De quem é a culpa?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Siqueira Mendes, esquina com Praça do Carmo - 07/07/2011

(Trilha sonora: todos os ruídos da Praça do Carmo; Chico Buarque; Beatles; chorinhos variados.)

Para: Marcos Salvatore, Fábio Castro, Marcelo Morgado. E corrigindo injustiças: para Sâmia Barbosa e Marlon Vilhena.

Quanto já vistes, fachada
quanto já testemunhastes
em tuas cicatrizes de limo,
em tuas emendas,
em tuas rachaduras
em tuas camadas de tinta
lavada de chuva,
ressequidas de sol?

O que vistes?
Vidas partidas
descontinuadas
como pipas
presas às árvores?

Mão nos ombros
dúbias
como carinhos
como ataques
ou como afagos
amaros
avessos
acasos?

Luzes de postes
redobradas
reluzidas
em pelos dourados
em olhos de mulher
que, quando olham
para o nada
miram um alvo?

E chapéus
e chapéus
e chapéus
fedoras,
palhinhas
marajoaras
e panamás
tão inatuais
como a arquitetura
que te cerca?

E rios de risos
e rios de lágrimas
e rios de urina
e suor
e rios de raios
de sol
de sal
e enfim, de água -
desembocando
em afluentes
de tempo?

E enquanto
eu te indago
tu me indagas
e nos perguntamos
sobre o limite
de nossos rostos
de nossos interiores
e de nossos fantasmas...

Enquanto eu te habito
tu me habitas,
e nos fazemos sala
e nos fazemos quarto
e nos fazemos alma
de piso de madeira
de pele de madeira
de piso de pele
e cozinha
de vento e de palavra
reatando
linhas partidas
de pipas
enquanto entram luzes
por nossas janelas.



Renato Gimenes

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Qual é a sua Perversão? (Por Bosco Silva)



RESUMO: O presente texto tem a finalidade de analisar o sadismo, o masoquismo e a coprofilia (sexo com fezes humanas), por meio da obra do escritor Marquês de SADE; bem como da importância destes comportamentos sexuais extremos em sua literatura e filosofia.

INTRODUÇÃO

Não raro, ouvimos comentários de alguém que conhece alguma história a respeito de um terceiro que possui comportamentos sexuais estranhos; comportamentos que não se adequam ao que se convencionou chamar de normal em matéria de sexo. Assim, ouvimos, por exemplo, histórias da mulher que adora, durante suas relações sexuais, receber, de bom grado, tapas em seu rosto, ou mordidas em seu pescoço (MASOQUISMO); do jovem que pede para usar banheiros de conhecidos para roubar calcinhas das irmãs destes (FETICHISMO); ou do sujeito que, bem vestido, frequenta o banheiro público durante horas a fim de espreitar outros homens em seus momentos íntimos, olhando indiscretamente com interesse para o órgão exposto do cidadão ao seu lado (VOYEURISMO); de outro que coleciona absorvente femininos, sujos, de baixo da cama (MENOFILIA); ou ainda do sujeito que prefere ter relações sexuais com mulheres menstruadas, fantasiando as ter desvirginado durante suas relações; etc.; tais histórias parecem serem bem mais comum do que se pensa, e com o advento da internet, com seus inúmeros materiais dedicados as mais “estranhas” formas de desejos sexuais, percebemos, definitivamente, que a quantidade de tais comportamentos superam mesmo a maior estimativa que suspeitávamos existir quanto a tais comportamentos.

SEXO E INTERNET

A internet possibilitou uma nova era de informação, facilitando e tornando acessível a muitos, informações que até então eram privilégios de poucos; divulgando ideias e novas formas de comportamentos humanos, em que, como era de se esperar, o sexo possui um lugar de destaque, com dezenas de milhares de sites dedicados a saciar a curiosidade e o desejo de centenas de milhares de pessoas. Assim, há desde sites inocentes que se dedicam a reunir futuros casais de namorados, aos dedicados a prostituição, ou encontros de casais com fins sexuais; ou ainda os dedicados ao comércio de pequenos filmes pornôs, às formas mais extremas de sexo, como os que se dedicam a mostrar sexo entre humanos e animais; sexo entre adultos e crianças; relações sadomasoquista extremas, em que a violência e a dor são os atrativos principais; sexo entre pessoas mutiladas; relações sexuais envolvendo excrementos humanos, havendo mesmo o contato e a ingestão de urina e fezes humanas durante o ato sexual, etc.

Tais sites, a contar pela grande quantidade destes, possui - contrariando o que se pensa - um imenso público, com milhares de acessos diários; sites que, sendo pagos, demonstram que há um numeroso público sedento e disposto a pagar para vê-los, não se dedicando, portanto, apenas a saciar a curiosidade casual de alguns, mas de orientar a atividade sexual de muitos. O que deve levar muitos a questionar: ATÉ QUE PONTO TAIS COMPORTAMENTOS PODEM SER CONSIDERADOS NORMAIS, NÃO DOENTIOS?

É o que se propõe analisar este artigo.

MARQUÊS DE SADE

Embora exista uma infinidade de formas sexuais extremas, algumas, certamente, ainda sem nomes, três nos interessa por estar ligadas diretamente a obra do Marquês de SADE; e que são a base de muitas outras; são elas: o SADISMO, o MASOQUISMO e a COPROFILIA. Práticas sexuais, que como podemos notar através de relatos famosos sobre a vida do nobre francês, estavam presente também em sua vida. Mas antes um pequeno resumo de quem foi SADE e de seu pensamento:

O escritor francês Donatien-Alphonse-François de SADE (1740 – 1814), mas conhecido por Marquês de SADE, foi sem dúvida uma das mais intrigantes personagens da história; tão intrigante que chega tomar, por vezes, ares de personagem ficcional, chegando mesmo ao ponto de muitos confundirem o autor com os criminosos e pervertidos personagens de sua própria obra. Assim, não raro, muitas pretensas histórias foram contadas - mesmo em sua época - e afirmadas terem ocorrido com o nobre escritor francês, como a de ter provocado por meio de seus livros, muitos assassinatos ao instigar os leitores com suas ideias criminosas; havendo mesmo a ideia de que sua obra seria capaz de destruir a alma de qualquer leitor que a lesse.

SADE passou quase a metade de sua vida em prisões e manicômios; foi capaz de ser enclausurado por três formas diferentes de governo: primeiro pela monarquia francesa, depois pelos revolucionários franceses, e, finalmente, pelo imperador Napoleão; ora preso por sua vida libertina, ora por suas obras “pervertidas”; dono de uma personalidade capaz de abarcar aspectos, à primeira vista, considerados opostos, como a genialidade de seu pensamento e literatura e uma vida marcada por comportamentos sexuais, marcadamente vistos como “doentio”, não apenas para sua época, mas mesmo para a nossa: uma época em que pessoas podem trocar de sexo, e em que os meios de comunicação é capaz de saciar a curiosidade sexual, seja ela qual for, de qualquer um que possa dispor de tais meios; mas que ainda recebe sua filosofia com desdém e preconceito. Filosofia em que SADE, por meio de seus personagens, demonstra toda complexidade e obscuridade da sexualidade humana.

Em seu romance 120 DIAS DE SODOMA, fato repetido a quase a exaustão em algumas de suas biografias, SADE relata 600 formas de comportamentos sexuais incomuns; alguns tirados de seu próprio comportamento sexual, e outros sendo fruto de relatos impessoais de terceiros ou de viajantes vindo de outras terras e países. O que demonstra a postura moderna de SADE em considerar a sexualidade humana independente de convenções sociais ou religiosas.

SADE E A NOÇÃO DE PECADO

O sexo visto como caminho de descoberta e de união entre o humano e algo que o ultrapassa, como era visto em muitas religiões e filosofias antigas, que divinizavam o sexo, como vínculo entre o humano e o divino, e que concebiam o sexo como algo natural, isento de culpa, passou a ser visto de outra forma, com a popularização da religião cristã e da sua forte ideia de pecado; que radicalmente quebrava esta união, passando a ver no sexo algo indigno do homem; reprimindo-o como algo satânico; gerando mesmo em algumas seitas cristãs, castração em massa, como entre os SKOPTSI russos do século XVIII; ou, no mais das vezes, permitindo-o apenas como ato de procriação; ideia ainda hoje professada pela igreja católica, implícita em sua proibição a todos os métodos contraceptivos, menos, claro, a abstinência sexual - como se fosse possível se excitar sexualmente apenas com a ideia de ter um filho! -; proibição sabiamente não seguida por muitos. E quando o sexo era feito sem este objetivo era taxado indiscriminadamente como horrível pecado de luxúria.

Deste modo, o que era espontâneo no homem; o que era uma característica natural isenta de maldade, passou a ser vista de forma imprópria, chegando ao cúmulo de ser proibida ou vigiada, como aconteceu com o tribunal católico da Inquisição, que julgava, prendia, torturava e condenava à morte, pessoas que não seguiam as rígidas proibições católicas sobre o sexo.

Foi contra este modo de ver o sexo que SADE se revoltou, exigindo que voltássemos a sermos senhores de nossos corpos e desejos, bem como a vermos o sexo como algo natural ao homem, isento de culpa ou proibições.

Para SADE o sexo seria aquilo que mais nos aproximaria dos animais, por isso era taxado de indigno do homem, já que estes passaram a cultuar religiões que erroneamente concebiam o homem dividido entre um lado divino e outro animal, entre um lado superior e outro inferior, sendo o primeiro procurado, estimulado e o outro evitado ou, mais das vezes, proibido. Portanto, contrariando as proibições cristãs, SADE nos ensina a não termos vergonha do sexo, procurando-o além dos limites e das proibições que nos são impostas. O que não deve ser confundido com a simples promiscuidade. Se assim fosse, SADE jamais seria um filósofo, que como todo verdadeiro filósofo busca incessantemente o conhecimento e a verdade, mas sim apenas um homem promíscuo que buscava unicamente o prazer.

SEXO DITO NORMAL

Antes de prosseguirmos, e analisarmos algumas formas extremas de sexo, convém que definamos o que se convencionou chamar de sexo normal.

O sexo dito normal nada mais é do que o sexo orientado por regras de condutas morais, com bases, em última estância, em ideias religiosas que, como visto acima, dentro da visão cristã Católica, por exemplo, permiti o sexo apenas como ato unicamente para fins de procriação; sendo proibido tudo aquilo que foge desta ideia; sendo taxado de comportamentos sexuais antinaturais. Portanto, dentro desta visão, seriam antinaturais: a masturbação; o sexo com animais; o homossexualismo tanto feminino quanto masculino; o sexo oral e anal, etc.

O “sexo normal” seria apenas uma mera convenção, um mero acordo de conduta, dependendo de interpretações pessoais e religiosas; e que, assim como as religiões, seriam relativas, sendo nenhuma mais verdadeira que a outra; e que mudaria segundo períodos de tempo, de países e culturas diferentes. Desse modo, o que em um país seria proibido como algo antinatural, em matéria de sexo, em outro seria permitido como a coisa mais normal do mundo.

A expressão “antinatural” como forma de proibição sexual, carece mesmo de sentido; não possuindo nenhum fundamento na natureza, chegando mesmo a ser contraditória, já que tudo que existe - inclusive o homem e seus desejos sexuais, por mais diferentes que possam ser - pertencem à natureza, sendo, portanto, naturais.

PARAFILIA

O que comumente se chamou perversão sexual, ou desvio sexual, ganhou modernamente um nome menos propenso a julgamentos morais ou sentido pejorativo; tais denominações passaram assim a ser substituída pelo termo PARAFILIA (embora muitos críticos afirmam ainda que tal termo continua sendo pejorativo na maioria das circunstâncias), nome dado para atividades sexuais em que o prazer sexual se concentra em atividades, ou em objetos não relacionados diretamente com o sexo, ou em gostos específicos de parceiros sexuais, como na PEDOFILIA, em que o prazer do ato sexual está em praticá-lo com crianças.

