De quem é a culpa?

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terça-feira, 11 de março de 2014

Persianas

                                                                                        (Por Fábio Castro)
                                        Trilha Sonora: Retrato em branco e preto - Tom Jobim.

sábado, 2 de julho de 2011

Achado III (Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Memória da pele – João Bosco / Waly Salomão.

A mesa se acomoda

Conforme os corpos.

E eu, conforme os copos

Os corpos, os copos...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Achado II (Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Como dois e dois – Caetano Veloso.

Não quero exatamente

Que minha vida sentimental

Seja refém de mim mesmo.

Toque...

Desejo...

Sexo...

Amor...

Saudade...

Tornem-me refém

Ao concretizar meus sentimentos.


Achado I (Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Futuros Amantes – Chico Buarque.

Hipoteticamente falo de sonhos.

Hipoteticamente falo de amor

Nos meus sonhos.

Hipoteticamente vivo este sonho,

Não necessariamente o amor,

Mesmo hipoteticamente amando.

Hipoteticamente sinto saudade,

Momentaneamente sinto desejo,

Periodicamente vejo-me sofrendo,

E, hipoteticamente, sinto este amor morrendo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Fragmentos Etílicos V (de Ana Maria Rocha, Marlon Vilhena, Fabio Castro e Marcos Salvatore)

Trilha Sonora: Riders on the storm, The Doors
Fotografia: O Declínio do Império Americano (1986), de Denys Arcand

Manipular
Ganhando consciência
Se alimentar de migalhas
Disponível para o sexo e mais além
Vamos pensar sobre a vida?
Então,
Ninguém é livre de verdade
O fato
É tão complicado
Por estar aqui
você acha
Prega isso
É intrínseco
De certa forma é uma liberdade
Pode ser até onde será
Sem Anarquismo
São intrínsecas represálias
Não acho que é ruim
Por essas causas
Percebo em mim
Aos trinta, quarenta
Só sei que não concordo
Não conhecemos as regras
Por isso o julgamento é social
8011-8765

terça-feira, 5 de abril de 2011

MENINAS DO PORTO DO FOGO

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Som de folhas ao vento & muito Jazz.

Elas estavam lá!

Meninas, mulheres, senhoras.

Mas todas meninas.

Porque ali, naquele momento,

Todas eram meninas,

Crianças e,

Por algum motivo,

Encontraram-se lá.

Era a praia do Paraíso.

Mas não era o paraíso

Que conhecíamos.

Era o Paraíso que elas fizeram,

Que elas conceituaram.

E assim continuaram lá.

A olhar o fogo.

Sentadas ao redor de uma mesa de madeira,

Pareciam não se importar com o mundo.

Estavam lindas, radiantes,

HILariantes, MAternas...

O manso modo e delicado

De falar entrava em confronto

Com a labuta do dia-a-dia

Que, no momento,

Fizeram questão de não falar,

De deixar para trás,

De sequer lembrar.

Elas estavam prontas, então!

Decididas,

Fortes,

Impiedosamente determinadas

A brincar com o tempo.

Coisas de meninas...

E o tempo tornou-se presente

E ausente para elas:

Uma equilibrava-se entre as ondas e as pedras

Em função da maré e do tempo.

Outra boiava nas ondas e sobre as pedras

Curtindo a maré sem se preocupar com o tempo.

Umas embalavam-se em redes ao som da maré,

Mas desconsideravam o tempo.

Outras embriagavam-se de poesia,

Porque queriam aproveitar o tempo.

E todas estavam atentas, felizes,

Inquietas, porém livres...

Desfrutando o que parecia

Não fazer há tempos.

Mas assim fizeram.

Eram apenas dois dias,

E, àquela altura,

Ainda tinham tempo.

E, por isso,

Estavam prontas e fortes.

Sim! É isso. Prontas e fortes.

Mas sensíveis também.

Porque havia nelas

Uma sensibilidade

Não menos densa

Ao café,

Ao jambu,

À rede,

Às formigas,

À cerveja,

À caipirinha...

Eram elas que estavam lá!

Ainda assim lindas e meninas.

Regendo as quebradas soLENEs das ondas.

Rindo, encantadas

Com a poesia

De Saramago.

E, nisso tudo,

Estávamos nós.

