De quem é a culpa?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Siqueira Mendes, esquina com Praça do Carmo - 07/07/2011

(Trilha sonora: todos os ruídos da Praça do Carmo; Chico Buarque; Beatles; chorinhos variados.)

Para: Marcos Salvatore, Fábio Castro, Marcelo Morgado. E corrigindo injustiças: para Sâmia Barbosa e Marlon Vilhena.

Quanto já vistes, fachada
quanto já testemunhastes
em tuas cicatrizes de limo,
em tuas emendas,
em tuas rachaduras
em tuas camadas de tinta
lavada de chuva,
ressequidas de sol?

O que vistes?
Vidas partidas
descontinuadas
como pipas
presas às árvores?

Mão nos ombros
dúbias
como carinhos
como ataques
ou como afagos
amaros
avessos
acasos?

Luzes de postes
redobradas
reluzidas
em pelos dourados
em olhos de mulher
que, quando olham
para o nada
miram um alvo?

E chapéus
e chapéus
e chapéus
fedoras,
palhinhas
marajoaras
e panamás
tão inatuais
como a arquitetura
que te cerca?

E rios de risos
e rios de lágrimas
e rios de urina
e suor
e rios de raios
de sol
de sal
e enfim, de água -
desembocando
em afluentes
de tempo?

E enquanto
eu te indago
tu me indagas
e nos perguntamos
sobre o limite
de nossos rostos
de nossos interiores
e de nossos fantasmas...

Enquanto eu te habito
tu me habitas,
e nos fazemos sala
e nos fazemos quarto
e nos fazemos alma
de piso de madeira
de pele de madeira
de piso de pele
e cozinha
de vento e de palavra
reatando
linhas partidas
de pipas
enquanto entram luzes
por nossas janelas.



Renato Gimenes