Algumas parafilias não são mais vistas como perversões, crimes ou doenças mentais, desde que não sejam capazes de substituir o sexo convencional por completo e que sejam praticadas ESPONTANEAMENTE pelo casal, sem prejuízo para ambos e terceiros; o que, claramente, neste caso, não condiz com os CRIMES de PEDOFILIA. Portanto, vemos que há tanto parafilias inofensivas quanto criminosas. Vale lembrar também que mesmo a excitabilidade sexual, obtido apenas através do mais rígido código moral, é também considerado como uma parafilia, chamada de NORMOFILIA. O que demostra que, quando se tratando de gostos sexuais, a classificação entre o que é normal e anormal é extremamente relativo; bastando lembrar que a homossexualidade e a masturbação já foram consideradas crimes e perversões, passíveis de tratamento ou de detenção.

As parafilias podem ser classificadas de acordo com o comportamento ou o objeto inserido no ato sexual, segundo normas de saúde ou critérios de sociabilidade, indo das que poderíamos classificá-las como inofensivas, passando por aquelas que classificaríamos como perigosas à saúde, às de índole violentas e mesmo criminosas.

SADISMO: da sensação de poder ao prazer sexual

No longínquo 3 de abril de 1768, num domingo de páscoa, uma bela mendiga é levada para uma suntuosa casa, com promessa de trabalho; ao chegar é trancada em um dos quartos; posteriormente, é manietada de bruços sobre uma cama; tem seu corpo chicoteado; em seguida, tem o corpo pinicado por um objeto cortante; o qual derrama múltiplas gotas de sangue, que escorrem sobre sua pele branca, entre faixas vermelhas feitas pela ponta do chicote; o sangue é estancado por pingos de cera quente que caem de uma vela, que é administrado por seu algoz, sobre suas feridas abertas. Seu algoz é um nobre francês de nome SADE.

O jovem SADE concretiza neste ato, o ápice de seu sadismo prático. O caso tornou-se conhecido como “o caso Rose Keller”.

Rose Keller o denunciará às autoridade da época, descrevendo o que está acima como o ocorrido, embora não tenha sido a mesma versão dada por SADE. Mas uma coisa é certa: SADE a teria chicoteado; costume que era tão comum em suas festinhas, e que era também administrado, com veemente exigência, por si próprio, sobre seu próprio corpo, por meio de prostitutas pagas para também fazerem este trabalho.

Tais fatos, junto com inúmeros escritos seus dedicados ao tema, originaram o termo médico SADISMO (termo dado ao prazer provindo da provocação de dor ou humilhação no outro), propagado pelo psiquiatra alemão KRAFFT-EBING; termo que também passou a ser bastante usado como sinônimo de barbárie e crueldade feitas por homens contra outros homens.

Quando se fala sobre tais assuntos, quando se lê em matérias de jornais sobre a crueldade dispendida de um humano sobre outro humano, logo a explicação que surge é que este foi tomado pela loucura, pela desrazão, pela inconsciência; como se a crueldade só pudesse existir sob a égide da loucura; é como se nós não quiséssemos reconhecer que seríamos capazes mesmo em sã consciência de atos extremos de crueldade e selvageria. Talvez esta seja uma das grandes ilusões que SADE nos ajuda a esvanecer com seus escritos. E nenhuma situação parece exemplificar melhor o que é dito do que as crueldades provocadas pelas guerras:

Nestas, homens que aparentemente pareciam conviverem em respeito mútuo, segundo leis de convivência, quando quebradas, são tomados pela barbárie, pela crueldade entre si; de modo que, diferentemente de antes, tudo parece ser permitido: estupros, infanticídio, massacres, etc. E torna-se impossível falar sobre isso sem tocar em um grande exemplo: a Alemanha nazista.

O que teria levado uma das mais ricas culturas mundiais, herdeira dos grandes valores humanistas, tida como um dos maiores exemplos de civilização, a querer eliminar povos tidos por eles como inferiores, criando campos de concentração, verdadeiras indústrias da morte, em que milhares de pessoas eram humilhadas, torturadas e por fim eram mortas, da forma mais execrável e efetiva possível, por meio de gazes venenosos que ilusoriamente saiam de chuveiros em pretensos banhos comunitários; vítimas que eram exploradas ao máximo, tendo mesmo seus corpos aproveitados como matéria prima para confecção de sabão e sandálias para o exército alemão?

Muitos serviam de cobaias para experiências macabras, como dissecação enquanto estavam vivos, ou amputação de seus membros sem anestesia; ou ainda eram jogados vivos em caldeirões com água fervente, ou expostos ao mais extremo frio, para que os médicos nazistas pudessem analisar suas reações de dor e o quanto de calor ou frio podiam suportar antes de morrerem.

E não apenas aos nazistas pode-se reconhecer este teor de crueldade, ela sempre existiu, e não somente entre povos primitivos, pois pode-se matar tanto com pedras, quanto com bombas atômicas, fruto máximo de nossa tecnologia da morte.

Ironicamente, mesmo na revolução francesa - modelo de ideal político para vários países modernos -, enquanto SADE estava preso na bastilha, por sua vida libertina, os revolucionários franceses em nome da LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE, massacravam milhares de pessoas pelas ruas de Paris, ou em praças públicas, decapitando-as por meio da guilhotina; ato que SADE viu várias vezes pela janela de sua cela, e que certamente influenciou-o bastante em sua escrita. Chegando ao cúmulo do abade Morellet sugerir, numa assembleia, que se colocasse à venda a carne dos guilhotinados, obrigando, por meio de lei, que todo cidadão se abastecesse num açougue nacional, pelo menos uma vez por semana.

Paradoxalmente, parecia que a razão tomava forma de insanidade, enquanto aquela se trancafiava, protegendo-se, em hospícios. O que nos leva a perguntar: afinal de contas, quem eram os verdadeiros loucos?

Mas talvez de um “louco”, como era considerado SADE, possa vir a explicação!

Para SADE o PODER É AFRODISÍACO. Isto é, é estimulante de prazer; um estimulante inerente aos homens, em menor ou maior grau, que tanto pode dar prazer a um déspota, provocando-lhe orgulho e sentimento de superioridade perante seus semelhantes, mantendo-o ao máximo no poder; como também a um assassino, que subjuga sua vítima, forçando-a a se submeter aos seus desejos; ou ainda ao prazer sexual com que um casal, que por meio de chicotes e algemas, apimentam a relação à dois com joguinhos sexuais de submissão e autoridade. Todos tendo a mesma origem: o sadismo inerente ao homem.

Sadismo e masoquismo seriam mesmo uma das maneiras pelas quais, durante a evolução do homem, a natureza fundamentara as noções de poder e autoridade; certamente noções bastante importantes para a sobrevivência do homem durante as primeiras sociedades humanas; em que a coesão do grupo era de suma importância para a sobrevivência deste, exercida indubitavelmente pela autoridade de um indivíduo: um líder. Ideia que é corroborada ainda hoje pela forte relação histórica entre poder e sexo, pois o sexo seria um dos grandes modos pelos quais o poder poderia ser exercido sobre alguém – exemplo, uma recente pesquisa estabeleceu que homens podem ter interesse despertado em mulheres de acordo com o seu tipo de carro. Donos de carros que demonstram controle e poder tornam-se mais atraentes para elas. Ou seja, assim como muitos animais que atraem as fêmeas oferecendo-lhes proteção e repelindo os machos adversários por meio da força, estes machos humanos estariam atraindo fêmeas por meio do luxo e do conforto econômico, que estes podem oferecê-las; e repelindo os outros machos de nossa espécie, por meio da demonstração de que são economicamente mais fortes. Em suma, embora mude os meios, os métodos são os mesmos para a natureza.

Por outro lado, a fundamentação da autoridade por meio da mais pura submissão - um instinto que ainda hoje predispões os homens a obedecerem aos seus líderes - explicaria, por sua vez, que homens comuns, sem nenhum instinto assassino, colaborem, em tempos de guerras, com atrocidades, e se tornem assassinos, bastando que um pequeno punhado de líderes os estimule para tanto, transferindo seus desejos e objetivos para seus subalternos. O que, por outro lado, também explica, como um país, com uma imensa tradição cultural humanista, no nível, então, mais alto de civilização, tenha submergido à barbárie nazista.

MASOQUISMO

Se o termo sadismo se originou do nome do Marquês de SADE, adepto desta forma de atividade em seus escritos e na própria vida, como já foi visto, o termo masoquismo originou-se, por sua vez, do nome de outro escritor, do austríaco Leopold von Sacher-Masoch, que em seus inúmeros livros narra personagens masoquistas. Sacher-masoch era pessoalmente um masoquista, que teve tal atividade despertada, como muito bem narra o próprio escritor: na infância, quando ao esconder-se no quarto de uma tia, no guarda-roupa desta, entre seus casacos de peles, presenciou esta tendo relações sexuais com um homem. Ao ser descoberto, foi castigado com surras por ela, enquanto estava entre os casacos de peles, o que o fez durante o resto de sua vida, relacionar dor, humilhação e casacos de peles ao sexo.

Embora a muitos pareça descabido que alguém possa obter prazer com a própria dor e humilhação, a verdade é que o prazer e a dor sempre andaram juntas, até mesmo onde menos podemos imaginar. Tomemos, por exemplo, as religiões, principalmente aquelas em que veem na dor e na humilhação, virtudes imprescindíveis a evolução espiritual e importante modo de submissão a Deus. O Cristianismo é um bom exemplo disso:

A flagelação passou a ser um ato cotidiano em muitas ordens cristãs; como um modo de mortificação do corpo e de seus desejos, geralmente desejos sexuais. Não raro, este era o modo de alcançar êxtases religiosos. Santa Tereza usava a flagelação como prática diária; através do chicote ela alcançava estados místicos de transe; São Francisco de Assis dizia: "Humilhação é o caminho para a humildade e sem humildade, nada agrada a Deus". Muitos devotos e líderes religiosos cristãos se flagelavam, e prescreviam tal prática, como São William, São Rudolph e São Dominic. Havia mesmo ordens dedicadas a tal ato, como a Seita dos Flagelantes, organizada por Santo Antônio; que ia de cidade em cidade arrecadando novos penitentes, até uma igreja, onde se flagelavam com chicotes durante horas, em seus dorsos nus; às vezes chegavam a dezenas de milhares.

Se não era por meio do chicote era pelo meio do jejum; muitas devotas tornavam-se anoréxicas, e tal atividade tornava-se muito mais consequência de tal doença do que demonstração de fé.

Não é difícil de encontrar, por exemplo, nas vidas dos santos, atos execráveis:

São João da Cruz (1542 – 1591) afirmou, certa vez, sentir prazer em lamber feridas de leprosos; Santa Catarina de Siena (1347 – 1380) afirmou não ter comido nada tão delicioso quanto o pus dos seios de uma cancerosa.

Estas palavras foram pronunciadas por pessoas que são tidas, ainda hoje, para muitos, como modelos de virtude e de bem viver.

É que as religiões tem o grande poder de transformar o que seria um ato torpe e execrável, quando não vistos com os olhos da fé, em um belo ato de devoção e sacrifício, quando inserido em seu contexto religioso. E o que é tido muitas vezes como meramente um ato de masoquismo, quando fora da religião, pode ser cultuado como virtude quando visto pelos olhos da fé.

O prazer da dor, neste caso, não estaria certamente na forma sexual, como podemos ver em SADE ou em Sacher-Masoch, mas no PRAZER DO ALÍVIO DA PASSAGEM DA CONSCIÊNCIA DO PECADO, MARCADO POR TORTURAS PSICOLÓGICAS, PARA O BEM ESTAR DA NÃO-CULPA, já que o Cristianismo, com sua forte ideia de redimir os pecados, coloca na dor, o melhor modo. E a capacidade de sentir dor sem reclamar, como uma de suas virtudes; terminando, enfim, por associar prazer e dor, dor e salvação ou a total permissão de desejos mórbidos, vistos como virtude; o que certamente estimularia ainda muito mais nossas tendências masoquistas.

