De quem é a culpa?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O CARTEIRO - Parte III (Final)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Dirt; Grind; Them Bones; We Die Young (Alice In Chains).


         Aos poucos ambos foram se acostumando à extrema claridade em suas faces, bastava não mirarem diretamente sua fonte. Era uma boa maneira dos membros do grupo evitarem ser identificados por quem chegava ao armazém.
         como sabem, o dinheiro de vocês está sendo transferido nesse instante para suas contas, não se preocupem. mas preciso que permaneçam aqui dentro até que tenhamos feito a movimentação do pacote para um local seguro. alguma pergunta?
         O barulho da chuva sobre as paredes de metal de todo o armazém aumentou sutilmente, contudo a voz daquele que se comportava como líder do grupo soava clara como antes, sem alteração na entonação ou no timbre. C. passava uma das mãos sobre a barriga, tentando aliviar inutilmente o golpe recebido, e não mostrava disposição para perguntar qualquer coisa. Assim como M., queria somente sair dali sem nenhuma outra surpresa pelo resto da noite.
         não, senhor.
         muito bem, senhor M. vejo que continua sendo inteligente. e continuamos sendo gratos por seus bons serviços.
         esse foi meu último pacote.
         Mesmo sem poder distinguir qualquer um dos presentes além de C., sua audição denunciou alguns passos pesados na direção de onde estava. Porra, devia ter dito aquilo naquele momento?
         não compreendo.
         A voz do líder estava a menos de um metro de distância, e mantinha-se calma, mas em um volume um pouco mais baixo.
         estou me aposentando.
         ora, por favor, senhor M., isso eu compreendi. o que quero dizer é que não captei o sentido do senhor desejar isso agora, quando estamos indo tão bem. há algo lhe incomodando?
         Algo me incomodando?, pensou M. Esse filho da puta só pode ser um péssimo piadista.
         De repente, um barulho alto vindo de trás, como uma batida e alguns gritos curtos. Pareciam estar tendo alguma dificuldade para carregar o corpo. Ou então era outra coisa. O líder de voz mansa deu o comando para se apressarem. M. ainda continuava com a sensação de que algo estava muito errado por ali. Seu parceiro C. mantinha-se quieto, porém tremia quase imperceptivelmente, talvez de frio por conta da chuva, talvez de medo do que não podia ver atrás de si. Devia estar com a mesma sensação de perigo, pois resolveu abrir a boca naquele instante, o que foi uma péssima ideia.
         o que é que está havendo por aqui? que merda é essa?
         Tentou virar o rosto para a direção de onde viera o barulho, e uma dor aguda causada por um golpe pesado subiu do lombo de sua espinha até a nuca. Curvou os joelhos praguejando e levando uma das mãos às costas, enquanto se apoiava com a outra sobre a terra batida.
         esse novato não sabe mesmo se comportar.
         Ao menos agora M. sabia que C. não fizera muito daquele serviço com aquela gente, e também o tratamento bruto que recebia poderia explicar sua dificuldade de locomoção na perna. O que não ajudava em nada, e no momento duvidasse de que o parceiro teria nova chance de trabalho com eles depois daquela noite. Também sentira uma vontade enorme de se virar para ver o que ou quem fazia tanto barulho em meio à chuva. Ouvira dois ou três homens dando ordens, como se tentassem controlar alguma espécie de animal, entretanto continuavam com dificuldades. Ouvira grunhidos novamente, mas não conseguira discernir que tipo de criatura emitiria aqueles sons.
         ouça, eu só quero ir embora. por que tudo isso?
         sinto muito, mas acredito que essa maldita chuva pegou a todos nós de surpresa. já vai acabar.
         filhos da puta. bando de filhos da puta.
         Isto foi C. quem disse, arfando sobre o chão, para logo depois ter a boca estourada por um novo e duro golpe com o que parecia ser um cassetete. O sangue espirrou dos lábios, enquanto seu corpo caía pesadamente para trás.
         quer virar comida, palhaço?
         Comida? M. não compreendeu o que o capanga por trás da lanterna quis dizer com aquilo. Embora o líder do grupo quisesse demonstrar que tudo estava sob absoluto controle, não era de forma alguma o que ele percebia em toda a movimentação ao redor. C. continuou deitado, com as mãos procurando estancar o sangue do rosto, parecendo compreender que, quanto mais silêncio por ali, melhor.
         é melhor seu parceiro se comportar, senão as coisas podem ficar muito piores.
         eu nem o conheço. foram vocês que o contrataram. nunca vi o rosto de nenhum de vocês, portanto acho que podemos terminar nosso contrato por aqui, sem prejuízos para ninguém.
         falaremos disso mais tarde. ajude-o a se levantar, por favor. isto está ficando patético.
         M. estendeu a mão para C. postar-se de pé novamente, e foi quando todos ouviram o grito de nítido pavor de um dos membros do bando sob a chuva, seguido de um tiro. A distração dos outros que portavam as lanternas durou um segundo ou pouco mais, mas foi o suficiente para que M. buscasse rapidamente, com o canto dos olhos, a visão do que acabara de acontecer. Ainda segurava o braço do parceiro surrado e não pôde deixar de apertá-lo fortemente pelo susto.
         A alguns poucos metros no chão, ao lado de uma van, o que parecia ser um homem nu, completamente insano e com uma coleira metálica em volta do pescoço, abocanhava o rosto de um dos capangas, despedaçando facilmente seus olhos e nariz com dentes grandes e afiados como pregos. A vítima ainda tentou dar um último grito, mas se calou para sempre enquanto os braços e pernas produziam espasmos involuntários.
