De quem é a culpa?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DISFUNCIONAL ENTRE NÓS (de Marcos Salvatore)


Molhou a linha em sua língua, depois a enfiou na agulha enquanto assoviava “almost blue” de Chet Baker. Começou a costurar um dos botões da blusa que horas atrás havia rasgado num rompante erótico desatinado. Ela sempre o observava nesses momentos de servidão, num interesse pueril, sorridente. Realmente, ele gostava desses pequenos serviços inesperados: Cozinhava, fazia suas unhas, lavava seus cabelos com a dedicação de quem cuida de alguém que não precisa mas adora ser cuidado. Ela, por sua vez, sempre mantinha as contas em dia, as roupas em dia, a comida em dia. Eles eram uma outra história. Deu pra entender? Ou querem que eu explique melhor?
- O álcool abastece o veículo autoindulgente que existe dentro de você. E o cigarro sem a fumaça não seria ninguém. Ninguém seria.
- Uh, uh, Baby. Talvez use isto em algum conto, talvez uma crônica sobre a intimidade de casais recém-quase-separados.
- Sabe? Às vezes tenho vontade de te bater na boca. Ou pior: vontade de te dar uma surra, sei lá, te encher de “porrada”. Quebrar essa tua cara de pau. Tu é muito do cínico, ô cara! (...) outras vezes penso em outras coisas: tomar conta de você, seu grandessíssimo filho da puta.
- Você é tão gostosinha que vou finjir (com “j”), que escutei cada palavra.
- Ai, por favor, vai ficando por aí! Como você é grosso!
- Uh, você acha? Se for assim tão grosso é melhor eu me dar uma esfregada para acelerar a próxima ereção. Fica quieta, senão eu não consigo terminar, aqui, o serviço. Esse botão tá difícil pra burro. Pronto, terminei. Rola um boquete?
- Como é possível que alguém com uma sensibilidade tão grande para escrever seja um completo panaca? Não vê que sinto sua falta, falta da tua voz mansinha no meu ouvido, do teu jeito de rir, do som da tua impaciência, tua ironia e sarcasmo usados na medida certa pra me provocar, sinto falta dos abraços do teu carinho, da tua felicidade em me ouvir, do teu desassossego, sinto tua falta! Pois, mesmo que jamais consiga olhar nos teus olhos e te dizer o que sinto minha ausência faz o trabalho por mim, de te lembrar de que você me ama e que não pode mais viver sem mim e eu sem vc.
- Hum, hum! É “mermo”, é? Então, tá legal.  Agora, não aposte seu coringa em caras que falam bonito, vai acabar pegando o bonde errado. Nosso caso é uma espécie de exercício de concisão para mim.
- Que linguajar! Então você confessa? Admite que me trouxe aqui só pra me comer? Vai te catar! O que quer de mim, afinal?
- Ué. Comer o seu cu.
- Vai sonhando, imbecil. Desista. Eu te conheço: você chega, faz e acontece, depois se manda, na maior e ainda pede um trocado pro ônibus.
- Não é bem assim, Coração. Asseguro que minhas intenções são de casar com você o mais rápido possível. Assim, é claro, que você não me deixe escolha.
- Está sempre de sacanagem pro meu lado. Não me leva à sério nunca. Por que você esconde o que tem de melhor atrás desse cinismo? Está se deformando para não se lamentar pelo quê? Como posso não te dar escolhas, porra?
- É simples: não me dará escolha quando perceber que me recuso a ter escolhas. O amor não existe, é disfuncional. Não tem nada de praticidade. O que existe é uma boa companhia. E se o dia seguinte valer á pena, podemos preencher alguns vazios com algo do kama sutra, versão ilustrada.
- E eu sou uma boa companhia? Não me acha um pouco afetada, incoerente? Muito certinha?
- Depende: você tem alguma edição do kama sutra dando sopa?
- Palhaço, safado!
- “Péra”, lá! Precisa se decidir: ou palhaço ou safado. Não tenho como processar tantos insultos de uma só vez. Assim vou acabar achando que você está gostando mesmo de mim.
- Isso seria ruim? Constrangedor pra você? Imagino você e eu usando as mesmas drogas, curtindo os mesmos lugares, mesmo tipo de som... dois rústicos maltrapilhos. Que tal seria?
- Não, assim, não rima. Que tal: pobreza, álcool e vida cigana? (...) Tudo bem, mas você vai enrolar os baseados, Baby.
- Eu te amo, gordo.
- Fique à vontade.
- Bruto! Quer saber? Já encheu a paciência! Tô de saco cheio de ficar o tempo todo tentando provar algo para um babaca feito você. Em primeiro lugar, você é um idiota, sempre tira conclusões precipitadas sobre qualquer coisa; segundo, você não sabe e nem entende o contexto de amor para uma mulher; terceiro, tô com vontade de te dar uns belos chutes no saco, e quer saber? Você é a pessoa mais fria, calculista e mal amada da face da terra. Me deixa em paz! Não me procure e nem me ligue mais! Fique com esse seu tesãozinho maldito! Adeus!
- Tranquilo. (...) Mas escuta...
- Que, é?
- Posso levar meu disco do ABBA, que eu te emprestei? Tem “dancing queen”.
- UHHHHH!!! Você é desprezível!!!
Silêncio. Então ele olha para ela e se aproxima lentamente (...) com uma das mãos toca seu peito e sente seu coração aos pulos (...), ela diz, sôfrega:
- Sai daqui.
Com a outra mão afasta seus cabelos cor de avelã, aqueles que ela sempre utiliza para abrigar-lhe do frio, depois do amor; afasta da orelha esquerda, aproxima-se como se fosse contar mais uma de suas obscenidades tresloucadas (que ela ama, de morrer, ouvir com atenção desesperada), aproxima-se e diz com uma voz cor de vida inteira:
- Estaremos sozinhos aqui, meu amor, para sempre, escritos nesta folha de papel.
Deu pra entender, hum? Ou ainda querem que eu explique?



quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NAUFRAGARIA (de Ageu Pazoud)

by Georges Pichard

se nomes pudesses dar a ti
dirias o que de si?
afogado nos sentidos possíveis de ti
carregarias a todos eles um pouco de si?
assoberbado pela delícia de falar de si,
náufragarias seduzido pelos sentidos diante de ti?
empalado pela palavra que ousou dar sentido a si
já não via mais sentido ficar diante de ti...
tomou-se a si mesmo...prostou-se e disse:
- que mais posso fazer eu diante de Ti? Devorem-nos os sentidos dos nomes...
- que mais outro nome posso dar a si?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PREVISÍVEL (de Marcos Salvatore)


Eu sabia,
Eu sabia que você viria

Veria você um dia
Que “Eu e você” um dia viveria

Um dia
Eu sabia que você veria

Sabia que viria viva
Para variar o dia

Bom nosso de cada dia
Eu sabia, eu sabia

Que um dia você me veria
Você, você

Que bom
Num dia que não se adia

Eu sabia que você viveria
Pra viver o meu te ver um dia

Mas agora acabou

terça-feira, 8 de novembro de 2011

LOS 3 BACANAS (de Haroldo Brandão)


Era uma vez há muito tempo, nos anos (favor não confundir) conhecidos como os anos 70, aqueles três, um que descendia de paraibano, outro que descendia de portugueses e o outro que tinha em suas veias sangue índio e português e nariz adunco, andavam pelas ruas da Cidade Velha com uma nuvem de fumaça sobre suas cabeças, era fácil identificá-los: era só seguir aquele fumacê aliás, na casa do que era cabeludo ao sair pela Rua Carlos Gomes o trem já fumegava, alcançando a Tamandaré. Quando adentravam o Colégio do Carmo tudo era só sorriso. Nas aulas de matemática do professor calango balado, ao ritmo de logaritmos, quase se cagavam de tanto dar risada, a sala olhava penalizada daqueles três idiotas. Na saída do Colégio a volta na loja de roupas de segunda mão na Tv. Leão XIII, vindas dos EUA era irresistível, os últimos lançamentos: casacos de inverno, casacos do exército (USArmy), jeans rasgados, botas de camurça com solado de pneu e outras peças originais para serem estreadas no cine-clube durante o audiovisual de Jesus Cristo Superstar. Como outros de nossa geração queríamos tudo ao mesmo tempo. A ditadura para os três foi uma tremenda risada em suas viagens levemente alucinadas ao som do vinil usado da Joaquim Távora. Já quase adultos embarcaram em uma heróica aventura rumo a Santarém, abastecidos com uma quarta do melhor chocolate dos trópicos providenciados por Dom Amaral ao som de Gênesis, Led Zeppelin, Queen e Lou Reed, dançaram tanto que por pouco não dançaram. Juntos estavam ainda na universidade oitentista e lá descobriram que as melhores matérias a estudar eram Beira do Rio I e II aliada a literatura beat.. Casaram, descasaram, moraram que nem hippies em comunidades alegres e tristes nos trópicos. Sob o signo de baco continuaram fumando seus cachimbos e cigarros , tudo muito ingênuo e descompromissado, voltaram a casar e então deu-se a diáspora, os paraísos artificiais tiveram que ser abandonados pela concretude da vida real, percalços: dívidas, filhos, contas, filhos, trabalho, trabalho, muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. O século XXI trouxe os novos rebentos e um reencontro quase impossível pois a trip egóica era forte demais: todos haviam enlouquecido um pouco, cada um a seu modo, novas companhias, atividades, novos desafios, novas subversões. Suas lindas a tiracolo são testemunhas das três frases slogans usadas compulsivamente por uns e outro: “eu posso te arrasar..”, “no, no, no..”, “eu amo essa mulher”. Lá vão os três bacanas: um jornalista, um psicólogo e um professor , da aldeia campista à Pedreira passando pelo viaduto, na longa estrada da vida. Uma fotografia congelou no tempo estas figuras típicas do seu tempo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sinopse (de Marcos Salvatore)

