De quem é a culpa?

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

INDIGNAS ONDAS (de Marcos Salvatore)

by Helmut Newton
Três horas. Depois que a Aninha Fortaleza me deixou em frente da TV Cultura (a gente vinha no carro improvisando um blues muito sacana, completamente bêbados), acendi um cigarro e olhei para as estrelas... depois, olhei para a esquerda e a direita. Só a noite lá fora, sozinha e do avesso.
Um casal de moças se aproximou para pedir um cigarro. Estavam vindo de uma festa ou coisa assim. Dei o careta e me lembro de ter achado tão lindo aquele amor. Ficaram dando uns quebras seguros encostadas num poste.
Do outro lado da rua, perto do posto, uma outra mulher me olhava, em contemplação estática. Como se eu fosse um acidente geográfico ou coisa parecida. Vestia uma roupa de frio em pleno calor.
Fui até o tiozinho dos bombons e pedi uma latinha, pensei na Celi – ela não sabe que pára o meu trânsito quando cita Cazuza, toda vez que eu jogo meu charme animal: - “Raspas e restos me interessam”.
- Me vê aí uma “Drama Trash”, ô Tio.
- “Trama” o quê?
- Deixa pra lá, deixa pra lá. Uma cerveja. Mas escuta, aquela dona está ali faz tempo? Não pára de olhar pra cá.
- Não reparei.
- Tá.
Do nada, aparece uma van com motorista e cobrador completamente chapados. Penso: “ô vidinha mais ou menos”. Jogo o cigarro no chão e pergunto:
- Vai pro Imperial, Mano?
- Não, não joga não, dá aqui, pega. Cata, cata. Passa pra cá esse vinte.
- Se eu arrumar mais um, vocês me deixam lá?
- O quê? Marituba? A gente já ia recolher, mas sobe aí.
Gente Boa os caras, em cinco minutos estávamos em plena BR 316 zoando e ouvindo Gonzagão. Comprei duas latinhas pros manos e seguimos no festival de arrotos mais podre que vocês possam imaginar. Arrotos impossíveis, dissonantes, acrobáticos concorreram ao grande prêmio que era uma outra latinha perto da Rua da Lama. Sacaram?
Perto da entrada do Águas Lindas o cara freia com tudo. E lá vamos nós. Um por cima do outro.
- Quê que foi. Tá maluco?
E o motorista aturdido:
- Ali.
Era um cachorro amarrado a uma cruz num canto da estrada. Quase o atropelamos. Quase.
- E então?
E eu:
- Então o quê, porra?
Cobrador:
- Vamos soltar ele. Senão ele vai morrer atropelado.
- Soltar... e depois? Que piada!
- Sei lá.
Fomos até lá e o soltamos. Mas o filho da puta do cobrador se engraçou e quis levar ele com a gente. O motorista até avisou:
- Problema teu.
Não deu outra: um pouco mais à frente o vira-lata estranhou o novo dono, o motorista e a mim, que estava quase cochilando na última poltrona, sonhando com a dona do sorriso:
- Auauauauauauauauau!
- Segura! Segura! Epa! Solta! Solta!
O motorista quase bate num caminhão na ultrapassagem quando o cachorro pôs a mim e o cobrador pra pular por cima das cadeiras. Vocês não têm idéia da cena:
- Amarra esse pulguento! Amarra esse diabo!
Descemos e o chamamos pra fora, assoviamos. E quando ele desceu foi só pra botar a gente pra correr em plena madrugada. Foi só risada.
A van arrancou pra nos salvar. Mas o motorista não alcançava. Estávamos correndo em zigue zague por causa do cachorro pronto pra morder. A van tentava chegar perto mas desistia porque o motorista também estava se cagando de medo.
Eu gritei:
- Passa por cima motora. Passa por cima que eu já estou pregando, Velho!
Foi assim que o motora atropelou aquele cão dos infernos, numa ré de filme B. Voltamos pra dentro da van e seguimos em frente.
Depois uma mulher entrou na van na entrada do Decouville e desapareceu num passe de mágica, deixando meus dois amigos “com a pulga atrás da ovelha”. Eu fui o único que ainda falou alguma coisa:
- Ulha! A dona escafedeu-se.
Pensei no meu Tio-Avô que era muito chegado em mulata e um dia saiu com uma muito curiosa que depois perguntou transpirante e assediosa, com voz de barítono:
- Tu tá saStifeito? Tu já tá saStisfeito?
- Rér, rêr, é.... eu tô.... já eu tô saStifeito.
- Então agora é a minha vez.
Quando o meu Tio descobriu que era um homem a porrada comeu legal. Mas isso não interessa, depois eu conto mais sobre a figura.
Mas, como o cobrador dizia:
- Não brinca com isso ô do Imperial. Não brinca não que eu tenho é medo de “esprito”. E aquilo era “esprito” do ruim, que pega ônibus e nem paga a passagem.
O motorista era o único pragmático:
- Amanhã eu peço demissão, ah, eu peço!
Uma amiga depois me explicou, numa boa, o que rolou. Mas quer saber? Vamos botar uma pedra que o negócio é sério.
Pois é... eles cumpriram a promessa de me deixar na porta de casa, mesmo se acabando de medo da mulher voltar. Entro e dou de cara com a lembrança daquele telefonema... outro dia de manhã. Preciso pensar em outra coisa.
O amor é uma questão de matemática. Jamais terá seus cem por cento. Apenas porcentagens aceitáveis. E a gente sempre esbarra em quem mereça um pouco de nós: nossos cinco minutos de fama.
O tesão está nas entrelinhas, nas pequenas deixas, nos pequenos silêncios. Mas deixamos a onda passar. Tipo da coisa normal... séria. E o Risco nunca corre um risco verdadeiro. Quanto a mim, estou do lado contrário: prefiro deitar na praia e curtir um bronze ao som de um rock antigo batendo nas ondas - indignas ondas.
Pego a primeira revista que vejo na sala e corro pro banheiro sem notar a falta de papel. Maldita dor de estômago. Sento na privada gelada, abro a revista, vejo a cara da Dilma e começo a pensar no Brasil.