Enquanto o SADISMO seria uma relação ATIVA com o poder, com a autoridade; o MASOQUISMO, por outro lado, seria uma relação PASSIVA com estas formas de atividades. Para o masoquista, figuras poderosas estariam necessariamente ligados a exigência de punição, pois tal capacidade seria a própria essência do poder delas, por isso seriam inseparáveis do castigo. O que explica, por um lado, como já foi visto, tanto a reação masoquista com relação à religião e à figura de Deus, quanto aos “prazerosos joguinhos” sadomasoquista entre amantes.

Novamente uma boa explicação para isso, como bem observou SADE, é que tanto o sadismo quanto o masoquismo, em menor ou maior grau, são tendências inerente no ser humano, à nossa origem animal.

Em 1954, um dos primeiros pesquisadores sexuais, Alfred Kinsey, constatou que mais da metade de homens e mulheres, reagiam sexualmente com prazer a mordidas: nada muito diferentes de vários animais. E, talvez, assim como, por exemplo, alguns insetos, como algumas aranhas, ou louva-deuses, em que o macho se permite, ao fim do ato sexual, ser subjugado e devorado pela fêmea, tenha também se conservado no homem a tendência a submissão no ato sexual, identificando dor e prazer. Fato que parece se repetir continuamente nas mulheres; associação que parecer ter bases biológicas, já que o papel biológico da mulher está impregnado de dor: da menstruação, ao defloramento e, consequentemente, ao parto.

SADOMASOQUISMO

É claro que um mesmo indivíduo poderia abarcar em si tanto o papel de sádico quanto de masoquista. Sua relação com a ideia de autoridade seria tanto ativa quanto passiva; ele seria ao mesmo tempo tanto algoz quanto vítima de si mesmo; assumindo a autoridade de punir a si próprio. Tal relação denomina-se de SADOMASOQUISMO.

SEXO ANAL

Porém, antes de nos debruçarmos sobre as particularidades da COPROFILIA, é de suma importância examinarmos uma prática sexual que, embora não considerada PARAFILIA, possuía uma grande importância para o nobre escritor francês: o SEXO ANAL.

SADE o praticava não apenas de forma ativa como passiva; e não apenas com homens, mas também com mulheres. Em Marselha, por exemplo, SADE é denunciado por três prostitutas por tê-las forçado a açoitá-lo; e depois ter praticado, em cada uma, sexo anal, enquanto ao mesmo tempo recebia em seu ânus o pênis de seu criado.

A preferência de SADE pelo sexo anal pode não apenas ser explicado por esta modalidade sexual unir tanto sadismo quanto masoquismo em uma mesma atividade sexual, quanto à certa dose de blasfêmia atribuída a ela. O que fez desta atividade o ápice de sua sexualidade, pois como bem observou Simone de Beauvoir, podemos dizer que toda a sexualidade de SADE é de teor anal; contendo, pois:

SADISMO - posto que o sexo anal provocaria dor no parceiro; seria a invasão mais completa da sexualidade de um pessoa sobre a outra; seria o máximo da intimidade sexual e da conquista, etc.;

MASOQUISMO - o sexo anal permitiria a subjugação do parceiro ou da parceira, até mesmo simbolicamente, por meio de algumas posições sexuais, representando a dominação de um sobre o outro; simbolizando a atividade de um sobre a total passividade do outro, etc;

TRANSGRESSÃO – o sexo anal quebraria valores, principalmente valores cristãos, como a ideia de que o sexo seria permitido apenas para fins de procriação, e a ideia de que este seria antinatural.

SADE, por meio da transgressão, transforma mesmo a blasfêmia em prazer, misturando-a ao prazer sexual; por exemplo, durante relações sexuais suas, obrigava que suas parceiras desrespeitassem símbolos cristãos. Vale notar que, em sua época, o sexo anal, mesmo praticado de modo heterossexual, era considerado crime de sodomia, passível de detenção e mesmo de morte, tendo tal lei bases cristãs. O que certamente incluiria um atrativo a mais para SADE: o perigo. Elemento com forte poder de estimulação, pois como é sabido, ainda hoje: “O que é proibido é sempre mais procurado”.

Tais elementos reunidos, pelo menos em parte, seria a própria essência do desejo pelo sexo anal, como podemos ver ainda hoje em relatos de casais, em que o parceiro pretende iniciar sua parceira em tal atividade. Para muitos destes, o sexo anal é o máximo da conquista sexual, principalmente quando tal possibilidade é tantas vezes negada pela parceira, não raro com argumentos que incluem desde que tal ato causa dor, é nojento, á afirmação de que é contra a natureza. Negativas que só fazem aguçar ainda mais o desejo do parceiro. Principalmente em uma cultura como a nossa que privilegia como modelo de beleza mulheres possuidoras de fartas e belas bundas, chegando mesmo tal atributo torna-se um meio de alcançar sucesso profissional, ou econômico, como podemos observar acompanhando carreiras de dançarinas, ou mesmo na vida cotidiana, em que grande parte dos homens bem sucedidos aparecerem nos meios de comunicação ostentando mulheres com “belos traseiros”, tornando as nádegas femininas status social.

TRANSGRESSÃO E PARAFILIA

Ao atribuir, revolucionariamente, à transgressão papel coadjuvante ao prazer sexual, e ao explorar ao extremo os prazeres do corpo, a transgressão terá papel fundamental no pensamento de SADE, como também em seus escritos. Tornando-se mesmo em muitas descrições de sexo extremo, em sua literatura, o elemento fundamental; o que parece refletir bem a realidade, já que muitos desejos sexuais extremos, praticados na realidade possuem a transgressão e o proibido como elementos fundamentais; como o sujeito que necessita da sensação do proibido, envolvendo a não permissão do outro, para excitar-se, como no caso de alguns exibicionistas que exibem seus órgãos sexuais para pessoas desavisadas, nas esquinas, em frente de escolas; em geral para pessoas estranhas ao seu convívio. O elemento de surpresa e de não permissão, que está por trás de seu ato proibido, são os elementos que o excitam. Fato que não aconteceria se fosse visto por ele, ou por outras pessoas, como algo natural e permitido. A transgressão é o princípio deflagrador e excitador de tal ato. Originando também atos modernos como comportamentos sexuais autodestrutíveis, como os praticados pelo movimento de homossexuais masculino denominado de BAREBACKE, em que o prazer sexual está em transgredir normas de saúde, possibilitando assim a transmissão e a infecção pelo vírus da AIDS, por meio do relacionamento com indivíduos desconhecidos, principalmente com indivíduos já infectados pelo vírus da AIDS, sem uso de preservativo.

COPROFILIA

COPROFILIA é a atração sexual por fezes humanas; que pode ser acompanhada, muitas vezes, por COPROFAGIA; que, por sua vez, significa o prazer sexual em ingerir fezes.

Como em todas as formas de extremismos, em que uma atitude extrema é alcançada gradativamente por meio de graus menores de extremismos, o sexo anal e a anilingua (manipulação anal por meio da língua) poderiam ser mesmo visto como um caminho que levaria do SADISMO e MASOQUISMO à COPROFILIA, já que este tenderia a proporcionar contato com fezes humanas.

Seguindo esta linha de raciocínio, a COPROFILIA seria a culminância de um processo de associações graduais, em que, a princípio, o futuro coprófilo sentiria atração normal por nádegas, e, gradualmente, estenderia seu desejo ao ânus; em seguida, movido por meio de associações e TRANSGRESSÕES graduais, teria sua atração voltada para a defecação do ser desejado; culminando, finalmente, no prazer de manusear, cheirar, ou até mesmo ingerir fezes humanas.

Há que se levar em conta também outros elementos, como o FETICHE; uma atividade profundamente simbólica, relatado mesmo por muitos praticantes de tais atividades; em que as fezes humanas ganhariam uma proporção gigantesca de simbolismos e metáforas em relação ao ser desejado. E em que o contato com as fezes seria visto como “uma oferta de profundidade do interior de um desejável corpo, tornando-o muito, muito íntimo”. Seria como um canibalismo simbólico, em que o contato com as fezes, a ingestão desta, seria como a absorção simbólica do objeto do desejo em seu grau máximo de intimidade.

Há também, sem dúvida, um ato de desafio, de proibido, em tal atividade que a muitos, em si, representaria um estímulo a mais.

Para alguns masoquistas o ato significaria submissão e auto degradação simbólica ao ser amado. Por isso, tal prática novamente teria um grande valor em comportamentos religiosos.
Aqui novamente, o que para muitos seria considerado repulsivo, tornar-se-ia um ato santo quando visto pelos olhos da fé cristã, ou não seria melhor dizer: quando visto pelo MASOQUISMO CRISTÃO? Como podemos ver em alguns casos:

Santa Marguerite-Marie Alacoque (1647-90), transformava vômitos de doentes em seu alimento; mais tarde ao ingerir fezes de uma doente, declarou que tal ato suscitava nela visões, em que esta aparecia atrelada com a boca nas chagas de Cristo.

O profeta Ezequiel, foi ordenado por Deus a comer fezes humanas: “E o que comeres será como bolos de cevada, e cozê-los-ás sobre o esterco que sai do homem, diante dos olhos deles.” Ezequiel 4:12. No entanto, este ao protestar, Deus muda de ideia, porém sem mudar de método: “Vê, dei-te esterco de vacas, em lugar de esterco de homem; e sobre ele prepararás o teu pão.” Ezequiel 4:15.

CONCLUSÃO

Como foi visto, algumas parafilias não são mais vistas como perversões, crimes ou doenças mentais, desde que não sejam capazes de substituir o sexo convencional por completo e que sejam praticadas ESPONTANEAMENTE pelo casal, sem prejuízo para ambos e terceiros; havendo mesmo muitos que advogam que o sadomasoquismo praticado por casais não sejam mais rotulados como parafilia.

O sexo como atividade humana, não se prende a um modelo único, como o modo correto de ser feito, rotulado de normal; ele abarca certo grau de subjetividade e fantasia que tal ideia não pode conter. Sendo que o que se convencionou de normal dentro da sexualidade humana, como a ideia católica do sexo apenas para fim de procriação, revela-se como uma ideia equivocada e, como mostra a história, mesmo perigosa. O sexo possui, por exemplo, como é visto no reino animal, papeis que vão além da própria procriação, ele promove a sociabilidade entre os indivíduos, e uma hierarquia social, natural, que identifica no líder a coerção do grupo, etc., comportamentos fundamentais para a manutenção da vida de muitos animais, inclusive o homem.

Dentro de um rígido sistema moral, a transgressão passa a tornar-se um elemento fundamental, pois mesmo que a única lei que vigorasse na natureza fosse a lei da força bruta, tal lei não seria causa de perversões sexuais, já que a transgressão, como elemento principal, deflagrador da perversão, não existiria, pois para que houvesse tal elemento, seria preciso que o sujeito transgredisse leis morais. O que só pode existir em sociedades com definido e rígido sistema moral. Aí está a grande sacada de SADE: as perversões são frutos da sociedade. De uma sociedade que ao proibir o que é natural no homem, como o desejo sexual, acaba, enfim, por intensificá-lo. Pois, bem sabemos que, tudo que é proibido é mais procurado.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Literatura Pode Ser Perigosa? - Em Pauta: Nietzsche e Sade (Por Bosco Silva)



RESUMO: O texto a seguir corresponde a uma pequena releitura do ensaio “Os perigos da Literatura: o ‘caso Sade’”, de Eliane Robert Moraes, contido no livro “Lições de Sade – ensaios sobre a imaginação libertina”, da mesma autora; porém sendo incluso também na análise a obra de Nietzsche, devido a semelhança de pensamento, repercussão, estilo, em que há a mescla de filosofia e literatura, no caso de Nietzsche, poesia e filosofia à semelhança da obra de Sade.


EM 1924, TEM INICIO UMA NOVA FORMA DE ASSASSINATO, o assassinato como teste de ideias filosóficas, e em que a literatura, melhor, a filosofia de Nietzsche, foi acusada como um dos elementos incentivadores para tal crime. É o que podemos ver através da história do caso Leopold-Loeb.

