De quem é a culpa?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

SEMPRE ISSO (de Ageu Pazoud)

by Giovanni Boldini


O grito rompeu!

(ele que gritou!)

Rompendo mar a dentro- (fora!)

fora (dentro!)

programado que foi

para sair,sair pra dentro

(fora!)

dentro!

(ele gritou fora!)

- Quantos gritos ecoam pra dentro?

(queres mesmo contar o incontável?)

Já não nos basta o ecoar?

(ecoando ou escoando?)

Fato: o grito rompeu!

(mas foi ele quem disse!)

Gritou!!!

Não ouvistes?

- Mas enfim, ecoou ou escoou?

(aposto na sua liquidez)

Não ouvistes?

embaixo d'água,

sob o cobertor quente,

estampido em minha voz...

(indo-me agora!)

Vais então?

(mas juro que nada ouvi)

Sem licença te vais...

(sem a licença de poder ouvir

O que quero, falar o que quero!)

Sem mais, te vais...

(Gritas então comigo?)

Se nunca ouves,

O que queres do Grito?

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

METAREFRÃO MICROTONAL E POLISEMIÓTICO II (de Mariah Aleixo)


Texto dedicado ao dia 25 de novembro, dia de combate à violência contra a mulher.

         Quem não viu ainda deveria ver o Tom Zé falando do Funk carioca. Segundo ele o refrão “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha...” é um metarefrão microtonal e polisemiótico. Seja lá o que isso possa significar, o artista acrescenta que o refrão representa a libertação da mulher. Ao dizer repetidas vezes e aumentando o tom, o famoso “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, to ficando atoladinha...” mostra a mulher que gosta de sexo, que quer gozar. Na época, pude vê-lo falar isso em rede nacional, no Programa do Jô, no quadro “Pra quem você tira o chapéu” do Raul Gil e no extinto Madame Lee que era apresentado pela Rita Lee no canal fechado GNT.

         Em tempos de Luan Santana, Pe Lanza, Paula Fernandes, o “treme, treme” do tecnobrega da Byoncé do Pará e tantos outros sucessos instantâneos de qualidade musical duvidosa, quem se lembra do Tom Zé e sua ode ao “Atoladinha?”

         Pois então, para completar e ir além do que disse o artista - opinião que particularmente compartilho – é preciso de outro refrão, também do Funk carioca, mas não menos polêmico: “Um tapinha não dói, um tapinha não dói, um tapinha não dói...” Penso que esse refrão dá o mesmo recado que o atoladinha: a mulher quer e tem o direito de sentir prazer, de gozar. Ora, é claro que para o refrão ter esse significado, tem que ser dito por aquela que quer dizê-lo, ou gritá-lo. Do contrário, poderá ser sim violência, opressão e desprazer.

         A Lei Maria da Penha, que completou 5 anos agora em 2011, define como violência doméstica e familiar contra a mulher “...qualquer ação ou omissão, baseada no gênero, que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial.” Ou seja, o sofrimento de qualquer ordem, para ser sofrimento, deve ser entendido e sentido como tal. Somente a mulher sabe se que aquilo que está vivenciando, ou que vivenciou, é violência ou não. Assim como somente as mulheres podem querer buscar a resolução desse problema e acabar com a situação.

         Sei que isso pode, num primeiro momento, causar espanto. Mas o que coloco é que, a existência de uma rede de proteção contra a violência (que a Lei Maria da Penha ao menos em tese instaurou) não é suficiente se não se enxerga a mulher enquanto sujeito de direitos, e principalmente, como protagonista, com responsabilidade (e capacidade) para transformar a situação de violência em que vive. Deixemos as idéias de “mulher frágil” ou “mulher vítima” de lado, isso não contribui para o fim da violência.

         É preciso entender também que a violência contra a mulher não deve existir exatamente porque as mulheres têm dignidade, merecem e devem viver bem. A idéia de coibir a violência para “salvar a família” também está fadada ao fracasso no combate à violência contra a mulher, que o diga Elisa Samúdio, que teve seu pedido de medida protetiva negado por uma juíza que dizia que a Lei Maria da Penha servia para proteger a família.  Sendo atriz de filmes pornôs que teve um envolvimento sexual com um jogador de futebol, Samúdio certamente não era alguém a ser protegida, uma verdadeira ameaça à família. Não! Era uma mulher ameaçada, que morreu em decorrência da violência porque a juíza não entendeu que as mulheres são tão dignas quanto as famílias, inclusive as de “comercial de margarina” que a magistrada almejou proteger.

         Assim, é preciso deixar as idéias de sexo frágil e a hipocrisia de lado ao abordar a violência contra a mulher. Um tapinha não dói, ora bolas! Se quisermos o tapinha por prazer, não será violência, tampouco será um tapa de fato, mas sim libertação, assim como o “tô ficando atoladinha” que Tom Zé elogia.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"Nada mais antigo do que um passado recente"

A partir de frase de Nelson Rodrigues, citada por Marcos Salvatore.
Para todo o Bigode do Meu Tio.

Trilha sonora: "The times they are a-changin", Bob Dylan; "Riders on the storm", The Doors.

E esses pensamentos, amigo,
que, como fumaça,
foram soprados para um tempo
sem tempo?

E essas músicas, amigo,
que, como bárbaros,
explodiram as fronteiras
do nosso presente?

E esses nossos encontros, amigo,
que, como álbuns,
suspenderam o que conhecemos
como "ontem" e "hoje"?

Será que só conhecemos o presente, amigo?

Olhamos para trás,
mas o que sabemos nós
do ontem?




Renato Gimenes

ERA UM DIA NORMAL (de Haroldo Brandão)


Lord Byron
Quem precisa dormir? ERA UM DIA NORMAL e nada indicava nenhuma anormalidade: cães ladravam e a caravana continuava passando. Na janela Januária há muito  não está mais, vivemos tempos droganáuticos, anfetaminados, hipodérmicos. Uma pressa  não sei pra quê. O amor e a morte andam mais próximos que no tempo de Lord Byron A realidade é assim: te dá um gostinho do mel e do fel mas, como ia dizendo era um dia normal: a política no Brasil é uma perda de tempo, o Flamengo não é um time mas uma religião, bolsões de miséria ao lado de ícones do consumo e poder do capital, nada de novo. De novo apenas a maravilha que é jogar com as palavras, ao vento, ao léu, no papel. Poucas certezas, muita enganação, muito ópio em forma de religião alienante, o que fazer? Para o circo eu nunca fui bom palhaço, no máximo mais um  ator dependendo do cenário, na hora do pão primeiro o meu João mas, e o tempo? Realidade independente de crenças (quinze minutos já se passaram desde o início deste texto), ateus, agnósticos, céticos, ninguém duvida do tempo. A verdade é algo que eu controlo, o controle passa pela minha mente que é quase bipolar. Não me venha com discurso de normalidade. A vida é o que acontece enquanto fazemos outras coisas (já dizia Lennon) mais uma sexta, está aí, depois virão as cabeças ressacadas das segundas. Aproveite o máximo, aproveite o dia, o cérebro é um poder e aliado ao coração, ficamos imbatíveis. Pouca gente entendeu o real significado da frase do cineasta alemão Fassbinder: “poso dormir quando estiver morto”.