Atônitos, uIVAntes,

Ao som de ondas CELIbatas.

E, como num “aluguel” de flores,

Contemplamos a essência da beleza

E da sabedoria

De MARGAridas.

segunda-feira, 28 de março de 2011

CRONIKETA VII (Histórias de Raquel e Solange)

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Folhetim – Chico Buarque.

Quarta-feira de cinzas, Raquel e Solange faziam um balancete do bloco de carnaval que participaram, na noite anterior, em Santa Teresa, no Rio.

- E aí, Quelzinha, o que houve? Teve uma hora que você sumiu...

- Menina... conheci um americano escândalo!

- Sério?!

- O quê? Desse tamanho. De perder de vista.

- E aí? Conta, conta!!

- E aí nada. Ele não falava uma palavra em português e você sabe que o meu inglês não existe. No máximo que rolou foi um beijinho no rosto.

- Que horror, Quequel!!

- E você, Sô, por onde andou?

- Eu continuei um pouco no bloco, mas logo me dispersei quando me agarrei com aquele russo espetáculo, lembra?

- Tá brincando? Aquele que era de fechar o comércio?

- Isso! Esse mesmo.

- Menina!... mas ele falava português? Porque russo eu sei que você não fala...

- Nem uma palavrinha.

- E como vocês se comunicavam?

- A mão dele falava português fluentemente.

- E eu presumo que a sua, russo.

- Desde pequena. Você não sabia que as mãos são poliglotas?

- Ai, Sô, não sei como você tem coragem!

- Hum... hum... tão menina, tão mulher e tão tola.

CRONIKETA VI (História do garçom Théo)

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: O último dia – Paulinho Moska & Billy Brandão.

Final de noite, zona sul de São Paulo, havia ainda cinco mesas ocupadas num restaurante sofisticado quando uma quadrilha anunciou o assalto.

- Bandido: Isso é um assalto. Passem todo o dinheiro do caixa e as joias.

- Garçom Douglas: Por favor, moço, vamos passar, mas não atire.

Enquanto o garçom Douglas recolhia o dinheiro, alguns gritos foram ensaiados, mas logo abafados pela demonstração das armas de fogo. O garçom Théo observava atentamente todo o bando e foi acometido por um sentimento que transitava entre o pânico e o desejo.

- Bandido: Rápido com isso, rapá. Não tenho o dia todo. Ei, vagabundo! Solta esse telefone. Quer levar um tiro, seu merda?

- Garçom Douglas: Por favor, moço, não nos machuque!

- Bandido: Vou logo avisando que se não tiver muito dinheiro aí, vamos comer o cu dos garçons.

- Garçom Douglas: Por favor, moço, não faça isso? Estamos trabalhando e já é final de expediente. Todo mundo aqui tem família. Faz isso não!

- Garçom Théo: Cala a boca, Douglas, você não entende nada de assalto.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

TOURO (CHATO. EU?)

Trilha Sonora: Todo Errado – Jorge Mautner & Podres Poderes – Caetano Veloso.

O BILHETE – 10h.

- Bom dia!

- Bom dia, senhor.

- Por favor, eu quero uma passagem de camarote para Belém.

- O senhor quer uma cama?

- Não! Camarote mesmo.

- Não vendemos camarote, senhor, vendemos cama.

- Como assim?

- É o seguinte: nós temos passagens para rede e para cama.

- Mas no barco que eu vim, eu comprei camarote. Neste não há camarote?

- Há, senhor. Mas é que no camarote há quatro camas, aí o senhor compra uma delas. Entendeu?

- Quatro camas? No que eu vim havia apenas duas. E era camarote.

- Não! O senhor veio numa suíte, então.

- E nesse barco, não há suíte?

- Há, senhor.

- Então eu quero uma suíte.

- Como lhe disse, na suíte há duas camas. O senhor tem de compra a suíte inteira.

- Por que isso? Eu estou sozinho. Não preciso de duas camas.

- Infelizmente, senhor, só posso vender a suíte inteira.

- O que um passageiro sozinho precisa fazer pra viajar numa suíte? Ficar aqui em prontidão esperando que outra pessoa resolva comprar passagem?

- Desculpe, senhor. Mas só posso vender a suíte inteira.

- Então me venda mesmo o camarote.

- O senhor quer dizer uma cama?