O CASO: LEOPOLD-LOEB

Nathan Freudenthal Leopold Jr. e Richard Albert Loeb, ambos, na época, com 19 e 18 anos, respectivamente, eram dois alunos com inteligência excepcional, pertencentes a Universidade de Chicago, que decidiram, em 1924, cometer o crime perfeito. Para tanto, sequestraram e mataram Bobby Franks, então um garoto de 14 anos.

Leopold e Loeb achavam-se pessoas excepcionais, ideia tirada de suas façanhas intelectuais: ambos eram superdotados; Leopold falou suas primeiras palavras com apenas quatro meses de idade; já Loeb era, então, o mais novo graduado pela Universidade de Michigan. Ambos começaram a praticar pequenos crimes. Achando-se superiores as penalidades das leis, partiam cada vez mais para crimes mais audaciosos, até que, para testar suas capacidades, resolveram cometer o mais grave de todos: o assassinato. Passaram seis meses arquitetando-o, em seus mínimos detalhes; já haviam escolhido a vítima: o garoto Bobby Franks, que era vizinho de Loeb, e pertencia a família deste.

Ao serem descobertos pelo crime, Leopold e Loeb revelaram terem cometido o crime inspirado na filosofia de Nietzsche, em sua ideia de super-homem.

“Antes do assassinato, Leopold escreveu para Loeb: ‘Um superhomem (...) é, em virtude de certas qualidades superiores inerentes a ele, isento das leis comuns que regem os homens. Ele não é responsável por qualquer coisa que ele possa fazer.’”


Temos, pois, um caso da mais extrema violência, em que o assassinato é justificado através da ideia de superioridade, e em que o filósofo alemão Nietzsche é relacionado a este por meio de sua obra; tendo tal fato sido mesmo usado pelo advogado Clarence Darrow, à época um experiente e conceituado advogado, como meio de evitar que os réus, Leopold e Loeb, fossem levados à pena de morte, argumentando:

"Esse terrível crime era inerente a esses garotos, que se originou no passado … devemos culpar alguém que tomou os ensinamentos de Nietzsche em sua vida? … devemos realmente condenar um garoto de 19 anos pela filosofia que foi obrigado a absorver na faculdade?"

Em outras palavras, o advogado culpa a influência da filosofia de Nietzsche como a verdadeira causa de tal crime.

Mas antes de continuarmos, e tentarmos responder a pergunta título, o que diz esse filósofo?

OPENSAMENTO DE NIETZSCHE

Nietzsche (1844 – 1900) conceitua em seus escritos que a cultura ocidental fora tomada por uma forma de moral decadente, a moral dos fracos, em que por meio desta é ensinado ao homem a odiar a vida, a apostar toda sua vitalidade, sua esperança, em uma vida pós morte, esquecendo a vida concreta, e de seus deveres para com esta; uma moral da renúncia, que em nome de um paraíso hipotético, esquecem de cultuar a verdadeira vida. Nietzsche, ao contrário, crê ser portador de uma mensagem aos fortes, busca por meio desta acordar estes, convidando-os a construir o paraíso na terra, a construir uma moral forte, que ao rejeitar o além ilusório, não negue a verdadeira vida, e que não a torne mais ilusória que aquela. Esta nova moral pertenceria aos fortes que, ao contrário dos anteriores, afirmarão mesmo sobre os maiores dissabores da vida, seu querer-viver, sua vontade. A tarefa de transmutar os valores, de afirmar a vida, será, portanto, tarefa dos fortes, tornando-a cada vez melhor aos seus descendentes, tomando-a em suas mãos, e imprimindo-a o poder da mudança positiva; é tarefa dada aos homens que não temem viver, que não precisam de um consolo de além túmulo para suportar o medo da morte, e também da vida; e a esses homens Nietzsche chamava de superhomens. São tais homens, que possuem a vontade de poder mudar, estão além de bem e mal, de certo e errado, posto que são os verdadeiros criadores da verdadeira moral, já que tais valores pertencem a uma moral decadente, e que deve ser por isso mesmo derrubados.

SADE E NIETZSCHE

Curiosamente, a filosofia de Nietzsche, em parte, fora antecipada por outro filósofo, um escritor francês, chamado Marquês de Sade, que como aquele privilegiava a vontade individual, conceituava a moral de seu tempo como decadente e que subvertia as noções de bem e mal, certo e errado; e que, curiosamente, também teve sua filosofia acusada de influência criminosa, como nos conta o escritor americano Roger Shattuck, em seu livro Conhecimento Proibido, em que afirma que em dois casos de violência sexual seguida de assassinato acontecidos nas décadas de 60 e 80, nos Estados Unidos, as ideias de Sade estavam presente, pois os assassinos não apenas disseram que conheciam Sade, como também tinham cometidos tais crimes sob a influência de suas ideias.

Dois pensadores com ideias semelhantes, tendo seus nomes e ideias envolvidos em crimes, teria sido tudo mera coincidência, ou ambos tiveram participação indireta em tais crimes, provando que a literatura, sim, pode ser perigosa? Mas antes de responder a isso, o que dizia Sade?

O PENSAMENTO DE SADE

Sade (1740 – 1814), diferentemente de outros pensadores, escreveu sua filosofia em meio a romances e novelas pornográficas; o que fazia seus escritos despertar interesse em um público muito mais amplo que não estava interessado apenas em filosofia, mas também em pornografia; meio que melhor se adaptava ao seu pensamento, já que o autor pretendia que os homens retornassem a cultuar os princípios básicos da vida, ao seus instintos básicos, tido por ele como superior as outras formas de pensamento. Portanto, o sexo era um elemento fundamental em seus escritos, pois por meio dele o homem poderia sentir-se como parte da natureza, fato que a moral estabelecida parecia tentar esconder do homem, criando uma enorme barreira entre este e aquela, moral e instinto. E assim como Nietzsche, inverteu noções de bem e mal, certo e errado. Afirmou que a moral baseava-se em noções contrárias à natureza, sendo, portanto, falsa. A verdadeira moral deveria partir dos verdadeiros princípios da natureza, de nossos instintos básicos, e não distorcê-los, e negá-los como impróprio do homem, como então a moral estabelecida tinha feito com o sexo, vendo nele não algo natural ao homem e aos outros animais, mas algo impróprio do mesmo, concebendo-o como antinatural, e recheando-o de sentimentos de culpa e de pecado. Deste modo, em nome dos instintos, Sade passou a defender tudo aquilo que a moral proibia, mas que, segundo ele, era garantido pela natureza, como o assassinato; o roubo; as formas mais extremas de sexo, em que o máximo de prazer está ligado ao mais extremo egoísmo, implicando mesmo na destruição do objeto do prazer; o incesto; o homossexualismo; o aborto; etc. Ele chegou mesmo a afirmar que o assassinato, aos olhos da natureza, era um direito do homem, embora, surpreendentemente, fosse contra o frio, e anônimo, assassinato através da pena de morte, devido a esta não ser algo natural, mas mera convenção humana.

SADE E O CONHECIMENTO PROIBIDO

Em seu livro Conhecimento Proibido, Roger Shattuck (1923 – 2005) toma a obra de Sade como um grande exemplo dos perigos da literatura, pois assim como outras áreas do conhecimento, como a física atômica e a manipulação genética, a literatura ao tocar em assuntos tabus, ou questionar valores humanitários, como propõe exemplarmente a obra de Sade, toca em noções extremamente perigosas, podendo influenciar pessoas com suas ideias perigosas. Roger Shattuck chega mesmo a questionar os livros de Sade entre as obras-primas da literatura universal:

“Deveremos acolher entre nossos clássicos literários as obras de um autor que violou e inverteu todos os princípios de justiça e decência humanas desenvolvidos ao longo de 4 mil anos de vida civilizada? Terá o século XX cometido, com relação ao marquês de Sade, um dos mais monumentais erros de julgamento cultural ao colocar seus livros entre as obras-primas de nossa literatura?”

E ainda, ao refletir sobre a atitude dos escritores e editores que se dedicaram a liberar a obra sadiana para publicação: “em nome da liberdade de expressão, somos capazes de defender práticas como a indecência, a profanação e as expressões de ódio, enquanto ao mesmo tempo tememos seus efeitos sobre a comunidade”.

Contudo, Roger Shattuck, não defende a censura às obras de Sade:

“O Ocidente levou séculos construindo uma cultura que associasse o sexo a noções de ternura e vida familiar. Explorando as próprias perversões, Sade criou uma pedagogia alternativa, em que sexo é maldade e assassinato. Para ele, crianças são como "unhas a ser cortadas". Ainda assim, eu jamais apoiaria qualquer censura ou destruição de suas obras. Basta combater, com todas as armas da razão, aqueles que se iludem e pintam como grandes gênios Sade e outros como ele.”

De modo geral, Roger Shattuck diz que é difícil explicar a reabilitação de Sade e, ao tentar, a uni as ideias de Nietzsche:

"Atribuo-a mais a um sinistro desejo de morte pós-nietzschiano, característico do século XX. Esse desejo de morte busca a libertação absoluta, sabendo que levará à destruição absoluta - física, moral e espiritual".

Em suma, para Roger Shattuck não apenas a obra literária de Sade ofereceria perigo, mas toda obra que quebrasse tabus ou questionasse valores morais fundamentais, como os de certo e errado, bem e mal, etc., o que inclui a própria obra de Nietzsche, e que faz aproximar as ideias de Shattuck da defesa feita pelo advogado Clarence Darrow no caso Leopold-Loeb.

Estaria ai a verdadeira explicação para que obras como a de Sade ou de Nietzsche, tenham exercido influência em assassinos como os descritos acima, comprovando que a literatura, sim, poderia exercer uma má influência em seus leitores?

CONTRARIANDO ROGER SHATTUCK

Porém, há um outro modo de ver tal questão. Em seu ensaio, Eliane Morais aponta algumas, como as de alguns autores que saíram em defesa da obra de Sade, como a do escritor Octavio Paz, que afirmou:

“Não acredito que haja autores perigosos; melhor dizendo, o perigo de certos livros não está neles próprios, mas nas paixões de seus leitores”.

Já Maurice Heine, primeiro biógrafo de Sade, responde a questão deste modo:

“Todos os livros, uma vez nas mãos de degenerados, podem ser considerados perigosos. Não é possível prever que impulso mórbido um degenerado pode receber da mais inocente leitura. Uma narrativa sobre a vida dos santos, ou outra sobre a paixão de Joana D’arc, pode perfeitamente levar um desses infelizes a se apoderar de uma irmãzinha e assá-la viva...”

Henri Miller, mantendo a mesma linha de raciocínio, ao questionar a proibição de uma de suas obras, argumenta:

“Não é possível encontrar a obscenidade em qualquer livro, em qualquer quadro, pois ela é tão-somente uma qualidade do espírito daquele que lê, ou daquele que olha”.

Em suma, para estes autores, contrariando as ideias de Roger Shattuck, os livros seriam objetos passivos, incapazes, verdadeiramente, de influenciar alguém, no máximo refletiria apenas a mente do leitor; em outras palavras, o perigo não estaria nos livros, mas sim na mente de seus leitores.

Para tais autores, o erro na argumentação de Shattuck, seria a impossibilidade de se prever qual o efeito que um livro teria em seu leitor, mesmo um livro como o de Sade; isto é, seria impossível provar que um livro que propõe o mal tenha a maldade como um de seus efeitos em seus leitores, já que esta poderia muito bem já estar presente na mente de seu leitor; ou que um livro de amor possa provocar efeitos bons em seus leitores. Ademais, as teses de Roger Shattuck “não nos autoriza a atribuir maior ou menor eficácia a este ou aquele livro, tendo em vista apenas seu conteúdo manifesto”. Por exemplo, no final do Séc. XVIII, o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, foi acusado de incentivar centenas de suicídios na Europa; o livro conta a estória de Werther, um jovem apaixonado, que não vendo seu amor correspondido se mata. As ideias de Roger Shattuck seria incapaz de prever o efeito de tal livro em seus leitores. E mesmo um livro considerado uma fonte de sabedoria como a Bíblia, já foi inspiração para atrocidades, como a inquisição, causando mais mal que todos os outros livros em mãos de pessoas inescrupulosas.

