De quem é a culpa?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

"NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR" (Por Fabio Castro)

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.


Trilha Sonora: “Todo amor que houver nessa vida” (Frejat / Cazuza) & “Ne me quitte pas” (Jacques Brel – Interpretada por Maysa).

Foi isso, não foi?
Tudo se fez naquela noite.
O último local,
O último gole,
A última hora
E a mesma vontade de ir.
Mas um olhar, apenas num único olhar
Encontramos tempo para mais um drink.
O mesmo drink,
A mesma sede,
O mesmo copo – afinal, temos o mesmo vício –
O encontro das salivas,
E uma outra vontade de ir.
Até que fomos!
Foi isso, não foi?
De repente éramos nó,
Éramos pó de nós mesmos,
Éramos amantes,
Éramos vibrantes,
Éramos melados,
Éramos significante e significado,
Éramos um par correlato.
Não hesitamos em nos ligar em uma cama.
Às vezes redonda,
Às vezes quadrada,
Às vezes retangular,
Às vezes molhada,
Às vezes metálica,
Às vezes na vertical...
Estávamos profundamente ligados
Pelo corpo,
Pelo sexo,
Pelos lábios,
Pelos seios,
Pelos pelos molhados
Em nós mesmos...
Nos assentamos em nossos corpos,
Loteando-os,
Semeando-os,
Delimitando-os,
Descobrindo-os,
Até tornarmos proprietários deles.
Levamos tempo nisso, muito tempo!
Foi isso, não foi?
Mas o tempo nos convenceu
Que precisávamos de mais tempo.
E conseguimos, não foi?
Mergulhamos em busca de dias,
Horas,
Minutos,
Segundos, que fossem.
É o tal Carpe Diem...
E assim nos permitimos,
Submergimos,
Esquecemos,
Utilizávamos todo o tempo que tínhamos.
Devíamos ao tempo!
Porque era isso que queríamos,
E por isso nos esquecemos...
Foi isso, não foi?
Esquecemos que já não tínhamos tempo
Para as pessoas,
Para outro olhar,
Para mais uma bebida,
Para o último drink,
Aquele que nos ressignifica,
Que nos prepara para esse
E futuros mergulhos.
Banalizamos tudo.
Simplificamos tudo.
Viramos “lugar-comum”.
Mas pouco nos importávamos.
Era isso que queríamos!
E juntos, dizíamos:
- Não custa nada! Não vai custar nada!
Era sempre assim.
Nos comportávamos sempre assim.
Porque para nós nada custava nada.
Até sangrarmos muito!
Foi isso, não foi?
Era sempre assim!
Mergulhávamos até sangrarmos.
Pois só após sangrarmos,
É que percebíamos o quanto doeu.

(Por Fabio Castro)