- Linda, se sou apenas uma pessoa e estou comprando uma passagem no camarote, não fica subentendido que eu estou querendo apenas uma cama?

- É que, no camarote, nós vendemos camas, senhor.

- Ah...então eu posso levar a cama?

- Não, senhor!

- Ok! Tu do bem! Me vende então uma cama. Fazer o quê? Mas... no camarote!

...

- Sua passagem, senhor.

- Que horas sai exatamente o barco? Preciso calcular o tempo de viagem.

- Às 18h, senhor. Mas há uma tolerância de meia hora.

- Sei. Ele sai as 18h e 30min, né?

- Não! Na sua passagem, a hora marcada é às 18h.

- Escuta, querida, ele sai deste porto mesmo ou eu preciso nadar até a outra margem?

- Sai daqui mesmo, senhor, às 18h.

- Aff!!

O CAMAROTE – 18h 15min.

Um senhor que comprou uma das camas...

- Boa noite!!

- Olá! Boa noite.

- Escuta! Você vai aí nessa cama?

- Sim. Esse aqui não é o camarote nº 9?

- É... mas... você vai ficar aqui ou vai sair?

- Por quê?

- Porque eu quero dormir.

- E daí? Durma ué!

- Se você ficar entrando e saindo, não conseguirei dormir com o barulho.

- Desculpe-me, meu senhor, mas não vou deixar de ir ao banheiro ou fazer qualquer coisa que eu tenha direito nesse barco só porque o senhor quer dormir.

- A tua sorte é que eu tenho sono pesado!

- Minha, não! Sua.

UM PASSAGEIRO DE MEIA VIAGEM – 2h 33min.

No meio do rio, o barco diminui a potência para um embarque de um passageiro.

- É sempre assim? Um barco encosta no outro para o embarque dos passageiros?

- É... e a viagem de lá pra cá foi horrorosa. Choveu e balançou bastante. Pensei que fosse morrer.

- Você está vindo de onde?

- De Bagre.

- Como é lá?

- É uma cidadezinha. Muito pequena. Só há três restaurantes e neles não vende filhote.

- Porque é Bagre.

- Não entendi.

- Deixa pra lá... Quer dizer que a viagem até aqui foi ruim?

- Puta merda! Não quero nem pensar!... E nesse barco aqui também é muito escroto. De vez em quando, ele arrasta em um banco de areia.

- Esse aqui?

- Sim! Olha! Olha! Tá sentindo? Tá sentindo ele arrastar?

- Não, cara, não tô não. Aqui é fundo.

- Mas ele arrasta. E pode até virar. Pode crer!

- Amigo, ao viajar de avião, você só fala em tragédias?

- Não. Por quê?

- Você está fazendo isso aqui.

- Foi mal. Vamos mudar de assunto, né?

- Acho bom!

O DESEMBARQUE – 5h 50 min.

A esta altura, já havia voltado para o camarote, mas não consegui dormir porque o senhor que não queria barulho roncava só como ele mesmo. Forma-se uma confusa fila para desembarcar...

- Por favor, amigo, não empurra.

- Então vai logo que eu quero descer.

- Eu também, porra!. O senhor não está vendo que há várias pessoas na minha frente?

- Ô povo lento!

- Diga isso a eles, mas não empurra...

O sujeito continuou resmungando atrás, mas agora três posições depois de mim. Resolvi ignorá-lo.

O TAXISTA – 6h 20 min.

Desembarque movimentado. Os taxistas disputavam os passageiros e vice-versa. Até que consegui um que, para meu azar, escutava um tecnobrega...

- Bom dia!

- Bom dia! Almirante Barroso, no Marco, por favor.

- Ok!

- O senhor pode desligar o som?

- Não gosta de brega?

- Detesto!!

Segundos depois...

- Foi boa a viagem?

- Conturbada!

- O barco chegou agora?

- Se o senhor não tem o que dizer, não pergunte!

- Opa! Desculpe.

- Tudo bem. Desculpe-me o senhor. Só estou com um pouco de sono.

- Eu entendo...

- Nesse horário ainda é bandeira 2?

- É! Bandeira 1 só a partir das 8h.

- Tem algum desconto?

- NÃO!

Taxista chaaato!...

