De quem é a culpa?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

TOMARA QUE CHOVA (de Marcos Salvatore)


by Arthur Fellig Weegee

Ih, rapaz! Fevereiro!

Ontem, eu falando disso, lembrei do inferno. Faço trinta e cinco próximo dia vinte e dois. Férias forçadas, em protesto.

E eu nasci num pé d’água, sumano! Ia pra rua pegar chuva e mulher (quem me dera dançar). Não posso deixar de gostar da folia, embora ache, sinceramente, de um baixo teor energético desgraçado.

Nasci numa manhã de desfile chuvoso, na cozinha da casa da Vó, no bairro do Telégrafo sem fio (sempre achei a parte do “sem fio” genial), entre a margarina e o chibé. A Beija Flor assumia a avenida. Ganhou.

A história é quase um samba de terreiro:

Rua cheia até o joelho, tiveram que chamar um estudante de medicina para fazer o parto: o Vavá (saca só o nome do “elemento”). Dois tios, que vararam a madrugada na farra, foram chamados às pressas para comprar uma injeção de sei lá o quê, estavam vestidos como Dzi Croquettes e voltaram horas depois mais bêbados do que antes, tropeçando um por cima do outro, pois paravam de bar em bar comemorando. Ao passar pela Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não deixaram de fazer um bom e velho sinalzinho da cruz.

Família nervosa e eterna, chegada em farras com consequências diabéticas, mas nasci e cresci na boa, rodeado por figuras raras. Moleque tímido e romântico (punheta pra burro), não demorei para perceber que os corpos femininos eram delicadamente intrigantes, e sangravam, por isso me apaixonava por todas as mulheres que cruzavam meu caminho (ainda hoje é assim: toda mulher está nua). Aprendi a ler e escrever com gibis e revistas pornográficas (um dos meus tios era hippie). Brechava minhas vizinhas tomando banho, mas já falei sobre isso.

Primeira foda com uma balzaquiana abusada, adivinhona; foi cedo, doze para treze: meu primeiro par de rabo. E ela adorava me ouvir falar de sacanagem: - “Sei porque me deixa te lamber todinha, porque sempre volta”.

- Soca, soca! Dá-lhe nesse bucetão quente!

Isso não é nada. Gostava mesmo era de ensinar (me ensinou a ensinar), e me mostrou quase tudo sobre diminutivos e maiúsculos. Sobre como assediar por entrelinhas, sem ninguém perceber. A enfiar o pau com paciência e movimento. A como valorizar uma fêmea, vivendo um por um dos seus gemidos inventados. Vizinhas sempre fodem com mais raiva. Sabe Deus o porquê.

Curso intensivo, sabe como é: o serviço tem que ser completo mais o de ganho, depois ó... melhor tirar o time de campo e pegar o beco que o bode é tremendo.

Sou alcoólatra (ou penso ser), viciado em nicotina, viciado em roer as unhas (corniocófago), viciado em cafeína e tenho uma neura tão filha da puta, que chego a quebrar espelhos sem medo de crendices.

Odeio discussões berrantes, mas alguns amigos precisam sempre se afirmar, então, a gente perdoa. Acho bem melhor ficar sempre de boa.

Não escrevo nada há vários dias. Ou pior: escrevi, mas aquilo não vinha de mim – vinha de outro lugar. Vinha da rua, que não tá brincadeira.

- Vinho é para o frio, minha filha. Sua chegada demorou e agora eu tô de novo por aí.

Sinto que cada pessoa que mato em meu coração leva com ela para o purgatório um pouco da paz das quartas-feiras de cinza. Pouco me importa, o amor é o que foi feito por ele.

Pois é, e, hoje eu tô aqui no Bornal para escrever com um pouco de truque. Tô publicando meus lances, aí. Me faz bem, me dá uma liga e ajuda na diminuição das paranoias da vida.

Hum. Não era nada disso que eu queria dizer. Em todo caso, os contatos afetivos andam em promoção. Calor humano é um luxo, mas tem roupa na corda. Só espero que o tempo lá fora melhore.