De quem é a culpa?

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sábado, 20 de agosto de 2011

20 Motivos Para Não Ser Cristão (Por Bosco Silva)



RESUMO: Este artigo parte da ideia de que tudo pode, e deve, ser questionado, pertencendo mesmo à própria essência da razão e da liberdade humana, o ato de questionar, contrariando, portanto, a ideia de que fatos religiosos, por serem tidos como “sagrados”, não devam ser questionados.

Abaixo, alguns motivos que me levaram a não ser cristão, tomados de alguns aspectos do Cristianismo: desde fatos históricos antigos, e fatos do presente, à ética e moral cristã.

São vinte os motivos (apenas para impor um limite), mas poderiam ser muito mais...

1. O CRISTIANISMO TRANSFORMA O QUE É DEFEITO EM FALSA VIRTUDE

O que você acharia de alguém que dissesse sentir prazer em lamber feridas de leprosos. Ou ainda: de não ter comido nada tão delicioso quanto o pus dos seios de uma cancerosa?

Antes de você esboçar uma resposta, e chamar de loucas tais pessoas, saiba que estas palavras foram pronunciadas por pessoas que são tidas, ainda hoje, como modelos de virtude e de bem viver, foram palavras proferidas pelos Santos católicos São João da Cruz (1542 – 1591) e Catarina de Siena (1347 – 1380), respectivamente; bem como Santa Marguerite-Marie Alacoque (1647-1690), que transformava vômito e fezes de doentes em alimento; certa vez afirmou que o contato bucal com as fezes de doentes suscitava visões de Cristo, como se estivesse com a boca colada em suas chagas.

Como podemos ver pelos exemplos dados, o que é tido muitas vezes como um distúrbio psicológico, quando fora da religião, pode ser cultuado como virtude quando visto pelos olhos da fé. E o que é meramente um ato de masoquismo, passa a ser visto como um ato supremo de dedicação aos pobres, de caridade e humildade. Transformando distúrbios psicológicos em virtudes cristãs.

Este texto tem o intuito de demonstrar que o Cristianismo, assim como todas as religiões, tem o grande poder de transformar o que é defeito (quando visto fora da religião), por meio da ideia de bondade, sacrifício, etc., em falsa qualidade.

DA JUSTIÇA CRISTÃ

2. Para a igreja o aborto é mais grave que o estupro, mesmo que o estupro tenha sido feito em uma criança de 9 anos, e que a gestação acarrete prejuízo a sua saúde, podendo mesmo levá-la à morte. O que a impediria, pela idéia de justiça professada pela igreja, que a criança usufrua de meios para impedir uma gestação, não apenas desagradável, como perigosa. Como aconteceu no estado de Pernambuco, em que a igreja, através do Arcebispo de Olinda e Recife, d. José Cardoso Sobrinho, botou em prática a “BELA” idéia de justiça cristã, ao excomungar, não apenas a vítima de estupro, uma menina de 9 nove anos de idade, que fora estuprada pelo padrasto, bem como todas as pessoas que a ajudaram com o problema, como médicos e parentes, incluindo a mãe da menor, menos o estuprador, é claro. E (pasmem!) a proibição do aborto é mantida pela igreja, mesmo em casos de gestação de fetos acéfalos, ou seja, de fetos sem cérebros; mesmo que a gestação seja inviável e traga possíveis problemas, tanto físico quanto psicológico à mãe.

