De quem é a culpa?

quinta-feira, 11 de abril de 2013

MORTE NO BAR DO MATIAS (de Haroldo Brandão)




As cabeças de segunda-feira são pesadas, pessimistas, arrependidas e ressacadas ainda mais quando teu trabalho não te satisfaz: é melhor amanhecer doente nas terríveis segundas. Ruim é ter que adoecer, gripar, pegar uma virose, uma caganeira na quinta feira, véspera da melhor noite da semana: a noite de sexta-feira. O carro desliza tranquilo no início da noite na Av. Generalissimo, a primeira dose no Zolt e em seguida já pelas 10, o agito cultural no Café Imaginário na alameda do Santa Maria, pub moderno, gente madura (?), multicultural e intelectual, com o charme de apenas um banheiro para homem e mulher, revistas de arte espalhadas, jazz nas caixas, Take five, Chet Baker, Arrigo e Patif Band, eu e Sérgio levamos um King Crimson, a fossa de Betânia, a gerência sem direção do anti-empresário Simões e o fiel (nem sempre) escudeiro Paulo Lezeira, todos os viúvos do 3 X 4 e do Bar da Mamá, o nostálgico Nativo, se redescobrindo 15 anos mais velhos: maravilha. Eram 00:15 h quando saí, subi a alameda na velha máquina e dobrei na Gentil Bittencourt, entrei na 14 de abril e novamente dobrei na Av.Gov. José Malcher parando no bar do Matias ou Bactéria’s Bar ou Putrefato’s Bar, aquele em que ao ir ao imundo banheiro cujo único vaso era um bidê, receava-se que um germe pulasse no pinto do sujeito, mulheres que prezavam sua saúde não sentavam ali, enfim ia-se pelo atendimento personalizado da gerente Jô, que dava porrada em maus pagadores (por causa de R$0,10), ia-se por conta da já citada falta de higiene, também nos copos, pelo tira gosto (pipoca Pantera) e pelos 300 ou mais CD’s de rock de todas as décadas,discotecados pelo ex dj da Boate Maloca (aquela da Praça Kennedy atual African) e no meu caso, pelo wisk mais vagabundo, enfim, caminho de casa, parada obrigatória.
Várias versões houveram ( a dos jornais foi a mais mentirosa) sobre o que vou lhes relatar, eu estava lá, não estavam Teko, nem Charles, nem Marco, nem Tânia, nem vários outros que se arvoraram a inventar uma estória. A história foi a seguinte: cheguei e me dirigi direto ao balcão, já instalado bebendo cerveja, um médico rockeiro, plantonista do PSM e um baixinho falando alto (todo baixinho é assim, voz alta pra compensar o tamanho). Ao encostar aquele bafo horrível no meu ouvido gritou: “tu és metido, pensas que é o tal..” fiz que não ouvi (como?),  olhei o relógio: eram zero e vinte e cinco. E o baixinho continuou: “tô armado e a fim de dar uns tiros..”. Eu não duvidei e senti o clima pesado. Do outro lado do balcão Matias me olha e com a sombracelha transmite sua preocupação, no salão apenas uma mesa ocupada, lá fora um casal na calçada tomando cerveja:  tensão no ar, o baixinho estava com a macaca. Passa para a calçada e chuta as garrafas vazias do casal. Frequentador de confiança no bar Matias pede: “Haroldo olha o caixa que eu vou lá acalmar esse doido”. Eu e o médico ficamos. Surdo aos apelos diplomáticos de Matias continua provocando o casal, rápido quando vimos Matias já estava enroscado no baixinho e o imobilizou, todo mundo em volta, Matias pede para o medico chamar a polícia pelo celular. Então eu disse “Matias o cara está dominado, afrouxa”. A galera: “nada, tá se fazendo de desmaiado”. O médico falou: “nada, continua apertando”. Em menos de 5 minutos chegou a polícia. Matias soltou e o cara nem se mexeu, não havia revolver: gorozado morreu asfixiado. A polícia chegou para prender um desordeiro e levou preso um pai de família. Olhei o relógio, eram zero e cincoenta. É estranho para mim até hoje ter presenciado uma morte nestas condições. A vida é assim: era um estranho, minutos antes seu bafo e sua voz ecoavam no meu ouvido, estava vivo, agora...
