De quem é a culpa?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Filosofias à parte, o que sobra é o copo cheio

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: What A Wonderful World (Louis Armstrong), e Joey Ramone espiando da outra mesa.


Tomei da coca-cola esperando o tempo e o mundo passarem. Não passam. A tarde se vai, o pôr-do-sol nasceu, começa a morrer, e o tempo e o mundo ali, teimando.

Aquela história de espaço-tempo devia fazer algum sentido, afinal. Por isso o homem jamais conhecerá o universo por inteiro. Ainda por cima, vê as estrelas com milhares, milhões, bilhões de anos de atraso. Mas o que estou dizendo? Filosofias à parte, o que sobra é o copo cheio.

Mais um gole, a úlcera já começando a reclamar. Muito açúcar, disse o médico, assim não há corpo que agüente. Que agüentasse o que pudesse agüentar, então. Tudo se vai ao limite nessa vida, pois ela nos é dada para ser estragada. Acho que li isso em algum livro ou em um pára-choque de caminhão, não tenho certeza. E a mesma vida é levada, em sua maior parte, sem certezas, apenas com rotinas.

Passo a mão no estômago. Não vou parar de beber coca-cola porque um médico com diploma pendurado na parede e sorriso cansado me sugeriu um absurdo desses. Aliás, nem sei por que fui ao médico. Não gosto de médicos. São gente estranha, te mandam tomar quilos de pílulas e litros de xaropes e ainda cobram por isso. Não gosto de médicos. Entretanto Hipócrates devia ser um sujeito interessante. Penso eu.

Olhos as horas no relógio. Besteira olhar as horas no relógio. O tempo não passa. O mundo não saiu do lugar. Só não jogo o relógio fora porque me foi dado de presente por minha ex-mulher. Mas se a mulher é ex, por que não jogá-lo fora? Poderia ser um ex-relógio, sem problema. Tomo da coca-cola, solto um arroto discreto. Ninguém precisa escutar meu arroto. E se alguém escutasse? Tomo de novo da coca-cola. Amanhã eu me desfaço do relógio.

Final de tarde, eu tomando aqui uma coca-cola. Gosto de coca-cola. Não gosto de médicos. A minha úlcera que se agüente, que reclame, que faça uma denúncia por escrito e o escambau, eu tomo minha coca-cola. Leio meus livros tomando coca-cola. Tomo café da manhã com coca-cola. Não vejo nada grave numa coca-cola, os outros é que são paranóicos com essa história de acidez demais, açúcar demais, edulcorantes demais na coca-cola. Se fosse ruim, não se comprava e não se tomava coca-cola livremente nas ruas, nos restaurantes, nas lanchonetes, nos bares, nas praças, nas festas. Os homens estão ficando paranóicos de verdade. Cigarro faz mal, cerveja faz mal, atropelamentos fazem mal, bruscas quedas nas bolsas de valores fazem mal, o efeito estufa faz mal. Agora o médico deu para implicar com minha coca-cola. Não gosto de médicos. Não volto mais a esse médico. Está decidido. Jogo fora meu relógio, não retorno ao consultório e continuo tomando a minha coca-cola. E a úlcera continua reclamando.

O tempo e o mundo ainda estão aqui. O sol já era, minha coca-cola também. Peço outra. Copo cheio, até a boca. Bolhinhas de gás carbônico estourando na superfície, o aroma leve entrando nas narinas. Bom tomar minha coca-cola. Os médicos, os cientistas, os economistas que fiquem com o resto do espaço-tempo, eu só quero a minha coca-cola. Beber do líquido negro, não há nada melhor. Talvez sexo.

Sexo com goladas de coca-cola?

Êxtase, puro êxtase.