De quem é a culpa?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O CARTEIRO - Parte III (Final)

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Dirt; Grind; Them Bones; We Die Young (Alice In Chains).


         Aos poucos ambos foram se acostumando à extrema claridade em suas faces, bastava não mirarem diretamente sua fonte. Era uma boa maneira dos membros do grupo evitarem ser identificados por quem chegava ao armazém.
         como sabem, o dinheiro de vocês está sendo transferido nesse instante para suas contas, não se preocupem. mas preciso que permaneçam aqui dentro até que tenhamos feito a movimentação do pacote para um local seguro. alguma pergunta?
         O barulho da chuva sobre as paredes de metal de todo o armazém aumentou sutilmente, contudo a voz daquele que se comportava como líder do grupo soava clara como antes, sem alteração na entonação ou no timbre. C. passava uma das mãos sobre a barriga, tentando aliviar inutilmente o golpe recebido, e não mostrava disposição para perguntar qualquer coisa. Assim como M., queria somente sair dali sem nenhuma outra surpresa pelo resto da noite.
         não, senhor.
         muito bem, senhor M. vejo que continua sendo inteligente. e continuamos sendo gratos por seus bons serviços.
         esse foi meu último pacote.
         Mesmo sem poder distinguir qualquer um dos presentes além de C., sua audição denunciou alguns passos pesados na direção de onde estava. Porra, devia ter dito aquilo naquele momento?
         não compreendo.
         A voz do líder estava a menos de um metro de distância, e mantinha-se calma, mas em um volume um pouco mais baixo.
         estou me aposentando.
         ora, por favor, senhor M., isso eu compreendi. o que quero dizer é que não captei o sentido do senhor desejar isso agora, quando estamos indo tão bem. há algo lhe incomodando?
         Algo me incomodando?, pensou M. Esse filho da puta só pode ser um péssimo piadista.
         De repente, um barulho alto vindo de trás, como uma batida e alguns gritos curtos. Pareciam estar tendo alguma dificuldade para carregar o corpo. Ou então era outra coisa. O líder de voz mansa deu o comando para se apressarem. M. ainda continuava com a sensação de que algo estava muito errado por ali. Seu parceiro C. mantinha-se quieto, porém tremia quase imperceptivelmente, talvez de frio por conta da chuva, talvez de medo do que não podia ver atrás de si. Devia estar com a mesma sensação de perigo, pois resolveu abrir a boca naquele instante, o que foi uma péssima ideia.
         o que é que está havendo por aqui? que merda é essa?
         Tentou virar o rosto para a direção de onde viera o barulho, e uma dor aguda causada por um golpe pesado subiu do lombo de sua espinha até a nuca. Curvou os joelhos praguejando e levando uma das mãos às costas, enquanto se apoiava com a outra sobre a terra batida.
         esse novato não sabe mesmo se comportar.
         Ao menos agora M. sabia que C. não fizera muito daquele serviço com aquela gente, e também o tratamento bruto que recebia poderia explicar sua dificuldade de locomoção na perna. O que não ajudava em nada, e no momento duvidasse de que o parceiro teria nova chance de trabalho com eles depois daquela noite. Também sentira uma vontade enorme de se virar para ver o que ou quem fazia tanto barulho em meio à chuva. Ouvira dois ou três homens dando ordens, como se tentassem controlar alguma espécie de animal, entretanto continuavam com dificuldades. Ouvira grunhidos novamente, mas não conseguira discernir que tipo de criatura emitiria aqueles sons.
         ouça, eu só quero ir embora. por que tudo isso?
         sinto muito, mas acredito que essa maldita chuva pegou a todos nós de surpresa. já vai acabar.
         filhos da puta. bando de filhos da puta.
         Isto foi C. quem disse, arfando sobre o chão, para logo depois ter a boca estourada por um novo e duro golpe com o que parecia ser um cassetete. O sangue espirrou dos lábios, enquanto seu corpo caía pesadamente para trás.
         quer virar comida, palhaço?
         Comida? M. não compreendeu o que o capanga por trás da lanterna quis dizer com aquilo. Embora o líder do grupo quisesse demonstrar que tudo estava sob absoluto controle, não era de forma alguma o que ele percebia em toda a movimentação ao redor. C. continuou deitado, com as mãos procurando estancar o sangue do rosto, parecendo compreender que, quanto mais silêncio por ali, melhor.
         é melhor seu parceiro se comportar, senão as coisas podem ficar muito piores.
         eu nem o conheço. foram vocês que o contrataram. nunca vi o rosto de nenhum de vocês, portanto acho que podemos terminar nosso contrato por aqui, sem prejuízos para ninguém.
         falaremos disso mais tarde. ajude-o a se levantar, por favor. isto está ficando patético.
         M. estendeu a mão para C. postar-se de pé novamente, e foi quando todos ouviram o grito de nítido pavor de um dos membros do bando sob a chuva, seguido de um tiro. A distração dos outros que portavam as lanternas durou um segundo ou pouco mais, mas foi o suficiente para que M. buscasse rapidamente, com o canto dos olhos, a visão do que acabara de acontecer. Ainda segurava o braço do parceiro surrado e não pôde deixar de apertá-lo fortemente pelo susto.
         A alguns poucos metros no chão, ao lado de uma van, o que parecia ser um homem nu, completamente insano e com uma coleira metálica em volta do pescoço, abocanhava o rosto de um dos capangas, despedaçando facilmente seus olhos e nariz com dentes grandes e afiados como pregos. A vítima ainda tentou dar um último grito, mas se calou para sempre enquanto os braços e pernas produziam espasmos involuntários.