(Por Fabio Castro)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

"NENHUM MERGULHO É POSSÍVEL SEM SANGRAR" (Por Fabio Castro)

O tema proposto refere-se à última frase do conto “Em todos os sentidos”, da grande escritora Maria Lúcia Medeiros.


Trilha Sonora: “Todo amor que houver nessa vida” (Frejat / Cazuza) & “Ne me quitte pas” (Jacques Brel – Interpretada por Maysa).

Foi isso, não foi?
Tudo se fez naquela noite.
O último local,
O último gole,
A última hora
E a mesma vontade de ir.
Mas um olhar, apenas num único olhar
Encontramos tempo para mais um drink.
O mesmo drink,
A mesma sede,
O mesmo copo – afinal, temos o mesmo vício –
O encontro das salivas,
E uma outra vontade de ir.
Até que fomos!
Foi isso, não foi?
De repente éramos nó,
Éramos pó de nós mesmos,
Éramos amantes,
Éramos vibrantes,
Éramos melados,
Éramos significante e significado,
Éramos um par correlato.
Não hesitamos em nos ligar em uma cama.
Às vezes redonda,
Às vezes quadrada,
Às vezes retangular,
Às vezes molhada,
Às vezes metálica,
Às vezes na vertical...
Estávamos profundamente ligados
Pelo corpo,
Pelo sexo,
Pelos lábios,
Pelos seios,
Pelos pelos molhados
Em nós mesmos...
Nos assentamos em nossos corpos,
Loteando-os,
Semeando-os,
Delimitando-os,
Descobrindo-os,
Até tornarmos proprietários deles.
Levamos tempo nisso, muito tempo!
Foi isso, não foi?
Mas o tempo nos convenceu
Que precisávamos de mais tempo.
E conseguimos, não foi?
Mergulhamos em busca de dias,
Horas,
Minutos,
Segundos, que fossem.
É o tal Carpe Diem...
E assim nos permitimos,
Submergimos,
Esquecemos,
Utilizávamos todo o tempo que tínhamos.
Devíamos ao tempo!
Porque era isso que queríamos,
E por isso nos esquecemos...
Foi isso, não foi?
Esquecemos que já não tínhamos tempo
Para as pessoas,
Para outro olhar,
Para mais uma bebida,
Para o último drink,
Aquele que nos ressignifica,
Que nos prepara para esse
E futuros mergulhos.
Banalizamos tudo.
Simplificamos tudo.
Viramos “lugar-comum”.
Mas pouco nos importávamos.
Era isso que queríamos!
E juntos, dizíamos:
- Não custa nada! Não vai custar nada!
Era sempre assim.
Nos comportávamos sempre assim.
Porque para nós nada custava nada.
Até sangrarmos muito!
Foi isso, não foi?
Era sempre assim!
Mergulhávamos até sangrarmos.
Pois só após sangrarmos,
É que percebíamos o quanto doeu.

(Por Fabio Castro)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CRONIKETA (V)

Trilha Sonora: Barulho de um "Popopô" na orla de Breves.


Bate-papo animado entre quatro pessoas numa pizzaria. Uma delas pergunta para a outra pessoa que chegou atrasada:
- Por quê tu chegaste só agora? tu moras aqui em frente.
- É que eu estava terminando de ver um filme: Moiséis.
- Ele é aquele que divide o mar?
- É... é aquele que pega a varinha e arrasa.
- Porra! Transformaste um cajado numa varinha. Ele não foi uma fada, ele foi um pastor, lembras? Rebanho... Ovelhas...
- Eu sei! Ele é aquele cara dos doze mandamentos. Que horas são?
- São dez!
- O quê? Dez horas já?
- Não! São dez mandamentos. Oba! Chegou a pizza. Graças a Moiséis.
Risos e engasgos simultâneos...
- Tá vendo! come devagar.
- Tá bom... tá bom... vou comer...


(Por Fabio Castro)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Fragmentos Etílicos (IV): Ao Último Cavaleiro Ausente

Trilha Sonora: Grilos da Cidade Velha, burburinhos e copos brindando.

