De quem é a culpa?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O CARTEIRO - Parte I

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Down In A Hole (Alice In Chains).


         M. suspirou, ajeitou os cabelos com ambas as mãos e acendeu o cigarro amassado que tirara do bolso da camisa. Chovia uma chuva branda, daquelas em que só se percebe sua presença quando as gotas batem na janela surdamente, quase como um murmúrio do mundo lá fora. E por um brevíssimo instante imaginou que o mundo tentava ocultar a ele e ao que acabara de cometer, feito um cúmplice, mas era apenas um pensamento mesquinho, concluiu enquanto mirava o corpo desabado sobre o tapete que era manchado pouco a pouco de sangue no meio da sala.
         Tossiu três vezes e lembrou que devia parar de fumar. Sempre devia parar de fumar, mas que se dane agora.
         Ouviu duas batidas leves na porta de entrada do apartamento. Esperou alguns segundos, mais um trago de fumaça, mais duas batidas pouco audíveis. Era a senha do sujeito que viera ajudar a finalizar o serviço, embora M. não fizesse a menor ideia de quem seria. Não o haviam informado disso, mas não achava que era um problema. Quanto menos souber nomes naquele tipo de trabalho, melhor, foi o que aprendera ao longo dos anos.
         Contornou o conjunto de sofás, e enquanto fez isso notou que o morto estava com os olhos arregalados pelo susto. Não tivera chance de saber quem fizera aquilo com ele, já que M. havia chegado sorrateiro e a faca deslizou rapidamente por seu pescoço flácido. Procurou se debater enquanto agonizava, porém o assassino o imobilizara por trás de forma a esconder sua identidade. M. não soltara um único som durante o ato. Um profissional com muita prática no ramo, porém um profissional cansado.
         Aquela seria a sua última entrega.
         Abriu a porta e encarou um homem mais baixo do que ele, terno preto e engomado, gravata prateada e lustrosa. Por que alguém quereria chamar a atenção para si numa situação como essa M. não sabia explicar, mas não fez qualquer comentário.
         tudo pronto?
         ainda não.
         o que falta?
         terminar meu cigarro e empacotar.
         O sujeito não pediu licença e adentrou o apartamento olhando para os lados. Enquanto retirava dos bolsos do terno um par de luvas cirúrgicas, parecia caminhar com alguma dificuldade na perna esquerda. M. registrou o detalhe automaticamente, sem se dar conta. Era um instinto aguçado que jamais iria embora, mesmo depois de se aposentar.
         O sujeito inspecionou o local, enquanto calçava as luvas, com uma expressão clássica de especialista, ou seja, sem dar nenhuma importância ao que via.
         podemos aproveitar o tapete, afinal não é grande coisa.
         podemos, disse M. baforando mais um pouco de fumaça.
         O homem abaixou-se com algum esforço e um leve grunhido para começar a preparar o corpo, enquanto M. ainda se mantinha de pé, ao lado do sofá. Olhou novamente para a janela, os pingos deslizando e morrendo devagar sobre o vidro. Notou que o colega não tinha o terno molhado, porém não comentou nada a respeito naquele momento. Certamente iria dar a desculpa de ter usado um guarda-chuva, o que podia ser verdade, ou de uma capa que deixara fora do apartamento, o que podia ser também verdade. Fez outro registro automático.
         qual o seu nome?
         pode me chamar de C.
         M. tragou a última brasa do cigarro e jogou a guimba dentro de um vaso decorativo à entrada da sala. A despeito de tudo, ainda era um cavalheiro.
         vai me ajudar aqui ou ficar perfumando o local?
         tem um par de luvas para mim?
         C. desembolsou outro par de luvas cirúrgicas e o estendeu a M., explicando que gostava de ser bastante precavido. Era um detalhista, e falava isso com nítido orgulho na entonação da voz. Um babaca detalhista, pensou M. enquanto concordava com a cabeça e calçava uma das mãos.
         O sangue do morto praticamente já havia parado de esvair-se pela fenda na garganta, entretanto acharam melhor estancá-lo com uma toalha buscada no banheiro, amarrando-a ao redor do ferimento.
         não aperte demais esse nó, sabe como eles são exigentes com isso.
         na verdade não me importo com essas frescuras. sou eu quem faz o serviço sujo.
         O homem baixo continuou fazendo a sua parte sem olhar para o parceiro ao lado. Pelo visto, o sujeito não estava com muita paciência para coisa alguma.
         algum problema?
         o de sempre. sabe como é.
         acho que sim.
         Terminaram de enrolar o defunto no tapete e o carregaram até perto da entrada do apartamento, não sem antes enxugar a poça de sangue no assoalho do melhor modo como puderam. C. dissera que estava tudo resolvido lá fora, poderiam sair tranquilamente pela escada de emergência, e M. pensou aliviado que estavam apenas no primeiro andar do condomínio. C. também explicou que o carro estava na garagem do subsolo e que todas as câmeras de vigilância estavam desligadas. O outro perguntou como ele dera conta de tudo sem chamar atenção de ninguém, porém obteve apenas um meio sorriso e um olhar indiferente como resposta.
         Era realmente um especialista, embora um especialista babaca, concluiu M. em seus pensamentos.
         se está tudo resolvido, como você diz, por que não descemos pelo elevador?
         eu sei que você não é novato no ramo, então me poupe desse tipo de pergunta.
         Foi a vez de M. mostrar um meio sorriso sem uma única palavra.
         para o endereço de sempre?
         C. acenou positivamente com a cabeça, guardou as luvas cirúrgicas ensanguentadas dentro de um pequeno saco plástico, M. lhe passou as suas e olharam em volta do apartamento uma última vez, a fim de se certificar de que não esqueciam nenhum detalhe do combinado. Os homens eram exigentes com relação a todos os detalhes. Todo mundo nesse ramo tem direito à sua paranoia esquizofrênica, mas alguns exageram.

(CONTINUA...)