De quem é a culpa?

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

HOMEM SEM FÉ (de Ageu Pazoud)

by Arthur Fellig "Weegee"



Por trás de tudo isso
Velado e com a emergência cínica
da palavra
ora está...ora e se vai...
tristonha...medonha...
mas também risonha.
Aqui, ali, acolá,
E não mais...
Aquele existir que nunca
Consegui dizer-te.
Que nunca consegui, em verdade
te contar como foi, como se deu.

A sentença: “a palavra não basta!”.
Que angústia em minh’alma!
Falta de fé na palavra.

Afinal, estou um homem sem fé.
Sou um homem sem fé
no fim da vida.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

COISA SEM NOME 1 (de Ageu Pazoud)



Não mais por um momento

Quero te ouvir dizer

e descobrir para o mundo

o colérico momento

da insatisfação.

- aquele teu momento de cólera!



Antes, quero te ouvir sussurrar

e depois gritar

Pelos momentos sacanas,

Voluptuosos e de exageros,

sabes muito bem que exagerados

por natureza.

Simplesmente pedindo

- teu momento exultante!

Pede!



Tu que me chamas

Na profunda e velada

Vontade para sair ao encontro de...

Juntar-se ao momento,

nossa intenção derradeira.

O instante sorvido de exultação,

mas só por mim...

e o momento da cólera,

que é só teu...

para ti mesmo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DIANTE DE KANT (de Ageu Pazoud)


Tomei de minha estante um encapado,
Empoeirado, a ermo.
Sem pretensões maiores.
Tomei-o à mão
E fui ao seu encontro.
Ao cumprimentá-lo, foi grosseiro.
Me disse que em si continha
Prolegômenos!
Senti-me estranho
- “Que contato mais sem causa”
Me senti mais estranho.
Ricocheteou algo dentro de mim:
- seu afetado!
Sou aprendiz, não sou mestre.
Pobre...desaprendiz de filosofia.
Por isso invento que sei,
pois nada sei de tais prolegômenos.
Deles não posso
mais saber.
Senti-me estranho, e agora velho.

Repousei-o sobre a mesa
um velado e cínico sorriso
no canto da boca...
Dei-Lhe adeus.
Sirva-se a vontade quem o quiser,
vou à banca de revista.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A SOBREVIDA DE NAPOLEÃO (de Ageu Pazoud)

In Waterloo

Ora, logo o pobre Napoleão

Dono de uma boca

inconsolável e mente arredia,

foi ter com a morte.

Gritava com ardor,

mas cheirava a desespero,

certo de que seu grito a espantaria.

Sorvia, a Morte, aquele grito.

Deliciava-se, a Morte, com tais sons.

E maior desespero, maior desespero,

despedaçava seus culhões.



Arrematava com uma argumentação de Estadista.

Sôfrego, piscava os olhos.

Detinha-se perigosamente a frente da foice.

Esquivava-se, como bom lutador

O bailar de suas pernas incomodava a Morte.

E sorvia-lhe mais um pouco da vida.

Sabedora que sua proposta final,

adentrar no abismo sem causa,

era o golpe derradeiro.



Já admitia, a Morte,

um fim para tão preparado homem.

Continuavam a digladiar-se.



Napoleão cruzava a espada no ar,

Timbalava um risco sem tons

Afastava um pouco da fumaça

O enxofre fumegava a certa distância

Ardia-lhe nas narinas

Dor, desespero, vertigem, traição,

e ainda 7 pragas capitais

combinando seu fim.



Pronto a argumentar a solução do abismo

(Lhe restavam forças ainda)

Bom lutador Napoleão...



Velho, velho, velho Napoleão.

Acordado de um sono insolente,

Despertado para ganhar o mundo,

mas sempre tão arrogante.

Apostas na arrogância tua mente.

E sofres com retidão

Mas acendes a dúvida no coração alheio.

Não te vais simplesmente,

queres antes teu reconhecimento.

Assim disse a morte.



Argumenta Napoleão:

- Tu prestas serviços ao mundo.

E julga, segundo teu argumento,

a tristeza, o ardor d’alma,

a alegria, como fins de meu tempo

ofegante, sondas a ultima maneira

de dizer que sobrevives...

sobrevives à palavra e na morte.

Oh MORTE!

sobrevives na Morte!



Enchente

Transbordante

Jogas a todos no mesmo lugar



Podes isso Napoleão!

És Senhor, e arrogante também!

Imperas sobre os mortais

Joga tua lança e amedronta-me!

Amedronta a alma alheia,

e serve-se como presente.

És um argumento forte

para eu partir.

