De quem é a culpa?

terça-feira, 21 de junho de 2011

Criado Mudo nº 07 (de Marcos Salvatore)

by Earl Hammie



... ou vincular



vendem-se boas intenções!
atividades passivas em bom estado
desapropriadas pela violência na televisão
compre absorvente, cerveja, sabão!

meu nome não é forte.
houve um tempo em que achei que vingava – mas não vinga.
pompoarismos depois,
guardo os aforismos genitais.

só não me chame de “bem”,
nem de “amor”
não tente se fazer de coitada
novamente, não

amanhã tem sábado
vamos lavar a boca, meu bem
um dia qualquer pra se viver
em rimas contraceptivas

ninguém para impressionar com palavras suicidas
afinadoras viciadas do piano pessoal
procuram um caminho claro de sol
projetos engavetados

férias,
feriados,
dias patrocinados
por michê barato

sinto a luta do meu corpo
tentando eliminar as impurezas
da noite anterior
posterior a esperança de satisfação motora

histórias de admiração mercenária:
contêm cenas de nudez capciosa
e o sexo frágil da “carreira”
onde o tesão descansa em paz

nem ódio nem amor; conexões
bandas largas de entendimento
compreensão, atenção,
incenso para insensíveis

estranho fungo esse negócio
e é sempre extrema qualquer busca
e acredito que todas as buscas são extremas
difícil tocar sem poder ver, então a gente cheira

algo termina sem ter começado
e já não me assusta
aprendeu-me, a minha fumaça
no banco de trás de uma van

lá pelas três da manhã

sem grandes pretensões
sem carnaval
sem árvores de natal
só o balancê, um rolê de autossugestão

um espelho que muito ou nada reflete
reflexo na água... lagoa envidraçada
produzida e arranjada tatuagem
de canais fora do ar

mais uma banda acaba
sem ter se apresentado
por jamais ter aprendido
a se ouvir, eu duvido

faço questão de um propósito
nem aqui, nem lá
gente, não ser humano
não transo extra por glória

como perder a memória?
como não lembrar do presente,
do passado, do futuro,
das alucinações?

quando tudo é levado ao cansaço
e damos cabo do amor que não tivemos
tudo o que é coerente se dilui
fica a razão num sono profundo de cura

o sono e um “beijo” de boa noite,
de perdão coloquial, de língua presa
é um mergulho em praias verdadeiras
um coração: virgens de alma - é o que lemos e somos

bom, pelo menos tentamos
depois emprestamos, cobramos
perdemos os vincos
a hora de dormir

um desejo triste, masturbador senil
fome: todos os desejos são tristes
uma soma de privações e renúncias
amor e ódio, fadas masoquistas.

queima de cartas de amor, compaixão, inquietude

e a ânsia da água antes da sede,
é a busca da sorte amarga e dura
da insensatez com que o espírito procura
ser punhal, ser lâmina, ser corte.

melhor não saber nunca da insônia, essa mulher
dos segredos de uma noite que não sonha
dar fim a tudo não é?
o que sufoca mais em você?

não há veneno para o mal
nem remédio para o bem.
quem sabe ir mais fundo que a moral?
chegar tarde aonde nunca foi ninguém.

o que mais dói em você?
e se dói você saberia o porquê?
até as angústias têm a sua
têm o lar e as razões de ser o que são

mas só as vi passar, cruzar por mim.
acenei para elas... e elas para mim

espelhos. reflexos, uma sombra sensível nos persegue
fácil julgar uma sombra, uma sombra
difícil julgar a si mesmo uma sombra
pois é de nós que passamos que ela se ergue.

e aqui está, acredite
por favor, nesses clichês emocionais
é o que tenho pra dar,
é o que eu sou aqui e lá fora

um apaixonado, um viril
no prazer e na dor inumana
tentando te provar, te assimilar
ao cair de boca no poder da sua flor

fruto real
da primeira gaveta
deste criado mudo

leal criado mundo