(Sequência: Celi Abdoral (título); Fabio Castro; Marcos Salvatore; Marlon Vilhena)


Sim! Pergunte-me se vivo
O encontro com a morte pode
ser doce

Como a última gota de sede
Como o começo do sono numa rede

Criam-se rosas negras e belas
Fazem-se orações de pedra
Quedam-se luzes de madrepérolas
No orvalho de poemas brutos

Sim! Os poemas são delicadamente brutos
E as rosas continuam
Belas e negras
Negras e belas

Nos sabem os corvos
De asas tortas


[PS.: Para quem se alimenta de corações assados.]

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tudo tem Limite.

Trilha sonora: “Baby", “Tigresa” e “Você não entende nada" – Caetano Veloso.

Não sei ao certo como se diz:
Quatro noites, quatro intensas noites
À beira do mar, das dunas, da mata, da saia...
Três noites, três intensas noites
Sob o céu, o sol, o suor, a lágrima...
Duas noites, duas intensas noites
Entre pernas, tapas, seios, dentes...
Uma noite, só uma, apenas uma intensa noite
Sem ar, sem mar, sem céu, sem pernas...

                                                   (Por Fabio Castro)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O SACO DO PAPAI NOEL (VERSÃO DE FABIO CASTRO)

Trilha Sonora: A cara do Brasil – Celso Viáfora e Vicente Barreto

O mês de dezembro é a época do ano em que as pessoas se superam no quesito falsidade. É claro que não são todas, mas a maioria desempenha muito bem essa habilidade. Tudo em nome do espírito natalino.
            Não, gente, não sou um daqueles pessimistas estilo segunda geração romântica. Mas é que não posso fechar os olhos (ou o saco) para esses detalhes que, digam-se de passagem, nem o Bom Velhinho aguenta em seu saco.
            Basta fazer uma pequena comparação nas relações interpessoais a cada mês do ano. Você irá constatar que dezembro é “o que há” de mais hipócrita.
            Vamos começar por fevereiro, porque todo mundo sabe que o ano só começa efetivamente aí. Nesse mês geralmente acontece o carnaval, com os bailes bombando e as pessoas se conhecendo.
- Oi, tudo bem? Me empresta teu isqueiro.
- Empresto. Você é linda. Eu te amo.
            Dizer que ama alguém já no primeiro encontro é a máxima desse mês. E o que é pior: muita gente ainda acredita.
            Em março, mês que se comemora o dia internacional da mulher, as roseiras penam. O dia 8 é uma data muito esperada para algumas.
- Parabéns, amor, pelo dia.
- Obrigada, querido, pelas rosas.
- Paixão, lava essa calça pra mim e põe meu jantar.
- Já, já minha razão.
O que é isso, gente, a mulher está presente todos os dias e merece ser cortejada. 
            Em abril, além do glorioso dia primeiro, há a Semana Santa e as pessoas começam a se programar.
            - Na Semana Santa irei para o Retiro.
            - Retiro Espiritual?
            - Que espiritual que nada! Retiro é nome de um balneário. Vou tomar todas.
            - Jesus te ama.
            Maio é para as noivas. É engraçado existir um mês do ano para as pessoas programarem o próprio enforcamento camuflado no dia mais feliz da vida. É aí que tudo começa, gente! Mas a mulheres desse mês estão em vantagem das do mês seguinte. Junho é o mês do santo casamenteiro. Santo Antônio fica sobrecarregado de tantos pedidos. O desespero é tanto que encenam até o casamento na roça. Sem noivado, claro. Talvez seja para aliviar a tensão.
            Julho é o mês que as pessoas dizem descansar. É o período de férias das crianças para desespero dos pais. É o mês da separação, porque aí os casais juram que não traem, que são sinceros, honestos e que estão morrendo de saudade dos filhos.
            Agosto é o mês que você pensa em sumir. Porque é só aniversário. Você já reparou na quantidade de leoninos e virginianos que você conhece? Ir à festa é ótimo, mas dar presente...
            Em Setembro, na semana da pátria, nem se fala. Tem gente que até se fantasia de verde e amarelo para ver o desfile militar sob um sol escaldante. Tudo tem limite!!!
            Outubro não! Outubro é a época do ano em que a verdade prevalece. Afinal, a “Nazica” tem poder...
            Em novembro há o ritual em que se homenageiam as pessoas que já se foram. Até aí muito justo. Mas há gente que nunca teve uma relação amigável com o finado e acaba exagerando nas mensagens póstumas.
            Já em dezembro, como disse antes, é o mês que as pessoas estão com a carga toda. É preciso ficar bem atento, porque há várias situações de manifestação.
            Imagine uma confraternização com seus colegas de trabalho (Sílvio Santos vem aí!). As pessoas – não são todas, reforço – que lhe deram rasteira durante o ano todo são as primeiras a lhe felicitar com uma carga emotiva – depois de umas cinco ou nove geladas – que chega assustar.
            - Olha! Eu desejo tudo de bom pra ti. Que você seja muito feliz, tenha muita paz e muita saúde...
            - Valeu! Obrigado!
            E elas chegam mesmo a chorar, se sentindo muito íntimas mesmo sem você nunca ter aberto a geladeira delas. E todo esse discurso vem acompanhado de beijos melados na mão, abraços desconcertantes e algumas gotas de suor de um dia de farra. Pior que isso só panetone com frutas cristalizadas.
            Festa de condomínio também merece destaque. Essas celebrações sempre são antecedidas por uma missa e culminam com uma farta ceia. Aqueles vizinhos que sequer lhe dão bom dia e passam o ano reparando no que você faz para fofocar com seus participam mais pela “boca livre” do que exatamente pela simbologia religiosa a que se propõe a festa.
            Mas como sou otimista, há reuniões que realmente valem a pena. Principalmente quando você está com seus amigos e amigas do peito.
            - Na nossa festinha vou com um pretinho básico.
            - Ê, menina, isso não vai dar problema?
            - Por quê daria? Eu paguei caro.
            - E você vai acender a que horas?
            - Acender!? Por quê eu queimaria meu vestido.
            - É disso que você está falando? Poxa!
            Janeiro é um mês sem vida. Ele consta no calendário só pra cumprir tabela. É o momento do ano em que as pessoas dizem ter renovado suas esperanças e expectativas.
            No primeiro dia de janeiro um casal conversa.
            - Amor, o que vamos almoçar hoje?
            - O que sobrou da ceia de ontem.
            Passa logo, janeiro.
                                                 (Fabio Castro)
           

