De quem é a culpa?

quarta-feira, 19 de março de 2014

Janela Fechada (a partir do poema-fotografia "Persianas", de Fábio Castro.


(Trilha sonora: Deep Purple, Clearly Quite Absurd.)

Quantas vezes
trafeguei meu medo
por estas escadas...
A réstia de luz
entre as persianas:
bendito sinal
advindo da janela 
que, ao abrir-se,
abria-me
para o mundo
produzido
       em meio à tua fome
       em meio às tuas pernas
       em meio ao que existe
       entre os segundos
       e que se alastrava
       para muito além
       daquele último degrau.

Por quantas noites
trafiquei o meu amor
por aquela escada,
e trancafiei-me contigo
naquele quarto
feito das pedras
             e suas ranhuras
como quem se tranca
       do escoar do tempo,
       do instante futuro
             e do Mal,
em uma fusão
tão desesperada
de nossa carne
que homem
            mulher
pele
            cabelos
passaram a ser
distinções realmente inúteis!

Hoje
em comum
       com as pedras
tenho as rugas.

Hoje
em comum
       com as pedras
tenho a aspereza
típica
de quem sobreviveu
à catástrofe
      de uma intimidade
que se transformou
em uma esfinge
       sem segredos.

Hoje,
em comum contigo,
não nos temos:
fechamos
a janela.