De quem é a culpa?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Discipulus

            Trilha Sonora: Tente outra vez – Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta.

O conceito mais geral que se tem de aluno é este que o define como “aquele que teve ou tem alguém por mestre”, e está lá nos mais famosos dicionários de Língua Portuguesa. Mas, definitivamente, alguns não são nada disso e, o que é pior, não sabem dizer pra que vieram.
            Tenho observado ultimamente o comportamento deles, principalmente os da educação básica, e isso me deixou um tanto confuso. Cheguei a pensar se era mesmo isso que eu queria para mim. Quase entrei em depressão. Mas se eu não segurar essa onda, quem é que vai? Os técnicos? Faz-me rir...
            Não quero nem vou discutir aqui tendências pedagógicas, educacionais, ou coisas afins. Mas tenho certeza que Paulo Freire, se estivesse vivo, mudaria seus conceitos ou daria boas gargalhadas ao ler estes relatos. De ódio, claro.
            Alguns profissionais da educação têm como máxima afirmar que a escola é a extensão da casa dos alunos. O problema é que os pupilos levam tão a sério isso que tiram, por conta própria, as conclusões.
- Professor, a escola não e extensão da nossa casa?
- É. Mas... Tira o pé da cadeira, menino, e para de cuspir no chão.
- Posso ir no banheiro dá uma cagada?
- o quê?
- brigaduu!!!
- Bem, como ia dizendo...
Trililimmmm!!!!!!!!
- Ôba!! Ei, fessô, acabou a aula. Hahaha...
Via de regra, sempre utilizo os nomes dos alunos para exemplificar qualquer assunto no quadro magnético e escolho cada um deles aleatoriamente na lista de chamada na esperança de que com isso eles interajam mais. E acaba dando certo. Dessa vez, a escolhida foi a Estéfani.
- Não fessô, não é assim. É com “ph”, dois “enes” e “y”: Estephanny!
- Mas não é assim que consta na frequência.
Trililimmmm!!!!!!!!
- Ôba!! Ei, fessô, terminou! Hahaha...
Não era bem essa a interação que eu queria. E outra coisa, eu nunca entendi os nomes que são dados a essas criaturas: Jhonnatan, Weverson, Kennedy, etc.
Outro dia, participei de uma daquelas intermináveis reuniões pedagógicas onde se discute muito e pouco se age. A pauta do encontro era evasão escolar. Eu queria discutir sobre a invasão escolar. Não, porque a impressão que eu tenho é que estou decodificando mensagens com alienígenas.
Final do mês de junho, pensei em trabalhar sobre a Copa do Mundo como tema:
- Quantas vezes o Brasil foi campeão mundial? – Perguntei.
- Onze! – Respondeu um.
- Oito! – Respondeu outro.
Achei melhor mudar de assunto. Uma pessoa que não sabe que o Brasil é pentacampeão não pode ser desse planeta. Enveredei para literatura, sempre dá certo e os moleques acabam gostando.
- Vocês já leram alguma coisa de Florbela Espanca?
- Não, fessô, não gostamos de livro de violência.
- Ai...
Trililimmmm!!!!!!!!
- Uhuuuu!!!!!! Acabou, fessô! Hahaha...
Tenho observado também adoração que eles têm por pontos. É uma obsessão compulsiva impressionante!  Não é possível passar qualquer atividade extraclasse que não tenha o valor da moeda corrente deles.
- Professor, faz um trabalho.
- Não. Quem faz trabalho é macumbeiro.
- Então me dê três pontos.
- Onde você quer? Na testa?
Vamos lá, gente, terminando...
Trililimmmm!!!!!!!!
- Hehehe... fessô, fessô...
Quando chega dezembro, você acredita que nem tudo está perdido e que, entre tantos atropelos, você conseguiu chegar ao fim do ano com a sensação de que algo ficou, de que eles evoluíram e que todo seu esforço não foi em vão, não foi ignorado. No último dia de aula, passo pelo corredor da escola e encontro uma aluna:
- Ei, Estephanny, passa lá na minha sala pra pegar sua nota!
- Tá! O senhor é professor de que mesmo?
Trililimmmm!!!!!!!!
Dei uma rasteira na garota e saí dando cambalhotas...
- Uhuuuuu!!!! ACABOU! ACABOU! DEUS É MAIS! DEUS É MAIS!!!!!
Recompus a postura, peguei meu telefone e marquei algumas sessões de psicanálise.

                                                           (Por Fabio Castro)