De quem é a culpa?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A arte de ser sincero

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Eu Não Quero Mais (Velhas Virgens), Balada Para Mulher Nenhuma (Velhas Virgens).


Não, querida: eu te odeio. É muito simples, basta pensar que dois mais dois são quatro, é bem claro. Porque sou idiota, talvez. Porque eu tenho razão em te odiar, talvez. Porque o ódio não precisa de motivos muito sérios e profundos para mostrar a face. Porque vivo de mau humor. É mais ou menos tudo isso junto.

Sim, querida: eu te odeio. Há muito tempo que te odeio. Ressentimento? Deixa eu ver: não. Sim, pode me presentear com um tapa, não me importo. Mas é engraçado pois, quando eu vivo calado, tu reclamas porque não digo o que penso ou o que sinto, e quando resolvo me abrir e assumir meu lado sincero, sou tido como monstro insensível e calhorda. O mundo definitivamente não é feito de sinceridades. Então odeio e também te odeio. Aqui está a outra face.

Por favor, não chora. Odeio quando choras. É tudo tão ridículo e entediante, as mesmas frases bestas e cheias de sentimentalismo tradicional. Que papelão. Tome esse lenço, pode assoar o nariz, não seja polida. Nessas horas a coisa mais odiosa é a polidez, querida. Não, pode ficar com ele, leva contigo, eu não vou precisar. Mas perceba que, afora o ódio, tudo continua como antes, é apenas um modo franco de vida que pretendo levar contigo, se quiseres assim. Não, não queres, eu já suspeitava. A verdade é sufocante nessa relação. Estou ouvindo, querida. As minhas coisas? Mas a casa é minha, esqueceste? És tu quem deve sair daqui, se é que realmente queres sair daqui. Eu não disse que precisavas ir embora, não ponha palavras na minha boca. Sim, preferes desse jeito, é melhor para nós dois. Isso és tu quem diz, por mim tanto faz. Não me olha assim, continuo sendo sincero. Afinal, que mal há em ser sincero? Ah, não é necessário ser tão sincero, compreendo. É que as pessoas são treinadas para serem estúpidas e cegas. Minha humilde opinião. Sim, eu também, querida, eu também sou estúpido e cego.

Tens certeza de que queres partir? Pode ser amanhã, então, não te apresses. Tudo bem, queres te ver o mais longe possível de mim, e o quanto antes melhor. Pois que assim seja. Não te preocupa comigo, tudo vai ficar bem. Sim, pode levar essa mala, eu a usaria para ir à praia nas férias, mas compro outra depois. Para de chorar, mas que deprimente isso, querida. Tu és tão bonita, tua maquiagem fica borrada. Eu sou o culpado, sei. Bom, nessas horas alguém tem de levar a culpa sempre, não é mesmo? Aquele quadro é teu, estes discos também. Pronto, deixa eu ajudar a fechar a mala. Está bem, já vi que não precisas de ajuda, muito bom. Vais pra onde? Não me interessa? Hum-hum. Quer uma carona até algum lugar? Está escurecendo, eu me preocupo contigo. Eu sei o que acabei de dizer, e repito: eu te odeio, sim, te odeio. Mas me preocupo contigo. É difícil de entender e aceitar? É como também acabei de dizer: as pessoas são treinadas para — está certo, calo minha boca.

Posso te telefonar? Não, não posso me esquecer de ti, querida. Pelo menos não de uma hora para outra. Sabes que as coisas não funcionam assim. Está certo, não telefono. Tens certeza da carona? Então até amanhã. Até nunca mais? Não sejas precipitada. Não queres lavar o rosto para tirar essa maquiagem borrada? Tudo bem, não está mais aqui quem falou. Até mais, querida. É pena que tu não consigas aceitar minha sinceridade, mas eu também não posso te obrigar a nada. Toma cuidado. Tens dinheiro na bolsa? Não, querida, o inferno é quente demais para mim, sabes que eu jamais iria para lá por espontânea vontade. Olha o degrau. Vou sentir tua falta, mas não somos escravos um do outro. Manda notícias. Se quiser conversar melhor daqui a um tempo, estarei sempre te esperando. Só me faz um favor: não bate a porta, ela está com um problema sério na fechadura e — é, bateu.