VOCÊ ME GUIA (de Gleice Portugal)

Trilha Sonora: Cristal Ship, The Doors.

Compartilhamos nostalgias perdidas,
no brilho dos olhos...
como uma melodia muda de sentimento secreto

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

LIBRA (versão Vilhena dos Signos)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: ...,.....,..,..,,,.....,.....,......,..,......,,......,,,....,..,....,.....,.


Pelos dias e pelas noites há um horizonte a carregar expectativas vis e do que é vivente. É das flores e do escarro que falo, do brilho e da lama que nasce a palavra. Águas escorrem pela montanha mais alta e pela manhã de chuva enquanto minha alma, presumindo-se que a tenha eu, se lava com pouco e de pouco a pouco na enormidade do orvalho e da bebida. Pensante é minha morada, pois do ar ela se cria e no ar se esvanece a cada pequena tragédia. De Vênus se refaz e em Vênus se transforma em pão que me sustenta. Substância de canto e delírio, plenitude vã. Justa é a luz na ira, na bonança e na doença, justa é a beleza que entristece, violenta e aconselha. Das fotografias vêm-me sussurros de tempos mortos e um farfalhar de ramos por desabrochar naquilo que envelhece, quando envelheço. Pois envelheço cético na utopia dos homens, envelheço homem na meninice da piçarra, envelheço mar num estuário para o oceano. De súbito um engano de mim mesmo, talvez um átomo de grandeza, e então pousa a primitiva fênix nos ombros a espiar longe, longe, uma vez mais, uma vez outra. Vertem dos céus, da grama e do sangue desatinos, reticências e declarações de amor, enquanto não sei da matéria de que te constituis ou da piada que me repetes.

(Uma mentira.)

ILDEBRANDA MOCCIA

Gosto muito dos textos publicados no blog de vocês. Na verdade sempre odiei blogs, orkuts e coisas assim. Sempre achei a internet algo meio psicótico, masoquista, sem nenhuma profundidade cultural e humana. Tudo o que torna um ser humano descartável me deprime. Porém, quando por acaso li um texto de vocês chamado MANIFESTO DE PODER que me deixou muito emocionada, pela primeira vez na vida pude experimentar um sentimento compartilhado e pleno. Tornei-me uma fã sincera e devotada. Mesmo os textos mais sombrios e agressivos, ou trágicos ou poéticos. havia um prazer em entrar na internet só para ler vocês todos os dias, só para me encontrar com vocês, meus amorosos rapazes. Depois que meu filho morreu vocês se tornaram minha companhia de todos os dias. Ele também gostava muito de escrever e desenhar. Mas devo dizer que me sinto orfã outra vez. Talvez vocês não saibam o quanto têm ajudado a alguém que não conhecem.
Fica o meu pedido para que não se deixem abater e o meu colo e conselho de mãe para que voltem a escrever.E Marcos, feliz aniversário. Eu deveria ter dito isso antes, não quis dizer, mas eu amo você.

TOURO (CHATO. EU?)

Trilha Sonora: Todo Errado – Jorge Mautner & Podres Poderes – Caetano Veloso.

O BILHETE – 10h.

- Bom dia!

- Bom dia, senhor.

- Por favor, eu quero uma passagem de camarote para Belém.

- O senhor quer uma cama?

- Não! Camarote mesmo.

- Não vendemos camarote, senhor, vendemos cama.

- Como assim?

- É o seguinte: nós temos passagens para rede e para cama.

- Mas no barco que eu vim, eu comprei camarote. Neste não há camarote?

- Há, senhor. Mas é que no camarote há quatro camas, aí o senhor compra uma delas. Entendeu?

- Quatro camas? No que eu vim havia apenas duas. E era camarote.

- Não! O senhor veio numa suíte, então.

- E nesse barco, não há suíte?

- Há, senhor.

- Então eu quero uma suíte.

- Como lhe disse, na suíte há duas camas. O senhor tem de compra a suíte inteira.

- Por que isso? Eu estou sozinho. Não preciso de duas camas.

- Infelizmente, senhor, só posso vender a suíte inteira.

- O que um passageiro sozinho precisa fazer pra viajar numa suíte? Ficar aqui em prontidão esperando que outra pessoa resolva comprar passagem?

- Desculpe, senhor. Mas só posso vender a suíte inteira.

- Então me venda mesmo o camarote.

- O senhor quer dizer uma cama?

- Linda, se sou apenas uma pessoa e estou comprando uma passagem no camarote, não fica subentendido que eu estou querendo apenas uma cama?

- É que, no camarote, nós vendemos camas, senhor.

- Ah...então eu posso levar a cama?

- Não, senhor!

- Ok! Tu do bem! Me vende então uma cama. Fazer o quê? Mas... no camarote!

...

- Sua passagem, senhor.

- Que horas sai exatamente o barco? Preciso calcular o tempo de viagem.

- Às 18h, senhor. Mas há uma tolerância de meia hora.

- Sei. Ele sai as 18h e 30min, né?

- Não! Na sua passagem, a hora marcada é às 18h.

- Escuta, querida, ele sai deste porto mesmo ou eu preciso nadar até a outra margem?

- Sai daqui mesmo, senhor, às 18h.

- Aff!!

O CAMAROTE – 18h 15min.

Um senhor que comprou uma das camas...

- Boa noite!!

- Olá! Boa noite.

- Escuta! Você vai aí nessa cama?

- Sim. Esse aqui não é o camarote nº 9?

- É... mas... você vai ficar aqui ou vai sair?

- Por quê?

- Porque eu quero dormir.

- E daí? Durma ué!

- Se você ficar entrando e saindo, não conseguirei dormir com o barulho.

- Desculpe-me, meu senhor, mas não vou deixar de ir ao banheiro ou fazer qualquer coisa que eu tenha direito nesse barco só porque o senhor quer dormir.