A penalidade religiosa máxima dada pela igreja a uma criança, estuprada desde os 6 anos de idade, no caso, a excomunhão, demonstra a contradição envolvendo tal idéia de justiça dada pela igreja, já que afim de preservar uma “vida”, não apenas põe outra em risco desnecessariamente, mas acarreta, através da excomunhão, uma penalidade ainda mais grave que a morte do corpo, mas a morte da alma, uma vez que para a igreja, tal penalidade significa que o excomungado fica impedido de receber os sacramentos da igreja, e consequentemente a salvação de um inferno com penas eternas terríveis. O que fica bem demonstrado é que, como no caso da proibição de aborto de fetos sem cérebro, a igreja ainda não se adequou aos modernos meios científicos. Pois, como sabemos, não se pode viver sem cérebro. Um feto sem cérebro (e que jamais o possuirá) não possui vida. Logo o aborto, pelo menos nesse caso, jamais poderá ser definido como a interrupção da vida. Ou será que para a igreja é possível viver SEM cérebro? Talvez este seja mesmo o ideal da igreja, já que para se aceitar uma noção de justiça tão idiota como essa não se necessita mesmo de muito cérebro.

3. Você acharia justo que filhos, netos e bisnetos, de alguém que praticou um mal no passado, viessem pagar, sem terem cometido o mesmo mal, pelos crimes feitos por um antepassado? Não? Pois essa é a pena dada pela “JUSTIÇA” do Deus cristão aos humanos. Pelo erro cometido por Adão e Eva - segundo o Cristianismo nossos primeiros antepassados – pagamos com sofrimentos, ainda hoje, como a velhice, dores do parto, com o trabalho, a morte, etc. Essa forma de justiça se baseia em uma antiga, primitiva, ultrapassada, injusta e violenta forma de justiça judaica, que originou o termo “Bode Expiatório”, e que gerou o Cristianismo, em que ao sacrificarem um animal à Deus, os homens faziam as pazes com a divindade, por erros cometidos. E essa mesma noção de justiça, transparece no sacrifício de Cristo, em que este se sacrifica e toma para si as consequencias dos erros de Adão, Eva e da humanidade. Por isso ele é chamado de cordeiro de Deus: aquele que é dado em sacrifício ao Deus cristão.

Mais um belo exemplo de justiça cristã, em que as conseqüências e o castigo de outros são transferidos para alguém ou para um animal inocente.

4. É dito no livro bíblico do Gênesis, que enquanto Moisés, no monte Sinai, recebia os dez mandamentos de Deus, incluindo o sábio mandamento “NÃO MATARAS”, seu povo passou a cultuar outro deus, e a se entregar a mais extrema anarquia. E que quando este desceu trazendo as novas regras de vida ao seu povo (incluindo o famoso: NÃO MATARÁS), ao ter visto tal cena, ordenou que todos os que tinham se entregado a tal ato, fossem imediatamente mortos, menos os que continuavam fiéis a sua crença.

Outro belo exemplo bíblico de contradição e de justiça cristã. Então seria dado o direito de matar apenas aos intérpretes de Deus? É um bom argumento para justificar as milhares de mortes dos que desobedeceram a igreja durante a Inquisição. Vocês não acham?

5. Com todo esse ideal de justiça cristã, não é de estranhar que o grande defensor católico Orlando Fedeli, desse belas amostras de sabedoria e de justiça cristã ao afirmar, com base em São Tomás de Aquino, o grande filósofo cristão, e o mais influente pensador da igreja: “a pena de morte é sempre um ato de AMOR pela alma do condenado, porque, se ele se arrepende, já pagou na terra o seu crime; e, se não se arrepende, sofrerá menos no inferno, pois viveu menos tempo em pecado.”

Sem dúvida, uma bela amostra de compaixão cristã!!! Não é mesmo?

A BÍBLIA NÃO É UM LIVRO DE INSPIRAÇÃO DIVINA

6. Primeiro: é surpreendente que um ser extremamente poderoso e inteligente, como é definido o Deus cristão, possa ter escolhido um meio tão vulnerável, tão fácil de ser distorcido e interpolado quanto um livro, para espalhar suas idéias, principalmente naquelas épocas. E pode-se questionar, por isso mesmo, a autoridade da Bíblia devido às interpolações contidas nela - ato que parece ter sido bastante comum como comprova as palavras de um de seus próprios autores, como na advertida dada no livro Bíblico, apocalipse, versículo 18: “Se alguém fizer acréscimos às páginas deste livro, Deus o castigará com as pragas descritas aqui”.