         Foi muito rápido o que vira, mas o sangue de M. pareceu parar dentro de suas veias.
         Aquela coisa não podia ser humana.
         O caos completo se instalou pelo terreno do galpão. Os membros do grupo saíram de suas posições, os que carregavam as lanternas deixaram-nas cair, claramente desnorteados com a cena que se desenrolava debaixo da chuva. M. correu para os fundos da construção, amparando C. da melhor maneira possível para que não caísse. Não poderiam sair pela frente, teriam de tentar escapar pela direção oposta. Ouviu um novo tiro e, em seguida, um zunido baixo acima de sua cabeça. Continuou correndo mais e mais para dentro da escuridão, porém virou os olhos uma vez mais para testemunhar o que ocorria atrás de si.
         De trás da van saía uma segunda criatura, enquanto uma terceira, já de pé sobre a lama que se formava por todo canto, atacava dois capangas ao mesmo tempo, levantando um pelo pescoço e arrancando a mandíbula inferior de outro com a mão livre.
         M. não conseguia pensar neles claramente como homens. Mas também não fazia a menor questão de saber o que eram realmente.
         Os tiros se intensificaram com o desespero de todos na tentativa de controlar a situação. Enquanto fugiam, os dois ouviram o líder esbravejar que ninguém devia fazer mal a seus filhos, entretanto ninguém estava disposto a virar brinquedo ou refeição da porra do filho de louco nenhum.
         filhos? mas que diabos de história é essa? o que é aquilo? por que esses idiotas ficam passeando com aquelas coisas pela cidade, como se fossem bichos de estimação?
         não quero saber. cale a boca e corra, C.
         As balas não pareciam surtir efeito sobre aqueles homens transformados em animais hediondos, pois continuavam a ouvir vários grunhidos ininteligíveis para um ser humano. Nunca antes os haviam trazido até o local de entrega, talvez estivessem no meio de algum tipo de mudança. O que aquelas pessoas fizeram com eles, ou o que eles fizeram para merecer aquela condição de bestas sedentas por sangue, famintas por carne, M. não tinha ideia, mas também não achava que teria alguma mesmo se conseguisse sair vivo dali. Ao menos estava explicado o que aquele sujeito dissera a respeito de seu parceiro virar comida, além do motivo de o terem contratado para assassinar algumas pessoas sem aparente conexão umas com as outras.
         Canibalismo com direito a entrega a domicílio.
         E ele ajudara a alimentá-los tantas vezes.
         Mesmo com todo o seu currículo de matador, não pôde deixar de sentir certo asco de si mesmo.
         Afinal chegaram à parede metálica nos fundos do armazém. Só então M. se lembrou das lanternas que os sujeitos do grupo haviam abandonado durante a confusão. Podiam ter trazido pelo menos uma para ajudá-los na fuga, porém a pressa foi maior. Começaram a tatear à frente de seus rostos, a escuridão era profunda ali. Foi C. quem falou primeiro.
         achei uma maçaneta.
         M. avançou alguns passos para o lado de onde veio a voz do parceiro. Viu uma fresta de luz fraca do luar se alargar cada vez mais pela passagem da porta que C. principiava a abrir, quando parou por puro instinto. O velho instinto.
         Enxergou uma mão esquelética e suja de sangue fresco por cima do ombro do outro, e no instante seguinte C. não estava mais à vista.
         Ouviu seus pedidos de socorro em meio a ruídos altos de mastigação e respiração excitada, além de grunhidos do que poderia ser alguma satisfação da criatura saciando sua fome. M. sabia que não podia fazer nada para ajudá-lo, por isso escapou rapidamente pela fresta. A porta se abriu um pouco mais e a lua então mostrou C. com os olhos piscando ainda conscientemente e a jugular estraçalhada, os lábios tremendo, ao mesmo tempo que um dos homens nus rasgava o terno e a camisa do corpo para puxar e repuxar músculos e veias de seu braço com os dentes agudíssimos. Não pareceu se importar com a presença do sujeito que corria cada vez mais para longe do armazém.
         A chuva não parava de cair, dando a impressão de que engrossava com os minutos. M. não olhava mais para trás e não se importava com a roupa encharcada que ficava pesada sobre seu corpo por conta da água, dificultando um pouco os movimentos. Só queria o quanto antes sair do cais, talvez sair da cidade, esconder-se por um tempo ou para sempre em algum lugar tranquilo onde não conhecesse absolutamente ninguém, onde pudesse tentar esquecer o que vira naquela noite.
         Mas tinha certeza de que aqueles homens viriam atrás do seu rastro. Não eram o tipo de pessoas que o esqueceriam facilmente. Nesse negócio, esquecer o rosto de alguém estava fora de cogitação, e essa era a razão de jamais mostrarem os seus próprios. Obviamente, isso aconteceria apenas se algum deles conseguisse escapar daquelas aberrações. Ainda escutava uns poucos tiros, entretanto vinham de longe, os ecos chegando de três ou quatro armazéns de distância.
         Certamente a polícia apareceria em breve, portanto precisava encontrar outro veículo o mais rápido possível. Provavelmente quem chegasse ali, sem ter a menor noção do que esperar encontrar, teria sérios problemas para voltar para casa. M. não estava preocupado com isso.
         Estava aposentado, e decididamente pensando em parar de fumar.