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Meia-noite e meia

Trilha Sonora: Cotidiano – Chico Buarque de Hollanda.

Madrugada fria.
Há Chico Buarque ao fundo,
Há ainda cigarros na carteira,
Há uísque na garrafa,
Há um corpo sedento ao lado.
Perfeito!!
                    (Por Fabio Castro)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Croniketa IV

Trilha Sonora: Epitáfio – Titãs.
Relato de uma amiga em crise conjugal me pedindo conselhos:
- Sabe, Fabio, se esse desejo fosse por algo novo, no futuro, eu até entenderia. Mas o problema vem do passado. Eu já não me sinto mais em mim mesma, entende?
- Cara, isso daria um poema.
Ela me olha por alguns segundos...
- Porra, Fabio, meu amante não é literário. Ele é concreto, real. Me ajuda! Diz alguma coisa.
- Vamos tomar uma cerveja?
(Por Fabio Castro)

Homenagem II aos Instantâneos

Trilha Sonora: Não é Fácil - Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.


Trabalhar com os problemas
Mal resolvidos do passado,
Em qualquer esfera,
É pior que resolver os futuros.
É preciso queimar os fantasmas.
                             (Por Fabio Castro)

Homenagem aos Instantâneos

Trilha Sonora: O que me importa - Cury - por Marisa Monte.


Entre o não sentir
E aceitar o que sente,
Há alguém.
Guarde-a ou não
No seu porta-retratos.
                  (Por Fabio Castro)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Discipulus

            Trilha Sonora: Tente outra vez – Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta.