by Ansel Adams

Sinto falta de me controlar
quando te descontrolo
de te dar tanto controle
Falta de ter medo de amar

(lugar seguro pra mim, chega!)

Finjo não te amar, nem ligar
pra me pegar, logo depois
te amando, te ligando
- O que faço com isso?

Ociosa como está minha cautela
minha aquarela de cor dos seus olhos
- Farto de escrever o que não pode ser descrito.

O amor que eu sinto
é mais pra nós dois
Para repartir antes da fome terminar
Para distrair, descontrolar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

SOBRETUDO A FALTA QUE ELA FAZ (de Marcos Salvatore)

by Edouard Boubat

A melhor saída foi deixar você falar

Hoje estou tarde demais
Vídeo clip de prender poemas farpados
Atento a ligações irônicas

Meus tostões furados
Deram para comprar
Papel sem pauta
Para mais uma letra simples

Fato gerador:
As cicatrizes do meu pau
O calor infernal desta cidade
Meu machismo “boa praça”, incidental
Os sotaques diferentes do teu corpo (quem vai me cobrar agora?)

Gravação original
Em tantas rotações
Pra rodar bem no meu peito
Ao toque das notas que você souber tocar

Mediadora entre as reflexões e a alienação
De alguém que nunca, nunca vai voltar

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sanatório Enluarado (de Marcos Salvatore)

by Les Krims

Dia: - fatalidades

Lá fora é bom
Pela janela

Noite: - surpresas

Secando os cabelos
na mesma toalha
improvisada de travesseiro

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

HÁLITO (de Marcos Salvatore)

by Guido Crepax

Querida Clarice,
 
Crise!
Não leve tão à sério esses pequenos traumas. Também sinto a sua falta, e você sempre foi uma ótima amiga, sempre. Até pensei que era mais, por falta de não sabermos o que fazer com aquilo. Mil coisas assim. Uma puta saudade da sua risada lolita, desse seu corpinho imaginário, do seu bumbum durinho e mulato. Enfim, depois de um período bacante de masturbação existencial e contemplação estática, eu continuo aqui, com a "Legião" na vitrola, minha taça de vinho tinto "sangre de Dio" sobre o criado mudo, Ana C., Álvaro de Campos, Manuel de Barros me cobrando um xeque mate. Nelson Rodrigues em pó, para misturar com a batida de Tatuzinho com morangos, catuaba, cravinho e gengibre, bons para a libidinagem do hálito. O fato é que tardiamente assumo que eu te amava além dos boquetes via créditos promocionais. Você nem percebeu. Só chamo a Angela pra você que é sonsa e que morre na beira! Então, se já estiver boazinha comigo, vê se tira o celular do rabo e me liga logo de uma vez. Senão, tola é você, por não ser do jeito que eu não sou.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

