De quem é a culpa?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Anorexa, Tu! - 1ª Parte (de Marcos Salvatore)

by Jan Saudek
 EM BELÉM, DEZESSETE HORAS
É o fim da queda. Perseguição vulgar. Três policiais. Acho que matei alguém.
Subo a Riachuelo, dobro para a direita e corro por entre os transeuntes do calçadão da úmida, suada Presidente Vargas, atropelo mulheres e crianças primeiro, depois o Tiozinho do jornal, a Tia do café completo; escorrego num plástico de DVD pirata ao atravessar a Carlos Gomes - o Grand Hotel ficava por aqui. Contemplo os olhares curiosos das moscas enquanto sou linchado pelos taxistas, marreteiros. Não sei porquê, procuro por saias e calcinhas, bucetinhas raspadas (soy infeliz). Delegado Eráclito:
- Fica aí onde tá, moleque. Dispersando, porra! Sargento Aloísio!
- Aqui, doutor.
- Chama aqui o Vila e o Castro e distribui uma porradas da moda pro transeunte que insistir em chegar perto.
- É esse o elemento, Doutor?
- Verei. Mas se correu, deve ter história pra contar.
Doutor Iraque, digo, Eráclito, aproxima-se de mim, olha de cima para baixo meu avesso de gente.
- Não devia ter corrido, cidadão. Acabou pra ti. Pode recolher!
Sou apanhado, levado para a Seccional do Comércio, são e salvo - ainda existem trilhos de bonde por lá; o Cine Palácio foi vendido para uma igreja evangélica; adeus Campina, adeus.
O PARÁGRAFO D
Delegacia. Não sinto os ferimentos, apenas frio. Entram o Delegado e os outros policiais que me trouxeram.
- O negócio é o seguinte, rapaz. Comigo não tem choro, não tem reza, não tem porra nenhuma. Porrada e cadeia existem para o bem da sociedade.
Ele para e sorri, surpreendido consigo. Olha para os outros.
- Anota essa Aloísio. Quero ver o Bocage me chamar de analfabeto de novo. (...) Concordam comigo senhores?
Vila e Aloísio respondem ao mesmo tempo.
- Positivo.
Castro responde enquanto carrega o revolver, alheio.
- A porrada compra até o culpa verdadeira.
Doutor Iraque, digo, Eráclito, pega o telefone e chama dona Zica, a copeira.
- Ô Moabita, chama a dona Zica aqui com o meu remédio e uma água sem gás. Mas escuta, diz pra ela que dessa vez é uma pedra só, ouviu? Que da última vez eu amanheci cagando fino. (...) Bom, como é fim de turno... Vocês bebem o que?
- Uma devassa véu de noiva.
- E uma Devassa aqui pros colaboradores. Quatro copos que o artista vai beber também. (...) Paid’égua essa de cerveja, ainda vejo vocês barrigudos por aí. (...) Quem tem cigarro?
- Serve Derby, “Seu” Iraque?
- Eráclito pequeno, E é Doutor, percebeu? (...) Não fumo mais mata rato. (...) Tá certo. Tua situação é difícil garoto: Fuga, posse de entorpecente, armado e não podemos esquecer, é claro, do tremendo presunto estirado lá na cama. (...) Já foi preso antes, meu filho?
- Não, nunca.
Entra Doutor Bocage, transpirante, visivelmente exausto, enxugando a testa com um lenço Entra acompanhado de sua assistente evangélica, Dona Aldenora.
- Porra Bocage, não vê que eu tô no meio de uma ocorrência importante, um caso sério? (...) E aí, trouxe?
- Com licença excelentíssimo, me permita adentrar na sua investigação para garantir os direitos civis desse nosso candidato a presumido acusado. (...) tá na mão.
- Bom já que é assim. Sente-se, e quem é essa moçoila?
- Ah, é uma menina que eu estou criando pra uma audiência peculiar. Sua religião não permite certos assuntos. Isso decora que é uma beleza: artigos, parágrafos. Parágrafo D, então, essa aqui até ensina.
- É mesmo, é? (...) Daqui a pouco a gente conversa. (...) Porra, Bocage! Tá de sacanagem com a minha pessoa? Aqui não tem nem uma onça, nem uma onça!
CONTINUA...