         Foi muito rápido o que vira, mas o sangue de M. pareceu parar dentro de suas veias.
         Aquela coisa não podia ser humana.
         O caos completo se instalou pelo terreno do galpão. Os membros do grupo saíram de suas posições, os que carregavam as lanternas deixaram-nas cair, claramente desnorteados com a cena que se desenrolava debaixo da chuva. M. correu para os fundos da construção, amparando C. da melhor maneira possível para que não caísse. Não poderiam sair pela frente, teriam de tentar escapar pela direção oposta. Ouviu um novo tiro e, em seguida, um zunido baixo acima de sua cabeça. Continuou correndo mais e mais para dentro da escuridão, porém virou os olhos uma vez mais para testemunhar o que ocorria atrás de si.
         De trás da van saía uma segunda criatura, enquanto uma terceira, já de pé sobre a lama que se formava por todo canto, atacava dois capangas ao mesmo tempo, levantando um pelo pescoço e arrancando a mandíbula inferior de outro com a mão livre.
         M. não conseguia pensar neles claramente como homens. Mas também não fazia a menor questão de saber o que eram realmente.
         Os tiros se intensificaram com o desespero de todos na tentativa de controlar a situação. Enquanto fugiam, os dois ouviram o líder esbravejar que ninguém devia fazer mal a seus filhos, entretanto ninguém estava disposto a virar brinquedo ou refeição da porra do filho de louco nenhum.
         filhos? mas que diabos de história é essa? o que é aquilo? por que esses idiotas ficam passeando com aquelas coisas pela cidade, como se fossem bichos de estimação?
         não quero saber. cale a boca e corra, C.
         As balas não pareciam surtir efeito sobre aqueles homens transformados em animais hediondos, pois continuavam a ouvir vários grunhidos ininteligíveis para um ser humano. Nunca antes os haviam trazido até o local de entrega, talvez estivessem no meio de algum tipo de mudança. O que aquelas pessoas fizeram com eles, ou o que eles fizeram para merecer aquela condição de bestas sedentas por sangue, famintas por carne, M. não tinha ideia, mas também não achava que teria alguma mesmo se conseguisse sair vivo dali. Ao menos estava explicado o que aquele sujeito dissera a respeito de seu parceiro virar comida, além do motivo de o terem contratado para assassinar algumas pessoas sem aparente conexão umas com as outras.
         Canibalismo com direito a entrega a domicílio.
         E ele ajudara a alimentá-los tantas vezes.
         Mesmo com todo o seu currículo de matador, não pôde deixar de sentir certo asco de si mesmo.
         Afinal chegaram à parede metálica nos fundos do armazém. Só então M. se lembrou das lanternas que os sujeitos do grupo haviam abandonado durante a confusão. Podiam ter trazido pelo menos uma para ajudá-los na fuga, porém a pressa foi maior. Começaram a tatear à frente de seus rostos, a escuridão era profunda ali. Foi C. quem falou primeiro.
         achei uma maçaneta.
         M. avançou alguns passos para o lado de onde veio a voz do parceiro. Viu uma fresta de luz fraca do luar se alargar cada vez mais pela passagem da porta que C. principiava a abrir, quando parou por puro instinto. O velho instinto.
         Enxergou uma mão esquelética e suja de sangue fresco por cima do ombro do outro, e no instante seguinte C. não estava mais à vista.
         Ouviu seus pedidos de socorro em meio a ruídos altos de mastigação e respiração excitada, além de grunhidos do que poderia ser alguma satisfação da criatura saciando sua fome. M. sabia que não podia fazer nada para ajudá-lo, por isso escapou rapidamente pela fresta. A porta se abriu um pouco mais e a lua então mostrou C. com os olhos piscando ainda conscientemente e a jugular estraçalhada, os lábios tremendo, ao mesmo tempo que um dos homens nus rasgava o terno e a camisa do corpo para puxar e repuxar músculos e veias de seu braço com os dentes agudíssimos. Não pareceu se importar com a presença do sujeito que corria cada vez mais para longe do armazém.
         A chuva não parava de cair, dando a impressão de que engrossava com os minutos. M. não olhava mais para trás e não se importava com a roupa encharcada que ficava pesada sobre seu corpo por conta da água, dificultando um pouco os movimentos. Só queria o quanto antes sair do cais, talvez sair da cidade, esconder-se por um tempo ou para sempre em algum lugar tranquilo onde não conhecesse absolutamente ninguém, onde pudesse tentar esquecer o que vira naquela noite.
         Mas tinha certeza de que aqueles homens viriam atrás do seu rastro. Não eram o tipo de pessoas que o esqueceriam facilmente. Nesse negócio, esquecer o rosto de alguém estava fora de cogitação, e essa era a razão de jamais mostrarem os seus próprios. Obviamente, isso aconteceria apenas se algum deles conseguisse escapar daquelas aberrações. Ainda escutava uns poucos tiros, entretanto vinham de longe, os ecos chegando de três ou quatro armazéns de distância.
         Certamente a polícia apareceria em breve, portanto precisava encontrar outro veículo o mais rápido possível. Provavelmente quem chegasse ali, sem ter a menor noção do que esperar encontrar, teria sérios problemas para voltar para casa. M. não estava preocupado com isso.
         Estava aposentado, e decididamente pensando em parar de fumar.

-FIM-