7. Dizem que a Bíblia é um livro sagrado, ditado pelo próprio Deus, que contém apenas sabedorias e verdades. Se é assim, então por que existe, nela, tantos erros humanos?

No Gênesis – primeiro livro bíblico – está escrito que no primeiro dia da criação Deus fez a luz (Disse Deus: Haja luz; e houve luz. Gênesis 1:3). Porém apenas no quarto dia da criação, Deus cria as estrelas, incluindo o sol. Isso deveu-se a um erro humano de conhecimento, ou Deus errou e deu uma consertadinha depois?

8. Outro erro astronômico está em Josué 10:12 (Então, Josué falou ao SENHOR, no dia em que o SENHOR entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel; e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeão, e tu, lua, no vale de Aijalom.)

Na estória, Josué precisa que o dia se prolongue, por isso dá este comando ao sol: “SOL, DETÉM-TE EM GIBEÃO”. E assim, ao parar o sol, o dia se prolongaria indefinidamente. Outro erro antigo, pois achava-se, antigamente, que o sol girasse ao redor da Terra, e assim, criasse o dia. Mas obedecendo ao conhecimento, de hoje, Josué teria que dizer: TERRA, DETEM-TE, já que é a Terra que gira ao redor do sol. Este versículo bíblico foi um dos responsáveis, pela tortura, condenação e morte, na fogueira, do filósofo Giordano Bruno, por este descordar de tal afirmativa. E do quase fim semelhante do famoso astrônomo e físico Galileu Galilei, por também discordar da igreja.

9. Aquele que acredita que a Bíblia é um livro da mais pura bondade está errado. Ela está impregnada também por muita maldade. Alguns exemplos:

Em Deuteronômio 22:22-23: “Caso um homem seja encontrado deitado com uma mulher que não tenha dono, ambos têm que morrer juntos…” E continua: “…tendes que levá-los para fora do portão daquela cidade e tendes de matá-los a pedradas, e eles têm que morrer”. Um costume que continua ainda hoje, nas pacíficas e tolerantes terras das Arábias, em que a mulher adúltera é enterrada e apedrejada apenas com a cabeça de fora. E ao homem é dado o privilegio de ser enterrado com as mão de fora, para que possa defender-se das pedras.

Em II Crônicas 15:13, sentencia: “…todo aquele que não procurar por Jeová, o Deus de Israel, seja jovem ou velho, homem ou mulher, deverá ser morto”. Em Êxodo 22:20, demonstra sua absoluta intolerância: “Quem oferecer sacrifícios a quaisquer deuses, e não somente a Jeová, deverá ser completamente destruído”. Um bom exemplo da bondade do Deus cristão. Não é mesmo?

E não pensem que é apenas o Velho Testamento:

Como diz o bom Jesus em Mateus 10:34, em um momento de furor: “Não penseis que vim estabelecer paz na terra; vim estabelecer, não a paz mas a espada. Pois vim causar divisão; o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe. Deveras, os inimigos do homem serão pessoas de sua própria família. Quem tiver maior afeição pelo pai ou pela mãe maior que por mim, não é digno de mim; e quem tiver maior afeição pelo filho ou pela filha que por mim não é digno de mim”.

E há ainda muito, muito mais. É só procurar...

E falando em Jesus, temos:

DE JESUS

10. A BIOGRAFIA DE JESUS CRISTO FOI INVENTADA:

Hoje, graças ao decrescente poder da igreja e aos modernos meios de comunicação, que facilitam muito a divulgação de informações independente dos meios ainda dominados pela igreja, cresce a idéia de que a “história” de Jesus Cristo é apenas uma coletânea de partes tomadas de estórias de deuses de outras religiões, tomados de empréstimo para compor a história de Jesus de Nazaré; “(...) reunindo traços tomados dos mitos de ÁTIS da Frígia, DIONÍSIO da Grécia, BUDA do Nepal, KRISHNA da Índia, OSÍRIS e seu filho HÓRUS do Egito, ZOROASTRO e MITRA da Pérsia e toda uma série de deuses e redentores do gênero humano que o precederam em séculos, e ainda em milênios (...)”. Exemplos:

