De quem é a culpa?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

FODA-SE (de Millôr Fernandes)




                                                     
O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidadede FODA-SE que elafala. Existe algomais libertáriodo que o conceitode FODA-SE!?  O “foda-se” aumentaminha auto-estima e metorna uma pessoamelhor. Reorganiza as coisas, me liberta. Não quer sair comigo? EntãoFODA-SE!  Vai querer decidiresta merda sozinho mesmo? Então FODA-SE! O direitoao FODA-SE deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Os palavrões não nascem por acaso. São recursos extremamenteválidos e criativospara prover nosso vocabulário de expressões quetraduzem com a maiorfidelidade nossosmais fortese genuínos sentimentos. É o povo fazendo sualínguaComoo Latim Vulgar, será esse PortuguêsVulgar quevingará plenamente umdia.

PRA CARALHO” por exemplo. Qual expressãotraduz melhor a idéiade quantidade do quePRA CARALHO”?, tende ao infinito, é quaseuma expressão matemática. A Via Láctea tem estrelas pracaralho, o Sol é quentepra caralho, o Universoé antigo pracaralho, eu gostode cerveja pracaralho, entende? No gênero do “Pra Caralho", masno caso, expressando a mais absoluta negação, esta o famosoNEM FODENDO”.

O “Não, nãonão!” e tampouco o nadaeficaz e sem nenhuma credibilidadeNão, absolutamentenão!” substituem o “NEM FODENDO” é  irretorquível, e liquida o assunto. Te liberta, com a consciênciatranqüila, paraoutras atividades de maior interesseem suavida. Aquelefilho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro parair surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo o definitivo  “Filhinho, presta atenção,  “NEM FODENDO' .

O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar coma turma numa boa e você fecha os olhose volta a curtiro CD do Lupicínio.

Por suavez, o “PORRANENHUMA” atendeu tão plenamente as situaçõesonde nossoego exigia não a definiçãode uma negação, mastambém o justoescárnio contradescarados blefes, que hojeé totalmente impossívelimaginar quepossam viver semele emnosso cotidianoprofissional. Comocomentar a bravatadaquele chefe idiotasenão comum “É PHD  PORRANENHUMA”, ou eleredigiu aquele relatóriosozinho PORRANENHUMA!. O “PORRA NENHUMA” como vocêspodem ver nosprovê sensações de incrívelbem estar interior. É comose estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos “Aspone, Chepone, Repone”, e mais recentementeo “Prepone”, presidente de PORRA NENHUMA.

outros palavrões igualmenteclássicos. Pense na sonoridade de um “PUTA-QUE-PARIU”, faladosassim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diantede uma  notícia irritante qualquer um“PUTA-QUE-O-PARIU!”, dito assim te coloca outra vezem seueixo. Seusneurônios têm o devidotempo e climapara se reorganizar e sacar a atitude que lhepermitirá dar ummerecido troco ouo safar de maioresdores de cabeça.

E o que dizerde nosso famoso“VAI TOMAR NO CU!”? E suamaravilhosa e reforçada derivação “VAI TOMAR NO OLHO DO SEU CU” ? Você imaginou o bem  quealguém faz a sipróprio e aos seusquando, passadoo limite suportável, se dirige ao canalhade seu interlocutore solta : Chega! “VAI TOMAR NO OLHODO SEU CU”.  Pronto, você retomou as rédeasde sua vidae sua auto-estima. Desabotoe a camisa e saia à rua, ventobatendo na face, olharfirme, cabeçaerguida, um deliciososorriso de vitóriae renovado amor-íntimo nos lábios. Arrasadora para uma situação queatingiu o grau máximoimaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, queuma vez proferida insere seu autor em todo um providencialcontexto interiorde alerta e autodefesa. Algo assimcomo quandovocê está dirigindo bêbado, sem documentosdo carro e semcarteira de habilitaçãoe ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando-o parar: O que você fala?
FODEU DE VEZ!

Liberdade, igualdade, fraternidade e  FODA-SE.