De quem é a culpa?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Trincheira

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: War Zone (Slayer).


A história foi mais (ou talvez um pouco menos) assim:

— Essa música que o Pedro tá tocando é do Cacazo.

— Marcos, essa música é do Chico Buarque, não do Cacazo.

— Tem certeza?

— Claro.

— Você tem uma grande chance de estar errado.

Fábio dá uma bufada, bebe mais um gole da cerveja, respira fundo, balança as mãos, se concentra na garçonete que passa ao lado.

— Eu ouvi essa música milhões de vezes, ela é do Chico.

— Não é, não.

Discussão e alvoroço. O músico ali na frente, violão na mão, fazendo o que devia fazer. Marcos traga o cigarro. Fábio olha para Marcos e bufa de novo. Marcos finge que não vê e encara a gordinha na mesa ao lado da pilastra.

— É do Cacazo.

— Marcos, não começa.

— Mas é.

A música termina, alguns aplausos ao redor do recinto do Boiúna. Fábio não aguenta e se levanta.

— Pedro! Pedro! Aqui, Pedro!

— Ei, para com isso.

— Pedro, essa música não é do Chico?

— É, sim.

— Não falei?! Não falei?!?

— Não precisa apontar o dedo pra mim.

— Você disse que era do Cacazo. Pedro, ele disse aqui que isso era do Cacazo, dá pra acreditar?

— Dá pra sentar?

— Não, senhor! A música é do Chico, ouviu? Do Chico!

Pedro, sem entender, dá um sorriso elegante.

— Ah, vocês estavam apostando, é?

— Para de apontar o dedo pra mim.

— Do Chico!

— O que eu te fiz? Por que toda essa cena?

— Do Chico!

Garrafas se estilhaçam no chão. O pânico adentra o bar, enquanto os dois se atracam feito guerreiros ferozes e prontos a morrer por uma causa nobre. A garçonete tenta intervir e leva uma bordoada. O atendente do balcão se aproxima e é arremessado contra a parede. Pedro abraça o violão e sai arrastando o amplificador porta afora, enquanto berra que era só uma música!, era só uma música!

Uma viatura é acionada, a polícia invade o local, que neste momento já se transformou em uma trincheira: cadeiras voando, urros medonhos e copos sendo usados como armas de destruição em massa.

Fábio, com um longo e feio talho no rosto, se debate insanamente enquanto é algemado com a cara amassada em cima do pequeno palco de apresentação. Marcos, com o olho quase totalmente fechado por causa de um hematoma horripilante, precisa ser contido por outros três oficiais. São carregados para a rua a socos e pontapés.

— Quieto aí, vagabundo!

— Não fui eu! Foi o Chico! Tudo culpa do Chico!

— Tu aí, é o Chico?

— Vai à merda!

— Então toma.

Distribuem tabefes à vontade sobre os dois. A multidão vaia e cospe em cima. Um bêbado pergunta se ainda dá tempo de beber mais uma dose.

Fábio ainda encontra fôlego no meio de tudo.

— É do Chico! Tu sabes! Tu sabes!

— É o caralho! É o caralho!

— Cala a boca, vagabundo!

— Vem calar!

— Não aponta mais o dedo pra mim!

— Tu sabes! Tu sabes!

— Dispersando! Dispersando!