De quem é a culpa?

domingo, 2 de setembro de 2012

MAIS UMA MARIA (de Mariah Aleixo)

by Valerie Neuzil

 

Acendi a luz, incomodando meu amor que dormia ao lado. Abri a porta rumo à sala, onde estavam dormindo as visitas. Tomei o antialérgico que estava na caixa de remédios para interromper a rinite crônica. Apanhei qualquer objeto que fizesse escrever. Encontrei qualquer lugar onde se pudesse organizar os períodos, simplesmente porque nessa madrugada constatei: preciso escrever sobre a Leila Diniz.

Não, não é porque a Rita Lee escreveu que “toda mulher quer ser amada, toda mulher quer ser feliz, toda mulher se faz de coitada, toda mulher é meio Leila Diniz” e lá vem a Mariah querer analisar o que a Rita quis dizer sobre a situação das mulheres na sociedade com base nessa música. Não, não é isso.

Não é porque a Leila Diniz virou um certo lugar-comum-do-feminismo- brasileiro-contemporâneo, posando com a barriga de gravidez despudoradamente de fora, falando abertamente de temas tabu como sexo e fazendo coisas que mulheres “de família” não deveriam fazer, em plena época em que a dicotomia “de família/ sem família” fazia todo sentido para avaliar a “honestidade” das mulheres.

Não é porque a Leila Diniz conseguiu conciliar carreira profissional bem-sucedida, maternidade e beleza (afinal, não é esse o objetivo de quase-toda-mulher-moderna?). Não, não é isso!

O fato é que precisei escrever sobre a Leila Diniz porque decidi que a minha filha irá se chamar Maria Alice (calma, isso não é o anúncio da minha gravidez, são apenas planos para um futuro incerto).

Maria Alice é a personagem interpretada pela Leila Diniz num filme do Domingos de Oliveira: Todas as Mulheres do Mundo. Na família da minha mãe todas as mulheres têm Maria atrás ou na frente, no caso da Maria Alice, o Maria viria na frente, preenchendo o pré-requisito. Nesse ponto é até melhor que Mariah, porque o Maria só aparece nele quando deixa o H de lado.

Maria Alice porque minha falecida avó paterna se chamava Leila. O que ouvi e ouço falar- não pelo meu pai – mas de pessoas que foram próximas de minha avó, é que ela gostava de sair com as amigas, tomar “umas” de vez em quando e jogar baralho. Jogava vôlei quando jovem, dizem que se envolveu em vários casos amorosos, era advogada e tinha o temperamento doce.

Se a Maria Alice chegar um dia, vai ter tudo a ver com as mulheres do meu mundo; assim como espero fazer parte do mundo dela. Acima de tudo, espero que ela tenha um mundo próprio, escolhendo/conhecendo suas músicas, seus filmes, suas atrizes/atores, suas bandeiras e seus amores, seus tantos “eus.”

Fico me perguntando se isso de falar sobre o “eu” e encontrar os “eus” de dentro da gente não é uma questão assim “universal”, sabe, que envolve todo mundo, seja homem, seja mulher. Olha, deve ser isso sim, afinal, até a tal da Viviane Mosé disse isso... Mas não é por acaso que os meus “eus” do passado presente e futuro têm tanto Leila Diniz.