De quem é a culpa?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

MELLOTRON (de Marcos Salvatore)

by Francisco Brennand

faz que me nega, mas me dá...
e a carne corre sem pedágio
ou infusão ou Banho-maria,
nem vaga para estacionar

me dá luz e me leva
para o insalubre isolamento compulsório do amor
se eu correr em contra mão
no amor, na tua rua...

me para com um beijo na testa
pra que esperar? pra que festa?
me diz , me diz, me diz
me convence a pegar o beco...

em largo espectro, em gosto de "boceta"
enquanto a gente se ama num devagar divergente
na hora depressa dos bêbados ingênuos
de refinado vinho tônico

extraído de suor choroso, polifônico
prato cheio de imperícia da alma,
quase nada em ginga pura
apenas caldo da calma


Debaixo de Chuva

(Trilha sonora - barulho de chuva à tarde. Supertramp, The Logical Song).

"Chove. Verdadeira neurastenia da natureza".
Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande, 1933.


Em outro lugar,
em outro tempo,
em outras páginas,
a chuva era
neurastenia da natureza.

Aqui,
os neurastênicos
e os psicopatas
passeiam
nas assembleias
nas seções policiais
dos jornais
nas redações
dos jornais
nos gabinetes
municipais,
estaduais,
senatoriais,
nos clubes
e periferias.

Mas a chuva
teria algo a ver com isso?
(Renato Gimenes)

A arte de ser sincero

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Eu Não Quero Mais (Velhas Virgens), Balada Para Mulher Nenhuma (Velhas Virgens).


Não, querida: eu te odeio. É muito simples, basta pensar que dois mais dois são quatro, é bem claro. Porque sou idiota, talvez. Porque eu tenho razão em te odiar, talvez. Porque o ódio não precisa de motivos muito sérios e profundos para mostrar a face. Porque vivo de mau humor. É mais ou menos tudo isso junto.

Sim, querida: eu te odeio. Há muito tempo que te odeio. Ressentimento? Deixa eu ver: não. Sim, pode me presentear com um tapa, não me importo. Mas é engraçado pois, quando eu vivo calado, tu reclamas porque não digo o que penso ou o que sinto, e quando resolvo me abrir e assumir meu lado sincero, sou tido como monstro insensível e calhorda. O mundo definitivamente não é feito de sinceridades. Então odeio e também te odeio. Aqui está a outra face.

Por favor, não chora. Odeio quando choras. É tudo tão ridículo e entediante, as mesmas frases bestas e cheias de sentimentalismo tradicional. Que papelão. Tome esse lenço, pode assoar o nariz, não seja polida. Nessas horas a coisa mais odiosa é a polidez, querida. Não, pode ficar com ele, leva contigo, eu não vou precisar. Mas perceba que, afora o ódio, tudo continua como antes, é apenas um modo franco de vida que pretendo levar contigo, se quiseres assim. Não, não queres, eu já suspeitava. A verdade é sufocante nessa relação. Estou ouvindo, querida. As minhas coisas? Mas a casa é minha, esqueceste? És tu quem deve sair daqui, se é que realmente queres sair daqui. Eu não disse que precisavas ir embora, não ponha palavras na minha boca. Sim, preferes desse jeito, é melhor para nós dois. Isso és tu quem diz, por mim tanto faz. Não me olha assim, continuo sendo sincero. Afinal, que mal há em ser sincero? Ah, não é necessário ser tão sincero, compreendo. É que as pessoas são treinadas para serem estúpidas e cegas. Minha humilde opinião. Sim, eu também, querida, eu também sou estúpido e cego.

Tens certeza de que queres partir? Pode ser amanhã, então, não te apresses. Tudo bem, queres te ver o mais longe possível de mim, e o quanto antes melhor. Pois que assim seja. Não te preocupa comigo, tudo vai ficar bem. Sim, pode levar essa mala, eu a usaria para ir à praia nas férias, mas compro outra depois. Para de chorar, mas que deprimente isso, querida. Tu és tão bonita, tua maquiagem fica borrada. Eu sou o culpado, sei. Bom, nessas horas alguém tem de levar a culpa sempre, não é mesmo? Aquele quadro é teu, estes discos também. Pronto, deixa eu ajudar a fechar a mala. Está bem, já vi que não precisas de ajuda, muito bom. Vais pra onde? Não me interessa? Hum-hum. Quer uma carona até algum lugar? Está escurecendo, eu me preocupo contigo. Eu sei o que acabei de dizer, e repito: eu te odeio, sim, te odeio. Mas me preocupo contigo. É difícil de entender e aceitar? É como também acabei de dizer: as pessoas são treinadas para — está certo, calo minha boca.

