Molhou a linha em sua língua, depois a enfiou na agulha enquanto assoviava “almost blue” de Chet Baker. Começou a costurar um dos botões da blusa que horas atrás havia rasgado num rompante erótico desatinado. Ela sempre o observava nesses momentos de servidão, num interesse pueril, sorridente. Realmente, ele gostava desses pequenos serviços inesperados: Cozinhava, fazia suas unhas, lavava seus cabelos com a dedicação de quem cuida de alguém que não precisa mas adora ser cuidado. Ela, por sua vez, sempre mantinha as contas em dia, as roupas em dia, a comida em dia. Eles eram uma outra história. Deu pra entender? Ou querem que eu explique melhor?
- O álcool abastece o veículo autoindulgente que existe dentro de você. E o cigarro sem a fumaça não seria ninguém. Ninguém seria.
- Uh, uh, Baby. Talvez use isto em algum conto, talvez uma crônica sobre a intimidade de casais recém-quase-separados.
- Sabe? Às vezes tenho vontade de te bater na boca. Ou pior: vontade de te dar uma surra, sei lá, te encher de “porrada”. Quebrar essa tua cara de pau. Tu é muito do cínico, ô cara! (...) outras vezes penso em outras coisas: tomar conta de você, seu grandessíssimo filho da puta.
- Você é tão gostosinha que vou finjir (com “j”), que escutei cada palavra.
- Ai, por favor, vai ficando por aí! Como você é grosso!
- Uh, você acha? Se for assim tão grosso é melhor eu me dar uma esfregada para acelerar a próxima ereção. Fica quieta, senão eu não consigo terminar, aqui, o serviço. Esse botão tá difícil pra burro. Pronto, terminei. Rola um boquete?
- Como é possível que alguém com uma sensibilidade tão grande para escrever seja um completo panaca? Não vê que sinto sua falta, falta da tua voz mansinha no meu ouvido, do teu jeito de rir, do som da tua impaciência, tua ironia e sarcasmo usados na medida certa pra me provocar, sinto falta dos abraços do teu carinho, da tua felicidade em me ouvir, do teu desassossego, sinto tua falta! Pois, mesmo que jamais consiga olhar nos teus olhos e te dizer o que sinto minha ausência faz o trabalho por mim, de te lembrar de que você me ama e que não pode mais viver sem mim e eu sem vc.
- Hum, hum! É “mermo”, é? Então, tá legal. Agora, não aposte seu coringa em caras que falam bonito, vai acabar pegando o bonde errado. Nosso caso é uma espécie de exercício de concisão para mim.
- Que linguajar! Então você confessa? Admite que me trouxe aqui só pra me comer? Vai te catar! O que quer de mim, afinal?
- Ué. Comer o seu cu.
- Vai sonhando, imbecil. Desista. Eu te conheço: você chega, faz e acontece, depois se manda, na maior e ainda pede um trocado pro ônibus.
- Não é bem assim, Coração. Asseguro que minhas intenções são de casar com você o mais rápido possível. Assim, é claro, que você não me deixe escolha.
- Está sempre de sacanagem pro meu lado. Não me leva à sério nunca. Por que você esconde o que tem de melhor atrás desse cinismo? Está se deformando para não se lamentar pelo quê? Como posso não te dar escolhas, porra?
- É simples: não me dará escolha quando perceber que me recuso a ter escolhas. O amor não existe, é disfuncional. Não tem nada de praticidade. O que existe é uma boa companhia. E se o dia seguinte valer á pena, podemos preencher alguns vazios com algo do kama sutra, versão ilustrada.
- E eu sou uma boa companhia? Não me acha um pouco afetada, incoerente? Muito certinha?
- Depende: você tem alguma edição do kama sutra dando sopa?
- Palhaço, safado!
- “Péra”, lá! Precisa se decidir: ou palhaço ou safado. Não tenho como processar tantos insultos de uma só vez. Assim vou acabar achando que você está gostando mesmo de mim.
