De quem é a culpa?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SEMÂNTICA (de Marcos Salvatore)

by George Pichard

uma coisa qualquer me consome
minha
qualquer uma semente
te soma e te some
somente uma coisa... semanalmente
qualquer coisa somente, só uma

Muita coisa de mim (de Ana Maria Rocha)

Trilha Sonora: Your Song, Elton John.

sonhando, como sempre vivo sonhando...
alguns dias, poucos dias, me angustiando...
de sonhar que morrerei sonhando.
minha angustia é por sempre continuar sonhando, sendo criança e amando


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minha necessidade é só amar,
amar por amar,
beijar por beijar,
querer,  pelo simples fato de querer sem muito descrever
mais amar,
compartilhar.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Alto-relevo

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: gotas batendo na janela.


vazia a casa
o dia mudo
histórias claras
de solidão

sombras ao fundo
amena chuva
olhos cerrados
melhor visão

na calmaria
paredes tortas
janelas brancas
em comunhão

somente a fronte
iluminada
em quadros secos
cor de carvão

textura grossa
profundos vincos
alto-relevo
de compreensão.

Croniketa IV

Trilha Sonora: Epitáfio – Titãs.
Relato de uma amiga em crise conjugal me pedindo conselhos:
- Sabe, Fabio, se esse desejo fosse por algo novo, no futuro, eu até entenderia. Mas o problema vem do passado. Eu já não me sinto mais em mim mesma, entende?
- Cara, isso daria um poema.
Ela me olha por alguns segundos...
- Porra, Fabio, meu amante não é literário. Ele é concreto, real. Me ajuda! Diz alguma coisa.
- Vamos tomar uma cerveja?
(Por Fabio Castro)

Homenagem II aos Instantâneos

Trilha Sonora: Não é Fácil - Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.


Trabalhar com os problemas
Mal resolvidos do passado,
Em qualquer esfera,
É pior que resolver os futuros.
É preciso queimar os fantasmas.
                             (Por Fabio Castro)

Homenagem aos Instantâneos

Trilha Sonora: O que me importa - Cury - por Marisa Monte.


Entre o não sentir
E aceitar o que sente,
Há alguém.
Guarde-a ou não
No seu porta-retratos.
                  (Por Fabio Castro)

O DOBRO (de Marcos Salvatore)

by Araki

Do bote de um gozo sem a carne do amor
Sinto o perigo de amar o que não possa ser amado

Desarmado, desarmado

Falando eu espero que saiba onde me pôr
Como um sol, sem noite, sem solo e sem cor

Desvairado, desvairado

Suado de um suor indolor
Eu ouço um dedilhado de som vindo de dentro
Numa amplificação correta do outro
Num lugar mudo de nós que quer falar dobrado

Desplugado, desplugado

Escorrendo dos poros, como mel
Felação das nuas luas, como dias no céu
Nosso encontro entra em netuno este mês
Dias vinte, vinte e um, vinte e dois e vinte e três

Desplumado, desplumado

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Deus não gosta de Palhaçada

[Colaboração de Diego Moraes, escritor de nova geração e de talento que inspira e transpira. Avante. E agradecemos por partilhar seu texto conosco.]

Trilha sonora: Bill Callahan - My Friend.


Cena 1

Viver é tirar sarro da cara de Deus. Matarazzo jogou água no rosto a fim de ver escorrer àquelas cores da maquiagem pelo ralo da pia: Vermelho, amarelo e branco, - como era lindo o redemoinho colorido que fazia descendo pelo cano:
- Quanto deu hoje?
- O suficiente pra nos mandarmos dessa porra de cidade. - Disse Aureatério, seu companheiro de vida. - Amanhã embarcamos bem cedo.
- Sabe o problema?
- Não.
- Tu és tragédia e assim fica foda... - Aureatério sabia disso mas resolveu não abrir a matraca.
- Sabe àquela piada do tomate centurião? - Matarazzo afrouxou a gravata borboleta. - Não conta... É horrível. Não sei como a platéia aguenta.


Cena 2

- Qual era teu sonho antes de conhecer-me? - Perguntou Matarazzo dentro do azul à deriva. - Sei que preferes estar pintado o dia todo. Há quantos homens dentro de ti? Às vezes imagino que é o Coringa derrotando o Batmam.
- A literatura foi um grande mar na minha vida e acabei me afogando...
- Publicaste algo antes de decepcionar-se?
- Paródias do Sol.
- O quê?
- A vida é isso... Paródias da loucura de Deus.