Posso te telefonar? Não, não posso me esquecer de ti, querida. Pelo menos não de uma hora para outra. Sabes que as coisas não funcionam assim. Está certo, não telefono. Tens certeza da carona? Então até amanhã. Até nunca mais? Não sejas precipitada. Não queres lavar o rosto para tirar essa maquiagem borrada? Tudo bem, não está mais aqui quem falou. Até mais, querida. É pena que tu não consigas aceitar minha sinceridade, mas eu também não posso te obrigar a nada. Toma cuidado. Tens dinheiro na bolsa? Não, querida, o inferno é quente demais para mim, sabes que eu jamais iria para lá por espontânea vontade. Olha o degrau. Vou sentir tua falta, mas não somos escravos um do outro. Manda notícias. Se quiser conversar melhor daqui a um tempo, estarei sempre te esperando. Só me faz um favor: não bate a porta, ela está com um problema sério na fechadura e — é, bateu.

terça-feira, 5 de abril de 2011

LARVA (de Marcos Salvatore)


Soldadinho

E a noite leva,
A esperança daqueles que se deixam levar
Você acorda difuso, com cores de um tom de cinza na cabeça

E o dia leva,
Os cinzeiros cheios ainda com chamas acesas.
Sujos de batom barato.

E a tarde leva,
Tudo aquilo que chamamos pelo nome de encontro aos apelidos e gírias

Corrijo o poema nas cordas vocais
Percebendo os erros gramaticais da embriaguez presumida
A liquidez que me deu correnteza
O sexo também

Num balcão de bar, num furacão
Num desabafo de reafirmação
De alguém que não nasceu
Para lutar por lutar


Essa canção
Pode trazer e trará
para os meus braços apertarem
a dona dos primeiros parágrafos


a dona do meu coração

Só me resta prosseguir evitando pisar nos insentos
Cabeça feita, pé no chão
Meu all star pede descanso e eu me sinto inteiro
Por onde passo, em todos os lugares


e lembranças

“pelo menos ela, pelo menos ela veio”
Eu volto, eu agarro, eu dobro do avesso
Eu quero, e procuro o que procurar
Eu amo

em eterna troca de lugar.

MENINAS DO PORTO DO FOGO

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Som de folhas ao vento & muito Jazz.

Elas estavam lá!

Meninas, mulheres, senhoras.

Mas todas meninas.

Porque ali, naquele momento,

Todas eram meninas,

Crianças e,

Por algum motivo,

Encontraram-se lá.

Era a praia do Paraíso.

Mas não era o paraíso

Que conhecíamos.

Era o Paraíso que elas fizeram,

Que elas conceituaram.

E assim continuaram lá.

A olhar o fogo.

Sentadas ao redor de uma mesa de madeira,

Pareciam não se importar com o mundo.

Estavam lindas, radiantes,

HILariantes, MAternas...

O manso modo e delicado

De falar entrava em confronto

Com a labuta do dia-a-dia

Que, no momento,

Fizeram questão de não falar,

De deixar para trás,

De sequer lembrar.

Elas estavam prontas, então!

Decididas,

Fortes,

Impiedosamente determinadas

A brincar com o tempo.

Coisas de meninas...

E o tempo tornou-se presente

E ausente para elas:

Uma equilibrava-se entre as ondas e as pedras

Em função da maré e do tempo.

Outra boiava nas ondas e sobre as pedras

Curtindo a maré sem se preocupar com o tempo.

Umas embalavam-se em redes ao som da maré,

Mas desconsideravam o tempo.

Outras embriagavam-se de poesia,

Porque queriam aproveitar o tempo.

E todas estavam atentas, felizes,

Inquietas, porém livres...

Desfrutando o que parecia

Não fazer há tempos.

Mas assim fizeram.

Eram apenas dois dias,

E, àquela altura,

Ainda tinham tempo.

E, por isso,

Estavam prontas e fortes.

Sim! É isso. Prontas e fortes.

Mas sensíveis também.