O conceito mais geral que se tem de aluno é este que o define como “aquele que teve ou tem alguém por mestre”, e está lá nos mais famosos dicionários de Língua Portuguesa. Mas, definitivamente, alguns não são nada disso e, o que é pior, não sabem dizer pra que vieram.
            Tenho observado ultimamente o comportamento deles, principalmente os da educação básica, e isso me deixou um tanto confuso. Cheguei a pensar se era mesmo isso que eu queria para mim. Quase entrei em depressão. Mas se eu não segurar essa onda, quem é que vai? Os técnicos? Faz-me rir...
            Não quero nem vou discutir aqui tendências pedagógicas, educacionais, ou coisas afins. Mas tenho certeza que Paulo Freire, se estivesse vivo, mudaria seus conceitos ou daria boas gargalhadas ao ler estes relatos. De ódio, claro.
            Alguns profissionais da educação têm como máxima afirmar que a escola é a extensão da casa dos alunos. O problema é que os pupilos levam tão a sério isso que tiram, por conta própria, as conclusões.
- Professor, a escola não e extensão da nossa casa?
- É. Mas... Tira o pé da cadeira, menino, e para de cuspir no chão.
- Posso ir no banheiro dá uma cagada?
- o quê?
- brigaduu!!!
- Bem, como ia dizendo...
Trililimmmm!!!!!!!!
- Ôba!! Ei, fessô, acabou a aula. Hahaha...
Via de regra, sempre utilizo os nomes dos alunos para exemplificar qualquer assunto no quadro magnético e escolho cada um deles aleatoriamente na lista de chamada na esperança de que com isso eles interajam mais. E acaba dando certo. Dessa vez, a escolhida foi a Estéfani.
- Não fessô, não é assim. É com “ph”, dois “enes” e “y”: Estephanny!
- Mas não é assim que consta na frequência.
Trililimmmm!!!!!!!!
- Ôba!! Ei, fessô, terminou! Hahaha...
Não era bem essa a interação que eu queria. E outra coisa, eu nunca entendi os nomes que são dados a essas criaturas: Jhonnatan, Weverson, Kennedy, etc.
Outro dia, participei de uma daquelas intermináveis reuniões pedagógicas onde se discute muito e pouco se age. A pauta do encontro era evasão escolar. Eu queria discutir sobre a invasão escolar. Não, porque a impressão que eu tenho é que estou decodificando mensagens com alienígenas.
Final do mês de junho, pensei em trabalhar sobre a Copa do Mundo como tema:
- Quantas vezes o Brasil foi campeão mundial? – Perguntei.
- Onze! – Respondeu um.
- Oito! – Respondeu outro.
Achei melhor mudar de assunto. Uma pessoa que não sabe que o Brasil é pentacampeão não pode ser desse planeta. Enveredei para literatura, sempre dá certo e os moleques acabam gostando.
- Vocês já leram alguma coisa de Florbela Espanca?
- Não, fessô, não gostamos de livro de violência.
- Ai...
Trililimmmm!!!!!!!!
- Uhuuuu!!!!!! Acabou, fessô! Hahaha...
Tenho observado também adoração que eles têm por pontos. É uma obsessão compulsiva impressionante!  Não é possível passar qualquer atividade extraclasse que não tenha o valor da moeda corrente deles.
- Professor, faz um trabalho.
- Não. Quem faz trabalho é macumbeiro.
- Então me dê três pontos.
- Onde você quer? Na testa?
Vamos lá, gente, terminando...
Trililimmmm!!!!!!!!
- Hehehe... fessô, fessô...
Quando chega dezembro, você acredita que nem tudo está perdido e que, entre tantos atropelos, você conseguiu chegar ao fim do ano com a sensação de que algo ficou, de que eles evoluíram e que todo seu esforço não foi em vão, não foi ignorado. No último dia de aula, passo pelo corredor da escola e encontro uma aluna:
- Ei, Estephanny, passa lá na minha sala pra pegar sua nota!
- Tá! O senhor é professor de que mesmo?
Trililimmmm!!!!!!!!
Dei uma rasteira na garota e saí dando cambalhotas...
- Uhuuuuu!!!! ACABOU! ACABOU! DEUS É MAIS! DEUS É MAIS!!!!!
Recompus a postura, peguei meu telefone e marquei algumas sessões de psicanálise.

                                                           (Por Fabio Castro)

domingo, 5 de dezembro de 2010

"Croniketa"III

Trilha Sonora: Eu não sou cachorro não – Waldick Soriano.

Papo cabeça entre um casal de hippies na Praça da República.
- Me dá um pouco disso aí!
- Não! Não! Tu já comeu.
- Só um pouco, meu.
- Não, porra, já disse.
- Pô, cara, tem que alimentar o “charque” aqui. Tu num quer ele bem gordinho?
Momento reflexivo...
- Puta-que-pariu! Toma aí, mas só um pouco.

(Por Fabio Castro)