De quem é a culpa?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A LÉSBICA (de Bosco Silva)

(UM CONTO AO MODO DO MARQUÊS DE SADE)
O rico e libertino Senhor de Mirvel, como a maioria dos homens, se orgulhava muitíssimo de sua virilidade, de sua imensa pica e de gozar feito um cavalo. Gabava-se também de ter passado noites inteiras fornicando com dezenas de mulheres, nos lugares mais inacreditáveis possíveis: estábulos, cemitérios, asilos, hospitais, hospícios e, claro, igrejas. Havia nisso, certamente, um gosto pelo perigo; e para ele, o perigo e o diferente, eram poderosos afrodisíacos.
Dizia-se ter fornicado com todos os tipos de mulheres, todas as formas modelares de vaginas e bundas. Porém, de todas as mulheres, uma parecia não ligar para seus encantos. Era a bela lésbica Juliette, que se trajava feito um homem.
Juliette era uma mulher de espírito independente, incapaz de trair seus desejos por valores sórdidos, econômicos ou mesquinhos. O que, certamente, mais o provocava, pois mesmo sua imensa riqueza não tinha nenhum poder sobre ela.
Com o passar do tempo, Juliette, tornou-se uma espécie de desafio, não apenas para ele, mas também para outros homens, o que, certamente, mais os excitavam ao vê-la passar pelas estreitas ruas de Paris; onde muitos homens ao ver sua beleza feminina sob trajes masculinos, ao passar, comentavam, com a mão em seus órgãos genitais, que isso se devia ao fato desta nunca ter sido penetrada por uma verdadeira pica, como as que estes supostamente possuíam; e entre eles estava o Sr. de Mirvel, que duvidava de tanta feminilidade, pois imaginava-a como um homem com um rosto e corpo femininos, que possuiria um pequeníssimo membro, como aqueles homens afeminados, que ele tanto odiava, que abundavam nos bordéis da cidade.
Curioso para saber como era o corpo de tal moça, seguiu-a inúmeras vezes, pelas redondezas que cercavam a cidade, em busca de um momento propício para desvendar tal mistério; porém, sem nunca conseguir. Até que, casualmente, ao passar de cavalo à beira de um rio, em meio a densas folhagens de árvores que abundavam em tal lugar, avistou, o que para ele era a mulher com o corpo mais belo que tinha visto, com as mais belas pernas, cintura, bunda e vagina que jamais havia visto em outra mulher. E esta ao virar, percebeu, então, ele, que era Juliette, despida de toda sua indumentária masculina.
Isto foi o bastante para que sua simples curiosidade tornar-se em obsessão. E, imediatamente, pôs-se a arquitetar um plano, para usufruir de tão belo corpo. Contratou, então, três homens para agarrá-la, encapuzá-la e despi-la, enquanto o poderoso Senhor de Mirvel pode-se estuprá-la.
Contudo, quando tudo estava pronto, com os homens prontos a agarrá-la, em mais um banho na doce água do rio, eis que nosso personagem, motivado por pensamentos que não devem ser tão constantes em víboras como estas, que inundam a humanidade com maldades sem fim, desiste de pensamentos tão atrozes; surpreendendo seus homens com socos e pontapés, expulsando-os aos gritos do lugar.
Sem sabermos se isto deveu-se a pensamentos premeditados ou a uma explosão de ira por ato de justiça momentânea, que o teria atacado, o certo é que Juliette agradeceu aquele que supostamente a teria salvo de tão humilhante ato, com abraços com seu corpo ainda nu. E ao apalpá-la e sentir seus seios nus sobre seu corpo, Mirvel pôde sentir o corpo que tanto desejava de um modo que jamais havia obtido com outra mulher: com sinceridade, carinho e gratidão. O que o fez mudar imediatamente seus interesses para com ela. Mirvel passou a olhá-la com outros olhos, não mais apenas com os olhos do desejo, mas com um misto de sentimentos que jamais havia sentido, não apenas por uma mulher, mas por qualquer outro ser: Mirvel passou a amá-la.
Juliette, por seu lado, passou também a tratá-lo de modo diferente, não mais com a indiferença de antes, mas com a gratidão de quem lhe devesse algo.
Mirvel passou a tentar ajudá-la, não apenas de forma econômica, que Juliette rejeitava, mas também de forma moral, defendendo-a perante aos que a criticavam; tanto, que muitos passaram a desconfiar de tão repentina demonstração de carinho; correndo o boato que Mirvel estava a amá-la.
Juliette, como prova de carinho, retribuiu-lhe os favores que tanto se acumulavam, entregando-se como amante, como alguém que lhe paga uma dívida.
Mirvel passou a não ser mais o mesmo, deixou de freqüentar os bordéis da cidade; de se encontrar com mulheres em seus encontros notívagos em seu quarto, ou nos cantos mais inconvenientes possíveis, que ele tanto se orgulhava.
Boatos se alastraram pela cidade, sobre sua nova amante; ao mesmo tempo que estranhos pensamentos passaram atormentá-lo: duvidou de sua própria masculinidade, pois o que o teria atraído em Juliette: sua impetuosa personalidade, ou sua imagem em trajes masculinos? Questões que se juntaram à impossibilidade de Juliette torna-se uma verdadeira amante, pois esta sempre lhe veria como um homem.
E disposto a resolver isso tudo, num ato súbito, apanhou um facão e pôs-se a mutilar-se, cortando seu pênis sob um terrível ataque de fúria; e, como um Van Gogh castrado, ofertou-o a sua amante...
E desde esse dia passaram a viver juntos, ela sob suas costumeiras roupas masculinas, e ele confortavelmente em seus belos trajes femininos.
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