Porque havia nelas

Uma sensibilidade

Não menos densa

Ao café,

Ao jambu,

À rede,

Às formigas,

À cerveja,

À caipirinha...

Eram elas que estavam lá!

Ainda assim lindas e meninas.

Regendo as quebradas soLENEs das ondas.

Rindo, encantadas

Com a poesia

De Saramago.

E, nisso tudo,

Estávamos nós.

Atônitos, uIVAntes,

Ao som de ondas CELIbatas.

E, como num “aluguel” de flores,

Contemplamos a essência da beleza

E da sabedoria

De MARGAridas.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

TECIDO (de Marcos Salvatore)


Os dias na praia pareceram baseados fundamentalmente no consumo de almas sãs dentro corpo insanos.
Sei lá o porquê.
Em todo caso, todas as náufragas deveriam ser belas, como ela.




PERDEU, PLAYBOY

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Você Só Pensa Em Grana (Zeca Baleiro), Battle Of Evermore (Led Zeppelin), Cabeça Dinossauro (Titãs), Child In Time (Deep Purple), miscelâneas de jazz e Alceu Valença.


Paraíso, Ilha de Mosqueiro.
Sábado onírico e de chuvas, de ventos, cervejas, risadas e pizza com jambú no Porto de Fogo do Seu Paulo.
Sábado com leituras, emoções, presentes, jazz, Blues do Elevador, miojo com ovo frito e cigarros e cigarros.
Domingo de falta de energia, calor, ressaca de álcool, de fumo e cabeça rodando.
— Alguém, por favor, me mate.
— Parece que o Marlon mastigou um feto e cuspiu no banheiro.
— Que que a gente vai fazer agora?
— Almoçar? Ir embora?
— Morrer.
— Vai tomar um banho, pra ver se melhora. No mínimo, você sai limpo daqui.
Domingo da volta da praia, banho no rio, de um poeta no recinto autografando um livro, almoço com café e palavras de vida de Dona Marga.
— Lembrei o que deixei em Mosqueiro.
— O que foi?
— Um pouco da minha dignidade.
Marcos se lembra do Patolino e da Mulher-dragão enquanto conta uma história envolvendo uma estrangeira e dois negões no bar da Toca.
— As pérolas que o Marcos solta são impressionantes.
— E quem era que o Fabio tava mandando se foder, enquanto dormia?
— Eu mandei alguém se foder?
— E depois deu uma risada estranha.
Algum rock tocando no rádio e o asfalto abrindo-se à frente.

quinta-feira, 31 de março de 2011

O TÍTULO SÓ DEUS SABE (de Haroldo Brandão)

A trilha é do caralho.


Eu sou o cara dos anos 70
Filho do parricídio
E da geração pré-aids
Eu era a ovelha negra
E aqui estou de bermuda e chinela
sem solo
Talvez precise descartar
O que nunca precisei!
Tudo é bobagem
Exceto a presunção
e a vontade de dizer
nunca
O mundo é um moinho
Tritura semdó

TARDIA PAZ (de Juliana Calonico)

Trilha Sonora: Down em mim, Cazuza.

Sentia uma ânsia horrível.
Uma vontade imensa de vomitar o mundo filho da puta que a habitava.Trancou a porta,engoliu todos os comprimidos do frasco.Exatamente os trinta.Deixou que a água deslizasse por sua garganta.
Fechou os olhos e ficou a imaginar o universo perfeito.
Estranho era o seu mundo.Não se encaixava, desde menina sofria com sua diferença clara perante as amigas.
Tentou ser igual,tentou ser uma adolescente comum mas sua fome de mundo a fazia, mesmo que não admitisse ,um ser diferente.
Enquanto as outras decidiam qual a melhor faculdade,ela simplesmente não pensava em nada.
Achava o futuro algo distante demais.
Seria meu Deus ela uma pessoa anormal?
Não podia só existir?Não bastava deixar o ar entrar e sair?
Diante de suas dúvidas,deixou a vida entrar pelo nariz e tentou seguir.
Casou-se cedo demais.Teve filhos cedo demais e descobriu que o que pensava a respeito da vida, era o certo.
Mas foi tarde demais...
Sentiu então uma aconchegante sensação.
Uma paz tardia,seria um belo final...

quarta-feira, 30 de março de 2011

TEMPORALIDADE (de Milton Meira)

(Trilha sonora - Caetano Veloso, "Oração ao Tempo")
Meu tempo é rumo
Sumo
Em uma sombra
De eras.
(Por Milton Meira)

terça-feira, 29 de março de 2011

AS FACHADAS E OS PASSOS

(Trilha sonora: Wilson Simonal, “Zazueira”)


Segue. Tu vais, agora,
andando em direção às praças largas,
às praças velhas, em teu passo pequeno,
moreno e apressado.