- A tua sorte é que eu tenho sono pesado!

- Minha, não! Sua.

UM PASSAGEIRO DE MEIA VIAGEM – 2h 33min.

No meio do rio, o barco diminui a potência para um embarque de um passageiro.

- É sempre assim? Um barco encosta no outro para o embarque dos passageiros?

- É... e a viagem de lá pra cá foi horrorosa. Choveu e balançou bastante. Pensei que fosse morrer.

- Você está vindo de onde?

- De Bagre.

- Como é lá?

- É uma cidadezinha. Muito pequena. Só há três restaurantes e neles não vende filhote.

- Porque é Bagre.

- Não entendi.

- Deixa pra lá... Quer dizer que a viagem até aqui foi ruim?

- Puta merda! Não quero nem pensar!... E nesse barco aqui também é muito escroto. De vez em quando, ele arrasta em um banco de areia.

- Esse aqui?

- Sim! Olha! Olha! Tá sentindo? Tá sentindo ele arrastar?

- Não, cara, não tô não. Aqui é fundo.

- Mas ele arrasta. E pode até virar. Pode crer!

- Amigo, ao viajar de avião, você só fala em tragédias?

- Não. Por quê?

- Você está fazendo isso aqui.

- Foi mal. Vamos mudar de assunto, né?

- Acho bom!

O DESEMBARQUE – 5h 50 min.

A esta altura, já havia voltado para o camarote, mas não consegui dormir porque o senhor que não queria barulho roncava só como ele mesmo. Forma-se uma confusa fila para desembarcar...

- Por favor, amigo, não empurra.

- Então vai logo que eu quero descer.

- Eu também, porra!. O senhor não está vendo que há várias pessoas na minha frente?

- Ô povo lento!

- Diga isso a eles, mas não empurra...

O sujeito continuou resmungando atrás, mas agora três posições depois de mim. Resolvi ignorá-lo.

O TAXISTA – 6h 20 min.

Desembarque movimentado. Os taxistas disputavam os passageiros e vice-versa. Até que consegui um que, para meu azar, escutava um tecnobrega...

- Bom dia!

- Bom dia! Almirante Barroso, no Marco, por favor.

- Ok!

- O senhor pode desligar o som?

- Não gosta de brega?

- Detesto!!

Segundos depois...

- Foi boa a viagem?

- Conturbada!

- O barco chegou agora?

- Se o senhor não tem o que dizer, não pergunte!

- Opa! Desculpe.

- Tudo bem. Desculpe-me o senhor. Só estou com um pouco de sono.

- Eu entendo...

- Nesse horário ainda é bandeira 2?

- É! Bandeira 1 só a partir das 8h.

- Tem algum desconto?

- NÃO!

Taxista chaaato!...

(Por Fabio Castro)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Entropia (parte I)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: The Silence Cries (Trail Of Tears).


Três e meia da manhã, justo no momento em que surge o carro virando a esquina à direita, sem frear. O motorista quase perde o controle do automóvel, mas consegue voltar ao asfalto depois de avançar cerca de quinze metros sobre a calçada e derrubar longe uma lixeira pública, que acaba parando do outro lado da rua. Nenhum pedestre à vista. Os pneus cantam e não aparece ninguém para testemunhar o que acontecia. Melhor assim, pensou, ou ao menos foi o que tentou pensar. Péssima idéia ter começado a pesquisar aqueles malditos textos, agora não havia volta. Era uma certeza tão grande quanto a de que estava prestes a enlouquecer.

Ele não podia parar o zumbido que vinha de dentro da cabeça, um zumbido que parecia dominar completamente seus ouvidos, já que não ouvia o motor gritando debaixo do capô, ou mesmo seus próprios uivos de dor, enquanto segurava e apertava os dedos em volta do volante com força. Concentre-se, merda, concentre-se. A agonia era muito grande. Outra vez subiu na calçada, esbarrou a lateral direita do carro em uma banca de revista, faíscas saltaram para trás. Bateu na cabeça em desespero com uma das mãos, tentando expulsar aquele barulho de si, em vão. Sabia que não podia mais fazer coisa alguma.

Uma pontada na nuca, bem no fundo do cérebro. Um grito estridente, fazendo-o levar as duas mãos aos cabelos. Foi quando perdeu a direção totalmente, fazendo com que a frente do automóvel batesse violentamente contra um poste de iluminação. Ainda apertava a cabeça entre os dedos ao ser arremessado pelo para-brisa. Bateu o ombro direito no corpo de concreto do poste, fraturando a clavícula, porém nem a sentiu. A outra dor era muito maior. Caiu na calçada e foi deslizando e girando, esfolando cotovelos, rosto, peito e pernas. Estranhamente, enquanto a sua carne assava com a fricção no chão, o sofrimento e o zumbido diminuíram. Parou a vinte metros de onde ocorrera a colisão, o poste meio inclinado sobre o carro, um dos cabos de eletricidade rompido, e parte da rua sem iluminação. Não tinha forças para se levantar, nem queria. Tudo o que pensava então era que aquilo tinha acabado. Sim, tinha acabado. Um meio sorriso surgiu em seus lábios sangrando, um sorriso de alívio. Podia descansar, enfim. Fechou os olhos enquanto vinha um último pensamento.

Perdão, filha. Perdão.

ANONIMATO

(Trilha sonora - Black Sabbath, "Who are you"?)

Do anonimato
digo que é um lugar de liberdade
lugar de vozes sem boca
expressões sem rosto
palavras sem identidade
- a não ser aquela
criada por elas mesmas.

Bem-estar, proteção, comodidade.
Alegria de ver sem ser visto:
Aconchegante panopticon -
alegria e benção de invisibilidade.

Com o anonimato
consegue-se
essa conversa estranha
entre estranhos.
Conversa de
palavra pura
por palavra pura.
E, com efeito,
do anonimato
se segue a conversa
entre o anônimo
e o homônimo.

