De quem é a culpa?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

João e o mundo que estava errado

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: O Último Dia (Paulinho Moska), Today Is A Good Day To Die (Manowar)



João olhou para o céu e não achou nada de interessante, nenhuma ave, nenhuma nuvem, avião nenhum, apenas aquele azul todo sem saber o que fazer lá em cima. Uma chatice o céu daquele jeito, pensou chupando o gomo de uma laranja. O que se pode fazer num dia sem nuvens e sem aves planando? O mundo estava estranho.
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Uma calmaria imensa. Ruídos longínquos vez em quando, porém o resto não se mexia, coisa alguma se quebrava, nada caía, ninguém se matava, não havia brigas, gritos, risadas. Terminou o gomo da laranja e resolveu caminhar. Que mundo era aquele cheio de paz, cheio de silêncio, ele não sabia, nunca tinha ouvido falar numa coisa assim. Sentia medo, porque o mundo não fazia sentido. Os únicos momentos de alívio eram quando os ruídos longínquos chegavam a seus ouvidos. Logo depois tudo se transformava numa quietude assustadora. Não sabia para onde ir.
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Caminhou e não encontrava ninguém. Sem nuvens, sem aves, sem aviões, nem pessoas, nem cães, nem autos. O mundo estava vazio. O mundo estava errado. Não gostava disso. Caminhou, pegou outro gomo de laranja, chupou, pensava. A cada passo uma angústia crescia mais e mais. Cadê as coisas, cadê tudo? Olhava de um lado para outro, não divisava nada comum. Decidiu ir em busca dos ruídos distantes. Mas de onde eles vinham, não fazia idéia. Para que lado seguir, não se decidia. O que eram os tais ruídos, não sabia.
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Procurou a esmo, pôs-se a correr para lá e para cá e para acolá. Pista nenhuma. O pânico tomara o lugar da angústia. O mundo vazio, não podia ser que o mundo estivesse vazio, deviam ter-lhe avisado de que o mundo seria evacuado naquele dia, ele teria se precavido contra aquela fatalidade. Não era justo, aquele silêncio todo não era justo com João. Sempre procurara ser um homem correto, cumpridor de seus deveres, respeitador dos diretos dos outros, por que então só ele deveria ficar andando sem rumo, tendo por companheira uma única laranja que se acabava aos poucos em suas mãos?
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Não era justo, repetia. Começou a chorar. Levantou os olhos novamente para o céu. Apenas azul, um azul que o fazia tremer. Tinha de se esconder, mas se esconder onde? De quem? Do silêncio, do vazio? O mundo era por toda parte, não havia canto algum seguro. Chorou ainda mais. Ruídos outra vez, agora mais distantes, quase sumindo. Parou de correr, não havia sentido em correr. Ajoelhou-se, deixou a laranja rolar pelo chão. Não queria mais saber de laranjas.
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Um urubu o espiava de cima de um muro. João o avistou e gritou de felicidade. A ave envergou as asas e manteve-se naquela posição, olhar sério. João esperou, afinal ele não estava sozinho, concluiu com um sorriso largo. Logo ele viu outros carniceiros chegarem e pousarem ao lado do primeiro. Bateu palmas, gargalhou, o mundo não estava de todo errado. Alguns urubus levantaram as asas, outros mantinham o pescoço abaixado em direção ao homem que dançava feito bobo. Espiavam.