Arrebata o som para ti

dos címbalos que ecoam

diante de um trono que já não pertence

à Zeus.

Usurpador de almas!



Toma-o! Toma-o!

Faz da vida a tomada da luz.

Mas não te cegas

Joga com as propostas e renasce!



Sem dizer nada

Sem questionar nada mais

Mas querendo muito arrebatar o mal de ti.

E o bem já te absolveu.

Julgo que o mal já te quer eterno...

Bem e Mal com vida dentro de tua morte.

Pede passagem Napoleão.



Seu suor tocou a areia fumegante

Suas pernas que bailavam

agora trêmulas, quedavam o Imperador.

O mal já lhe queria eterno.

Sobe.

Toma teu lugar.

Segue comigo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pensando no que aconteceu no fim de ano (de Ageu Pazoud)

by Willy Ronis

Começo o fim pelo meio
afagando minha alma
(tão cheia de lascívia)
Voltando a cumprimentar o início,
sem dizer muita coisa.
suspendo a mão direita,
estendendo-a,
dou meia volta.

Sabedor que não temos final feliz,
salto num instante.
Retorno ao meio,
e construo da vida
uma grande esteira,
furtando de tudo o momento final.

Recomeço o meio
sempre antes do instante
que já se confunde com o fim...
Mas é somente confusão.

O tempo em minha esteira
tem começo meio e fim.

Sabedor que não tivemos
um início tão feliz assim
salto em direção à um começo
enquadrado no centro,
e confundo fim com o início
e início com meio.

Em minha esteira mando eu!
Ninguém aqui a determina.
Minha esteira somente a mim
determina!

O terminal não chega nunca.
Fujo do presente como inicio,
que como passa, passado é
num breve instante.

Salto para o fim...
Um fim que já se confunde com o início
Mas é apenas confusão.

Corro por sobre a esteira
arredondando a vida
para buscar
extirpar as extremidades...
Suficiente para me confundir
a mente que maltrato.
Mas é apenas confusão.
Parto assim, sem fim
e nem começo.
Apenas começo do meio
fim do fim.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

NEM O FIM, NEM O COMEÇO (de Ageu Pazoud)

by Moacir Arte Bruta

Nem parece que um dia
desses qualquer,
quando se vê um bilhete
da sorte rolar em sua frente,
pois a sorte é assim mesmo...

Nesse dia qualquer, deve-se
encontrar, ou simplesmente
reencontrar desesperado
e de nunca mais admitir
uma separação.
O beijo de último instante presente,
à vista, que flutua, pois jogado
em sua direção, empurrado
por um sopro misturado
a sexo, drogas, ou de tudo ao mesmo tempo
ali, naquele instante:
passageiro,
corriqueiro,
aceso o cigarro, e apagando em seguida
assim: rapidamente passastes.
ainda que murchando
ainda que nunca o tenha
se aproximando, nem
o fim, nem o começo.
a flor ali continua
impressa em livro
murcha e mais viva
mais bela pelo que guarda
sem mais, apenas bela.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

EXPONTÂNEO (de Ageu Pazoud)

by Sara Saudkova

Não mais por um momento
Quero te ouvir dizer
e descobrir ao mundo
o tal colérico momento
de insatisfação.
- aquele teu momento de cólera!

Antes, quero te ouvir sussurrar
Pelos momentos sacanas,
Voluptuosos e de exageros,
sabes muito bem que exagerados
por natureza.
Simplesmente pedindo
- teu momento exultante!
Pede!

Tu que me chamas
Na profunda e velada
Vontade para sair ao encontro.
Juntar-se ao momento.
O instante sorvido de exultação,
mas só por mim...
e o momento de cólera,
que é só teu...

terça-feira, 29 de novembro de 2011

OUTRA... SEM NOME... (de Ageu Pazoud)


by Nobuyochi Araki

A flor que tu me destes não se perdeu
seguiu o caminho próprio
de uma flor: coube dentro de um vaso,
pra além do jardim, como disse o Sampaio.
rompeu a senda do arco-íris.
cruzou a umidade de nosso
chão, refletiu apenas no cristalino
tom de limo e água.
compreendendo a dor
de te ouvir falar de um retorno.
a flor lá continua...
murchando...
mas por que deveras murchar?
com os dentes renitentes
lhe tomo de assalto,
arranco-lhe o instante que teve
e por que viveria além
se não a suporto pelo que já me oferece:
nutrição de um amor
ainda que murchando
ainda que nunca o tenha
se aproximando, nem
o fim, nem o começo.
a flor ali continua
impressa em livro
murcha e mais viva
mais bela pelo que guarda
sem mais, apenas bela.