Visto por essa nova ótica, as obras de Nietzsche não teria nenhuma culpabilidade no caso Leopold-Loeb, anulando totalmente a defesa feita pelo advogado do caso. A culpa recairia apenas sobre os algozes; a maldade já estaria presente em suas mentes antes destes conhecerem a obra de Nietzsche.

CRITICANDO A IDEIA DE PASSIVIDADE DOS LIVROS

Porém a ideia de passividade dos livros, defendida pelos autores anteriores, tem também suas falhas, pois ela não é honesta para com os autores.

Se dizemos que os livros de Sade chocam é porque eles provocam no leitor reações adversas, eles não se mantém como passividade pura, refletindo, como um espelho, apenas a mente do leitor; eles convidam o leitor a participar de uma interação mútua; creio que a grande maioria dos autores não gostariam de ser apenas espelhos de seus leitores, eles gostariam também de provocar as mais diversas sensações em seus leitores, dividindo suas ideias, seus sentimentos, seus segredos, sua mais íntima intimidade, porém para tanto é necessário que o poder de agir lhe seja intrínseco. Negar esta ideia seria também negar o poder das palavras, das ideias; seria negar o poder de toda a tradição; seria sermos injustos com autores como Sade e Nietzsche; mas não necessariamente cairíamos no erro de Roger Shattuck ou do advogado do caso Leopold-Loeb ao atribui-los uma influência má.

A LITERATURA PODE SER PERIGOSA? AS IDEIAS DE GEORGE BATAILLE

Uma saída para o impasse é dado por George Bataille (1897 – 1962). Para ele, como nos explica bem Eliane Morais, os autores da literatura considerada perigosa, aquela que Roger Shattuck inclui entre uma das formas de “conhecimento perigoso”, que manipula a representação do mal, que ultrapassa, ou mesmo invertem noções de bem e mal, certo e errado, e que tem em Sade o maior de seus representantes, buscam por meio da literatura, explorar, trazer à tona, discutir possibilidades que a realidade recusa, por meio de “ uma espécie de ‘ruptura com o mundo’ e, consequentemente, com as exigências sociais de ordem ética e moral”, mas que são latentes ao homem. Deste modo, torna-se necessário a esses autores se desvencilharem dos valores de uma tradição humanista para poderem melhor repensá-los. Portanto, torna-se imprescindível que o autor crie certa cumplicidade com o leitor, para juntos explorarem regiões insuspeitas do homem, alargando o conhecimento deste; conhecimento que somente a literatura pode fornecer. Para tanto, é necessário que o leitor veja o mal não como algo exterior a si, como algo estranho ao humano, “mas sim como uma possibilidade que o concerne”. Neste sentido somente a literatura, para Bataille, pode, por meio do campo simbólico, transgredir a lei independente de uma ordem a criar; o que a torna, em certo sentido, perigosa. Porém sendo ela um conjunto simbólico ela é inorgânica, e sendo inorgânica ela é também irresponsável: “nada pesa sobre ela. Podendo dizer tudo.”

As concepções de Bataille marcam, pois uma profunda diferença entre as concepções precedentes; de um lado, com as ideias que concebem o livro como um objeto totalmente passivo, incapaz de influenciar o leitor, um mero espelho da personalidade deste, posto que devolve aos livros o poder de mexer, influenciar o leitor, criando mesmo uma cumplicidade entre ambos; e por outro, com as ideias de Roger Shattuck, fazendo com que o leitor não seja apenas um ser passivo, em que as ideias de um livro penetre em sua mente sem nenhuma crítica ou participação com este. E enquanto para Shattuck o mais importante é prevenir sobre o perigo destes livros, para Bataille o mais importante é que estes livros são necessários para se compreender o homem, os abismos mais profundos de seu ser, alargando assim o conhecimento sobre nossa própria natureza. O que parece ter sido mesmo uma das intenções de Sade: “a filosofia deve dizer tudo”; e que sendo verdadeiro, tudo deve dizer, mesmo que seja perigoso. O que aliais, como já foi demonstrado quanto a literatura, jamais saberemos o que pode ser, de fato, perigoso, se um livro de Sade e Nietzsche ou uma triste estória de amor como a de Werther, e muito menos se a maldade está nos livros de Sade, Nietzsche ou em seus leitores.

Vale lembrar que Nietzsche e Sade jamais mataram alguém.

“Sim, sou um libertino, eu confesso, concebi tudo o que é possível conceber nesta matéria; mas seguramente não fiz tudo o que concebi e seguramente não o farei jamais. Sou um libertino, mas não um criminoso nem um assassino”. (Palavras de Sade à sua esposa)


terça-feira, 26 de julho de 2011

A Dama do Túmulo (de Bosco Silva)








A LENDA DA MULHER DO TÁXI


Dedicado à Memória de Josefina Conty, a Mulher do Táxi. Que sua alma descanse em paz...


Em vida, durante seu aniversário, seu pai lhe dava como presente uma corrida de táxi pela cidade de Belém, por seus pontos turísticos. Tal costume, como testemunha a lenda popular, perdurou mesmo após a vida, pois toda a noite de seu aniversário ela costuma ainda, à meia-noite, pegar táxi e vagar pelas ruas de Belém.

Conta a lenda que tudo começou numa noite de seu aniversário, em que um taxista avistou uma moça bela, morena, vestida de branco, enfrente ao cemitério. Parou o carro e permitiu que a passageira embarcasse. Após rodar pelas ruas da cidade a moça pediu para que a deixasse em sua casa, na avenida Gentil Bitencourt. Ao descer do carro, a moça gentilmente pediu ao motorista se este não podia vir em outro dia, em sua casa, em busca de seu pagamento. Este concordou e, ela ao entrar na casa, o motorista partiu. No outro dia o motorista foi à casa; ao chegar lá, uma velha senhora lhe atendeu; ele lhe disse que estava ali para receber por uma corrida que uma moça tinha lhe pedido para buscar outro dia. A senhora lhe respondeu que a única mulher que morava na casa era ela, à anos. Disse ele que não podia ser, pois tinha visto a mulher entrar na casa. Após tentar várias vezes convencer a senhora, eis que o vento abre a porta de um cômodo que dava para a sala, expondo um retrato na parede. O motorista imediatamente observou: veja, foi aquela moça. A senhora imediatamente lhe respondeu: mas esta é minha filha já morta alguns anos...


O CONTO: A DAMA DO TÚMULO

Este conto é dedicado a todos os fantasmas; a essas
criaturas tristes e solitárias, que alegram minhas madrugadas.


- TUDO COMEÇOU NAQUELE DIA, QUANDO CHEGUEI ATRASADO AO ENTERRO...
O enterro estava marcado para às quatro horas da tarde; porém, cheguei às seis da tarde ao cemitério. Não havia mais quase ninguém naquela velha cidade da morte. Aproveitei então para dar um pequeno passeio pelas redondezas, por aquelas últimas moradas. E após andar por alguns minutos, por entre aquele imenso labirinto da morte, encostei-me, casualmente, em um velho túmulo para fumar um cigarro. E enquanto fumava, pus-me a examinar o local. Olhei então para o túmulo que estava em minha frente. Vi sobre a lápide uma foto de mulher, de uma bela mulher que aparentava estar na flor da idade, vestida em seu belo vestido. Vestido que deve ter lhe acompanhado em alguns momentos mais felizes de sua vida, mas que agora jazia sob o frio daquela pequena construção de mármore.


O túmulo aparentava ter sido abandonado por seus familiares, há algum tempo. E, em alguns lugares, o mato crescia, como o terrível símbolo do esquecimento que inevitavelmente causa a morte. Olhei ao redor, todos os túmulos ostentavam flores, menos o dela. E, ao olhar, vi uma pequena árvore, que embora pequena, transbordava de flores. Apanhei algumas e pus sobre seu túmulo, dizendo: “Que a uma dama jamais se negue flores!”.


A tarde já se esvaia em um maravilhoso tom vermelho, como as últimas gotas de sangue de uma lenta, e pálida hemorragia, quando me despedi daquele túmulo, caminhando, cruzando o cemitério, em direção de sua saída. E por mais que andasse por aquelas avenidas lúgubres, não conseguia pôr-me em direção a saída. Olhava o céu agora já em um tom azul marinho, que aos poucos tornava-se escuro. As luzes do cemitério se acendiam, e mal clareavam o caminho. Foi quando me senti preso em um labirinto. Em um labirinto de pequenos cubículos, que eu sabia que não estavam vazios. A sensação de não estar sozinho evadia minha alma, que ao cruzar pela terceira vez a mesma avenida, me desesperava... Olhei e senti algo familiar naquela avenida; era a avenida que abrigava aquele velho túmulo. Dirigi-me então para o mesmo. Observei que as flores já não estavam mais sobre ele. E que havia naquele rosto, da foto, detalhes que não havia antes visto, como um leve sorriso, que agora despontava daquele belo rosto. Pude ler então seu nome: Josefina. Imediatamente, pus novamente as flores no lugar e segui o meu caminho...


O cemitério estava agora totalmente vazio; nem uma voz se ouvia, somente o vento por entre aquelas construções sem vida. E ao cruzar pela quarta vez por aquela, agora, familiar avenida, percebi que estava andando em círculos. Decidi então cruzar pelo velho túmulo e seguir em linha reta, adiante, sempre adiante, tentando lembrar o caminho seguido antes. E ao passar novamente pelo túmulo, reparei que as flores não estavam novamente lá. Pensei no vento, e na possibilidade deste as ter derrubado; e pus novamente elas no lugar. Foi quando, curiosamente, olhei novamente para a foto. Além do leve sorriso, pude ver agora um suave olhar para mim. As luzes pareciam terem feito seu semblante mudar, acrescentavam agora um delicado piscar. E, de repente, pude ouvir, então, uma ofegante respiração, por entre os túmulos, aumentando... aumentando... aumentando... Até que, uma mão pôs-se sobre meu ombro. Um imenso arrepio percorreu por todo o meu corpo; virei-me então para olhar... Era um velho coveiro, que dizia-me:


- O Senhor está perdido? Estamos na hora de fechar.
- Sim, sim. Vejo que perdi a hora – disse eu a este secretário dos mortos.
- Então, favor, siga-me.


E assim, segui-lo. E pude, finalmente, encontrar a saída, tão almejada.
* * *
À noite, mal pude dormir, pensava no meu amigo, na sua morte, na falta que me faria, e em não ter podido, dele, me despedir. E, nas poucas vezes que conseguia dormir, sonhos invadiam minha mente. O mesmo sonho recorrente. Sonhava com a mulher do túmulo, vestida em seu belo vestido branco, rodopiando em um grande salão antigo, com grandes janelas e cortinas de veludo vermelho e, no teto, um grande lustre cor de prata, clareava o ambiente, que explodia em alegria. Ela dançava com alguém, em meio à dezenas de casais que dançavam com leveza e graça. E ao rodopiar ao lado de um imenso espelho, pude ver que o cavalheiro, com quem ela dançava, era eu, vestido em trajes antigos, também. Espantado, soltava suas mãos e tentava fugir do salão. Porém, os casais, rodopiando ao redor do mesmo, não me deixavam sair. Ela olhava-me, chamando-me com suas mãos estendidas. Os casais ao redor, ao passarem ao meu lado, diziam-me: “Vamos Bosco, dance com Josefina Conty”.


Naquela noite acordei assustado; minha alma transbordava o negrume da morte, pois algumas pessoas que tinha visto no sonho já tinham a muito morrido; eram parentes e amigos. Lembrei-me de ter visto também entre eles Raimundo, o amigo recentemente falecido.


