De quem é a culpa?

sábado, 31 de dezembro de 2011

UMA PÁGINA (de Marcos Salvatore)

Marcos Sávio Souza Leal
É fim de ano, e ano que vem é amanhã. Por isso, quero atacar de saudosista e dizer que ela teclava comigo todas as noites. Nos conhecemos numa dessas madrugadas da vida e no dia seguinte fomos para um Motel, insones. O sono era tanto que não transamos logo de cara, primeiro dormimos, depois, é claro que a gente caiu na cornada.
Era meiga, atenciosa, divertida, tiradora de onda genial. Queria muito que todos vocês tivessem conhecido sua beleza brejeira. Nunca comprava cigarro, roubava dos meus, sem saber que eu adorava isso. Suas mensagens pelo celular me fascinavam. No hospital, antes de chorarmos abraçados, ela não me disse que estava com medo:
- “2010 vai começar com dez anos de atraso, meu querido, você vai ver, mas, em todo caso, marque na folhinha que eu te amo.”
Numa quarta-feira de Falu X Flu, eu, no maior “scapole, bole, bole”; olha o que ela me manda: - “Psica, psica, psica!!!!”
Falo mais dela depois, porque me lembrei agora do Seu Hamilton. Vigia da Praça Amazonas. Todas as sextas-feiras me pedia para dar um tempo na bebida e no fumo:
- “Essa diversão ‘inda’ vai te matar!”
Mal sabia ele que não era diversão, que não chegava nem perto disso. Era um pouco do bom e velho masoquismo “período bíblico”, e dos lutos mais subjetivos (a vocação do óbvio é ser a grande novidade, pena que ele não toque uma nota, assim como o Sid Vicious).
Uma vez, o Mirtola (r de Jundiaí) prometeu que tomaria uns tragos comigo se eu decidisse nunca mais beber. Seria meu último fogo e seu primeiro e último porre. Toda vez que eu contava alguma “potoca” das madrugadas e madrugadas de vadiagem da vida ele se virava, e dava aquela risadinha jocosa seguida de: - “Hum, ‘dá mentira’!”
“Dá mentira”, vejam só... (peraí, que eu vou dar ma respirada, ou não vai rolar escrever).
Seu Hamilton me salvou de ser surrado numa noite em que saí do The Beatles completamente bêbado e louco de amor por uma certa moça que hoje é quase uma irmã para mim.
- “Ô, tio. Valeu pela ajuda, mas eu dava conta daqueles panacas.”
- “Eh, eh, eh. Dá mentira! Tu ia era levar o destempero, sumano. Toma vergonha, rapaz!”
Ele era ótimo. Tinha sessenta anos e estava sempre apaixonado por alguma manicure. Sempre com aquela mania de ser fofoqueiro (conhecia o Jurunas inteiro), era padrinho de não sei quantos afilhados e ao mesmo tempo católico, espírita e macumbeiro.
- “Puta só, ladrão só!” – ele dizia. “De uma mulher se faz uma puta e de uma puta se faz uma mulher.”
Nunca tentei investigar suas verdades, até deveria, mas, nem precisei. 2011 se encarregou de desfragmentar meus valores: Em novembro de 2011 fui assaltado e agredido violentamente. Era madrugada, três e pouco da manhã. Meu atrevimento piscianíco perdera sua hegemonia. E, enquanto apanhava, pensava na proposta do Seu “Mirtola” (sotaque paulista, de Jundiaí) de tomar a última dose. A ressaca e os hematomas morais se dissiparam em uma semana. Vou atrás do velho e descubro que Seu Mirtola havia sido assassinado por engano de um policial. Ele nunca me disse que estava com medo. Aliás, medo é o que eu sinto toda vez que ligo a TV, porque o Brasil anda mal pra caralho.
Quero acreditar que aquela pedicure da feirinha, cheia de corpo, tenha topado dar um trato no tio. Um dia antes, me disseram, ele tinha ido no barbeiro da galeria Presidente Vargas e feito barba, cabelo e bigode no capricho.
Eu não vou ficar aqui dando detalhes, mas a morte do meu amigo me ligou a todas as mortes não choradas por mim; ao todo: cinco, de dois anos para cá. Sempre achei choradeira “um boi”, perda de tempo. Também nunca fui nada atencioso a datas importantes. Porém, preciso abrir uma exceção para 2011, que foi foda.
Abro mão de falar de saudade para perceber esta página: como sai do lugar, como mudei de assunto. Uma gafe necessária, de uma forma ou de outra. São apenas confissões de um anti herói.
Talvez um dia eu fale dessa princesa e de como saíamos para cheirar o vento juntos. Mas, por enquanto, dou meu primeiro passo em direção a 2012 sem pedir nada em troca, apenas agradecendo, e esperando acordar amanhã e, pela primeira vez na vida, não torcer para que o ano termine depressa. É isso, aí.