Mas, da conversa
entre o anônimo
e o homônimo,
quem leva vantagem?
O que se faz
quando não se conta
com heterônimo
ou pseudônimo?
O que se faz
quando se é, apenas,
homônimo
e irritantemente aprendiz?

O homônimo persiste
no seu único direito
- defeito -
de continuar errando
de uma palavra à outra
de uma tentativa à outra
em busca de consistência,
tentando conquistar
por prêmio
o direito de transformar
o homônimo
em assinatura.

O homônimo espera que,
do anonimato
e de sua liberdade
absoluta e
desproporcional,
vozes peçam mais,
vozes peçam menos,
vozes peçam retoques,
supressões,
níveis de qualidade.
Vozes peçam,
imperativamente,
o que querem.
Produto pronto,
mas não processo?

Pedem sucesso?
Com certeza,
não pedem errância.
Quando errar
é tudo o que pode
o homônimo.

Renato Gimenes

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

EMOÇÕES CRÔNICAS (de Gleice Portugal)

Trilha Sonora: Strange Days, The Doors.

na minha garganta, sinto um nó, como se fosse um enigma...
me instala com um ponto de interrogação...


A BANDA (de Juliana Calonico)

Trilha Sonora: A Banda, Chico Buarque.
((Presente para você Marcos))
Domingo na minha cidade era dia de apresentação da banda municipal no coreto da praça da igreja matriz. A banda era composta por funcionários da própria prefeitura.
Naquele tempo, os domingos ainda eram sagrados e após a celebração do padre Floriano, hoje monsenhor, as famílias ainda reuniam-se felizes para conversar e apreciar boa música.
Papai tocava clarinete nesta banda. Eu ainda era bem pequena quando me apaixonei por seus acordes. Acho que ainda estava na barriga da mamãe...
Num domingo depois da missa, o saquinho de pipocas e as cadeiras já todas ajeitadinhas na frente do coreto, os músicos já com instrumentos afinados e a postos, eis que surge o nosso Ranchinho.
Ele era uma daquelas figuras que toda cidade de interior tem.
Engravatado ia a missa todos os domingos, mas o que ele gostava mesmo de fazer era correr atrás das moças na Avenida Ruy Barbosa, abaixar as calças e mostrar o p...
Todas as moçoilas da cidade coravam ao vê-lo,
Mas naquele domingo, em frente ao coreto a brincadeira dele foi outra.
E assim que a banda começou sua apresentação, Ranchinho, calmamente na primeira fila, retirou de uma pequena sacola, um limão que pôs-se a descascar ali, bem na frente dos músicos. Quando aquele perfume inconfundível do limão exalou, não houve quem não sentisse uma salivação tremenda. A banda toda, alucinada, olhava fixamente para o “maldito”. E, todos,b oca cheia d’agua, pararam de tocar.
Os músicos então pediram desculpas e fizeram uma pausa.
Tiraram o ser dali e depois de um tempo retornaram para a apresentação.
Papai contou que depois da apresentação o coitado levara uma surra da guarda –municipal. E nunca mais ousou importuná-los.
Já as moças...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Trincheira

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: War Zone (Slayer).


A história foi mais (ou talvez um pouco menos) assim:

— Essa música que o Pedro tá tocando é do Cacazo.

— Marcos, essa música é do Chico Buarque, não do Cacazo.

— Tem certeza?

— Claro.

— Você tem uma grande chance de estar errado.

Fábio dá uma bufada, bebe mais um gole da cerveja, respira fundo, balança as mãos, se concentra na garçonete que passa ao lado.

— Eu ouvi essa música milhões de vezes, ela é do Chico.

— Não é, não.

Discussão e alvoroço. O músico ali na frente, violão na mão, fazendo o que devia fazer. Marcos traga o cigarro. Fábio olha para Marcos e bufa de novo. Marcos finge que não vê e encara a gordinha na mesa ao lado da pilastra.

— É do Cacazo.

— Marcos, não começa.

— Mas é.

A música termina, alguns aplausos ao redor do recinto do Boiúna. Fábio não aguenta e se levanta.

— Pedro! Pedro! Aqui, Pedro!

— Ei, para com isso.

— Pedro, essa música não é do Chico?

— É, sim.

— Não falei?! Não falei?!?

— Não precisa apontar o dedo pra mim.

— Você disse que era do Cacazo. Pedro, ele disse aqui que isso era do Cacazo, dá pra acreditar?

— Dá pra sentar?

— Não, senhor! A música é do Chico, ouviu? Do Chico!

Pedro, sem entender, dá um sorriso elegante.

— Ah, vocês estavam apostando, é?

— Para de apontar o dedo pra mim.

— Do Chico!

— O que eu te fiz? Por que toda essa cena?

— Do Chico!

Garrafas se estilhaçam no chão. O pânico adentra o bar, enquanto os dois se atracam feito guerreiros ferozes e prontos a morrer por uma causa nobre. A garçonete tenta intervir e leva uma bordoada. O atendente do balcão se aproxima e é arremessado contra a parede. Pedro abraça o violão e sai arrastando o amplificador porta afora, enquanto berra que era só uma música!, era só uma música!

Uma viatura é acionada, a polícia invade o local, que neste momento já se transformou em uma trincheira: cadeiras voando, urros medonhos e copos sendo usados como armas de destruição em massa.

Fábio, com um longo e feio talho no rosto, se debate insanamente enquanto é algemado com a cara amassada em cima do pequeno palco de apresentação. Marcos, com o olho quase totalmente fechado por causa de um hematoma horripilante, precisa ser contido por outros três oficiais. São carregados para a rua a socos e pontapés.

— Quieto aí, vagabundo!

— Não fui eu! Foi o Chico! Tudo culpa do Chico!

— Tu aí, é o Chico?

— Vai à merda!

— Então toma.

Distribuem tabefes à vontade sobre os dois. A multidão vaia e cospe em cima. Um bêbado pergunta se ainda dá tempo de beber mais uma dose.

