De quem é a culpa?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O CARTEIRO - Parte II

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Anger Rising (Jerry Cantrell).


         Com dificuldade levaram o corpo empacotado escada de emergência abaixo. M. ficara com a parte de cima, cabeça e tronco, já que era a mais pesada, facilitando o trabalho para C., que precisava se esforçar um pouco além da conta devido à perna que mancava. M. não perguntara nada a respeito daquilo, pois sabia que a chance de receber a resposta verdadeira da boca do parceiro era nenhuma.
         Verdade nunca era algo bem vindo naquele tipo de negócio.
         Chegaram ao andar térreo, caminharam com o pacote por mais alguns metros até virarem à direita em um corredor curto e acessaram outra escada que dava acesso ao subsolo. Ambos estavam ofegantes com o exercício forçado, porém tinham de seguir rapidamente com o plano. Havia prazo para a entrega. M. decididamente já não queria saber de prazos e defuntos, não ser mais uma espécie mórbida de carteiro, sem ao menos tomar conhecimento do que faziam com tantos corpos, e por isso iria se aposentar após aquela noite. O carteiro das entregas bizarras. Estava cansado demais.
         C. abriu o porta-malas, com o fundo forrado por uma grande lona plástica, de um carro acinzentado com todos os vidros escurecidos. Voltou e, juntos, mais uma vez levantaram a carga pesada no tapete para acomodá-la no automóvel. Entraram no veículo e o sujeito baixo deu a partida. O motor movia as engrenagens a um nível muito leve de ruído, quase inaudível. Dirigiu pela rampa de saída do condomínio, passando ao lado da portaria. M. não avistou o porteiro em canto nenhum, e ficou imaginando se havia uma poça de sangue também se esparramando pelo chão atrás de alguma porta por ali. C. acionou o portão da garagem com um controle remoto pendurado no quebra-sol acima do volante. Ganharam a rua com os faróis desligados, entretanto com o limpador do para-brisa funcionando. Ainda chovia levemente.
         Nenhum dos dois puxou assunto por um bom tempo. Embora fosse um trabalho ao qual estivessem acostumados, era sempre estranho levar um defunto para passear. C. não demonstrava qualquer tipo de sentimento por aquilo, de fato aparentava um total alheamento com toda a situação. M. puxou outro cigarro amassado do bolso da camisa e acendeu-o sem pedir permissão. O parceiro o olhou ligeiramente com o canto dos olhos, porém continuou silencioso na condução.
         Alguns minutos depois rodando pela noite quase deserta da cidade, um carro acinzentado com vidros escurecidos chegou ao cais do porto, onde estacionou perto do terceiro armazém de carga e descarga de navios, ao lado da calçada da avenida externa que margeava o amplo terreno de responsabilidade da alfândega marítima. C. mantivera os faróis desligados por todo o percurso, e só agora fazia três sinais curtos e um longo com eles, outro código de identificação previamente combinado.
         agora esperamos.
         M. não havia perguntado nada. A necessidade de expressar algo absolutamente óbvio só podia significar que, afinal, C. sentia-se incomodado ou impaciente, embora não quisesse explicitar isso para um desconhecido como ele. Um pequeno deslize, pensou M. enquanto perscrutava a escuridão através das gotas que constantemente caíam sobre o para-brisa.
         Alguns segundos mais e viram um pequeno portão ser aberto algumas dezenas de metros à frente. Era a deixa para que entrassem com o veículo no cais. Avançaram lentamente, passaram pela entrada, onde M. notou não haver ninguém visível, e estacionaram logo adiante, sob o teto de metal do que parecia ser uma varanda bastante comprida, construída ao longo do armazém. O barulho da chuva era bem mais alto ali embaixo, mesmo assim puderam nitidamente ouvir uma voz sobressair-se do fundo escuro da construção.
         podem sair. não liguem os faróis. deixem a chave no contato.
         Ambos desceram do automóvel, fechando as portas e procurando distinguir algum vulto no meio do breu. Essa merda não vale a pena, na verdade nunca valeu, pensou M., mas permaneceu parado sem abrir a boca, apenas forçando a visão. Sabia que não podia olhar para trás, pois qualquer movimento seria interpretado como altamente suspeito para aquelas pessoas. Não era a primeira vez que entrava ali, mas nunca conseguira ver o rosto de nenhum deles, e sequer tinha ideia de quantos eram ao todo. O que tinha certeza era que, sempre um ou dois minutos após a entrega, sua conta corrente no banco ganhava vários zeros a mais no saldo total. Uns imbecis detalhistas, contudo pontuais no pagamento.
         entrem aqui.
         Novamente os dois obedeceram sem falar nada. Enquanto davam passadas vagarosamente em direção à voz, ouviram alguém abrir e bater a porta do carro, e logo em seguida abrirem o porta-malas. M. não pôde entender o que ouvira depois disso, mas pareciam grunhidos rápidos de pura excitação animal. Este detalhe era novo, mas não exatamente interessante. Preferiu fingir por um momento que tudo no mundo a seu redor acontecia de modo perfeitamente normal.
         aí está bom.
         Pararam a caminhada, e foi quando receberam diretamente nos olhos dois fachos de luzes muito potentes e fluorescentes de lanternas. M. fechou instintivamente as pálpebras, porém manteve-se absolutamente quieto. C. agiu com maior surpresa, levantando uma das mãos contra o rosto e virando-o para o lado. Foi um deslize muito pior do que o anterior, pois ganhou um murro bem acima da boca do estômago, fazendo com que expelisse todo o ar dos pulmões e dobrasse sobre si mesmo para a frente, caindo de joelhos no chão de terra.
         esse aqui, pelo visto, ainda não se acostumou à nossa recepção.
         Outra voz, desta vez ao lado do companheiro caído. M. ainda tinha os olhos cerrados, mas ouviu, pela movimentação, que alguém ajudava o outro a se levantar.
         pedimos desculpas, mas temos que nos precaver. vocês entendem.
         Era exigência deles que sempre os profissionais agissem em dupla e fizessem a entrega juntos, mesmo um sem jamais ter visto o outro antes na vida. M. já se acostumara à recepção, bem como com os erros dos diferentes parceiros. Mas algo lhe dizia para tomar cuidado naquele momento. Existia uma sensação estranha no ar, uma sensação que não fazia parte do hábito.

(CONTINUA...)