De quem é a culpa?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O saco do Papai Noel (versão Vilhena)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: passos lentos e pesados de bota pela rua.


— Está quase na hora, vamos sair daqui a pouco.

Crianças, crianças, mais crianças. Papai Noel resmungou com sua consciência enquanto suava debaixo de toda aquela pança e daquela barba espessa, sentado na cadeira, pensando em onde diabos se metera. Tanto esforço para ganhar o que, afinal? Simplesmente um muito-obrigado? Nem tapinha nas costas recebera durante todo aquele tempo.

Desejava do fundo de seus vícios um bom e demorado gole de qualquer coisa que esquentasse a garganta e anuviasse os pensamentos. Estava cansado. Sempre a mesma roupa a cada final de ano, pirralhos e pirralhas querendo, querendo e querendo, nunca ninguém lhe perguntava o que ele queria, somente lhe cobravam, cobravam e cobravam. Ele próprio já estava afogado em cobranças da esposa em casa. Essa era outra que só sabia pedir, jamais oferecia, e sempre reclamava do que recebia.

Papai Noel estava de saco cheio.

Quando vieram lhe proporcionar aquele emprego, muito tempo atrás, disseram que seria divertido e que não precisava se preocupar com nada, era como tirar doce de criança. Claro que literalmente isso não poderia ser feito em hipótese alguma, arranharia a imagem do velhinho sorridente e boa-praça. Ah, mas que dava vontade de vez em quando, isso dava.

Perdera o espírito de Natal em alguma curva anos atrás. Era uma constatação bem ruim para os negócios, sabia disso, mas também tinha seus próprios problemas, aliás, problemas muito maiores do que ficar se preocupando em presentear moleques mimados e rabugentos. O mundo estava no final dos tempos, realmente. Se as pessoas não se importavam mais com a ideia de bondade, de fraternidade e de generosidade naquela época do ano, por que ele deveria desfazer sua barba por isso? Difícil pensar em algo desta natureza, algo que se debatia violentamente dentro de si. Muitos dependiam dele, ou ao menos tais pessoas pensavam que sim. Papai Noel tinha certeza de que este tipo de dependência, no fundo, não passava de um bom drama barato da vida e suas circunstâncias, já que toda a segurança e as crenças que rodeiam a mesma vida poderiam ser radicalmente viradas de ponta-cabeça em um piscar de olhos, mas não podia argumentar: ninguém possuía ouvidos para lhe escutar quando era para falar a sério assim.

— Só mais cinco minutos. Confere?

— Confere.

Inspirou profundamente, segurou a respiração por um momento e pôs-se a soltar o ar aos poucos, como em um ritual de concentração. Seria o que qualquer um imaginaria caso o visse naquele estado, porém não passava de um ato de resignação pura e simples. Carregaria aquele saco imenso mais uma vez nos ombros porta afora enquanto alguém lhe diria um feliz-natal murcho do final do corredor. O mesmo feliz-natal murcho de sempre. E sem tapinha nas costas.

Levantou-se da cadeira e olhou ao redor. Esticou os braços para a frente, jogou o quadril para os lados, alongava-se como podia. Poucos ainda se encontravam por ali, a grande maioria já havia sumido por todos os cantos. Fitou o saco no chão. Precisava, como em todas as vezes, buscar os presentes no salão para guardá-los e levá-los consigo, acomodados todos de forma que nenhum deles chegasse estragado. Este sim, um ritual que jamais podia esquecer.

Alguém lhe acenava apressado para que o acompanhasse. Desceu alguns degraus de onde estava e encaminhou-se com o saco rubro ao lado, quase arrastando-o. Aquele acessório de tecido sedoso e brilhante de natal, mágico, milagroso, estava vazio após tantas horas, como vazias de vontade própria iam suas pernas para onde lhe indicavam.

*****

Chega em frente ao casebre, para e descansa o saco no chão, próximo ao meio-fio. Passara por algumas pessoas durante o trajeto, que sequer se viraram para ver o sujeito desengonçado e cabisbaixo de vermelho, suor na testa e um cansaço infinito do mundo.

— AÍ, camarada, perdeu o trenó?

Risadas atrás, e Papai Noel nem se digna a encarar o humorista. Levanta a cabeça para melhor averiguar o estado da residência. Algumas goteiras novas no teto, com certeza, pensou ao avistar nuvens irritadas à distância. Uma fraca luz de lâmpada incandescente esgueirando-se pela única janela do casebre. Alguém surge pela porta entreaberta.

— Papai Noel?

Papai Noel acena com uma expressão que pode tanto significar olá-a-todos quanto por-favor-finja-que-eu-não-estou-aqui. A criança espera a visita ilustre aproximar-se da entrada. Olha meio desconfiada do saco para o homem, do homem para o saco. Era o terceiro de quatro. E era a primeira vez que via o bom velhinho tão de perto, e ele não se parecia muito com aquele que costuma ser simpático e risonho em filmes e desenhos. Dissera que queria ver Papai Noel de perto, por isso ficara acordado até mais tarde naquela noite, para presenciar o momento da grande chegada. Não pensara que Papai Noel viria a pé até ali.

Põe a mão ainda calçada com a luva branca no ombro do pequeno, enquanto se esquiva para que o saco possa passar pelo batente estreito da porta. No lar de dois cômodos, sala-cozinha e quarto-banheiro, encontra o resto da família reunida. O mais velho ajuda o segundo irmão a encontrar seu par de chinelos de dedo, sua única proteção para os pés. A mãe procura dar o resto de leite de seus seios para o bebê, uma garotinha franzina e de boca ávida, que por muito tempo virá a reclamar de fome, até que o minúsculo estômago se acostume àquilo a que alguns chamam destino.

O terceiro filho, ainda encarando Papai Noel de um modo suspeito, quer saber se tem presentes para todos dentro daquele saco grande, bola de futebol, carrinho, bonecos, essas coisas. Papai Noel o encara e monta o que imagina ser uma expressão amável no rosto.

— Tem comida pra ceia.

Tira uma marmita de frango com arroz e couve do saco, depois um bom pedaço de bolo com cobertura de glacê enrolado em papel-alumínio do saco, depois uma vasilha com três fatias de bisteca de porco frias e meio ressecadas do saco, depois outra vasilha com cinco almôndegas mergulhadas em molho ralo de tomate do saco, depois um pequeno saco plástico amarrado na ponta e repleto de farofa gordurosa do saco.

— Feliz natal pra todos.

Papai Noel ensaia um rô-rô-rô. Engasga-se com um nó gigante lá no fundo da garganta.