-FIM-

Oração (de Juliana Calonico)

Trilha Sonora: Canção do Amor (melodia sentimental) - Bidu Sayão, de Heitor Villa-lobos.

Ajoelhada,orava
Em súplicas infantis,pedia
Não me deixe só
Não sei viver sem você

Ele em pé
Ouvia
Sua boca clamando

Calmamente abriu o zíper
E a ela ofertou
Faminta
A boca abriu

Engoliu
Inteiro,intenso
Pulsava

Ela molhada
Sua mão conduziu
Uma fenda

Um ato
Um corpo febril
Disposta a tudo

Nem viu
A porta abriu-se
Puta que pariu ...gritaram

Sacerdote
E fiel

Pegos.

Julho/2011 (de Haroldo Brandão)

Trilha Sonora: Fleetwood Mac
Este parapeito é duro, minha coluna ereta... o céu tão azul, nuvens no meio do mundo. Onde e quando foi mesmo que eu comecei a viver? Podemos passar 2/3 da vida sem nada saber. Se Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor  então eu estou indolor. Naqueles dias, e não foram poucos, eu flutuava em ambientes, como um espectro eu passava e tudo/nada via.
Então veio a luz, um clarão forte como um tsunami mental, acordei e as coisas mudaram, tudo mudou, cada momento passou a ser intensamente vivido, o gosto das coisas mudou e senti um apego forte, como nunca , à vida. Crise dos 50?
Desde então pego nas mãos, com muito medo que caia delas, esta vontade/desejo/ânsia de viver (parece nome de filme). Porque é muito tênue este limite. Se você estiver na Brás de Aguiar próximo a Generalissimo, uma toca o espera, é a teia em que você se enrola e quanto mais mexe mais enrolado você fica.
Sigo assim sem secretos segredos, olhando paisagens que se tornam borrões pois meus olhos ficam marejados. Todos os dias, nos últimos tempos o excesso de novidades empurrados pela mídia, redes sociais, etc. encobrem a mesmice da ordem, caos, ilogicidade e loucura que é o cotidiano. É preciso já estar doido “naturalmente” para não perceber.
Meu apego mais forte tem sido o Amor apesar desta tendência correr riscos pela banalidade tão comum nestes tempos e o uso ideológico indiscriminado.
Assim tão certo quanto o nascer do sol a cada dia é a dúvida que me corrói, em vez de diminuir só piora. Vou teimosamente achando que sou um caso sem solução, uma espécie que desafina o coro dos contentes. Onde exatamente eu entrei na contra-mão? Quem está errado? Este parapeito mantém minha coluna ereta e tenho vontade de voar, para vocês que ficam, até mais, foi bom e ruim enquanto durou.

sábado, 2 de julho de 2011

Achado III (Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Memória da pele – João Bosco / Waly Salomão.

A mesa se acomoda

Conforme os corpos.