Passei todo o dia pensativo. Liguei para a mãe de Raimundo, e me desculpei por não ter chegado a tempo ao seu enterro. Pedi seu último endereço e prometi visitá-lo, imediatamente.


À tarde, como prometido, voltei novamente ao cemitério, desta vez para visitar o túmulo de meu amigo. Levava comigo algumas garrafas de vinho, flores e o mapa do cemitério, que peguei com a portaria. Desta vez não me perderia...


Após visitar o túmulo do amigo, e depositar em seu túmulo flores e uma garrafa de vinho, em nome das noites de boêmia, fui compelido, por uma curiosidade mórbida, ao visitar o túmulo da bela dama morta.


Ao chegar, surpreendeu-me verificar que as flores não estavam murchas, mas organizadas e umedecidas em um vazo sobre seu túmulo. Lembrei-me então do sonho; e curioso verifiquei seu nome. Percebi então que seu nome se deteriorara, permanecendo apenas o nome Josefina. Depositei novas flores; observei sua foto por alguns minutos, e, em seguida, voltei para casa.
* * *
À noite, novos sonhos me assombraram. Sonhava novamente com a dama morta. Esta vinha à minha cama agradecer-me pelas rosas depositadas. Chamava-me por meu nome: “Bosco... Bosco... Bosco... obrigado pelas flores... Venha querido... Venha comigo”. Levantei-me da cama, e, de mãos dadas, pus-me a caminhar ao seu lado. Ela, levou-me para um outro quarto, de mobílias antigas e cama de colunas de carvalho. Um quarto que não pertencia a minha casa. Beijava-me a boca, e lentamente tirava o seu belo vestido; surpreendendo-me com um lindo corpo lívido, que me extasiava, absorvido em um misto de delírio e prazeres contínuos.


Na manhã seguinte, acordei-me nu e fraco, totalmente exaurido. Manchas de suor cobriam ainda o leito, tantas vezes nele dormido. Lembrei-me dos sonhos eróticos de minha infância. Porém, neste havia um sabor que nenhum outro tinha: um misto de prazer e terror, que eu jamais tinha visto.


O dia transcorreu sob uma angústia inquietante. Vozes e pensamentos me torturavam. Um sentimento estranho de saudade me abalava. Tornava-me um ser com indisposições estranhas e inexplicáveis.


Na noite seguinte, após logo deitar-me e fechar os olhos, senti a sensação de parte do colchão afundar, pouco a pouco, como se alguém cuidadosamente se deitasse ao meu lado, não querendo me acordar. E ao sentir isso, virei a cabeça para verificar, e ao olhar, verifiquei que não havia ninguém ao lado! Nesse momento, o medo e o espanto apoderam-se de mim, e me perseguiram durante outras noites. O medo que da próxima vez se repetisse e que a visão fosse terrível...
* * *
Seu túmulo não saia de minha mente. Todos os dias, algo me compelia a visitá-lo. Uma obsessão tomou conta de mim: um misto de prazer e agonia em observá-lo.


Sonhos evadiam minha mente. Sonhava com ela, todas as noites. Sonhos lúbricos, e lascivos, parecia nutrirem-se de mim. E quanto mais fraco eu tornava, mais forte os sonhos ficavam; ao ponto de não mais saber se eram sonhos ou realidade.


Os floristas já me conheciam. Olhavam-me como alguém que teria perdido um ente querido; do qual, da saudade, não conseguia se desvencilhar.
* * *
Os dias transcorriam em estranha normalidade. Porém, numa noite, enquanto estava no banho, ouvi pequenos sons de pisadas pela casa. Pareciam com sons de passos femininos, que pisavam com suavidade. Imediatamente sai do banho, para verificar de onde vinham. Nada vi, exceto um vulto branco que cruzou-me próximo ao quarto. Estranhamente minhas roupas não estavam onde eu as tinha deixado. Procurei, por elas, por todos os lados. Por fim, encontrei-as no cabide, bem no escuro do quarto. Então, ao apanhá-las, um imenso calafrio invadiu minha alma, e tombei ao chão desmaiado... Ao acordar, tudo estava escuro. Porém, ao acender a luz, meu amigo, lá estava ela, ao olhar-me com aqueles belos olhos! Sim, era ela Josefina, que me espreitava. O susto, em seguida, deu lugar a volúpia, como os de corpos que se tocam, com cumplicidade. Tudo parecia real, seu corpo, seu toque, seu hálito. Porém, ao abraçá-la, um estranho frio de seu corpo emanava...


Ao acordar, tudo parecia ter sido apenas sonho, mas algo havia naquilo que me fazia discordar. A dúvida evadia minha alma: teria tudo sido apenas sonho? Estava eu vivendo uma alucinação, daquelas que atormentavam tanto a alma? Foi quando a resposta me veio à tona...


Ao visitar mais uma vez o cemitério, procurei as origens daquele túmulo que tanto me fazia pensar. E ao pegar um velho livro de registro, pude, finalmente, comprovar, que ali jazia Josefina Conty, morta em 1931, em plena flor da idade, em seus belos vinte anos. A verdade tinha vindo à tona, do modo mais pungente. Sim, seu nome correspondia ao sonho que eu tivera anteriormente, aquele que sonhara com um grande salão de baile.


Cheguei em casa, nesse dia, embriagado. Ao abrir a porta de casa, senti um suave perfume de flores. Perfume que exalava por toda a casa. Fui para o banheiro, lavar o rosto. Olhei-me no espelho enquanto me banhava. Vi um pequeno pente ao meu lado, sobre a pia. E ao olhar para o meu reflexo no espelho, vi o pente, por trás de mim, levantar-se, à minha altura; olhei para trás... Você não vai acreditar!, lá estava ela, novamente, desta vez em carne e osso, se penteando, com aqueles belos olhos verdes à espreitar-me. Olhei para o espelho, novamente, não via nada. Ela agarrou-me, beijou-me a boca; senti como se a vida se esvaí-se de mim, pouco a pouco. Ah!, aquela boca me tragava a vida...


- É! É uma história e tanto! – disse-me o amigo esboçando dúvida, mas acima de tudo curiosidade. E continuou a interrogar-me:
– E como se desenrolou essa história?
- Ah! Ela levou-me para o quarto. E quanto mais me beijava, com seu belo corpo nu, mas sentia-me fraco... fraco... fraco... E após esse dia, todas as vezes que voltava para casa, lá estava ela à esperar-me, com seu belo corpo, que a cada dia mais me extasiava, num contínuo mundo de prazeres sem fim. E à olhos vistos, meu amigo, cada vez mais me degradava... Ela tornou-se, para mim, como um vício, que embora tornava a vida prazerosa, viver em sua companhia, cada vez mais algo de mim tirava...


Porém, uma noite, ao chegar em casa, feliz em poder desfrutar mais uma vez de sua companhia, notei que ela não estava. Chamei-a, e, por mais que a chama-se, ela não vinha. Fui então para o cemitério, em plena madrugada, dormi sobre sua lápide fria, fria como seu belo corpo. Acordei-me com ela me olhando. Acariciou-me os cabelos, e disse-me, que se continuasse me mataria. Ah, meu amigo, cai em pranto, e de joelhos, e lhe supliquei que continuasse. Que nada me importava, nem mesmo a vida, sem sua companhia...


- Bem, parece-me ser a primeira vez que ouço uma história de fantasma que parece ser agradável. Era ela, então, um belo fantasma?
- Sim, sim, do tipo de mulher que qualquer homem desejaria. Era maravilhoso viver em sua companhia. Todo dia não via a hora de chegar em casa. Porém, nem tudo é perfeito!, meu amigo.
- Por quê?
- Porque descobri que Josefina me sugava a vida, como um vampiro.
- Como um vampiro?
- Sim, sim. E o que mais me entristece é que a cada dia menos vida eu tenho para lhe dar...

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ARABESCO (de Marcos Salvatore)




Não, meu amor. Não é um poema – gosto de poesia, realmente, mas... -; é só uma coisa pra você; (também minha...) às três da madrugada. São tentações de cognitivo e grávido gesto, expressas em muitas palavras sem querer de um afetuoso sonho não dormido, insone no gozo de provar – sei que gosta quando falo assim. Você me diz sempre que pode. Se queixa que eu paro quieto, que a barra pesa lá fora.

Nosso amor não deixa fósseis nem rochas, só sentimentos em relevo. Ao seu lado, palavra por palavra, eu talvez me aprenda como sou, apenas sendo e aceitando este ser mais velho além de você, que me invade constantemente as recusas. Anos-luz dentro... fora. Agora, aqui, escondido em vida própria pouco antes da gente se conectar – tenho medo, eu custo um pouco: - “Estou do avesso, me dobre”.

Há quanto tempo se troca por um degenerado, louco transitivo? Aplicado em te divertir com narrativas de noites e noites sem dormir. Muitas histórias de alguém tentando voltar pra casa, não só as mãos vazias - nem tudo está ao nosso alcance de parir. Cada qual na sua onda, sua praia, procurando se ligar. Maior sujeira, se abrir, desabafar de bar em bar: é tudo tão ensurdecido. Sei que concorda.

Você não me dá escolha, a não ser ficar e esperar passar das duas, me permitindo pensar que tudo que temos são as horas que não percebemos quando estamos juntos - a condição é essa. Acho até que, inevitavelmente, ser feliz deve ser isso: não perceber que se guarda (ou aguarda) o que é vital.

É comum eu me descabelar na sua boca, entre suas pernas – seguro nos seus peitos pra não me despedaçar na luta contra as coxas. Não sei mais como me vestir, nem me ferir. Tudo isso, nada disso. Não sei mais vagar por aí. Então te respiro os cabelos insanos: - Me dispa! Me fira! Me viva, porque eu não sei do que se trata se não for amor! Nunca soube. Até sabia. Até achava, depois perdia. Até hoje... outro dia.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Entrevista com o Diabo (de Bosco Silva)














CARTA AO LEITOR

Caro leitor, aqui, finalmente, está, o que tenho guardado a alguns anos. São segredos que me foram revelados a poucos anos. E que não poderia deixá-los encobertos por puro egoísmo. Por isso, aqui venho, por meio desta, dividi-lo com você, pelo grande valor de seus conhecimentos.

Nela estão algumas revelações, que após anos de pesquisas, foram-me possíveis pelo contato com uma estranha entidade ancestral, que presidiu a própria criação do mundo.

Peço-lhe que julgue por si próprio a veracidade de tal história, sempre levando em conta o bom senso em tal investida. E mesmo que creia não ser verdadeira, atente para o conhecimento que nela está contido, pois são conhecimentos reveladores, que podem ser vistos como independentes de sua história.

O Autor.




ENTREVISTA COM O DIABO

“É doloroso, mas o mundo é do Diabo, assim como o Céu é dos tolos”
(Palavras de Satã, personagem da obra Macário de) Álvarez de Azevedo


Estávamos todos bêbados naquela noite, e, quando isso acontece, quase sempre alguém inventa a brincadeira do copo.

Para aqueles que não a conhece, ela chama-se assim por utilizarmos um copo como apoio para nossas mãos, e também como seta, que indicará letras, que formarão palavras por meio dos movimentos involuntários de nossas mãos sobre um tabuleiro, tendo todas as letras do alfabeto.

Esta é uma velha brincadeira, que não assusta mais, com sua idéia que um espírito ao redor da mesa irá responder todas as nossas perguntas, já que todos sabemos, como já foi dito, que se deve a movimentos involuntários, ou a vontade, bastante voluntária, de alguém engraçadamente intencionado.

Mas, não ligando para isso, e tendo apenas o intuito de diversão, nos entregamos a tal brincadeira.

Em um dado momento, as letras se conjugaram e formaram a palavra Belzebu, e logo em seguida a palavra telefone, seguida por meu nome.

As risadas imediatamente se alastraram pelo ar. Senti-me logo como o escolhido, para as próximas brincadeiras que dali surgiriam, naquela noite.

E, malgrado meus avisos que não iria me assustar com tal brincadeira, o telefone tocou imediatamente.

Era para mim. E aos risos fui atendê-lo.