Cena 3
- Deve adorar fazer as pessoas rir! - Cutucou Aureatério.
- Rir é melhor que fazer chorar...

Cena 4

Era um tablado pequenininho e Aureatério mancava como Carlitos numa Manaus fumarenta. Ao seu lado Matarazzo pulava e gargalhava contando as mesmas alegrias.


Cena final

Foi chovendo mais pedras do que moedas na cara dos palhaços. O asfalto foi lambendo os respingos de sangue da solidão.

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Diego moraes é Amazonense. Cursou Letras e Jornalismo conseguindo a façanha de não concluir nenhum dos cursos. publicou "Saltos ornamentais no escuro' (2008, sem editora) Reside no site http://ursocongelado.wordpress.com/

Causo de expediente (III)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Opus Nº 3 (Rachmaninov), Faz Parte do Meu Show (Cazuza), Whiplash (Metallica)


Cálculo de incertezas. A professora comenta:

— Fizemos um estudo sobre influências de música na produção de ovos em uma granja comercial. Concluímos, através de estudos estatísticos, que as galinhas produziam bem menos ovos após ouvirem rock, comparando-se com música clássica ou bossa nova, por exemplo.

Olhei para os lados e vi as caras segurando risos em minha direção. Disparam do fundo da sala:

— Aí, Marlon, prestou atenção?

Sinal levantado de dedos em chifre. Polidamente me viro para os presentes.

— Nunca pensei em botar ovos.

A professora ali, com cara de nada.

INSTANTÂNEO (XIII)

(Trilha sonora: Stevie Wonder ou Art Garfunkel - "I Believe (when I fall in love it will be forever")

Contigo aprendi
que depois do depois
há outro depois
feito de pele morena,
brisa, horizonte,
sorrisos e peixes.

(Renato Gimenes)

DEPOIS DA CATÁSTROFE

(Trilha sonora: Rolling Stones, "Gimme Shelter"; Bob Dylan, "Shelter from the storm")

Depois que o jardim secou
que o chão se abriu
que a bússola enlouqueceu
que o cigarro acabou
e que Deus resolveu tirar férias;

Depois que o amor infartou
que o caleidoscópio quebrou
que a Arca de Noé adernou
e que acabou o que havia
entre o preto e o branco;

Depois que o amigo partiu
que a noite caiu
que a mão se abriu
que a corda rompeu
que o Zeppelin explodiu
e que a despensa ficou vazia;

Depois que o sino dobrou
que a cama esfriou
que o coração petrificou
que a água subiu
que a lama invadiu
e que a vela desinflou;

O que sobra,
senão

desressentimento - última profilaxia?
uma teimosia - forma torta de esperança?
um recomeço - de qualquer lugar, importaria?

(Renato Gimenes)

UMBILICAL (de Marcos Salvatore)

by Mihály Zichy

Encontrei essa letra (não musicada), no bolso de uma calça que não uso há uns dez anos. Onde eu estava há dez anos? E... com quem?

Não sei falar de amor
É nebuloso e secreto, me trava
Talvez a melhor forma dele seja essa
Não tentar vesti-lo com as minhas roupas

Meus panos não cabem nem dentro, nem fora
Dele eu só tenho aquela história
Livros, filmes e conversa fiada
Eu nem me ligo, apenas vivo

Só quero um canto pra mim... talvez com você
Enquanto houver lugar
Tanto faz, tanto faz

E foi tão bom sair da pista
E não ficar, nem resolver
Nem perceber o seu problema
Para minha segurança eu mesmo me aviso

Tem muitos sons dentro de mim
Não dá pra falar de nós dois
Antes, durante ou depois
Obrigado pela saudade

Antes só do que mais tarde
Quando chove eu me abrigo no que era
Eu te amava... matava a fome e ia embora
Sempre quis que você viesse comigo na hora

Mas sempre fui assim, blasonador, desconfiado
E a gente nunca sabe o que fazer com isso
Pesando tudo com a medida errada
E a barra pesa ainda mais, ainda mais

Umbilical a falta, umbilical nossa primeira página
O ensaio furou e o gozo saiu pela culatra
E a nossa transa à queima roupa
Nos matou a sangue frio... na marra