De quem é a culpa?

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O DIA EM QUE PERDI MINHA VÓ NO CÍRIO (de Paulo Emmanuel)



Da série: Cadê minha vó? Jesus maria josé...

Lá pelos idos de 198epouco a minha vó paterna, a vó Dária que morava em Manaus, veio realizar seu sonho de filha de Maria, que era uma vez na vida assistir ao Círio de Nazaré. 
Eu nunca fora muito religioso, e nessa época estava cada vez mais longe das festividades religiosas, mas como minha vó tinha se descambado pra cá com essa intenção. E fui eu e minha irmã mais nova levá-la pra ver a passagem da Santa, nem que fosse de longe. 
Eu disse a ela que era perigoso chegar muito perto, por causa da forte correnteza humana que, em alguns pontos do percurso, virava uma tormenta. Eu já tinha passado por dois percalços e nos dois, quase sucumbi à fé e me desgracei nos pés da multidão. 
A primeira vez foi quando minha mãe disse: - Vamos ver a passagem da santa lá na Pres. Vargas, ali perto da Enasa. Ficamos num canto esperando e quando a onda humana realizou a curva ferozmente, jorrou gente em cima da gente, fomos arrastados e ficamos esmagados na parede do prédio da Importadora e numa luta sobre humana conseguimos sair e escapar pela rua lateral. Em menos de cinco minutos minha camisa amarela nova comprada na Makell virou um trapo. Todo mundo se olhando de olho arregalado e depois minha mãe disse: - Nossa, quase a gente morre!
Passaram-se os anos e um pouco mais velho resolvi esperar a Santa na praça matriz. Calculei mal a minha travessia com a chegada da multidão no CAM em frente ao Cine Nazaré e fui pego por uma tormenta de romeiros que me carregaram uns metros com os pés suspensos e os braços abertos em desespero. Fui salvo, quando passou perto de mim um poste e me agarrei nele. Colei agarrado que não tinha bombeiro que me tirasse dali.
Então, já tinha no currículo vasta experiência dos perigos da massa ciriana pra quem não conhece a sua força. Assim, prudentemente ficamos na esquina da Generalíssimo Deodoro com a José Malcher, olhando a procissão passar. Mas minha vó tomada pela emoção de estar vendo o Círio ao vivo, disse pra minha irmã: 
-Vamos ver um pouquinho mais de perto. 
Eu disse: - vou ficar aqui e esperar. Não vou não. Cuidado! Não vão muito perto! 
E assim sumiram na multidão que andava em direção à Av. Nazaré.
Depois de passado o burburão de gente, minha irmã voltou só e eu perguntei: 
- Cadê a vó? 
Ela disse: - Sumiu na multidão e foi arrastada pela procissão. Ainda percorremos às ruas transversais pra ver se achávamos, mas nada de encontrar a pobre senhora de 70epoucos anos. Depois de muito procurar voltamos pra casa depois de uma hora da tarde, mortos de cansaço.
-Cadê tua vó? Perguntou minha mãe.
- Sumiu no Círio, respondi. -E agora? 

Ligamos pra polícia e denunciamos o desaparecimento de uma vó assim, assado, frito, tudo. E esperamos angustiados.
E deu três, deu quatro, deu cinco, deu seis, deu sete, deu oito horas da noite e nada de minha vó retornar. 
De repente ouvimos um gritinho fraco. Alguém disse: - É a vovó! 
Morávamos num prédio na Av. Almirante Barroso que tinha quatro andares. Ao lado tinha outro, exatamente igual, também de quatro andares. O nosso, o edifício Walena tinha o portão de entrada pela Av. Almirante Barroso e o outro pela Alameda Bancrévea. Nisso meu irmão desceu e ouviu o grito mais forte da minha vó. Quando ele chegou na garagem e ouviu novamente o grito, subiu um muro, não muito alto que separava os dois prédios e viu minha vó do outro lado, segundo ele branca como um fantasma. Saiu correndo do nosso prédio, deu a volta e entrou no outro e quando lá chegou ela desapareceu!
Ele voltou branco dizendo que tinha visto o fantasma de nossa vó.
Então eu disse: - Deixa que eu vou ver isso. E corri pra baixo.
Quando cheguei no prédio ao lado, perguntei pra um morador se ele tinha visto uma senhora idosa assim, assada e coisa e tal. Logo, olhamos pra escada e lá vinha uma moradora trazendo minha vó segurando seu braço e a bichinha mais morta do que viva. Coitada.
Fiquei aliviado por ver que ela estava bem. Tremendo, me contou a história de como voltara pra casa. Quando se viu só ficou desesperada e pra explicar aos policiais aonde ela morava foi um problema porque ela não conhecia a cidade, nem tinha o nosso número do telefone. Mas acabou chegando, não sabemos como. A levei pra casa e depois do susto, tudo ficou bem.
Anos depois ela se converteu ao evangelismo e faleceu pertencendo à Assembléia de Deus.
Muito justo, pensei.