Do outro lado, uma voz bastante grave me dizia:

- Aqui é Belzebu. Meu mestre, o Diabo, gostaria de contactá-lo.

Eu, admirado pela organização e rapidez da brincadeira, fiz questão em participar dela.

Disse-lhe, então:

- Qual o motivo de tão magnífico convite?
- Os dois artigos que escreveste sobre o Diabo.
- Ah!, sim, O Diabo e o Rock* e A Verdadeira História do Diabo**.
- Sim. Ele gostou muito. E após milhares de anos, Ele encontrou alguém a quem pudesse dar uma entrevista. Alguém que conhece os erros e as injustiças que lhe tem sido atribuído.
- Então, serei para Ele uma espécie de advogado, um advogado do Diabo?
- Sim.
- E o que receberei em troca?
- Conhecimento e paciência para suportar as idiotices dos religiosos.
- Bem, já é um bom começo, pena que em meu país o conhecimento vale tão pouco!
- Irei contactá-lo novamente. E darei o local e a data do encontro. Aguarde – disse-me.
- Ok. Dê lembranças ao Diabo. Diga que Ele tem bom gosto – e desliguei o telefone às gargalhadas.

Os dias passaram, e esqueci totalmente da brincadeira. Porém, um dia, enquanto estava enfrente à televisão, recebi um telefonema:

- Alô.
- Você ainda se recorda de nossa última conversa? – disse alguém do outro lado da linha.
- Que conversa?
- Do encontro programado.
- Que encontro?
- Do encontro com o Diabo.
- Ah, sim, desculpa.

A brincadeira passada ainda fazia-se render. E eu ainda continuava a mantê-la viva. Disse-lhe, então:

- Continuo aguardando.
- Finalmente, hoje nos encontraremos. Aguarde um taxi em frente de sua casa, às três horas em ponto da madrugada. Ele lhe trará até nós.
- Sim, vou aguardar.

Um táxi preto, com vidro fumê, parou enfrente ao meu prédio, como o combinado, às três horas da madrugada. A placa, curiosamente, ostentava o número 666.

A noite e a brincadeira bem produzida, prometiam – então, pensei.

Ao entrar no carro, eu não conseguia ver o motorista, pois um vidro escuro nos separava. O taxi rumou, então, para o centro da cidade. E logo estávamos enfrente a principal igreja da cidade: Basílica de Nazaré.

Ao lado dela um sujeito de preto me aguardava.

Era um sujeito alto, bem apessoado, que tirando os óculos escuros, nada de diferente aparentava.

Disse-me, com voz extremamente grave: - Seja bem-vindo. Meu nome é Belzebu.

E em seguida entramos por uma portinhola que havia ao lado da igreja.

Comentei a ele que jamais tinha visto tal portinhola, mesmo passando por ali quase todos os dias. O qual me respondeu de imediato: - O Diabo tem seus segredos!

A pequena porta nos conduziu a um longo corredor iluminado por tochas em todos seus lados. Ao fundo do corredor uma imensa sala, iluminada por luz de velas negras, tendo no centro uma grande mesa, em que se encontrava um sujeito, sentado, trajando um longo hábito, com capuz. E sem levantar a cabeça, saldou-me ao entrar:

- Seja bem-vindo ao meu último exílio. SOU AQUELE QUE TODOS TEMEM SEM CONHECER. Sou a luz e a treva. O Grande Todo. Aquele que a própria morte teme.
- Eu, sou apenas aquele que escreve: um simples escriba.

Olhava discretamente para todos os lados, para ver as pessoas que deveriam estar escondidas a nos observar. Mas, por mais que olhasse atentamente, nada via. A brincadeira parecia, mesmo, ser muito bem feita, tanto que não via a hora de perguntar pela aquela produção cenográfica. Por seus detalhes muito bem feitos.

Ficava a pensar de quem era a obra, quem a teria organizado, quem a teria planejado. Pensei por um momento que poderia ser uma festa surpresa. Mas não era um dia especial em minha vida, como aniversário. O que então seria?!

O que melhor poderia fazer era segui-la e ver em que daria.

Disse-lhe, então:

- Observei que a placa do carro é 666, então estava errado, este é mesmo o número do Diabo?
- É o que dizem, mas para mim não tem o menor sentido. Uso-o apenas para identificar-me, mas poderia ser qualquer outra coisa. Embora você esteja correto em seu texto.
- A tradição o associa ao sol, e figurativamente aos seres iluminados, pois 666 é a soma dos números de 1 à 36, dos números do quadrado mágico, que representa o sol.Representa, portanto, também Lúcifer, palavra que em sua origem, latim, significa aquele que traz a luz. Nada há nisso de mal, pois é um belo título, que tem sua origem no nome da estrela da manhã, o planeta Vênus, que antecede sempre ao amanhecer e pôr do sol.

Cristo também o usou, a se referir como estrela da manhã, como aquele que traz a luz, como o iluminado, enfim, como Lúcifer: “Eu, Jesus, ... Eu sou a raiz e o descendente de Davi, sou a ESTRELA RADIOSA DA MANHÃ.” (Apocalipse 22:16).

Mas para você, certamente, é apenas mais uma velha história.

Nesse momento, notando que seguia a cena à sério de mais, enveredei para um tom mais jocoso, pois aquilo era para se divertir, e eu deveria me divertir mais. Então, perguntei:

- É verdade que és a criatura mais velha que existe, até bem mais que minha avó?

De imediato aquele sujeito pareceu se inflamar de ódio, soltando um grito ensurdecedor, ao qual nada deu para ver seu rosto, mas apenas sua imensa boca, que fez tremer a mesa e a parede. E em seguida, pôs-se falar palavras incompreensíveis, que pareciam ser latim. Pensei comigo, ainda bem que não perguntei sobre seus chifres! E ri em silêncio.

Em seguida, me respondeu:

- SOMENTE AQUILO QUE MORRE POSSUI IDADE. PORÉM, EU SOU O PRÓPRIO TEMPO, A ETERNIDADE.

E após algum tempo em silêncio, em um momento mais calmo, tal brincadeira trouxe- me à memória uma velha lenda de minha cidade, que afirma que uma imensa cobra dorme à anos sob a velha igreja, e todas as vezes que esta levemente se acorda faz tremer a cidade. Perguntei-lhe, então:

- Qual o motivo de se encontrar em uma igreja católica, e não em outra, como em um templo evangélico?
- Pelo menos aqui não usam tanto meu nome para ganhar dinheiro. Além disso, há o vinho!
Dois mil anos de Cristianismo, pelo menos valeram para criar o gosto por um bom vinho. E o vinho dos padres são os melhores!

E enquanto saboreava o vinho, tirando gosto com as hóstias, suspendeu a grande taça, brindando a mim. E como por um passo de mágica, soltou a taça deixando-a parada no ar, enquanto folheava o grande livro que havia na mesa. Disse-me, então:

- Sei que não acreditas em mim. Mas, veja, eis o livro da vida e da morte. Seu nome, como os de todos, está aqui. Bem como grande parte de sua vida.

E após falar isso, levantou-se em direção a mim. Pôs sua mão sobre minha cabeça, e com uma grande nitidez, pude ver toda a história do mundo, de seu princípio àquele momento que me encontrava ali. Em seguida, pôs-se a contar segredos da minha vida, que nem mesmo eu sabia. Bem como fantasmas de meus entes queridos, alguns que eu nem mesmo conhecia, puseram-se a contornar-me dizendo segredos aos meus ouvidos. E assim, pude ver, finalmente, de que se tratava. Tudo era absolutamente verdade. E caí de joelhos...

Ele em seguida, perguntou-me:

- Queres saber algum segredo?
- Sim, o maior de todos. Conte-me sobre a morte. Há vida após a morte?
- Nada posso dizer-lhe.
- Mas, Você não conhece tudo?
- Sim. Conheço. Mas pense na morte como num final de um grande livro: se eu contar-lhe o segredo, o final, estraga a história! Pois sou também o autor deste Grande Livro. E tudo que posso lhe dizer é: não se assuste, a morte é um grande alívio!
Mas, você pode descobrir por si próprio.
- Mas dizem que não é possível ter certeza, em tal assunto.
- Besteira – disse-me, Ele.
- Olhe.

Neste momento, o corpo de um homem apareceu entre nós.

- Quem é ele? – perguntei ao Diabo.
- Não importa. O que importa é que está morto.
- E o que diria este sobre a própria morte? Poderia este corpo nos relatar algo?
- Muitíssimo, meu caro.

E após isto, o corpo começou a apodrecer, em nossa frente, mudando de tonalidade, inchando, se liquidificando, sendo absorvido por bilhares de bactérias e vermes, tornando-se apenas ossos. E, finalmente, secando, até ao pó.

Em seguida, o Diabo, disse-me:

- Um cadáver conserva sua estrutura de organismo vivo por pura inércia de seu material. Pouco a pouco seu material é absorvido pelo todo. Pois, “o cadáver não é senão o conjunto dos materiais da vida: um pouco de água, de carvão, de azoto, de ferro”, como já foi bem dito.
A vida é “o que mantém, direta ou indiretamente, a própria forma do organismo”, em sua luta diária para não se entregar ao todo. A vida, pois, é o extremo da morte.
- Sim, mas nada há de novo nisso.
- Calma, meu amigo – disse-me, com a voz extremamente calma. E continuou:
- Por outro lado, há na natureza um ponto de equilíbrio, em que os extremos se assemelham e se completam, mantendo o universo, sua unidade (uni), apesar de sua infinita variedade (verso), fazendo com que este não se destrua, mantendo o equilíbrio de seus elementos e de seus excessos, e conservando em todas as coisas sua identidade - e continuou:


Por isso, não é de estranhar semelhanças nas coisas e em seus excessos. O que faz com que a mais alta e a mais baixa temperatura, queimem; que a falta e o excesso, façam mal; que o imensamente grande e o pequeno, se assemelhem, como no átomo e em seu semelhante sistema solar; que a infância e a velhice tenham pontos em comuns, na diminuta quantidade de pêlos e dentes, na pele enrugada, etc; que o silêncio e o mais alto som sejam inaudíveis; que o grande e o pequeno, sejam extremamente mortais, como um elefante e um vírus; que a mais extrema fealdade e beleza chamem atenção; que o zero e o número infinito, não sejam divisores de nenhum outro número; que a falta e o excesso de água, façam mal, o primeiro causando desidratação, o outro afogamento; que a ausência e o excesso de luz, nos torne cegos; que o óbvio e o incomum, torne-se de difícil explicação; etc... e, finalmente, que a vida e a morte possua muito em comum.
Este é o caminho, meu caro, aplique este princípio e entenderás cada vez mais sobre a morte. Isto é tudo que desta posso lhe ensinar.
- E quanto a estas doutrinas que explicam sobre a morte?
- Tudo balela! Meras projeções inconscientes.
- Fico a pensar o que pensariam outras pessoas a ouvir o que dizes. Certamente, não acreditariam em nada que dizes, pois para elas o Diabo é o pai da mentira.
- Certamente. Mas foram seus líderes religiosos que mentiram. Se há um criador da mentira, esse criador é o homem, em sua busca desenfreada por poder.
Primeiro, para aumentar o poder de suas crenças, tentaram destruir os deuses pagãos, distorcendo seus significados para seus seguidores, tornando-os seres negativos, sem nenhum valor positivo. E assim impedindo seus seguidores de conhecerem e respeitarem outras crenças. Associando tais deuses a esta imagem falsa, criada simplesmente para amedrontar seus seguidores, do Diabo, como um ser puramente malévolo. Para tanto, juntaram símbolos, que para outras religiões eram, e são sagrados, criando assim tal imagem.

E enquanto falava isso, abaixou o capuz expondo seu rosto. Ao qual reagi com imenso susto! Pois mesmo conhecendo sua história, me espantou saber que o Diabo possui rosto humano.