E eu, conforme os copos

Os corpos, os copos...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

“BATA-ME, PELO AMOR DE DEUS” (de Bosco Silva)

A CONFRARIA
“O pênis é a menor distância entre duas almas”
Marquês de Sade
Havíamos criado uma confraria, uma irmandade, a Confraria dos Poetas Libertinos. Que abrigava alguns dos mais pervertidos de nossa época. Dedicávamos incessantemente a essa grande arte, já quase esquecida, minada pelos problemas econômicos e religiosos, mas que a tanto custo se mantinha viva, embora houvesse perdido muito em qualidade ao longo de tanto tempo: a grande arte da foda.
Fazíamos jus a cada gota de esperma, a cada estocada bem metida, a cada gota de suor expelida, como havia nos ensinado o grande Marquês de Sade. Nossa irmandade se encontrava uma vez ao mês para botar não apenas a grande arte em prática, nos melhores e piores puteros que conhecíamos, como para contar as mais libertinas e devassas histórias, embaladas ao mais doce vinho. Um verdadeiro culto à Baco, a esse Deus tão jovial e ao mesmo tempo tão esquecido, perdido entre as coisas consideradas antigas.
A libertinagem naqueles tempos era levada a sério, como nos saudosos tempos bíblicos. Lá se encontravam Petrúquio, o “sagaz”; Martinho, o “libertino”; Márcio, o “espirituoso”, e assim, como tantos outros, modelos que fazem tanta falta aos dias de hoje.
Uma noite no bordel...
- Ao sabor deste maravilhoso vinho, neste templo sagrado à luxúria, após uma maravilhosa orgia, companheiros, contem-nos suas aventuras, suas histórias mais pecaminosas, que poucos mortais contariam com orgulho – disse-lhes Petrúquio, já bastante embriagado pelo doce sabor do vinho.
- E tu Petrúquio, não terias uma boa história a nos contar? – disse Edgar.
- Como todo bom e velho libertino, mas não antes de abastecermos nossas mesas novamente com este maravilhoso vinho.
Taverneira, não vedes que temos sede, não apenas de vida, mas também de vinho? Então, sirva-nos sua maldita – gritou Petrúquio.
Após alguns goles, e enxugando as gotas de vinho que lhe escorria pela barba com a manga da camisa, pôs-se a relatar sua história:
- Havia alguns anos que não encontrava um velho amigo, exímio apostador e um grande libertino. E por acaso, encontrei-o numa noite na rua.
Convidou- me, então, para tomar alguns goles de vinho. E como um bom jogador, após relembrarmos algumas aventuras, pôs-se logo a fazer mais uma das famosas apostas suas.
Disse-me: “Aposto que não és mais capaz, oh! Petrúquio, das nossas velhas aventuras. Tens ainda coragem de entrar num puteiro, ludibriar, e fazer com que a puta não lhe cobre?”
Confesso que a muito tinha perdido a prática em tal ato, mas não pude, de modo algum esmorecer. Disse-lhe, então: - Vamos, escolha o bordel e a puta.
O bordel escolhido foi de Madame Nise, antiga cafetina, mulher avarenta e extremamente rígida, como uma madre superiora. A escolha não podia ser pior.
Todavia, o que a princípio parecia ser péssimo, piorou, ainda mais, quando também ela foi a escolhida.
Nise, mulher elegante, de finos modos, mas que aparentava ser fria, como aquelas putas que fornicam com o olho no relógio.
Levei-a, então, para o quarto... Parecia que tinha esquecido a muito o prazer em sua memória.
Tratei-a ora como uma verdadeira dama, ora como a mais devassa das putas, pois, como sabêis, na arte do amor, deve-se tratar uma puta como uma dama, e uma dama como uma puta. Eis um segredo infalível!
Pois bem. Chupei com avidez seu clitóris..., masturbei-a incessantemente..., beijei-a até mesmo onde a luz do sol não a clareia..., mas nada parecia ser o bastante. Penetrava-lhe, então, com ardor em sua vagina..., mas ela continuava fria, como uma morta. Tentei de tudo que a uma boa ou má mulher excitaria, pois, lembrei-me que mesmo uma puta haveria de ter seus caprichos. E que agradando-a, talvez, me recompensaria com uma noite gratuita.
Em um dado momento, já desesperado por nenhuma resposta, dei-lhe pequenas tapas, como forma de desabafo, que estalavam em seu rosto gorduchinho. Ela, para minha surpresa e felicidade, sorrindo, imediatamente, começou a implorar-me:
- Bata-me... bata-me... pelo amor de Deus, bata-me...
- Ah! Safada - exclamei pensativo.
E enquanto mais me pedia, mais eu intercalava com a ausência de tapas, o que me dava um prazer enorme em provocá-la, e ver lhe suplicar-me. O que, por outro lado, certamente, mais lhe excitava, implorando por tapas cada vez mais fortes.
- Mais... mais... mais... – então, dizia.
As tapas, os sorrisos, seu corpo na fúria louca do desejo, iam num crescendo que parecia não terem fim...
E, enfim, realizando seus desejos, acabei por desmaiá-la, em um misto excitante de prazer e dor, por meio de tantas tapas.
E saindo de lá como entrei, com os bolsos sem nenhum níquel, não apenas ganhei a aposta, como a lembrança de uma de minhas melhores memórias.
Petrúquio, em seguida, em meio a tantos risos, levantando-se da mesa, pôs-se a declamar o Soneto de todas as Putas de Bocage, tendo na mão, levantada, uma grande taça de vinho:
Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
Dido foi puta, e puta d’um soldado;
Cleópatra por puta alcança a coroa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
- Ah! Bocage que seria dos poetas sem as putas – exclamou Petrúquio.
- E nada seriam das putas sem os libertinos! – completou Márcio.
- Um viva, pois, a estas verdadeiras discípulas de Vênus, a estes seres tão desprezados, outrora tão cultuados, e que, ao contrário das hipócritas virtuosas, fazem tanto bem à sociedade, pois quantos estupros não têm evitado!
Após o imenso murmúrio que se seguiu às palavras de Petrúquio, com os convivas ora aplaudindo, ora gritando: viva as putas, viva as putas... disse-lhe Márcio:
- Então Nise era uma masoquista?
- Quanto a isso não há a menor dúvida.
- Assim como não há a menor duvida que és um sádico – completou Márcio.
BOSCO SILVA: http://cerebrau.com.br/

