De quem é a culpa?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

MARCAS (de Laila Costa)


by Antonino Liberatore


Não era noite, não era tarde, não era amor, nem sei a hora, mas seu nome iniciava com a vogal A.

Foi na adolescência talvez, se bem me lembro! Ora, ninguém há de esquecer suas experiências gostosas da vida, certo?! Muito menos, cicatrizes mal curadas...

O tal do ‘A’ me conheceu através de meu pai, pois eram parceiros de mesa de bar. Toda sexta o velho Ernesto e ‘A’ saiam de seus respectivos serviços e se encontravam em um puteiro, ali mesmo na cidade velha, chamado ‘Paraíso’. Aos sábados, meu pai, como de costume, só chegava de manhã em casa, mas nunca soube que estava envolvido com mulheres. Enfiava-se no puteiro porque gostava de ouvir as músicas que tocavam ali: Janis Joplin, Jon Bom jov, Beatles. Ouvia todos os insultos de minha mãe, calado. (Ele sabia que estava errado.) Minha mãe, coitada! Brigava, gritava com o velho bêbado, mas em nada melhorava, mas ele não tinha vergonha de pedir desculpas. Mesmo sendo um tanto rígido com nossa família, talvez por ter sangue de militar correndo em suas artérias, nunca houve de levantar a mão para minha mãe – muito menos para qualquer um de nós.

Éramos cinco: eu; meu irmão, Pedro; minha irmã, Marina; minha mãe, Vilma e meu pai, Ernesto. Tínhamos uma vida tranqüila até o dia em que o tal ‘A’ entrou em nossas vidas. Era um cara prestativo; volta e meia mandava por meu pai peixe fresco, frutas, um bom vinho. Minha mãe ficava intrigada com tanta gentileza, pois ‘A’ nunca nos visitava. Por isso não sabíamos quem era o moço das generosidades. E por isso também ela, minha mãe, chegou a pensar que era alguma invenção do bêbado Ernesto.

Até o dia em que meu pai convidou o filho da puta para almoçar em casa. Minha mãe ficou toda atrapalhada, já que queria fazer o melhor almoço para o tal homem gentil.  Mandou Marina e eu limparmos toda a casa um dia antes. Mandou Pedro escovar os tapetes do banheiro e da sala, e fez meu pai ir até a feira comprar alguns temperos, enquanto ela preparava o bacalhau que ‘A’ presenteou uns dias antes.

Ernesto: Meu amigo, que bom que chegaste. Olha, a Vilma fez aquele bacalhau que me deste na quinta-feira.

A’: Ahhh, que satisfação estar na tua casa, amigo.

Ernesto: Deixa eu lhe apresentar: esta é minha esposa Vilma, meus filhos Pedro, Marina e Dandara.

A’: Que beleza de família hein, Ernesto. Parabéns rapaz. É um grande prazer conhecer vocês pessoalmente. Esse homem aqui fala muito de vocês, viu. Principalmente aí da mais nova, Dandara. Menina linda, hein?

Vilma: Vou pegar a cerveja enquanto o almoço não apronta.

Era um dia desses em que o sol ilumina o dia em sua nobreza maior, e a espantar toda a beleza natural do mundo. Quentura que faziam gozar os corpos nas praias desnudos. Cores fundiam-se em uma brutalidade e ao mesmo tempo amável sincronia. Os pássaros já se aninhavam, a água do mar sussurrava, o vento calava-se aos poucos, a luz esvaecia. E os animais carentes preparavam-se para todos os prazeres em algum beco imundo.

Meu pai ,minha mãe e ‘A’ passaram a tarde bebendo e conversando muito. Porém como de costume, meu pai bêbado, logo adormeceu. Minha mãe também, mas o maldito não! Minha irmã aproveitou pra sair de casa, meu irmão também e eu fui tomar um banho já pensando em dormir.

Foi então que me imobilizou, e tapando minha boca o puto encurralou-me na parede, alisou-me com um ar antropofágico: cão esfomeado, desnutrido de potência feminina em sua carcaça. Entrou em mim, passeou em diversos acessos de calor e minhas passagens mais secretas. Perdeu-se em meio ao meu sangue que fervilhava ao sentar-se na minha sala de estar; experimentou todos os meus gostos, minhas posições, meus vinhos. Provou de meus temperos incutidos na minha carne, afogou-se de desejos na minha boca , meus seios pequeninos e minha voz fina.

Suspirou, caiu, levantou, aguentou minhas substâncias, minha química, toda minha falta de pudor e minha iniciação.

Intrigou-me aquela sua postura de animal malino e grosso, mas com mãos em toques tão macios e gostosos; pois senti, entre tantos momentos posteriores, dificuldade em conter a energia sexual de meu corpo. Fui da paz ao inferno em instantes. Os meus pensamentos conduziam meu corpo a enlouquecedores picos de gozo.

Rodopiava em uma dança estremecedora de sua língua ao chupar-me; delirei e pensei ter sentido seu corpo todo entrando por minha vagina, como em um ritual sublime e intenso de volta ao útero. Espremeu-se, empurrou-se, encaixou-se, acoplou-se todo a mim. Acalentou meu ânimo, fez-me sombra , fez-me dormir, aconchegou sua pele à minha. Era como se eu trocasse de roupa: vesti-me da menina que acabara de ser feita mulher por ele próprio, esculpindo, desenhando, nascendo em mim.

E pra minha infelicidade, engravidei daquele estúpido.

Aquele filho da puta ainda teve coragem de depor na delegacia:

 A’: Ela estava o almoço inteiro me seduzindo. Com aquele vestidinho curto demais, e o colo aparecendo. Podia ver os bicos de seus peitinhos. Tinha um olhar de quem me pedia para eu comer aquele cu. Ahhhhh, e como esquecer aquela boceta? Marcou brutalmente meu coração, ou melhor, meu pau. Foi a foda mais gostosa de toda minha vida. Huuuuum, uma delicia aquela bunda e aquelas pernas. Tinha seios durinhos, bons de chupar. A vagina era a mais azeda e suculenta de todas as que eu já provei. E, por incrível que pareça, não gosto de beijar a boca das mulheres com quem eu trepo. Mas aquela bandida me fez querer aqueles lábios de bebê ainda no berço, e ela bem que gostou... Ainda pediu pra pagar um boquete! A sacana se ajoelhou e chupou o pirulito aqui todinho, até o talo. Gostou tanto, que quis arrancar pedaço. Foi aí que caí no chão, com meu pau sangrando. Ela saiu correndo com a boca lambuzada com o meu leite misturado ao meu sangue, aí consegui correr e fugir. E aqui porque quero essa mulher pra mim. Estou apaixonado...”

Aquele desgraçado, depois que sujou minha pureza aos meus treze anos, emprenhou-me, mas eu não quis a criança. Era lindinha a menina, mas não tinha coragem de olhá-la, pois aquele era um fruto podre.

Meu pai ainda queria a criança, mas joguei em uma lata de lixo qualquer.