De quem é a culpa?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

ANONIMATO

(Trilha sonora - Black Sabbath, "Who are you"?)

Do anonimato
digo que é um lugar de liberdade
lugar de vozes sem boca
expressões sem rosto
palavras sem identidade
- a não ser aquela
criada por elas mesmas.

Bem-estar, proteção, comodidade.
Alegria de ver sem ser visto:
Aconchegante panopticon -
alegria e benção de invisibilidade.

Com o anonimato
consegue-se
essa conversa estranha
entre estranhos.
Conversa de
palavra pura
por palavra pura.
E, com efeito,
do anonimato
se segue a conversa
entre o anônimo
e o homônimo.

Mas, da conversa
entre o anônimo
e o homônimo,
quem leva vantagem?
O que se faz
quando não se conta
com heterônimo
ou pseudônimo?
O que se faz
quando se é, apenas,
homônimo
e irritantemente aprendiz?

O homônimo persiste
no seu único direito
- defeito -
de continuar errando
de uma palavra à outra
de uma tentativa à outra
em busca de consistência,
tentando conquistar
por prêmio
o direito de transformar
o homônimo
em assinatura.

O homônimo espera que,
do anonimato
e de sua liberdade
absoluta e
desproporcional,
vozes peçam mais,
vozes peçam menos,
vozes peçam retoques,
supressões,
níveis de qualidade.
Vozes peçam,
imperativamente,
o que querem.
Produto pronto,
mas não processo?

Pedem sucesso?
Com certeza,
não pedem errância.
Quando errar
é tudo o que pode
o homônimo.

Renato Gimenes