu fico que nem uma égua. (cê tá pensando que eu sou loki, bicho?)
- Quanto tempo am?
Não, não escrevi errado, não. Ela falava sempre assim comigo. Dizia tudo terminando em “am”. Falava e depois olhava pra mim... por cima dos óculos. (calma, homem!)
- Pois é. Que loucura, né? (ô animal!!)
- Ando tão triste am, Éder am. (meu nome é Eder, mas ela pode me chamar do que quiser que eu vou)
- Mas o que houve, me conta? Se abre, faz bem se abrir. (ô besta quadrada!)
- Meu marido am, está com câncer vai morrer am. O médico diz am que não passa de tantas semanas am – Pega o lencinho e começa a se assuar. A coriza era evidente, amarela, eloquente.
Tenho medo que ela me pegue olhando pro decote, ou me suje com um espirro. Fico mudo. Conhecia o marido. Quantas vezes não tinha comparecido para o culto só pra ver aquela mulher deliciosa cantar? Acontece que nesse minuto uma ventania invade o ônibus e um cisco entra no meu olho. Tentando tirar o dito cujo do olho eu coço os olhos e acabo piorando a situação pois minhas mãos estavam sujas de sal e manteiga. Foi uma merda. O sal nos olhos, associado ao cisco, me fizeram chorar que nem um filho do caralho. As lágrimas caíam e ela se compadeceu de mim. Tadinho de mim. (hum, i love your pussy, baby!) Parecia o início de um filme pornô dos anos 70.
- Éder am, eu não sabia am que você gostava dele tanto assim am. Calma am, calma am, vem cá am.
Aí é que eu chorava mais (mau caráter!!), caprichava cada vez que a Deusamor me abraçava e encostava aqueles peitinhos cantantes em mim. Ficamos lá, chorando juntos a futura morte do marido.
Não me lembro de tudo, só sei que a história terminou no Motel, espero não ficar cego.