Seu Pai, Sua Mãe.... (de Paulo Emanuel)

Música: Que bonitos olhos tem, esse seu lindo rostinho. (Franquito Lopes)

O carro vinha em alta velocidade quando de repente saiu de trás de uma árvore um guarda tocando uma barulhenta sirene e o mandou parar.
O guarda disse que ele havia passado do limite de velocidade que era de oitenta quilômetros por hora.
O motorista engoliu seco e disse que estava com pressa por que tinha que chegar à fazenda da sua irmã, por que a vaca "Sua mãe" iria dar cria.
O guarda irritado com a explicação, disse que se ele insistisse com aquela brincadeira iria ser preso.
O motorista replicou e disse que, se não chegasse logo, a vaca "Sua mãe" poderia dar cria e ter problemas no parto. O guarda irritou-se mais ainda e disse que iria prendê-lo por desacato à autoridade.
O guarda o levou para a delegacia e o apresentou ao delegado.
Dr. Delega, estou prendendo este sujeito porque ele me desacatou chamando minha mãe de vaca.
- E como é o nome da vaca? Perguntou o delegado.
- Sua mãe! Respondeu o guarda.
O delegado retrucou.
- O senhor tá chamando minha mãe de vaca?
- Não, senhor. Gaguejou o guarda.
Antes de falar mais alguma coisa o guarda e o motorista foram colocados na prisão. Ambos por desacato.
Neste momento outro motorista em alta velocidade foi parado por um outro guarda e este o interpelou do porquê da alta velocidade.
O sujeito disse que estava com pressa porque o touro "Seu pai" estava com carrapato no rabo.
Como??? perguntou o guarda.
O "Seu pai" está com carrapato no rabo. Disse o sujeito.
Como ousa dizer que meu pai está com carrapato no rabo????
Teje preso. Insolente.
E o levou pra delegacia.
Lá chegando o apresentou ao delegado.
Dotô Delega. Estou prendendo este sujeito por que além de estar acima do limite de velocidade, ainda ofendeu meu pai.
Ele disse que o touro Seu pai está com carrapato no rabo.
- O delegado furioso disse:
- De novo????
- Como ousa dizer que o meu pai está com carrapato no rabo?
-Não seu delega, balbuciou o guarda.
É o touro....
- Como???
Além de dizer que meu pai tá com carrapato no rabo, ainda o chama de touro???
Teje preso!
E trancou os dois juntos com os outros dois no mesmo xadrez.
O Superintendente neste dia foi fazer uma vistoria na delegacia e quando viu aquele monte de gente presa perguntou pro delegado o que estava acontecendo.
O Delegado disse:
É o seguinte seu super.
- Prendi estes elementos por que eles disseram que "Sua mãe" estava pra dar cria e o "Seu pai" estava com carrapato no rabo.
O quêêê????
Como ousa me dizer uma barbaridade dessas???
O senhor também está preso.
E trancou o delegado junto com os outros..
Aí chegou o governador que passava por aquelas bandas e quando viu aquele monte de gente perguntou pro superintendente o que estava acontecendo e ele disse:
Prendi estes elementos por que disseram que a vaca da sua mãe tinha dado cria e o rabo do corno do seu pai tava cheio de carrapato.
Nisso a confusão foi ficando grande e a cadeia foi ficando pequena.
Enquanto isso Sua mãe e Seu pai pastavam tranquilamente alheios a toda aquela confusão.

domingo, 26 de junho de 2011

ANIVERSÁRIO

(Trilha sonora: seleção de músicas de Chico Buarque)


O aniversário
veio
velho conhecido
cansado
amassado
abraçado
em meio
às felicitações trazidas
pelas letras amigas
na tela do computador.
Amor guardado
em memória elétrica.