- Isso seria ruim? Constrangedor pra você? Imagino você e eu usando as mesmas drogas, curtindo os mesmos lugares, mesmo tipo de som... dois rústicos maltrapilhos. Que tal seria?
- Não, assim, não rima. Que tal: pobreza, álcool e vida cigana? (...) Tudo bem, mas você vai enrolar os baseados, Baby.
- Eu te amo, gordo.
- Fique à vontade.
- Bruto! Quer saber? Já encheu a paciência! Tô de saco cheio de ficar o tempo todo tentando provar algo para um babaca feito você. Em primeiro lugar, você é um idiota, sempre tira conclusões precipitadas sobre qualquer coisa; segundo, você não sabe e nem entende o contexto de amor para uma mulher; terceiro, tô com vontade de te dar uns belos chutes no saco, e quer saber? Você é a pessoa mais fria, calculista e mal amada da face da terra. Me deixa em paz! Não me procure e nem me ligue mais! Fique com esse seu tesãozinho maldito! Adeus!
- Tranquilo. (...) Mas escuta...
- Que, é?
- Posso levar meu disco do ABBA, que eu te emprestei? Tem “dancing queen”.
- UHHHHH!!! Você é desprezível!!!
Silêncio. Então ele olha para ela e se aproxima lentamente (...) com uma das mãos toca seu peito e sente seu coração aos pulos (...), ela diz, sôfrega:
- Sai daqui.
Com a outra mão afasta seus cabelos cor de avelã, aqueles que ela sempre utiliza para abrigar-lhe do frio, depois do amor; afasta da orelha esquerda, aproxima-se como se fosse contar mais uma de suas obscenidades tresloucadas (que ela ama, de morrer, ouvir com atenção desesperada), aproxima-se e diz com uma voz cor de vida inteira:
- Estaremos sozinhos aqui, meu amor, para sempre, escritos nesta folha de papel.
Deu pra entender, hum? Ou ainda querem que eu explique?
Era uma vez há muito tempo, nos anos (favor não confundir) conhecidos como os anos 70, aqueles três, um que descendia de paraibano, outro que descendia de portugueses e o outro que tinha em suas veias sangue índio e português e nariz adunco, andavam pelas ruas da Cidade Velha com uma nuvem de fumaça sobre suas cabeças, era fácil identificá-los: era só seguir aquele fumacê aliás, na casa do que era cabeludo ao sair pela Rua Carlos Gomes o trem já fumegava, alcançando a Tamandaré. Quando adentravam o Colégio do Carmo tudo era só sorriso. Nas aulas de matemática do professor calango balado, ao ritmo de logaritmos, quase se cagavam de tanto dar risada, a sala olhava penalizada daqueles três idiotas. Na saída do Colégio a volta na loja de roupas de segunda mão na Tv. Leão XIII, vindas dos EUA era irresistível, os últimos lançamentos: casacos de inverno, casacos do exército (USArmy), jeans rasgados, botas de camurça com solado de pneu e outras peças originais para serem estreadas no cine-clube durante o audiovisual de Jesus Cristo Superstar. Como outros de nossa geração queríamos tudo ao mesmo tempo. A ditadura para os três foi uma tremenda risada em suas viagens levemente alucinadas ao som do vinil usado da Joaquim Távora. Já quase adultos embarcaram em uma heróica aventura rumo a Santarém, abastecidos com uma quarta do melhor chocolate dos trópicos providenciados por Dom Amaral ao som de Gênesis, Led Zeppelin, Queen e Lou Reed, dançaram tanto que por pouco não dançaram. Juntos estavam ainda na universidade oitentista e lá descobriram que as melhores matérias a estudar eram Beira do Rio I e II aliada a literatura beat.. Casaram, descasaram, moraram que nem hippies em comunidades alegres e tristes nos trópicos. Sob o signo de baco continuaram fumando seus cachimbos e cigarros , tudo muito ingênuo e descompromissado, voltaram a casar e então deu-se a diáspora, os paraísos artificiais tiveram que ser abandonados pela concretude da vida real, percalços: dívidas, filhos, contas, filhos, trabalho, trabalho, muito trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. O século XXI trouxe os novos rebentos e um reencontro quase impossível pois a trip egóica era forte demais: todos haviam enlouquecido um pouco, cada um a seu modo, novas companhias, atividades, novos desafios, novas subversões. Suas lindas a tiracolo são testemunhas das três frases slogans usadas compulsivamente por uns e outro: “eu posso te arrasar..”, “no, no, no..”, “eu amo essa mulher”. Lá vão os três bacanas: um jornalista, um psicólogo e um professor , da aldeia campista à Pedreira passando pelo viaduto, na longa estrada da vida. Uma fotografia congelou no tempo estas figuras típicas do seu tempo.