Segue atrás da matéria
que viabiliza teus sonhos,
passando em meio às fachadas
das casas que testemunham
teus passos.

Pouco a pouco, mistura teus passos
ao passado destas fachadas mudas,
maquiadas de tinta,
castigadas de chuva
e vento, enquanto
entre um compromisso
e outro,
uma preocupação
e outra,
um ônibus
e outro,
um cigarro
e outro,
uma saudade
e outra,
sente tuas músicas
dentro de ti,
tuas trilhas sonoras
de tua vida jovem.

Pouco a pouco,
estas fachadas mudas
falarão contigo
sussurrando
seus segredos
não com palavras,
mas com linhas,
com cores,
com ângulos,
com arestas,
com matemática,
desabrochando detalhes
que dar-se-ão
aos teus olhos.

Teus olhos
que nasceram
para compreender
a beleza,
e para levá-la
às tuas mãos
que comporão
no papel
as noites
e sombras
que tanto amas.

Teus olhos
e mãos
que te farão
confidente
das fachadas
que hoje
te veem passar.

(Renato Gimenes)

ANTEPASSADO

(Trilha sonora: Simon & Garfunkel, “Voices of Old People” “Old Friends/Bookends Theme”)

Para Josefina Margarida de Oliveira (1907? - 1995)

De ti,
me lembro
dos xingamentos
que me faziam rir
e das palavras
mais velhas
do que toda a idade
que tu tiveste.
Mais velhas
que o século que te gerou,
palavras provindas
de outros tempos
palavras provindas
de outras bocas
de outras épocas
de outra memória
portadora de um tempo
que parecia não ter tempo.

De ti
chegavam
por detrás dos óculos

memórias de Lampião
e do alívio
que se seguiu
à sua morte

e de como o café paulista

ajudou a matar

o teu pai.

Em mim, causaste
esta necessidade de História
que eu amo e que me amaldiçoa.

De ti, também me lembro
de como tuas palavras
traziam
em meio ao papel

velho e encardido

do livro de orações

- mais decorado do que lido -

a proximidade do diabo
a proximidade de Deus
a proximidade dos santos
a proximidade do Juízo Final
a proximidade do perdão
brotando do livro roto,
desfeito, gasto, sujo
e sussurrado diariamente
às seis da tarde.
Palavras
misturadas ao gosto
do café, do pão e da manteiga
que antecedia o teu cheiro
de sabonete antigo,
que eu sentia
antes de dormir,
não sem antes
ouvir as cantigas
também de outros tempos
legadas pela tua voz baixa
que, vez ou outra,
noticiava a vida
dos parentes andarilhos
e migrantes.

Me lembro bem
do dia em que o Nada
começou a se apossar de ti,
domingo, à mesa do almoço:
o Nada se instaurou em ti
naquele pequeno engano
quando você ia nos servindo
ketchup pensando ser refrigerante.
Você riu. Você recebeu o Nada
com um sorriso.

E eu vi os dias passarem
e eu vi o tempo curvar-te
e eu vi como o Nada
paulatinamente
tomou o lugar
das orações,
de Lampião,
de nossos nomes,
e do Dia do Juízo
tornando
a perplexidade
cada vez mais
companheira da memória.

A mim,legaste
o horror ao Nada e o temor
de que nem o Apocalipse sobraria...

Quando por fim
o Nada ganhou,
me foi apresentada
aquela sensação extrema
de ruptura irremediável
feita de madeira,
cimento e terra
e pranto
que a tudo transforma
em passado
e que tem o poder
de fazer o Nada
se espalhar
em pequenas gotas -
e algumas delas
me molharam.

Em mim,
instauraste esta luta
para que essas gotas
nunca virem oceano,
e a convicção
de que a relva
que te recobre,
assim como as lápides,
são monumentos
que por si só
não subsistem.