Incomum dia comum
com gosto de café
e bolo
e riso
das filhas
e de roupa lavada
e do nosso amor
sonolento
e terno,
folha milimetrada
tatuada
de riscos
de trabalhos
cálculos leves
como fumaça
de incenso
de lavanda
isento
de peso
e pesado
de cheiro.

O aniversário me alerta
para os pelos brancos
que salpicam meu rosto
e sinalizam
eu-objeto
de garantia vencida
de prazo
- destino
o qual
cancerianamente
me aprazo.

(por Renato Gimenes)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Bom dia, Outro Dia (de Marcos Salvatore)


Estou pronto para mais um dia
Antes tarde, noite má, drogada
Sua falta entrecortando o prazer
Depois igualdade desigual

Demasiado humano
Quando me saca melhor do que eu
Sinto a falta de não me entender
Me sentir, me ferir, me perder

Criado Mudo nº 07 (de Marcos Salvatore)

by Earl Hammie



... ou vincular



vendem-se boas intenções!
atividades passivas em bom estado
desapropriadas pela violência na televisão
compre absorvente, cerveja, sabão!

meu nome não é forte.
houve um tempo em que achei que vingava – mas não vinga.
pompoarismos depois,
guardo os aforismos genitais.

só não me chame de “bem”,
nem de “amor”
não tente se fazer de coitada
novamente, não

amanhã tem sábado
vamos lavar a boca, meu bem
um dia qualquer pra se viver
em rimas contraceptivas

ninguém para impressionar com palavras suicidas
afinadoras viciadas do piano pessoal
procuram um caminho claro de sol
projetos engavetados

férias,
feriados,
dias patrocinados
por michê barato

sinto a luta do meu corpo
tentando eliminar as impurezas
da noite anterior
posterior a esperança de satisfação motora

histórias de admiração mercenária:
contêm cenas de nudez capciosa
e o sexo frágil da “carreira”
onde o tesão descansa em paz

nem ódio nem amor; conexões
bandas largas de entendimento
compreensão, atenção,
incenso para insensíveis

estranho fungo esse negócio
e é sempre extrema qualquer busca
e acredito que todas as buscas são extremas
difícil tocar sem poder ver, então a gente cheira

algo termina sem ter começado
e já não me assusta
aprendeu-me, a minha fumaça
no banco de trás de uma van

lá pelas três da manhã

sem grandes pretensões
sem carnaval
sem árvores de natal
só o balancê, um rolê de autossugestão

um espelho que muito ou nada reflete
reflexo na água... lagoa envidraçada
produzida e arranjada tatuagem
de canais fora do ar

mais uma banda acaba
sem ter se apresentado
por jamais ter aprendido
a se ouvir, eu duvido

faço questão de um propósito
nem aqui, nem lá
gente, não ser humano
não transo extra por glória

como perder a memória?
como não lembrar do presente,
do passado, do futuro,
das alucinações?

quando tudo é levado ao cansaço
e damos cabo do amor que não tivemos
tudo o que é coerente se dilui
fica a razão num sono profundo de cura

o sono e um “beijo” de boa noite,
de perdão coloquial, de língua presa
é um mergulho em praias verdadeiras
um coração: virgens de alma - é o que lemos e somos

bom, pelo menos tentamos
depois emprestamos, cobramos
perdemos os vincos
a hora de dormir

um desejo triste, masturbador senil
fome: todos os desejos são tristes
uma soma de privações e renúncias
amor e ódio, fadas masoquistas.

queima de cartas de amor, compaixão, inquietude

e a ânsia da água antes da sede,
é a busca da sorte amarga e dura
da insensatez com que o espírito procura
ser punhal, ser lâmina, ser corte.

melhor não saber nunca da insônia, essa mulher
dos segredos de uma noite que não sonha
dar fim a tudo não é?
o que sufoca mais em você?

não há veneno para o mal
nem remédio para o bem.
quem sabe ir mais fundo que a moral?
chegar tarde aonde nunca foi ninguém.