Não leve tão à sério esses pequenos traumas. Também sinto a sua falta, e você sempre foi uma ótima amiga, sempre. Até pensei que era mais, por falta de não sabermos o que fazer com aquilo. Mil coisas assim. Uma puta saudade da sua risada lolita, desse seu corpinho imaginário, do seu bumbum durinho e mulato. Enfim, depois de um período bacante de masturbação existencial e contemplação estática, eu continuo aqui, com a "Legião" na vitrola, minha taça de vinho tinto "sangre de Dio" sobre o criado mudo, Ana C., Álvaro de Campos, Manuel de Barros me cobrando um xeque mate. Nelson Rodrigues em pó, para misturar com a batida de Tatuzinho com morangos, catuaba, cravinho e gengibre, bons para a libidinagem do hálito. O fato é que tardiamente assumo que eu te amava além dos boquetes via créditos promocionais. Você nem percebeu. Só chamo a Angela pra você que é sonsa e que morre na beira! Então, se já estiver boazinha comigo, vê se tira o celular do rabo e me liga logo de uma vez. Senão, tola é você, por não ser do jeito que eu não sou.
Boa noite. E enquanto isso, alguém que não voltou pra casa, perambula pelas ruas de Belém. Caminha devagar, dobra esquinas reconhecidas pela lembrança da luz do dia, se abraça, fugindo do frio e deixa, sem pensar, a boca sussurrar: - “Fica”.
Era tarde. Muito tarde, nós tínhamos perdido o contato nas Docas e só nos restava a Rua dos Tamoios o que sempre significava aumentar o risco. Mundinho deveria nos esperar no bar ao lado de sua casa. A fissura só aumentava, já nervosos iniciamos uma discussão, a grana era boa, Mundinho é que não era nada bom: sabíamos que a capação estava garantida. Espera, jogamos uma partida de bilhar, tomamos a primeira cerveja, eu já ansiava pelo wisk, olhando a lua linda pensava nesta quinta depois de meia noite, quantos já não estão nos embalos, nas baladas, em qualquer porra, e eu, e nós, Narizinho e Cêra perdidos nos becos jurunenses, nossa noite só começa depois de uns bons tiros, a moçada passa ainda para o tecno brega do tupi ou superpop ou sei lá que merda qualquer que jogue as mentes para longe e os corpos se enrosquem em uma dança sensual quase indecente. Merda! Quase uma hora e mais cerveja e nada de Mundinho: então finalmente vemos o cabeçudo baixinho dobrar da baixada. Muita calma nessa hora, elegância no pagamento, afastamento estratégico, entramos no carro de Cêra e o esporro começa; Porra, égua Mundinho quase que tu não vens, já não chega a gorjeta e ainda por cima esta merreca. Nenhuma novidade, após o teatro rumamos para o ap da 1º de Março. O elevador parece de filme de terror com um buraco no que seria o teto, via-se as paredes internas sujas e antigas passando, e paramos no 12º. Saímos, nem esquentamos. Às 3 horas da manhã dei meu primeiro tiro. Fiz a primeira dose e só então relaxei.