LUZ DO DIA (de Marcos Salvatore)

by Henri Cartier-Bresson

Boa noite. E enquanto isso, alguém que não voltou pra casa, perambula pelas ruas de Belém. Caminha devagar, dobra esquinas reconhecidas pela lembrança da luz do dia, se abraça, fugindo do frio e deixa, sem pensar, a boca sussurrar: - “Fica”.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ERA TARDE (de Haroldo Brandão)

by Brassaï

Era tarde. Muito tarde, nós tínhamos perdido o contato nas Docas e só nos restava a Rua dos Tamoios o que sempre significava aumentar o risco. Mundinho deveria nos esperar no bar ao lado de sua casa. A fissura só aumentava, já nervosos iniciamos uma discussão, a grana era boa, Mundinho é que não era nada bom: sabíamos que a capação estava garantida. Espera, jogamos uma partida de bilhar, tomamos a primeira cerveja, eu já ansiava pelo wisk, olhando a lua linda pensava nesta quinta depois de meia noite, quantos já não estão nos embalos, nas baladas, em qualquer porra, e eu, e nós, Narizinho e Cêra perdidos nos becos jurunenses, nossa noite só começa depois de uns bons tiros, a moçada passa ainda para o tecno brega do tupi ou superpop ou sei lá que merda qualquer que jogue as mentes para longe e os corpos se enrosquem em uma dança sensual quase indecente. Merda! Quase uma hora e mais cerveja e nada de Mundinho: então finalmente vemos o cabeçudo baixinho dobrar da baixada. Muita calma nessa hora, elegância no pagamento, afastamento estratégico, entramos no carro de Cêra e o esporro começa; Porra, égua  Mundinho quase que tu  não vens, já não chega a gorjeta e ainda por cima esta merreca. Nenhuma novidade, após o teatro rumamos para o ap da 1º de Março. O elevador parece de filme de terror com um buraco no que seria o teto, via-se as paredes internas sujas e antigas passando, e paramos no 12º. Saímos, nem esquentamos. Às 3 horas da manhã dei meu primeiro tiro. Fiz a primeira dose e só então relaxei.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

ENTRE OUTRAS COISAS (de Marcos Salvatore)

by William Henry Fox Talbot

O amor
definitivamente
não é feito de palavras
(...)
são só palavras
meu amor.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

LIBRA (de Marcos Salvatore)

by Victor Brecheret




consegue ouvir?
é um som vindo dali, de acolá.
um rompante sonoro de pessoa amada
além de um coração forte e em paz

cheio de alegria convencional e suave
navegação serena, equilibrada
desprovida de provas vazias
mensuradas, presumíveis

querendo a chance de dizer, de falar
desatinada pela viagem perdida
pela falta de alguém

- gosto de te provocar,
de te arregaçar os braços
na marra, por causa do orgulho
de manipular tua vontade, tua sagacidade

tua prata, teu ouro
tua flexibilidade moral
do absurdo

é quando menos se espera
pela ânsia
de não se ter mais paciência

- espera! eu fico com isso,
me serve,
me dá
me acomoda nesse incômodo de estar fora d’água

enquanto te ensino e te aprendo
portanto, não fuja
agora, chega de pensar e pensar
de me analisar

não adianta

não vê que assim pode se machucar?
e me forçar a te dar mais esperança
deve ser por isso que estamos aqui
se você quer saber

recicle-se este punho fechado
pulsador de amores, de saudosismos perenes
arrastando correntes de dia e de noite
toda sorte de odores lembrar, dele coração partido

que um dia
procurou por você de bar em bar
quase enlouquecendo por isso
fornicando com as palavras sem parar

é aquele mesmo bombeador da perversão
que usou comigo de alucinações, débitos e créditos
forçou-me ao êxodo voluntário da carne e do sangue
à promiscuidade bacante, embaralhado respirar

quase fazendo coisas
que não se menosprezam

questionáveis

mala cheia de sonhos
um destino destinado, astrologicamente dopado

mas nem tudo eu temo em contraste
quanto mais? ainda sinto, ainda posso.
nem vírgulas, nem pontos, só exclamações costuradas à mão
apenas a vil correção das estrelas

parabéns nesta data,
meu amor
minha libra de justas intenções
de peso equivalente

à força da minha boca contra a sua boca

que não me acredita
ou se rende
nem quando me jogo
do décimo andar

então para de chorar, chega de novela
deixa o que passou passar depois da ressaca
todo encanto é difícil de não se intimidar
então se atiça pro futuro que se sente