(Renato Gimenes)

segunda-feira, 28 de março de 2011

CRONIKETA VII (Histórias de Raquel e Solange)

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Folhetim – Chico Buarque.

Quarta-feira de cinzas, Raquel e Solange faziam um balancete do bloco de carnaval que participaram, na noite anterior, em Santa Teresa, no Rio.

- E aí, Quelzinha, o que houve? Teve uma hora que você sumiu...

- Menina... conheci um americano escândalo!

- Sério?!

- O quê? Desse tamanho. De perder de vista.

- E aí? Conta, conta!!

- E aí nada. Ele não falava uma palavra em português e você sabe que o meu inglês não existe. No máximo que rolou foi um beijinho no rosto.

- Que horror, Quequel!!

- E você, Sô, por onde andou?

- Eu continuei um pouco no bloco, mas logo me dispersei quando me agarrei com aquele russo espetáculo, lembra?

- Tá brincando? Aquele que era de fechar o comércio?

- Isso! Esse mesmo.

- Menina!... mas ele falava português? Porque russo eu sei que você não fala...

- Nem uma palavrinha.

- E como vocês se comunicavam?

- A mão dele falava português fluentemente.

- E eu presumo que a sua, russo.

- Desde pequena. Você não sabia que as mãos são poliglotas?

- Ai, Sô, não sei como você tem coragem!

- Hum... hum... tão menina, tão mulher e tão tola.

CRONIKETA VI (História do garçom Théo)

(Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: O último dia – Paulinho Moska & Billy Brandão.

Final de noite, zona sul de São Paulo, havia ainda cinco mesas ocupadas num restaurante sofisticado quando uma quadrilha anunciou o assalto.

- Bandido: Isso é um assalto. Passem todo o dinheiro do caixa e as joias.

- Garçom Douglas: Por favor, moço, vamos passar, mas não atire.

Enquanto o garçom Douglas recolhia o dinheiro, alguns gritos foram ensaiados, mas logo abafados pela demonstração das armas de fogo. O garçom Théo observava atentamente todo o bando e foi acometido por um sentimento que transitava entre o pânico e o desejo.

- Bandido: Rápido com isso, rapá. Não tenho o dia todo. Ei, vagabundo! Solta esse telefone. Quer levar um tiro, seu merda?

- Garçom Douglas: Por favor, moço, não nos machuque!

- Bandido: Vou logo avisando que se não tiver muito dinheiro aí, vamos comer o cu dos garçons.

- Garçom Douglas: Por favor, moço, não faça isso? Estamos trabalhando e já é final de expediente. Todo mundo aqui tem família. Faz isso não!

- Garçom Théo: Cala a boca, Douglas, você não entende nada de assalto.

sábado, 26 de março de 2011

Leave us kids alone

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: I Don´t Wanna Grow Up (Tom Waits), Another Brick In The Wall (Pink Floyd).