Fábio ainda encontra fôlego no meio de tudo.

— É do Chico! Tu sabes! Tu sabes!

— É o caralho! É o caralho!

— Cala a boca, vagabundo!

— Vem calar!

— Não aponta mais o dedo pra mim!

— Tu sabes! Tu sabes!

— Dispersando! Dispersando!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

É PRECISO VOAR (de Ronaldo Fonseca)

Trilha Sonora: Equatorial, Lô Borges.

Deixemos que nossas asas cresçam
E a plumagem se erice ao vento
É tempo de enterrarmos a corrente
Darmos asas aos nossos sentimentos

O medo cai da bagagem
Quando o coração vira enchente
É tempo de voar
Ir de encontro ao transparente

É chegado o momento
De pousarmos um no outro
Num encaixe de liberdade e cimento

http://recantodasletras.uol.com.br/poesias/2781399

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ALHO PSICOLÓGICO (de Marcos Salvatore)


A história não é nova, vocês já conhecem: um cara, uma garota, um lance que não rolou.
Mas antes que eu diga a verdade preciso confessar: uma puta chuva lá fora e eu só consigo pensar na moça que chorava, ontem à noite no Boiúna.

Como diria a Ângela Rô Rô: - "Tadinha, bem feito".


Take it easy, baby.

De qualquer forma... paciência.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

VALOR (de Marcos Salvatore)


Passei por ela na esquina de São Pedro com Padre Eutíquio, sem notar seus lindos olhinhos azuis me procurando, mais vivos do que eu. Deveria ter uns setenta anos, talvez, quem sabe? Brincava com sua sombrinha cor de rosa, de flores estampadas; olhava atentamente a todos que passavam indiferentes a ela.
(Tanta pressa pra quê? Já estava mais do que atrasado. Sempre atrasado.)
- Boa tarde, senhora.
E ela cantou pra mim:
- Boa tarde, meu filho.
Quase tropeço. Largos passos depois eu paro, seguro meus joelhos em apoio e respiro fundo, exausto de correr e de lutar contra o tempo... olho para trás e a vejo sorrindo pra mim. Uma larga, uma rara demonstração de que a vida vale à pena. Quase achei que todos nós deveríamos, de vez em quando, sair por aí, brincando com sombrinhas e guarda-chuvas pela cidade.
Pensei na minha filha e no mundo que vou deixar pra ela um dia. Será um mundo melhor? De velhinhas que brincam nas esquinas com sombrinhas cor de rosa? Será que eu fiz a minha parte? Que homem é um homem que não torna o mundo melhor?
Seria bom, mas acho que não vai ser assim. A beleza é uma exceção. De vez em quando acontece. Tem que acontecer. Não sei falar sobre isso.
Há quanto tempo ninguém me sorri sem querer nada? São as “segundas intenções” que nos tornam malditos estúpidos imbecis. A verdadeira miséria vem dos “outros planos”.
Aquela senhora me salvou um pouco. Não sei o seu nome, nem se pegou o seu ônibus depois que lhe acompanhei ao ponto. Mas até alguém como eu sabe que coisas assim não acontecem em qualquer esquina.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

ROTINA (de Haroldo Brandão)

Trilha Sonora: Rolling Stones

Era um dia comum e a vida seguia normalmente de forma caliginosa. Na penumbra cinzenta o homem sentia que devia mas... parava e ficava no 12º salto para o nada. Aos 50 lia-se na placa quase enferrujada: Arnaldo Bobão - Psicólogo. Ao se entrar estranhamente nada acontecia, apenas uma faísca de vida saltitava entre o céu e o inferno que, todos sabem, somos nós mesmos. O que fazer senão viver?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

BAR AZUL (de Marcos Salvatore)

by Sara Saudkova

Bar Azul
Não sei se tenho medo
Do latrocida me esperando na esquina
Ou da mesa de amigos rindo ao lado

Enquanto eu estou na minha

Que o que eu escreva se imprima
Ou de lembrar de um amor do passado
Está tudo pronto para eu me confirmar
Eu errei, eu pequei, estive em todos os lugares
Eu paguei os pecados na mesa de um bar.

PRESENTE SURPRESA (de Marcos Salvatore)

by Edouard Joseph Dantan


Já faz um tempo que eu tento
Te encontrar, como quem não quer nada
Rodeando botecos ordinários, é a minha cara
Sempre à fim de um release, de um lance

Se eu forço a barra é porque
Você me desorienta
A psiquê anos setenta
Andrógina, anti heroína

Do menino calado
Atroz e atento


Observador dos detalhes mordazes
Voyer, ladrão de chaves incidentais
Colecionador afetivo à procura
De tantas fechaduras para espreitar
 
A sua



Então vem, que é você
Quem me encontra à própria sorte
Vem, que todos os seus lábios
São também um pouco a minha boca

Tira onda e faz drama
A mim, canalha, apartado e sem rumo
Me reinventa os assuntos: eu digo, eu assumo
Depois da novena, terça na veia e na cama rouca

Presente surpresa



Para depois nos abraçarmos algemados
Aos suores e odores elásticos
Às confissões perturbadoras de dores
Da gangorra do passado comprometedor

Para depois desaprender a zoar por aí
Na desordem da hora da gente ir dormir
Pouco importa o que é ganho, o que é conto,
O que eu escrevi e o que não
Sem pensar no que vinha a seguir

Eu estou agora
Eu sou aqui

Um caduceu de amor, de prazer e valor
Hiper-russo conjugados no futuro que agora eu te devo
Improvisado no conflito do meu pau
Com suas ancas macias

Sem alma, jogo limpo na mesa de som
Religião, sem muro, sem furo ou tristeza
Apenas tudo que é lindo à cada dia
Tudo salva de palmas



MOVEDIÇO (de Marcos Salvatore)


by Minjae Lee


Pensando bem, na realidade não parece, pode parecer
Não houve tempo, quer dizer, não de verdade

Parece um poema sem sentido e sem sina,
Parece, talvez seja
Já que caminham as palavras a serem ouvidas e lidas
Só para dar velocidade ao coração

Mas é por causa da lua lá fora,
carinhosa, semblante
Intriga que nos chama a atenção, que anda tão...
Amarelada pelo tempo

Pela polpa sua, areia doce de amante nua e crua
A rima não tem culpa do alter ego nativo
Por amarrarmos os nós da garganta
Com linha molhada de língua

Pra que digamos com os olhos,
Não com a voz que subjuga.
Um corpo minguante e carente de afeição
Deve mesmo ser batizado

Pelo sabor e o licor de uma vagina de puta



sábado, 5 de fevereiro de 2011

Poema XV, de Pablo Neruda

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: o vento ao final do dia no cais de Valparaíso.



Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas del alma mia,
emerges de las cosas, llena del alma mia.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolia.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simples como un anillo,
Eres como la noche, callada y constellada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

TRÍDUO (de Marcos Salvatore)

by Roberto Rodrigues

CINZAS
Os relâmpagos começaram ainda em Jundiaí. Bandeirantes, dois motoristas conversam pelo rádio:
- Foda, esse tempo! Mas me diz aí, ô Peão: largou os estudos pra fretar pneu e remédio?
- Hoje eu faço vinte e dois, pedi pro velho pra guiar até “O Belém”. Ida e volta. Na hora ele brigou, mas depois...
Wagão, trinta e quatro anos, da sua Scania vermelha, imita a voz de locutor de Rodeio:
- Quarta-feira de cinzas. Segura Peão, que o Pó de Broca largou faculdade de doutor pra se misturar na boiada. Esse comboio não tem volta nem broca torta.
- Eu precisava.
De fato, José Luiz, ou “Zezinho”, como todos os companheiros do seu Pai o chamavam e conheciam, sempre fora um daqueles meninos estudiosos, soturnos: promessa de outra vida pra família. Estava prestes a entrar num dos cursos mais concorridos daquele ano e aprovado com louvor no vestibular. Só que, não ligando muito para os perigos, convenceu o pai de que homem que é homem tinha que viajar pelo menos uma vez de caminhão. O velho aceitou, na condição de que outro carreteiro, alguém experiente, o acompanhasse em dupla de São Paulo até “O Belém”. Concordou. Tinham três dias pra chegar.
- Mas e aí Wagão? E as histórias de pescador?
- Tem a da loura que entra no caminhão de madrugada vestida de branco e faz os homens tombarem - deixa eles doidos. E a história das cruzes.
- Está falando dessas cruzes que vemos pelos canteiros da rodovia?
- Exato. Só que o conto é macabro e o lugar ninguém sabe direito onde fica. O fato é que um ônibus vindo do interior onde teve um Círio, lotado de romeiros, indo em direção a Belém, de madrugada deu de encontro a um caminhão cheio de madeira. Mais ou menos umas 70 pessoas morreram no local, na época foi o maior acidente com vitimas. No local fizeram uma capela onde caminhoneiros param para acender velas, eu tenho muito medo de passar lá. Dizem que em noite de trovoada, se você desligar os faróis, a luz dos trovões ilumina a Romaria te seguindo pelo retrovisor. Também dizem que a tal lourinha estava no ônibus, mas não pra romaria. Estava indo se casar, parecia uma bonequinha, legal né? O tal vestido branco é um vestido de noiva. Dizem que eles cantam quando um motorista está marcado pra morrer.
- A estrada, no começo, pode dar medo mesmo. O calor, o frio, a solidão.
- Também tem a chuva forte, os alagamentos, barragens, buracos na estrada...
- E os roubos de carga.
- Pois é... mas, Zezinho, quer saber qual é o problema? Essa é de lascar.
- Qual?
- A igreja sumiu. Dizem apenas que a cruz ainda está lá. Também que o corpo da dita lourinha não foi encontrado nos destroços do acidente e que agora ela entra sem permissão nos caminhões à fim de casar e dar o rabo no inferno. Quando o pobre dá por conta ela está lá. E que quando o sujeito é novo, tipo você, ela tenta perder a virgindade com ele. Foder com ele. Por isso eles tombam. Por isso que não existem muitos carreteiros da sua idade. Eles têm medo dela.
- Quantas horas pro prêmio?
- Setenta e duas, sem arrebite.
- Bom.
A TERTÚLIA
- Opa! Olha só que Mariazinha!
Uma garota pedindo carona, entre o nada e a coisa nenhuma.
- Vai pra onde Loren? Perguntou Wagão.
- Pra lá. Apontou pro horizonte, na direção da próxima cidade ou posto de gasolina.
- Sobe aí. Mas já sabe, boneca.
- De quê, tio?
- Existe um costume que dá direito a quem der carona de foder garotinhas que pedem carona. Portanto, a mocinha vai ter que dar o trocinho pra gente.
- Só se for de camisinha, tenho medo de pegar AIDS.
- Encapado, porra?
Pararam, abasteceram e depois partiram pra um riacho. Do boquete ao sanduíche. A mocinha era adivinhona, só faltava palitar o dente com pica enquanto chupava o Zezinho e dava por trás pro Wagão. A pequena se repartia em atenções iguais para os dois. Tinha uma maminha maior do que a outra. Zezinho ainda quis beijá-la, mas ela virou o rosto, dizendo: - “isso, não! Assim eu não quero!”. Mas o deixou gozar em sua boca.
De manhã chegaram à dita cidade. A fudona desceu sem dizer o nome ou a idade ou o porquê de estar sozinha por aí. Só mencionou que estava cansada de ganhar só pra comer. Que nunca teve uma festa de aniversário e que lhe falaram muito das tertúlias. Que um dia teria uma, nos conformes, que nem ouviu dizerem.
Partiram e pelo Rádio Zezinho abria o coração para o Wagão, que falava:
- Essa até que nem tinha muito dente podre.
- É foi minha primeira.
- Primeira o quê? Primeiro cu que comeu, primeiro ket? Eheheheh.
- Não, foi a primeira vez que eu estive com uma mulher.
- Cruz em credo, só na bronha?
- Heheeh, é, acho que sim.
- Tem um puteiro aí na frente, se quiser compensar o tempo perdido...
