De quem é a culpa?

sábado, 26 de março de 2011

Leave us kids alone

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: I Don´t Wanna Grow Up (Tom Waits), Another Brick In The Wall (Pink Floyd).


— atenção, crianças.
Vaias.
— crianças, o que é isso?
— hey, teacher, leave us kids alone.
— como é?
— velha escrota.
— você, pra sala do diretor.
Vaias.
— todos vocês.
— reforma educacional já, galera.
— crianças, onde aprenderam isso?
— a gente sabe das coisas, fessora.
— é, a gente é bão, fessora.
— é bom, e não bão.
— então tá bão.
— me ponham no chão!
Vivas.
— reforma já.
— me larga.
— larga o Joãozinho.
— ah,tinha que ser o Joãozinho.
— a gente detesta suas piadas, sabia?
— é, a gente detesta.
— a gente não acha que você nos representa fidedignamente.
— fi o quê?
— cala a boca.
— ai!
— crianças, por favor.
— você também, sua velha escrota.
— olha os modos!
Vivas.
— issoaê.
— vai, Joãozinho, conta uma piada.
— a fessora pediu pra que cada aluno formasse uma frase com uma palavra que ela indicaria, então
— ah, essa é escrota.
— afinal de contas, o que é isso, escroto?
— quieto, soldado.
— soldado?
— sentido!
— cumé?
— ah, droga, que pobreza.
— socorro!
— fessora, é por um bem maior.
— vocês enlouqueceram!
Vaias e vivas.
— não, não ponham fogo nos livros!
— issoaê.
Vivas.
— anarquia! anarquia!
— vamos montar barricadas.
— o que é isso, barricada?
— tu é burro mesmo, hein!
— tô com fome.
— não tem mais hora do recreio.
— issoaê.
— quero ir no banheiro.
— vai ter que esperar, o banheiro fica do outro lado do corredor, e a gente entrou em guerra.
— quero ir pra casa.
— galera, precisamos nos unir por algo maior que a fome ou a vontade de fazer pipi. entendido?
— há-há-há, ele falou pipi.
— Joãozinho, essa foi a tua última risada. você vai servir de exemplo.
— hein?
— cumé?
— exemplo! será que alguém aqui prestava atenção nas aulas?
— ele fala bonito, né?
— quieto, soldado!
— que tipo de exemplo?
— o do tipo de sacrifício.
— crianças, por favor!
— sabe o que é? minha mãe vai ficar preocupada se eu não aparecer na frente da escola hoje.
— uma pena, mas já está decidido.
— crianças, eu imploro!
— alguém amordaça a velha!
— hummgrrrfff-hhhuuuummmgrfgrf!
— issoaê.
Vivas.
— depois vai ser a senhora.
— juro que não conto mais piada.
— tarde demais, Jão. abram a janela!
— não, por favor, por favor!
— essa não, ele tá mijando na calça.
— juro que não falo mais nada!
— já era.
— mamãe não vai gostar nada disso. vai me deixar de castigo.
— lembre que é por uma boa causa.
— é.
— precisamos de um exemplo, e calhou de ser você.
— um piadista infame a menos na Terra.
— é.
— quieto, soldado!
— mas que soldado?
— ssshhhhhh!
— olha só, já tá todo fedendo de xixi.
— pode levantar.
— não!
— vamos lá, vamos lá!
— pela reforma!
— pela reforma!
— lá vem o diretor!
— joga ele logo!
— soldados, as barricadas na porta.
— mas que soldados?
Diretor na porta.
— o que está acontecendo por aqui?
— hummmm-hhhhrrruuhhmmmmhuhhhhhmmmmgrgrgrgf!
— professora, mas o que é isso?
— we don´t need no education.
— mas hein?
— e ainda se dizem educadores, pelamor!
— muito bem, vamos parar já com isso. vou chamar seus pais agora mesmo.
— pega! pega!
Rebuliço.
— me larguem!
— pela causa!
— issoaê!
Vivas.
Diretor deitado de bruços no chão, braços contra as costas.
— essa brincadeira já passou dos limites.
— não é brincadeira.
— é.
— é ou não é brincadeira?
— não é. soldado, cale-se!
— que história é essa de soldado?
— por favor, não!
— e o Joãzinho, por que não tá lá embaixo?
— ah, é.
— não!
— sim.
Joãozinho cai gritando.
Vivas.
Joãozinho estatelado no pátio.
Rebuliço.
— reforma já!
— hhhuuummmggggrrrrrhhhhh!
— agora a fessora.
— socorro!
— amordacem o diretor também.
— vamos conversar.
— velho escroto.
— mas que menino mal-educado.
— a gente sabe das coisas, diretor.
— é.
— o senhor pensa que sabe.
— vocês são apenas crianças!
— apenas crianças?
— ele não tem respeito pela gente.
— ele nunca vai entender a causa.
— mas que causa, diabos?
— olha a boca, soldado!
— ah, já tô cansado desse papo de soldado, viu?
— a gente precisa de ordem por aqui!
— sem essa. tô indo embora.
— soldado, isso é incontinência!
— eu tô com fome, isso sim.
— soldado, ordem!
— papai disse que ia me levar pro cinema saindo daqui, deve já estar me esperando lá fora.
— ordem, que diabos!
— olha a boca.
Vaias.
— menino, me escuta.
— silêncio, diretor. não tá vendo que a gente tá numa crise de movimento por aqui? um pouco mais de respeito.
— issoaê.
— é.
— fui. dá licença. pode me passar minha mochila?
— volte aqui, soldado.
— seus pais vão receber notificações disso tudo, estão me ouvindo?
— fechem a boca dele.
— ggggrgrgggggghhhhhhhhfffff!
— agora a fessora. pra janela, vamos.
Rebuliço.
— soldado, não se atreva a abrir a porta!
— prefiro ir pro cinema com meu papai. vai ter hambúrguer, refrigerante e sorvete.
Silêncio.
— quem sabe um chocolate também.
Silêncio.
— pensando bem, eu também tô com fome.
— é.
— é.
— o que há com vocês? ordem!
Rebuliço.
Professora no parapeito da janela.
Diretor suando muito.
— nada de comida.
Vaias.
— não agora, depois! depois!
Vaias.
— bora embora?
— bora.
Vivas.
— e a causa?
— que causa, papai do céu?
— será que mamãe me leva pro cinema agora também?
— vou perguntar pra minha.
— quem sabe eu peço uma pizza pro almoço, né? ia ser legal!
Vivas.
Rebuliço.
— desculpa aê, fessora.
— é, desculpa aê também, diretor.
— não podem fazer isso! e a reforma?
— ah, desencana.
— issoaê.
— Jão, foi mal! tá ouvindo? foi mal!
— preciso ir no banheiro antes.
— qual é o filme que tá passando, hein?