— atenção, crianças.
Vaias.
— crianças, o que é isso?
— hey, teacher, leave us kids alone.
— como é?
— velha escrota.
— você, pra sala do diretor.
Vaias.
— todos vocês.
— reforma educacional já, galera.
— crianças, onde aprenderam isso?
— a gente sabe das coisas, fessora.
— é, a gente é bão, fessora.
— é bom, e não bão.
— então tá bão.
— me ponham no chão!
Vivas.
— reforma já.
— me larga.
— larga o Joãozinho.
— ah,tinha que ser o Joãozinho.
— a gente detesta suas piadas, sabia?
— é, a gente detesta.
— a gente não acha que você nos representa fidedignamente.
— fi o quê?
— cala a boca.
— ai!
— crianças, por favor.
— você também, sua velha escrota.
— olha os modos!
Vivas.
— issoaê.
— vai, Joãozinho, conta uma piada.
— a fessora pediu pra que cada aluno formasse uma frase com uma palavra que ela indicaria, então
— ah, essa é escrota.
— afinal de contas, o que é isso, escroto?
— quieto, soldado.
— soldado?
— sentido!
— cumé?
— ah, droga, que pobreza.
— socorro!
— fessora, é por um bem maior.
— vocês enlouqueceram!
Vaias e vivas.
— não, não ponham fogo nos livros!
— issoaê.
Vivas.
— anarquia! anarquia!
— vamos montar barricadas.
— o que é isso, barricada?
— tu é burro mesmo, hein!
— tô com fome.
— não tem mais hora do recreio.
— issoaê.
— quero ir no banheiro.
— vai ter que esperar, o banheiro fica do outro lado do corredor, e a gente entrou em guerra.
— quero ir pra casa.
— galera, precisamos nos unir por algo maior que a fome ou a vontade de fazer pipi. entendido?
— há-há-há, ele falou pipi.
— Joãozinho, essa foi a tua última risada. você vai servir de exemplo.
— hein?
— cumé?
— exemplo! será que alguém aqui prestava atenção nas aulas?
— ele fala bonito, né?
— quieto, soldado!
— que tipo de exemplo?
— o do tipo de sacrifício.
— crianças, por favor!
— sabe o que é? minha mãe vai ficar preocupada se eu não aparecer na frente da escola hoje.
— uma pena, mas já está decidido.
— crianças, eu imploro!
— alguém amordaça a velha!
— hummgrrrfff-hhhuuuummmgrfgrf!
— issoaê.
Vivas.
— depois vai ser a senhora.
— juro que não conto mais piada.
— tarde demais, Jão. abram a janela!
— não, por favor, por favor!
— essa não, ele tá mijando na calça.
— juro que não falo mais nada!
— já era.
— mamãe não vai gostar nada disso. vai me deixar de castigo.
— lembre que é por uma boa causa.
— é.
— precisamos de um exemplo, e calhou de ser você.
— um piadista infame a menos na Terra.
— é.
— quieto, soldado!
— mas que soldado?
— ssshhhhhh!
— olha só, já tá todo fedendo de xixi.
— pode levantar.
— não!
— vamos lá, vamos lá!
— pela reforma!
— pela reforma!
— lá vem o diretor!
— joga ele logo!
— soldados, as barricadas na porta.
— mas que soldados?
Diretor na porta.
— o que está acontecendo por aqui?
— hummmm-hhhhrrruuhhmmmmhuhhhhhmmmmgrgrgrgf!
— professora, mas o que é isso?
— we don´t need no education.
— mas hein?
— e ainda se dizem educadores, pelamor!
— muito bem, vamos parar já com isso. vou chamar seus pais agora mesmo.
— pega! pega!
Rebuliço.
— me larguem!
— pela causa!
— issoaê!
Vivas.
Diretor deitado de bruços no chão, braços contra as costas.
— essa brincadeira já passou dos limites.
— não é brincadeira.
— é.
— é ou não é brincadeira?
— não é. soldado, cale-se!
— que história é essa de soldado?
— por favor, não!
— e o Joãzinho, por que não tá lá embaixo?
— ah, é.
— não!
— sim.
Joãozinho cai gritando.
Vivas.
Joãozinho estatelado no pátio.
Rebuliço.
— reforma já!
— hhhuuummmggggrrrrrhhhhh!
— agora a fessora.
— socorro!
— amordacem o diretor também.
— vamos conversar.
— velho escroto.
— mas que menino mal-educado.
— a gente sabe das coisas, diretor.
— é.
— o senhor pensa que sabe.
— vocês são apenas crianças!
— apenas crianças?
— ele não tem respeito pela gente.
— ele nunca vai entender a causa.
— mas que causa, diabos?
— olha a boca, soldado!
— ah, já tô cansado desse papo de soldado, viu?
— a gente precisa de ordem por aqui!
— sem essa. tô indo embora.
— soldado, isso é incontinência!
— eu tô com fome, isso sim.
— soldado, ordem!
— papai disse que ia me levar pro cinema saindo daqui, deve já estar me esperando lá fora.
— ordem, que diabos!
— olha a boca.
Vaias.
— menino, me escuta.
— silêncio, diretor. não tá vendo que a gente tá numa crise de movimento por aqui? um pouco mais de respeito.
— issoaê.
— é.
— fui. dá licença. pode me passar minha mochila?
— volte aqui, soldado.
— seus pais vão receber notificações disso tudo, estão me ouvindo?
— fechem a boca dele.
— ggggrgrgggggghhhhhhhhfffff!
— agora a fessora. pra janela, vamos.
Rebuliço.
— soldado, não se atreva a abrir a porta!
— prefiro ir pro cinema com meu papai. vai ter hambúrguer, refrigerante e sorvete.
Silêncio.
— quem sabe um chocolate também.
Silêncio.
— pensando bem, eu também tô com fome.
— é.
— é.
— o que há com vocês? ordem!
Rebuliço.
Professora no parapeito da janela.
Diretor suando muito.
— nada de comida.
Vaias.
— não agora, depois! depois!
Vaias.
— bora embora?
— bora.
Vivas.
— e a causa?
— que causa, papai do céu?
— será que mamãe me leva pro cinema agora também?
— vou perguntar pra minha.
— quem sabe eu peço uma pizza pro almoço, né? ia ser legal!
Vivas.
Rebuliço.
— desculpa aê, fessora.
— é, desculpa aê também, diretor.
— não podem fazer isso! e a reforma?
— ah, desencana.
— issoaê.
— Jão, foi mal! tá ouvindo? foi mal!
— preciso ir no banheiro antes.
— qual é o filme que tá passando, hein?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Folhas secas ao vento