o que mais dói em você?
e se dói você saberia o porquê?
até as angústias têm a sua
têm o lar e as razões de ser o que são

mas só as vi passar, cruzar por mim.
acenei para elas... e elas para mim

espelhos. reflexos, uma sombra sensível nos persegue
fácil julgar uma sombra, uma sombra
difícil julgar a si mesmo uma sombra
pois é de nós que passamos que ela se ergue.

e aqui está, acredite
por favor, nesses clichês emocionais
é o que tenho pra dar,
é o que eu sou aqui e lá fora

um apaixonado, um viril
no prazer e na dor inumana
tentando te provar, te assimilar
ao cair de boca no poder da sua flor

fruto real
da primeira gaveta
deste criado mudo

leal criado mundo

depois desta canção (de marcos salvatore)

by Hina Aoyama


Voltei correndo
arrebatando, tropeçando
pra correr com a reação
da tua chegada
imagina, dá um jeito
arco-íris, chuva e sol blefando
o dia, a madrugada a me fazer
feliz como eu queria te fazer
Valeu pela saudade, eu tô aí
capaz mesmo, além do jogo
copas marcadas do baralho
Pra trafegar pernas e braços
num abraço que nos faz sorrir
senha que é de graça
Até chegar onde eu preciso te salvar
Boca a boca pra transar um som
Alegria qualquer bem merecida
Antes-durante os compassos
Dos corações aos gritos
E das palavras de cada vez



quarta-feira, 15 de junho de 2011

O CARTEIRO - Parte II

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Anger Rising (Jerry Cantrell).


         Com dificuldade levaram o corpo empacotado escada de emergência abaixo. M. ficara com a parte de cima, cabeça e tronco, já que era a mais pesada, facilitando o trabalho para C., que precisava se esforçar um pouco além da conta devido à perna que mancava. M. não perguntara nada a respeito daquilo, pois sabia que a chance de receber a resposta verdadeira da boca do parceiro era nenhuma.
         Verdade nunca era algo bem vindo naquele tipo de negócio.
         Chegaram ao andar térreo, caminharam com o pacote por mais alguns metros até virarem à direita em um corredor curto e acessaram outra escada que dava acesso ao subsolo. Ambos estavam ofegantes com o exercício forçado, porém tinham de seguir rapidamente com o plano. Havia prazo para a entrega. M. decididamente já não queria saber de prazos e defuntos, não ser mais uma espécie mórbida de carteiro, sem ao menos tomar conhecimento do que faziam com tantos corpos, e por isso iria se aposentar após aquela noite. O carteiro das entregas bizarras. Estava cansado demais.
         C. abriu o porta-malas, com o fundo forrado por uma grande lona plástica, de um carro acinzentado com todos os vidros escurecidos. Voltou e, juntos, mais uma vez levantaram a carga pesada no tapete para acomodá-la no automóvel. Entraram no veículo e o sujeito baixo deu a partida. O motor movia as engrenagens a um nível muito leve de ruído, quase inaudível. Dirigiu pela rampa de saída do condomínio, passando ao lado da portaria. M. não avistou o porteiro em canto nenhum, e ficou imaginando se havia uma poça de sangue também se esparramando pelo chão atrás de alguma porta por ali. C. acionou o portão da garagem com um controle remoto pendurado no quebra-sol acima do volante. Ganharam a rua com os faróis desligados, entretanto com o limpador do para-brisa funcionando. Ainda chovia levemente.
         Nenhum dos dois puxou assunto por um bom tempo. Embora fosse um trabalho ao qual estivessem acostumados, era sempre estranho levar um defunto para passear. C. não demonstrava qualquer tipo de sentimento por aquilo, de fato aparentava um total alheamento com toda a situação. M. puxou outro cigarro amassado do bolso da camisa e acendeu-o sem pedir permissão. O parceiro o olhou ligeiramente com o canto dos olhos, porém continuou silencioso na condução.
         Alguns minutos depois rodando pela noite quase deserta da cidade, um carro acinzentado com vidros escurecidos chegou ao cais do porto, onde estacionou perto do terceiro armazém de carga e descarga de navios, ao lado da calçada da avenida externa que margeava o amplo terreno de responsabilidade da alfândega marítima. C. mantivera os faróis desligados por todo o percurso, e só agora fazia três sinais curtos e um longo com eles, outro código de identificação previamente combinado.
         agora esperamos.
         M. não havia perguntado nada. A necessidade de expressar algo absolutamente óbvio só podia significar que, afinal, C. sentia-se incomodado ou impaciente, embora não quisesse explicitar isso para um desconhecido como ele. Um pequeno deslize, pensou M. enquanto perscrutava a escuridão através das gotas que constantemente caíam sobre o para-brisa.
         Alguns segundos mais e viram um pequeno portão ser aberto algumas dezenas de metros à frente. Era a deixa para que entrassem com o veículo no cais. Avançaram lentamente, passaram pela entrada, onde M. notou não haver ninguém visível, e estacionaram logo adiante, sob o teto de metal do que parecia ser uma varanda bastante comprida, construída ao longo do armazém. O barulho da chuva era bem mais alto ali embaixo, mesmo assim puderam nitidamente ouvir uma voz sobressair-se do fundo escuro da construção.
         podem sair. não liguem os faróis. deixem a chave no contato.
         Ambos desceram do automóvel, fechando as portas e procurando distinguir algum vulto no meio do breu. Essa merda não vale a pena, na verdade nunca valeu, pensou M., mas permaneceu parado sem abrir a boca, apenas forçando a visão. Sabia que não podia olhar para trás, pois qualquer movimento seria interpretado como altamente suspeito para aquelas pessoas. Não era a primeira vez que entrava ali, mas nunca conseguira ver o rosto de nenhum deles, e sequer tinha ideia de quantos eram ao todo. O que tinha certeza era que, sempre um ou dois minutos após a entrega, sua conta corrente no banco ganhava vários zeros a mais no saldo total. Uns imbecis detalhistas, contudo pontuais no pagamento.
         entrem aqui.
         Novamente os dois obedeceram sem falar nada. Enquanto davam passadas vagarosamente em direção à voz, ouviram alguém abrir e bater a porta do carro, e logo em seguida abrirem o porta-malas. M. não pôde entender o que ouvira depois disso, mas pareciam grunhidos rápidos de pura excitação animal. Este detalhe era novo, mas não exatamente interessante. Preferiu fingir por um momento que tudo no mundo a seu redor acontecia de modo perfeitamente normal.
         aí está bom.
         Pararam a caminhada, e foi quando receberam diretamente nos olhos dois fachos de luzes muito potentes e fluorescentes de lanternas. M. fechou instintivamente as pálpebras, porém manteve-se absolutamente quieto. C. agiu com maior surpresa, levantando uma das mãos contra o rosto e virando-o para o lado. Foi um deslize muito pior do que o anterior, pois ganhou um murro bem acima da boca do estômago, fazendo com que expelisse todo o ar dos pulmões e dobrasse sobre si mesmo para a frente, caindo de joelhos no chão de terra.
         esse aqui, pelo visto, ainda não se acostumou à nossa recepção.
         Outra voz, desta vez ao lado do companheiro caído. M. ainda tinha os olhos cerrados, mas ouviu, pela movimentação, que alguém ajudava o outro a se levantar.
         pedimos desculpas, mas temos que nos precaver. vocês entendem.
         Era exigência deles que sempre os profissionais agissem em dupla e fizessem a entrega juntos, mesmo um sem jamais ter visto o outro antes na vida. M. já se acostumara à recepção, bem como com os erros dos diferentes parceiros. Mas algo lhe dizia para tomar cuidado naquele momento. Existia uma sensação estranha no ar, uma sensação que não fazia parte do hábito.

