ou infusão ou Banho-maria,
me para com um beijo na testa
me convence a pegar o beco...
em largo espectro, em gosto de "boceta"
na hora depressa dos bêbados ingênuos
de refinado vinho tônico
extraído de suor choroso, polifônico
(Por Fabio Castro)
Meninas, mulheres, senhoras.
Mas todas meninas.
Porque ali, naquele momento,
Todas eram meninas,
Crianças e,
Por algum motivo,
Encontraram-se lá.
Era a praia do Paraíso.
Mas não era o paraíso
Que conhecíamos.
Era o Paraíso que elas fizeram,
Que elas conceituaram.
E assim continuaram lá.
A olhar o fogo.
Sentadas ao redor de uma mesa de madeira,
Pareciam não se importar com o mundo.
Estavam lindas, radiantes,
HILariantes, MAternas...
O manso modo e delicado
De falar entrava em confronto
Com a labuta do dia-a-dia
Que, no momento,
Fizeram questão de não falar,
De deixar para trás,
De sequer lembrar.
Elas estavam prontas, então!
Decididas,
Fortes,
Impiedosamente determinadas
A brincar com o tempo.
Coisas de meninas...
E o tempo tornou-se presente
E ausente para elas:
Uma equilibrava-se entre as ondas e as pedras
Em função da maré e do tempo.
Outra boiava nas ondas e sobre as pedras
Curtindo a maré sem se preocupar com o tempo.
Umas embalavam-se em redes ao som da maré,
Mas desconsideravam o tempo.
Outras embriagavam-se de poesia,
Porque queriam aproveitar o tempo.
E todas estavam atentas, felizes,
Inquietas, porém livres...
Desfrutando o que parecia
Não fazer há tempos.
Mas assim fizeram.
Eram apenas dois dias,
E, àquela altura,
Ainda tinham tempo.
E, por isso,
Estavam prontas e fortes.
Sim! É isso. Prontas e fortes.
Mas sensíveis também.
Porque havia nelas
Uma sensibilidade
Não menos densa
Ao café,
Ao jambu,
À rede,
Às formigas,
À cerveja,
À caipirinha...
Eram elas que estavam lá!
Ainda assim lindas e meninas.
Regendo as quebradas soLENEs das ondas.
Rindo, encantadas
Com a poesia
De Saramago.
E, nisso tudo,
Estávamos nós.
Atônitos, uIVAntes,
Ao som de ondas CELIbatas.
E, como num “aluguel” de flores,
Contemplamos a essência da beleza
E da sabedoria
De MARGAridas.
(Trilha sonora: Wilson Simonal, “Zazueira”)
Segue. Tu vais, agora,
andando em direção às praças largas,
às praças velhas, em teu passo pequeno,
moreno e apressado.
Segue atrás da matéria
que viabiliza teus sonhos,
passando em meio às fachadas
das casas que testemunham
teus passos.
Pouco a pouco, mistura teus passos
ao passado destas fachadas mudas,
maquiadas de tinta,
castigadas de chuva
e vento, enquanto
entre um compromisso
e outro,
uma preocupação
e outra,
um ônibus
e outro,
um cigarro
e outro,
uma saudade
e outra,
sente tuas músicas
dentro de ti,
tuas trilhas sonoras
de tua vida jovem.
Pouco a pouco,
estas fachadas mudas
falarão contigo
sussurrando
seus segredos
não com palavras,
mas com linhas,
com cores,
com ângulos,
com arestas,
com matemática,
desabrochando detalhes
que dar-se-ão
aos teus olhos.
Teus olhos
que nasceram
para compreender
a beleza,
e para levá-la
às tuas mãos
que comporão
no papel
as noites
e sombras
que tanto amas.
Teus olhos
e mãos
que te farão
confidente
das fachadas
que hoje
te veem passar.
(Renato Gimenes)
(Trilha sonora: Simon & Garfunkel, “Voices of Old People” “Old Friends/Bookends Theme”)
Para Josefina Margarida de Oliveira (1907? - 1995)
De ti,
me lembro
dos xingamentos
que me faziam rir
e das palavras
mais velhas
do que toda a idade
que tu tiveste.
Mais velhas
que o século que te gerou,
palavras provindas
de outros tempos
palavras provindas
de outras bocas
de outras épocas
de outra memória
portadora de um tempo
que parecia não ter tempo.