Na caixa tocava A day in the life.A morte no bar do Matias: As cabeças de segunda-feira são pesadas, pessimistas, arrependidas e ressacadas ainda mais quando teu trabalho não te satisfaz: é melhor amanhecer doente nas terríveis segundas. Ruim é ter que adoecer, gripar, pegar uma virose, uma caganeira na quinta feira, véspera da melhor noite da semana: a noite de sexta-feira. O carro desliza tranquilo no início da noite na Av. Generalissimo, a primeira dose no Zolt e em seguida já pelas 10, o agito cultural no Café Imaginário na alameda do Santa Maria, pub moderno, gente madura (?), multicultural e intelectual, com o charme de apenas um banheiro para homem e mulher, revistas de arte espalhadas, jazz nas caixas, Take five, Chet Baker, Arrigo e Patif Band, eu e Sérgio levamos um King Crimson, a fossa de Betânia, a gerência sem direção do anti-empresário Simões e o fiel (nem sempre) escudeiro Paulo Lezeira, todos os viúvos do 3 X 4 e do Bar da Mamá, o nostálgico Nativo, se redescobrindo 15 anos mais velhos: maravilha. Eram 00:15 h quando saí, subi a alameda na velha máquina e dobrei na Gentil Bittencourt, entrei na 14 de abril e novamente dobrei na Av.Gov. José Malcher parando no bar do Matias ou Bactéria’s Bar ou Putrefato’s Bar, aquele em que ao ir ao imundo banheiro cujo único vaso era um bidê, receava-se que um germe pulasse no pinto do sujeito, mulheres que prezavam sua saúde não sentavam ali, enfim ia-se pelo atendimento personalizado da gerente Jô, que dava porrada em maus pagadores (por causa de R$0,10), ia-se por conta da já citada falta de higiene, também nos copos, pelo tira gosto (pipoca Pantera) e pelos 300 ou mais CD’s de rock de todas as décadas,discotecados pelo ex dj da Boate Maloca (aquela da Praça Kennedy atual African) e no meu caso, pelo wisk mais vagabundo, enfim, caminho de casa, parada obrigatória.
Várias versões houveram ( a dos jornais foi a mais mentirosa) sobre o que vou lhes relatar, eu estava lá, não estavam Teko, nem Charles, nem Marco, nem Tânia, nem vários outros que se arvoraram a inventar uma estória. A história foi a seguinte: cheguei e me dirigi direto ao balcão, já instalado bebendo cerveja, um médico rockeiro, plantonista do PSM e um baixinho falando alto (todo baixinho é assim, voz alta pra compensar o tamanho). Ao encostar aquele bafo horrível no meu ouvido gritou: “tu és metido, pensas que é o tal..” fiz que não ouvi (como?),  olhei o relógio: eram zero e vinte e cinco. E o baixinho continuou: “tô armado e a fim de dar uns tiros..”. Eu não duvidei e senti o clima pesado. Do outro lado do balcão Matias me olha e com a sombracelha transmite sua preocupação, no salão apenas uma mesa ocupada, lá fora um casal na calçada tomando cerveja:  tensão no ar, o baixinho estava com a macaca. Passa para a calçada e chuta as garrafas vazias do casal. Frequentador de confiança no bar Matias pede: “Haroldo olha o caixa que eu vou lá acalmar esse doido”. Eu e o médico ficamos. Surdo aos apelos diplomáticos de Matias continua provocando o casal, rápido quando vimos Matias já estava enroscado no baixinho e o imobilizou, todo mundo em volta, Matias pede para o medico chamar a polícia pelo celular. Então eu disse “Matias o cara está dominado, afrouxa”. A galera: “nada, tá se fazendo de desmaiado”. O médico falou: “nada, continua apertando”. Em menos de 5 minutos chegou a polícia. Matias soltou e o cara nem se mexeu, não havia revolver: gorozado morreu asfixiado. A polícia chegou para prender um desordeiro e levou preso um pai de família. Olhei o relógio, eram zero e cincoenta. É estranho para mim até hoje ter presenciado uma morte nestas condições. A vida é assim: era um estranho, minutos antes seu bafo e sua voz ecoavam no meu ouvido, estava vivo, agora...
Na caixa tocava A day in the life.