De quem é a culpa?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O SACO DO PAPAI NOEL (VERSÃO DE FABIO CASTRO)

Trilha Sonora: A cara do Brasil – Celso Viáfora e Vicente Barreto

O mês de dezembro é a época do ano em que as pessoas se superam no quesito falsidade. É claro que não são todas, mas a maioria desempenha muito bem essa habilidade. Tudo em nome do espírito natalino.
            Não, gente, não sou um daqueles pessimistas estilo segunda geração romântica. Mas é que não posso fechar os olhos (ou o saco) para esses detalhes que, digam-se de passagem, nem o Bom Velhinho aguenta em seu saco.
            Basta fazer uma pequena comparação nas relações interpessoais a cada mês do ano. Você irá constatar que dezembro é “o que há” de mais hipócrita.
            Vamos começar por fevereiro, porque todo mundo sabe que o ano só começa efetivamente aí. Nesse mês geralmente acontece o carnaval, com os bailes bombando e as pessoas se conhecendo.
- Oi, tudo bem? Me empresta teu isqueiro.
- Empresto. Você é linda. Eu te amo.
            Dizer que ama alguém já no primeiro encontro é a máxima desse mês. E o que é pior: muita gente ainda acredita.
            Em março, mês que se comemora o dia internacional da mulher, as roseiras penam. O dia 8 é uma data muito esperada para algumas.
- Parabéns, amor, pelo dia.
- Obrigada, querido, pelas rosas.
- Paixão, lava essa calça pra mim e põe meu jantar.
- Já, já minha razão.
O que é isso, gente, a mulher está presente todos os dias e merece ser cortejada. 
            Em abril, além do glorioso dia primeiro, há a Semana Santa e as pessoas começam a se programar.
            - Na Semana Santa irei para o Retiro.
            - Retiro Espiritual?
            - Que espiritual que nada! Retiro é nome de um balneário. Vou tomar todas.
            - Jesus te ama.
            Maio é para as noivas. É engraçado existir um mês do ano para as pessoas programarem o próprio enforcamento camuflado no dia mais feliz da vida. É aí que tudo começa, gente! Mas a mulheres desse mês estão em vantagem das do mês seguinte. Junho é o mês do santo casamenteiro. Santo Antônio fica sobrecarregado de tantos pedidos. O desespero é tanto que encenam até o casamento na roça. Sem noivado, claro. Talvez seja para aliviar a tensão.
            Julho é o mês que as pessoas dizem descansar. É o período de férias das crianças para desespero dos pais. É o mês da separação, porque aí os casais juram que não traem, que são sinceros, honestos e que estão morrendo de saudade dos filhos.
            Agosto é o mês que você pensa em sumir. Porque é só aniversário. Você já reparou na quantidade de leoninos e virginianos que você conhece? Ir à festa é ótimo, mas dar presente...
            Em Setembro, na semana da pátria, nem se fala. Tem gente que até se fantasia de verde e amarelo para ver o desfile militar sob um sol escaldante. Tudo tem limite!!!
            Outubro não! Outubro é a época do ano em que a verdade prevalece. Afinal, a “Nazica” tem poder...
            Em novembro há o ritual em que se homenageiam as pessoas que já se foram. Até aí muito justo. Mas há gente que nunca teve uma relação amigável com o finado e acaba exagerando nas mensagens póstumas.
            Já em dezembro, como disse antes, é o mês que as pessoas estão com a carga toda. É preciso ficar bem atento, porque há várias situações de manifestação.
            Imagine uma confraternização com seus colegas de trabalho (Sílvio Santos vem aí!). As pessoas – não são todas, reforço – que lhe deram rasteira durante o ano todo são as primeiras a lhe felicitar com uma carga emotiva – depois de umas cinco ou nove geladas – que chega assustar.
            - Olha! Eu desejo tudo de bom pra ti. Que você seja muito feliz, tenha muita paz e muita saúde...
            - Valeu! Obrigado!
            E elas chegam mesmo a chorar, se sentindo muito íntimas mesmo sem você nunca ter aberto a geladeira delas. E todo esse discurso vem acompanhado de beijos melados na mão, abraços desconcertantes e algumas gotas de suor de um dia de farra. Pior que isso só panetone com frutas cristalizadas.
            Festa de condomínio também merece destaque. Essas celebrações sempre são antecedidas por uma missa e culminam com uma farta ceia. Aqueles vizinhos que sequer lhe dão bom dia e passam o ano reparando no que você faz para fofocar com seus participam mais pela “boca livre” do que exatamente pela simbologia religiosa a que se propõe a festa.
            Mas como sou otimista, há reuniões que realmente valem a pena. Principalmente quando você está com seus amigos e amigas do peito.
            - Na nossa festinha vou com um pretinho básico.
            - Ê, menina, isso não vai dar problema?
            - Por quê daria? Eu paguei caro.
            - E você vai acender a que horas?
            - Acender!? Por quê eu queimaria meu vestido.
            - É disso que você está falando? Poxa!
            Janeiro é um mês sem vida. Ele consta no calendário só pra cumprir tabela. É o momento do ano em que as pessoas dizem ter renovado suas esperanças e expectativas.
            No primeiro dia de janeiro um casal conversa.
            - Amor, o que vamos almoçar hoje?
            - O que sobrou da ceia de ontem.
            Passa logo, janeiro.
                                                 (Fabio Castro)