PROCISSÃO DAS CRUZES
O resto do dia foi normal, tentaram ganhar tempo dormindo de dia e guiando de noite. Um dos pneus do Zezinho furou e tiveram que parar lá pelas seis da tarde num mecânico. Esperaram por mais ou menos quatro horas sem fazer nada, só bebendo cerveja quente enquanto jogavam bilhar num puteiro e atiravam papel molhado nos transeuntes.
O tempo fechou ainda mais depois da meia noite, a bebida deu uma diarréia em Wagão que magoou sua hemorróida e tiveram que parar pra ele cagar no mato e fazer as pazes com ela. Os relâmpagos ao longe foram se aproximando e uma lenta canção era trazida pelos ventos, cada vez mais fortes. De cócoras Wagão deu um berro:
- Entra na cabine e traz o papel esfola-prega. Pega lá, que eu tô cagando fino. Foi a cerveja quente, porra. Não posso comer pimenta. Olha só a zebra do tira-gosto.
Entrou e quando pegou no rolo olhou rapidamente para o retrovisor e viu de relance quando um relâmpago iluminou o que parecia uma procissão de sombras a uns dois quilômetros de distância. Desceu correndo, quase mijando nas calças.
- Wagão, Wagão, eu vi porra!
Se limpando, Wagner tenta entender.
- Viu o quê, Zé, tá doido, caralho? Sim!
- A procissão, a romaria!
- Quer parar de roer as unhas, Seu! Parece até criança.
Depois de aliviado, Wagner vai até o meio da estrada, acende um cigarro, coça o saco, solta um peido molhado: - “eita”.
- Ô “Seu” Pedro Malazarte, vamos esperar por outro relâmpago, se eu vir o negócio, pode deixar que já vai tá na hora de você me ouvir dizendo: - “Nossa, ai que medo”!
- Mas eu vi, cara.
INFINITA ESTRADA LÍQUIDA
Tomaram café de manhã, jogaram uma água nos caminhões e comentaram:
- Trovão e nada de chuva. Isso não é normal, não. Melhor a gente esperar, mais um dia, ficar quieto. Essa tempestade tá seguindo a gente desde São Paulo.
- Mas, e o prêmio Wagão? Vamo perdê a premiação?
- É perigoso Feinho. Pra pegar essa grana só arrebitado e isso eu não faço desde que vi os pedaços de um amigo que dormiu no volante de tarde e bateu a tantos por hora; um sol da porra e chapado a quatro dias. Passei por lá e era só resto de bunda, de perna, tinha lasca de gente grudada no asfalto por causa do sol. Usaram uma pá pra catar os bifes.
- Mas ele estava sozinho. Nós estamos em dois. Não vai acontecer.
- Isso é o que você não sabe. Nem eu.
Wagner parou pra pensar, precisava do dinheiro, tinha brigado com a mulher, ia se separar, estava gostando de uma “dona” que vendia perfume perto do posto de entrega da firma. Queria fazer uma presença, comprar um presente bonito pra ela. Ela tinha um filho, um garoto batuta que já o chamava de Pai. Gostava do garoto e dos desenhos que o pequeno fazia das histórias que ele contava da estrada.
- Tudo bem. Mas vamos dividir uma dose pra cada posto, senão a gente fica doido desde já e acaba não chegando lá.
Almoçaram e depois deram a última dormida antes da chegada. Naquela tarde, Wagner teve um sonho muito estranho. Sonhou que viajava numa estrada esburacada, com acidentes a cada quilômetro e quanto mais pisava fundo, mais atropelava pessoas que se jogavam na frente do caminhão. Atropelava homens, mulheres e crianças, olhava pro lado e via uma mulher deliciosa, loura, com os maiores olhos verdes e peitos que já vira numa mulher; de pernas abertas enfiando os dedos na boceta enquanto gritava pra ele: - “Toca, vamo, toca, pisa! Tá na hora!”. Viu o filho de sua namorada na estrada pedindo carona e perdeu o controle do caminhão pra evitar atropelá-lo. Acordou banhado em suor com um travesti batendo na porta:
- Quer chupetinha bem? Quer chupetinha?
- Sai daí que eu te dou é uma remada!
- Ah, é? Vem que eu te dou é uma giletada.
Wagão fez que descia do caminhão e o travesti se mandou. Saiu correndo e gritando:
- Socorro ele quer me matar!
Todo mundo riu.
Sentou nos degraus e viu Zezinho se aproximando.
- Tem certeza que quer fazer isto? Perguntou Wagner, meio desconfiado com sei lá o quê.
- Claro, e vamos logo procurar pela coca-cola com café e o cara da pílula.
- É o mesmo que faz o café, é só perguntar pelo Alemão.
O Alemão era o encarregado da conzinha. Lá vem ele, com aquele tremendo barrigão.
- Boa tarde, Peão, o que vai ser? Pão, pão com pão, ou pão com morTANdela?
- Vai ser o de sempre Alemão. Primeira vez do moleque.
- O de sempre varia de preço conforme a distância. Pra onde vocês vão?
- Pro Belém.
- Eheheh. Vão ter que passar pelas Cruzes. É muito chão, coisa de um dia e meio sem dormir. Já pensaram nisso? Um tanto assim, entristece, e alguma coisa sempre acontece.
- Vai ter prêmio e o moleque aqui quer torrar lá no Locomotivas.
- Vão na maciota que eu não vejo trovoada assim já faz tempo. E ontem à noite eu sonhei com um negócio meio assim, parecia que um caminhão batia.
DRUGSTORE COWBOYS
Não há como descrever os efeitos de uma mistura de anfetaminas, com café e coca-cola e muitos, muitos cigarros pela estrada, noite afora. Os efeitos diferem de pessoa pra pessoa. Mas acho que posso afirmar que a pessoa muda: altera o seu humor, modifica os seus reflexos, transforma covardia em coragem. As luzes te cegam e o sono desaparece.