é um calor adjacente que retorna
muito à fim de se vingar

sei do quanto me quer e me gosta
mesmo sendo esses dois, dentro de nós
tão diferentes

como ondas do mar
contra as rochas

escreva com as unhas aqui
a meio caminho dos mamilos,
no meu peito exposto
a esse amor fraturado

escreva:
“me ligue amanhã,
às três da manhã
a qualquer hora
me ajude a nunca mais te procurar”

mentira!
vai estar sempre ao meu encontro
ansiosa por meditar sobre a insanidade e a razão
da minha língua contra o seu gatilho

enquanto me seca o cabelo suado

e eu falo demais, admito
e quase tudo pode durar
pode ser longo e conquistar
quase

quase pra mim
quase você

terça-feira, 4 de outubro de 2011

PRINCÍPIO ATIVO (de Marcos Salvatore)

by Thomas Karsten



O dia lá fora está tão
Virtual

Dá vontade de sair
Dobrando esquinas
Perguntando horas
Exclamando “que calor”, “que dia”, “que tempo”

Que tempo pra isso?
Em que tempo vivemos?

Esperando por alguém
Para atravessar a rua.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

bombordo [ou livre para ler com uma mão só] (de marcos salvatore)

by http://thethoughtexperiment.wordpress.com/


bêbado. completamente besta. acordo no chão da sala com esses escritos me cobrindo o corpo. entre um sábado e um domingo. repetindo chet baker, nina simone, portishead. sei do que se trata, mas resolvi publicar tudo como estava.

ando deprimido
busco o amor dentro de cada palavra,
nos rótulos das garrafas
solos de baixo sem escala, aeroporto pra pousar
não me recuso a pagar o preço da vida
mas a vida tem que aceitar o fato
de que vai ter que ser a prazo... e sem entrada,
nem fiador,
nem garantias,
nem telefones de contato
desde então
meu coração é um vinil riscado
por agulhas usadas
violino de uma corda só
sofro de doença primária, crônica, progressiva e fatal
está tudo aqui, não lá fora. anestesia geral.
dentro de mim tem um animal em profunda hibernação
mas não quero matar a pessoa errada.
- me apeguei aos pregos das asas machucando minhas costas.
seria estupidez
mas, em todo caso
- me traz mais uma música, on the rocks
mesmo sabendo que o mundo não precisa de mais ninhos
também existe o círio; festa pagã
- não há evidência de milagre nessa época
com seu espetáculo de fé do povo
            - o amor perde feio pro sexo.
viva o povo brasileiro
viva a foda laica
prostíbulos lotados,
bares enchidos,
altos índices de violência e criminalidade
lembro da corda
do frio da manhã
somos noivos de outubro
nesse eterna despedida de solteiro
o derrame de baba vaginal é um sinal de dias melhores
dias inteiros
olho pra baixo e encorajo mais um vôo
é claro, arranho um violão, depois tento de novo
canto trancado no quarto, com o volume
no volume máximo
claramente sem sabor
apaziguo a tristeza com masturbação consciente
dou em cima de qualquer mulher de olhar desafiador,
onisciência, terceiro olho em sua testa
em suas tetas, sua buceta
depois digo, na maior: “não me tente”
também venho consumindo enlatados de segunda mão
calçados e roupas usadas
pão com mortadela, pratos de arroz com feijão
não dispenso um vinhozinho barato
(cinco e cinquenta a garrafa)
economia
nem me sentir como um animal
- diz que me ama, me arruma uns trocados
- faz de mim um samba de terreiro de vila
- me dá café na cama
- despois senta a porrada
“me dá pastel.
te pago aqui.
essa fome me deixa quase morto”
cheguei tarde,
perdi a chance de me atrasar
e a palavra aconteceu sem permissão
algo em você que me calou
consegue adivinhar o que seja?
depois diz que me ama
olha só
me amarra cordas nos braços, nas mãos
depois as pernas
depois sai por aí de praça em praça
me apresentando de graça
quer me cortar as asas
quer me comer de garfo e faca
costumes, poesia-pé-na-estrada
melhor parar agora
antes que eu te leve a sério
e comece a me encontrar em outro lugar
percebeu?
não?
ou quer que eu explique?
então esquece.
e termine de me ler agora
ou então me ame logo de uma vez
rasgue o que escrevi em mil pedaços
faça chover papel picado
que eu estou com pressa de ir embora
de mãos dadas com suas mãos