De quem é a culpa?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

NAQUELA NOITE DE LIBERDADE

(Trilha sonora: silêncio puro e simples)

Naquela noite em que tu me despiste
Da vergonha e das travas,
Do medo da lava,
Do pudor de mim mesmo
E de minhas memórias passadas,

Naquela noite
A cidade foi nosso quarto!
E cobrimos todos os vidros
Com um misto
de transpiração e orvalho.

Naqueles vidros, amor,
desenhamos nossos jogos
e rimos de nossos empates!
Naqueles vidros, amor,
Rascunhamos nosso futuro
e riscamos a dedo nossos nomes,
assinando nossa existência.

Naquela noite que você se fez turba
E queimou minhas Bastilhas
E implodiu meus gulags
E enforcou os meus juízes
E me apresentou o oxigênio,

Naquela noite
a rua foi nossa cama!
E cada luz de poste
Cada farol de carro
Cada luz de patrulha,

Aquelas luzes, amor,
eram fracas diante
do nosso olhar de liberdade!
Aquelas luzes, amor,
eram tímidas testemunhas
De uma nova soberania,
De um novo poder nascente!

Naquela noite, amor,
Eu, desterrado,
Migrante, exilado,
Finalmente aportei,
Pisei terra firme,
Caminhei esperançoso
Em minha vida nova,
Em minha outra língua,
Conhecendo os sinais
de um novo país.

Naquela noite, amor,
Passaste a ser
Sob forma de mulher
Os campos abertos
As ruas da cidade
As estradas livres
As praças arborizadas
As dunas de areia
As datas e declarações
De Independência.

(Renato Gimenes)