De ti
chegavam
por detrás dos óculos
Em mim, causaste
esta necessidade de História
que eu amo e que me amaldiçoa.
De ti, também me lembro
de como tuas palavras
traziam
em meio ao papel
velho e encardido
do livro de orações
- mais decorado do que lido -
a proximidade do diabo
a proximidade de Deus
a proximidade dos santos
a proximidade do Juízo Final
a proximidade do perdão
brotando do livro roto,
desfeito, gasto, sujo
e sussurrado diariamente
às seis da tarde.
Palavras
misturadas ao gosto
do café, do pão e da manteiga
que antecedia o teu cheiro
de sabonete antigo,
que eu sentia
antes de dormir,
não sem antes
ouvir as cantigas
também de outros tempos
legadas pela tua voz baixa
que, vez ou outra,
noticiava a vida
dos parentes andarilhos
e migrantes.
Me lembro bem
do dia em que o Nada
começou a se apossar de ti,
domingo, à mesa do almoço:
o Nada se instaurou em ti
naquele pequeno engano
quando você ia nos servindo
ketchup pensando ser refrigerante.
Você riu. Você recebeu o Nada
com um sorriso.
E eu vi os dias passarem
e eu vi o tempo curvar-te
e eu vi como o Nada
paulatinamente
tomou o lugar
das orações,
de Lampião,
de nossos nomes,
e do Dia do Juízo
tornando
a perplexidade
cada vez mais
companheira da memória.
A mim,legaste
o horror ao Nada e o temor
de que nem o Apocalipse sobraria...
Quando por fim
o Nada ganhou,
me foi apresentada
aquela sensação extrema
de ruptura irremediável
feita de madeira,
cimento e terra
e pranto
que a tudo transforma
em passado
e que tem o poder
de fazer o Nada
se espalhar
em pequenas gotas -
e algumas delas
me molharam.
Em mim,
instauraste esta luta
para que essas gotas
nunca virem oceano,
e a convicção
de que a relva
que te recobre,
assim como as lápides,
são monumentos
que por si só
não subsistem.
(Renato Gimenes)
(Por Fabio Castro)
- E aí, Quelzinha, o que houve? Teve uma hora que você sumiu...
- Menina... conheci um americano escândalo!
- Sério?!
- O quê? Desse tamanho. De perder de vista.
- E aí? Conta, conta!!
- E aí nada. Ele não falava uma palavra em português e você sabe que o meu inglês não existe. No máximo que rolou foi um beijinho no rosto.
- Que horror, Quequel!!
- E você, Sô, por onde andou?
- Eu continuei um pouco no bloco, mas logo me dispersei quando me agarrei com aquele russo espetáculo, lembra?
- Tá brincando? Aquele que era de fechar o comércio?
- Isso! Esse mesmo.
- Menina!... mas ele falava português? Porque russo eu sei que você não fala...
- Nem uma palavrinha.
- E como vocês se comunicavam?
- A mão dele falava português fluentemente.
- E eu presumo que a sua, russo.
- Desde pequena. Você não sabia que as mãos são poliglotas?
- Ai, Sô, não sei como você tem coragem!
- Hum... hum... tão menina, tão mulher e tão tola.
(Por Fabio Castro)
Trilha Sonora: O último dia – Paulinho Moska & Billy Brandão.
- Bandido: Isso é um assalto. Passem todo o dinheiro do caixa e as joias.
- Garçom Douglas: Por favor, moço, vamos passar, mas não atire.
Enquanto o garçom Douglas recolhia o dinheiro, alguns gritos foram ensaiados, mas logo abafados pela demonstração das armas de fogo. O garçom Théo observava atentamente todo o bando e foi acometido por um sentimento que transitava entre o pânico e o desejo.
- Bandido: Rápido com isso, rapá. Não tenho o dia todo. Ei, vagabundo! Solta esse telefone. Quer levar um tiro, seu merda?
- Garçom Douglas: Por favor, moço, não nos machuque!
- Bandido: Vou logo avisando que se não tiver muito dinheiro aí, vamos comer o cu dos garçons.
- Garçom Douglas: Por favor, moço, não faça isso? Estamos trabalhando e já é final de expediente. Todo mundo aqui tem família. Faz isso não!
- Garçom Théo: Cala a boca, Douglas, você não entende nada de assalto.