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Móbile (Moska).


Naquele tempo solitário que se adianta, que se acelera em direção à retina gasta, tudo voltará a ser folhas secas ao vento. Mas até lá há de haver um lugar calmo à sombra para os que se vangloriam de pouco. Nem mais nem menos: exato: o equilíbrio do caos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

PAPEL INSTANTÂNEO (de Celi Abdoral)

Trilha Sonora: Arnaldo Antunes.

Ontem, no meu sonho
eras todo poesia
Nada de carne, ossos, tez.
Só papel, linhas, letras
e coração de palavra-metáfora,
com sangue de nanquim.

FAZ DE CONTA... (de Juliana Calonico)

Trilha Sonora: Contato Imediato, Arnaldo Antunes

Faz de conta
Que você sou eu
Faz de conta
Que eu sou você

Faz de conta
Que não me perdeu
Faz de conta
Que não perdi você

Faz de conta
Que nada aconteceu
Faz de conta
Que o amor não morreu

Faz de conta
Que o jardim ainda floresce
Que no teu coração
O sentimento ainda enternece

LARANJAS (de Ronaldo Fonseca)

Trilha Sonora: Minha Sereia

Laranja-cravo
-comum
ou baía
diferentes sumos
texturas
e sabores
mas iguais na alegria

Alegrias verdes
e amarelas
quando fruto
Ou uma alegria anterior
de cor branca
e cheiro de néctar
quando flor de laranjeira

Algumas laranjas
derramam seu caudo
por fartas mesas
Outras são apenas
objeto de desejo
de barrigas secas

No campo ou na cidade
é preciso democratizar as laranjas,
as laranjeiras

sexta-feira, 11 de março de 2011

LUPANAR (de Marcos Salvatore e Gleice Portugal)


Um amigão desce do carro visivelmente alterado, flutuando sobre colchas estampadas, sobre ninfas da galáxia , senta ao meu lado, dá um sorriso daqueles muito bem guardados; eu pergunto:
- E aí? Tudo em cima?
E ele responde, num híbrido de nada com coisa nenhuma, faz suas sobrancelhas gargalharem de forma maligna e diz:
- Bais ou benos?!
(...)
Guenta!
Levanto, atravesso o corredor e chego até um concorrido pátio pra tomar um ar. Encontro uma amiga que lá pelas tantas me fala sobre ruas, avenidas, alamedas...

Denunciar · 20:41
Adoro essa palavra, "alameda".
"Abajur" também é o máximo.

Denunciar · 20:41
rsrsr

Denunciar · 20:41
Curto pra cacete trabalhar com palavras estranhas.
Minha obra esta repleta de coisas intrigantes.
Gosto disso.

Denunciar · 20:42
Use então a palavra "pornofonia"

Denunciar · 20:42
A pornografia vai passar. O que vai ficar realmente é a idéia.
"Pornofonia"? Taí!
Valeu a dica.

Denunciar · 20:43
Tem outros termos da psiquiatria que são bem interessantes.

Denunciar · 20:43
Vou escrever a estória de uma secretária que espera o chefe sair para se masturbar. Que tal?
Uma psicóloga que resolve ganhar uma grana realizando as fantasias dos clientes.
Puta também cobra por hora., Ou não é?

Denunciar · 20:45
Tipo assim, uma fuleiragem para manter os meus níveis hormonais.
Uma patifaria saudável.

Denunciar · 20:47
Pô, pera lá. Também não é assim. Ou será que é?

Denunciar · 20:50
Bais ou benos?!

(...)