Pelo rádio:
- Ô Peão, põe uma aí uma dos Engenheiros, põe aquela do Raul. Tem Tião Carrero?
- Wagão, uma moto seguindo a gente desde o posto. E, não sei, ele parece com...
Depois de vários quilômetros, o cansaço de estar aceso e os sacos de biscoito vazios te dão a Paranóia.
Passaram pelas Cruzes sem notar. Começou a chover a partir de lá. Madrugada. Três e meia da manhã. Problemas no rádio, por causa dos trovões cada vez mais próximos. Ventania. Estavam se distanciando um do outro enquanto ouviam árvores caindo dos dois lados da pista. A noite mais os motoristas com alguma coisa lá fora.
- Não agüento mais, Wagão! Não dá, não dá. Tem uma.... aqui....me.... mais rápido. Sou eu quem está na moto.
- Pregou? Tem o quê?
- Ainda falta muito. Vamos dormir em ... lugar. Vou ... ela descer. Está... em mim. Eu to aqui comigo. Acho que bati em alguém. Do la... de fora.
- Tem um posto ali no ponto mais alto do morro. Tá abandonado, mas o chuveiro ainda serve, lá a gente espera essa chuva passar. Vem atrás de mim. É só me seguir.
Ruídos no rádio e Wagner quase ouviu o que pensou ser uma voz... feminina em meio aos chiados e uma música. Mas seguiu em frente. Dobrou na primeira à direita e seguiu em frente até dobrar à esquerda lá em cima.
Parou o caminhão, e como estava totalmente exausto depois de vinte e quatro horas sem parar, adormeceu. Trovões ensurdecedores acalentavam o seu sono já maduro.
AFINAL, QUEM É VOCÊ?
Sonhou que brincava com os pés na água de um lago e um vendedor que trocava garrafas usadas por livros assoviava pra ele, chamava-o. Era de novo menino e o garrafeiro ofereceu a ele a Playboy da Sophia Loren enquanto coçava o saco com a ponta dos dedos.
- O que faz aqui? É a revista que você queria, não é? Seu punheteiro do caralho!
- Estou brincando, não está vendo? É. Como encontrou?
- A gente sempre encontra o que procura, sempre encontra quem quer ser encontrado. Olha só pros peitos dela, ela está com tudo.
- Não tenho mais garrafas. O que preciso fazer pra ficar com ela?
- Nada demais. Apenas fique aqui e leia pra gente. O preço é maior conforme a distância. Tem mais gente pra ouvir. Muita gente. Ela também está aqui e quer foder com você.
- Mas eu preciso ir. Vou ganhar um prêmio e volto pra pegar, eu juro.
- Tudo bem, mas a gente precisa ficar com algo seu como garantia. O que você oferece pra gente?
- Não tenho nada, eu já disse, porra. Estou com sono. Meu lugar não é aqui.
- Eu te conheço, você sempre teve medo. Finge que não tem, mas tem. Está sempre fingindo ser o que você não é. Você não devia estar aqui.
- Não vou rezar por sua causa. Ou me dá o livro por bem ou por mal. Não vou dizer duas vezes.
- Então vamos oferecer pra quem queira realmente. As pessoas sempre querem alguma coisa. Você é muito velho pra isso.
Pegou o garoto pelo pescoço e apertou com força. Soprou forte com um hálito de chiclete de bosta.
Acabaram-se os relâmpagos. Acordou uma hora depois com fortes batidas em sua porta. Dessa vez não era chupetinha, nem era o dia.
QUARESMA
Desceu e procurou pelo outro caminhão: - “Me acordou e já pegou estrada. Quer mesmo o prêmio”. A batida que o acordou também disse: - “Olha a hora, olha a hora”. Mesma voz. Só pode ter sido o garoto.
Foi até os chuveiros e se meteu na água fria. Ouviu o último chuveiro do espaçoso banheiro ligar, pensou: “Água quente?”.
- Ô amigo, você viu um caminhão parado aí com o meu? Descendo aí a estradinha? Um rapaz novo dirigindo. Ele até me acordou.
Primeiro o silêncio, depois, uma voz degenerada:
- Aqui não tem ninguém.
- Brigado aí, Deus abençoe. Vai com Deus e me deixa com Deus.
E o chuveiro desligou. Alguns passos. Mais nada. Wagão sai, acende um cigarro, dessa vez não coça o saco, nem peida. Sobe e volta pra estrada. O efeito dos remédios já passou. Dessa vez não consegue mesmo ter medo. Tenta o rádio e nada. Falta pouco pra Belém.
Horas depois, ouve um último chiado no rádio, na freqüência de Zezinho, mas era apenas um chiado. Não almoçou, não parou, pisou fundo até Belém. Nenhum sinal do outro caminhão.
Põe seus óculos Ray-Ban, caminha até o final do imenso pátio, um sol romano queima suas costas, camisa no ombro esquerdo, cigarro entre os dedos trêmulos da mão direita. Para, olha para um céu verde miserável enquanto apalpa no bolso de trás da bermuda suja de graxa o dinheiro do prêmio.
Quando chegou na firma, teve a notícia de que um caminhoneiro arrebitado, carregando remédio num Volvo branco tinha dormido no volante, descido o barranco do posto velho do morro e se espatifado contra uma árvore enorme. Em vez de dobrar pra esquerda, dobrou pra direita. A carga esmagou a cabine e o motorista morreu na hora. O volante teve que ser tirado de dentro do seu peito. Primeira viagem do rapaz. Vinte e dois anos. O mais estranho é que quando o encontraram e serraram a cabine, sentiram um perfume de mulher.