(CONTINUA...)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Treze Horas, ou Poema Sem Motivo

(por Marlon Vilhena)

Trilha Sonora: Blues do Elevador (Zeca Baleiro).


são treze horas de qualquer dia
são treze horas de qualquer hora de sexo de embriaguez
                                de estupidez

são treze chagas de romance
são treze folhas de rascunhos líricos puros
                               de esconjuros

são treze falhas de humanidade
são treze milhares de longas perpétuas saídas
                               proibidas

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Achado II (Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Como dois e dois – Caetano Veloso.

Não quero exatamente

Que minha vida sentimental

Seja refém de mim mesmo.

Toque...

Desejo...

Sexo...

Amor...

Saudade...

Tornem-me refém

Ao concretizar meus sentimentos.


Achado I (Por Fabio Castro)

Trilha Sonora: Futuros Amantes – Chico Buarque.

Hipoteticamente falo de sonhos.

Hipoteticamente falo de amor

Nos meus sonhos.

Hipoteticamente vivo este sonho,

Não necessariamente o amor,

Mesmo hipoteticamente amando.

Hipoteticamente sinto saudade,

Momentaneamente sinto desejo,

Periodicamente vejo-me sofrendo,

E, hipoteticamente, sinto este amor morrendo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rude (Marcos Salvatore)

trilha sonora: mais feliz, bebel gilberto
meatrapa
lhei
coma
spalavrasque
você
medeuna
boca
asmigalhastuaco
midano
breabrigo
rudimentar
danov
elas
emlimite
quemecau
soume
se
meou-meca
ptouoa
final