Disse-me:

- Por acaso, esperavas pele vermelha, barbicha e chifres? Quanta ignorância! Agis como um homem qualquer!
- É que mesmo sabendo sua história, torna-se difícil livrar-me destas idéias preconceituosas.
- Sempre me surpreendeu que pintassem um quadro horrível de Mim. Imagine: Eu todo-poderoso, querendo capturar novas almas, iria lhes atrair com uma imagem horrível, cheirando a enxofre? Não seria melhor assim...

Neste momento transformou-se em uma linda mulher, como poucas que já vi na vida, com um corpo escultural, esplendoroso!

- Ou assim...

Transformando-se em um belíssimo carro, como aqueles que são intensamente desejados.

- Eu não possuo rosto, nem formas, porém, tomo a forma que quiser. E digo-lhe, jamais tomaria uma horrível forma. Esta foi criada para distorcer outros deuses.
Veja, por exemplo, os chifres, para antigas culturas, estes representavam símbolos de sabedoria, em seus deuses. Assim como outros, como o tridente. Mas que hoje representa esta imagem asquerosa do Diabo. DEPOIS EU QUE SOU O MENTIROSO!
Quanto a isso, esta falsa imagem minha está ligada ao imenso orgulho humano, pois estes crêem que são a coisa mais importante do universo, e que eu apenas teria um único pensamento: tentá-los para possuir suas mentes, e assim ofender a deus, com a idolatria de sua mais importante criatura, como se Eu não tivesse coisas mais importantes a fazer!
Veja estes filmes, em que possuo a mente de jovens meninas, como me retratam idiota! Para que perderia tempo em possuir mentes tão insignificantes, sem nenhum poder, quando poderia possuir mentes poderosas, como as de alguns presidentes, e causar tantos danos. PARA QUE PERDER TEMPO PROVOCANDO TREMELIQUES, SE POSSO CAUSAR TERREMOTOS!, meu caro.
- Então, por que continuas conservando o nome Diabo?
- Como disse antes, é apenas um modo de me identificar, pois Eu mesmo não tenho nome. Assim, nomes como Demônio, Satã, Mefisto, Satanás, Samael, ou os populares, Capiroto, Coisa-Ruim, Sete-Peles, Capeta, Demo, Cão, etc, não têm para mim o menor sentido, são apenas nomes.
- E o termo Lúcifer, teria algum sentido?
- Ah!... este, sim. Lucis Ferre: Lúcifer, AQUELE QUE TRAZ A LUZ. É um belo nome! Com um belo significado. Este sim, cabe à mim. Sou Eu quem traz o conhecimento aos homens.
- Contudo, mesmo este termo tornou-se distorcido para os cristãos.
- Pobres coitados, procuram a luz, enquanto mais se atolam nas trevas da ignorância!
São adultos que possuem temores de criança! Este é mais um erro de seus líderes religiosos. Não vêem que é um magnífico título! Até mesmo seu deus, Cristo, ostentou-o.
- E quanto ao outros deuses?
- Não há outros deuses. Sou o único Deus. Sou a consciência do Cosmo - e continuou:

Atar, Resheph, Anath, Ashtoreth, Ahura Mazda, Nebo, Melek, Ahijah, Ísis, Ptah, Baal, Baco, Astrarte, Ares, Hadad, Hermes, Hera, Dagon, Yau, Amon-Ra, Ártemis, Apolo, Osíris, Molech, Arianrod, Morrigu, Jupiter, Jano, Sekhmet, Govannon, Gunfled, Geb, Dagda, Dionísio, Geush Urvan, Ogurvan, Dea Dia, Iuno Lucina, Inanna, Saturno, Furrina, Cronos, Engurra, Belus, Ubililu, U-dimmer-na-kia, U-sab-sib, U-Mersi, Tammuz, Vênus, Belis, Nusku, Néftis, Aa, Sin, Apsu, Elali, Mami, Zaraqu, Zagaga, Nuada Argetlam, Nut, Tagd, Goibniu, Odim, Ogma, Marzin, Mitra, Marte, Diana de Éfeso, Ra, Seth, Robigus, Plutão, Ptah, Vesta, Zer-panitu, Zeus, Zam, Merodach, Minerva, Elum, Enki, Marduk, Mah, Nin, Perséfone, Istar, Lagas, Nirig, Nebo, Em-Mersi, Assur, Asalluhi, Beltu, Kusky-banda, Nin-azu, Qarradu, Urano, Ueras, Vesta, Khonsu, Afrodite...

Todos estes deuses - e essa é apenas uma pequena lista de centenas de milhares de deuses - foram deuses de culturas poderosas, em seu tempo. Todos foram cultuados e temidos. Sacrifícios foram feitos em suas homenagens. Pedidos e rezas eram lhes enviados. Gerações se dedicaram a construir-lhes imensos templos. Sacerdotes se dedicaram a lhes interpretar suas vontades, seus desígnios. Desafiar suas vontades era inevitavelmente a morte. E onde estão agora? Estão todos esquecidos, como seus povos. MAS EU CONTINUO VIVO, POIS SOMENTE O QUE NÃO TEM NOME NÃO PODE SER ESQUECIDO.
- Sim. E agora temos Cristo – disse eu a Ele.
- E o que diferenciaria esta nova crença das antigas? Todas foram e são formas de dominação.
COMO SE PODE CRER EM ALGO QUE LHES FORA IMPOSTO À FERRO E FOGO, A CUSTA DE TANTO SANGUE!!! Da conversão imposta pelo imperador Constantino, aos seus súditos, ao Cristianismo, à conversão dos índios neste tempo. Incluindo as cruzadas que mataram e expulsaram milhares de não-cristãos de Jerusalém, à Inquisição, que matou milhares de pessoas, por não compartilharem de crenças cristãs. Incluindo também a total dominação e manipulação da cultura e do conhecimento, durante centenas de anos, em favor da religião cristã.
QUE CRENÇA É ESSA QUE PRECISA DE TANTA FORÇA PARA CONVENCER OS HOMENS DE SUA VERDADE!!! Não a bastaria por si própria?
As religiões sempre foram usadas para manipular o povo, lhe roubando a energia necessária para transformar a realidade. Os antigos gregos já sabiam disso, para eles religião era coisa para mulheres e escravos. Era um instrumento de poder para acalmar os ânimos dos menos favorecidos, como estes, e assim manter a ordem.
- Então, não há nada de positivo nelas?
- Há, sonhar é preciso!
- E o tal falado encontro, no deserto, entre Cristo e o Diabo?
- Na verdade nunca houve tal encontro. O que lá se comenta é a luta entre o desejo espiritual do homem e os desejos e necessidades da carne. Tais escritores usaram o Diabo como uma personagem para simbolizar os desejos e a luta contra as tentações da carne.
- Tudo é mentira? – indaguei imediatamente a Ele.
- Seria um exagero afirmar isso – respondeu-me. Mas, pode-se dizer que em grande parte, sim.
Ainda lembro quando começaram: eram apenas um punhado de simples seguidores amedrontados e castigados com a dura realidade. Procurando por todos os cantos por alguém que pudesse lhes dá esperança, como ainda hoje. Até que surgiu um homem, em meio a tantos outros, um certo Josué, ou Jesus, como queira, já que ambos os nomes possuem o mesmo significado: salvador, que os liderou com palavras de conforto.
Sua doutrina se espalhou, como tantas outras, entre o povo humilde. Mas, ao morrer teve sua memória e doutrina traídas pelos que ambicionavam o poder, pois logo viram em sua doutrina um modo de manipular o povo. Aí começaram as mentiras!
Logo, ambicionaram um maior crescimento para tal crença, ambicionando torná-la universal, e assim, criaram uma nova biografia para Cristo, condizente com outras crenças, a fim de seduzirem fiéis de outras culturas. E isto é fácil de ver, por exemplo, compararam Cristo a Moisés, o líder judeu, em seu nascimento, pois como Moisés, fizeram-no ser perseguido por um rei (Herodes), que temeroso por uma profecia, tentou matá-lo para que este não perdesse o poder.
Adaptaram-no, também, à cultura grega, persa e romana, como aos seus imperadores, transformando-o, em deus, como se pode ver em seus próprios escritos cristãos, que tal fato era bastante comum em tais povos, pois um de seus escritores relata claramente isso, quando diz que os próprios cristãos Paulo e Barnabé, foram chamados de deuses por um desses povos.
- Sim, nos Atos dos Apóstolos de Lucas, está descrito.
- Tal fato, era como uma homenagem para os persas, que divinizavam seus líderes políticos e religiosos.
Os gregos já estavam bastante acostumados, em suas mitologias, com seres metade homem metade divino, e mesmo com a divinização total de alguns heróis gregos.
Os imperadores romanos se auto-divinizavam, como uma forma, não apenas de orgulho, mas de manipular o povo, pois a ordem de um deus não poderia ser recusada.
Fizeram-no nascer também de uma virgem, coisa que para os povos egípcio, romano e indiano, não era novidade, por exemplo, o deus indiano Krishna nasceu de uma virgem chamada Devanaguy. O deus egípcio Hórus também teria nascido de uma virgem. Bem como o deus cultuado em Roma, Mitra, de origem persa. E, finalmente, a fim de não Me alongar tanto, na comparação de sua história à história de outros deuses, o associaram aos deuses que venceram a morte, como Mitra, Hórus, Dionísio.
- Quer dizer que transformaram Cristo em um mito?
- Sim. Principalmente para ser um obstáculo ao maior inimigo da cultura Greco-romana, daquele tempo, o Judaísmo, que se expandia assustadoramente, e que ao mesmo tempo se mantinha fechado para outras culturas, como ainda hoje.
E se o que tornava forte a cultura judia era a sua religião, por que não usá-la como arma contra os próprios judeus, distorcendo-a, criando um novo judaísmo capaz de atrair simpatizantes do próprio judaísmo, tornando-o mais passível de influência da cultura Greco-romana.
- E assim nasceu Cristo como mito.
- Sim – disse-me o Diabo, completando:
- E para tanto, tornaram Cristo filho do deus de Israel, a partir de uma própria profecia judaica. Tendo, no final, os próprios judeus optados em levá-lo à cruz, tornando-os, de modo indireto, inimigos dessa nova religião, o Cristianismo.
Bela solução, não acha? Não apenas criaram uma forte contensão à expansão do Judaísmo, como ainda os tornaram inimigos desta nova religião! O que explica em grande medida, por que mesmo ainda hoje, nenhum documento foi achado que comprove a existência de Cristo.
E uma vez estando tudo pronto para dominar outras religiões - incluindo textos, com fatos maravilhosos, como milagres – estavam, consequentemente, prontos para dominar o mundo, sonho tão cultuado por vários imperadores, Dario I, Dario III, Xerxes, César, Felipe da Macedônia, e, finalmente, Alexandre, o grande, ou mesmo Hitler. Porém, para tanto, tal doutrina esperava um imperador, que surgiu na figura de Constantino.
A partir de 315, os primeiros símbolos cristãos começam a aparecer nas moedas do império de Constantino. Em 323 as últimas representações pagãs são destruídas completamente. Tem início aqui, toda a dominação que ainda vemos hoje.
É como eles próprios dizem “não há coisa alguma escondida, que não venha a ser manifesta: nem coisa alguma feita em oculto, que não a ser pública.” (Mc 4:38-21). E Eu completaria, nem que seja pelas mãos do Diabo!

E tendo falado isso, aproximou-se novamente de mim, pondo a mão em minha cabeça, dizendo-me ao ouvido:

- Mas o resto fica para a próxima.

Acordei em um banco da praça em frente à igreja, com um guarda a me chamar. O dia já estava bastante claro. E ao passar ao lado da igreja, procurei pela pequena porta, sem nada encontrar.
Atordoado pelo sol, e o barulho da cidade, caminhei em rumo de minha casa, tendo sempre a sensação da confusão de um sonho em minha mente. E em quanto vasculhava os bolsos, a fim de encontrar algum dinheiro para minha condução, encontrei um cartão, em que estava escrito:

Diabo. Favor, aguardar.


* Artigo publica no site cerebrau.com.br
** Artigo publicado no site cerebrau.com.br