“ÁTIS morreu pela salvação da humanidade, crucificado em uma árvore, desceu ao submundo e ressuscitou no terceiro dia. MITRA teve doze discípulos; pronunciou um Sermão da Montanha, foi chamado de Bom Pastor, se sacrificou pela paz do mundo e ressuscitou aos três dias. BUDA ensinou no templo aos 12 anos, curou enfermos, caminhou sobre a água e alimentou quinhentos homens com uma cesta de biscoitos; seus seguidores faziam votos de pobreza e renunciavam ao mundo; foi chamado de Senhor, Mestre, a Luz do Mundo, Deus dos Deuses, Altíssimo… KRISHNA foi filho de um carpinteiro, seu nascimento foi anunciado por uma estrela no oriente e esperado por pastores que lhe presentearam com especiarias…”

Fato é que, independente de ser verdadeiro ou não, a semelhança entre a história de Jesus e de outros deuses, é simplesmente incrível. E acrescenta-se a isso a hipótese: se a intenção era tornar o personagem Jesus Cristo universal (católico, em grego), a melhor forma seria que este possuísse características de outros deuses, afim de torná-lo familiar à outros povos. Não é mesmo? E assim facilitar sua aceitação. O que deve ter sido útil também ao misturar a estas estórias, antigas profecias judaicas.

Contudo, muitos, ainda hoje, argumentam ser a Bíblia a maior prova da existência de Cristo. Estes argumentam que Cristo cumpriu mais de trezentas profecias sobre sua vida; muitas delas com centenas de anos anteriores a sua vinda à Terra. Calcula-se, por exemplo, que a chance de apenas oito destas profecias fosse cumpridas casualmente seria de uma em 1028 (isto é, uma em 10000000000000000000000000000). O que não se argumenta, no entanto, é que, uma boa explicação para isso seria que, a “história” de Cristo seria apenas uma criação também a partir de antigos textos bíblicos e mesmo de profecias, como falsas concretizações destas. Como, por exemplo, o detalhe da traição de Cristo por Judas, pelo valor de trinta moedas de prata, recebidas das mãos do sumo sacerdote; e seu posterior arrependimento, devolvendo-as aos pés do mesmo. Isto pode ser visto em um escrito bíblico anterior ao suposto nascimento de Cristo, o Livro de Zacarias, em que Zacarias fala do rompimento da fraternidade entre Judas e Israel: “Então o Senhor me disse: atire isso ao oleiro, esse magnífico preço em que fui avaliado por eles. Tomei as trinta moedas de prata, e as atirei ao oleiro na casa do Senhor.” (Zacarias, 11:13,14.)

Algumas dessas adaptações da suposta vida de Cristo às passagens de escritos bíblicos mais antigos, são tão forçadas que chegam a contradizer as próprias crenças do personagem Jesus Cristo; como a ocasião em que Cristo crucificado tem suas vestes disputadas por soldados romanos, por meio de apostas com jogos de dados. Esta passagem foi copiada de uma passagem do Salmo 22 (versículo 18), em que se lê: “Repartem entre si as minhas vestes, sobre a minha túnica deitam sortes.” A contradição está no fato que, se há disputa com relação às roupas de Cristo, significa que estas tinham um certo valor econômico. O que não condiz com a pobreza voluntária de Cristo.

Outra adaptação forçada é sobre a ascendência de Jesus, que segundo uma profecia do Livro bíblico de Isaías, o Messias nasceria da descendência do rei Davi. Então, faz-se pai de Jesus, José, que é um descendente longínquo do rei Davi. Até aí, tudo bem. Porém, Cristo tem que nascer de uma mulher virgem, também, para que seja isento de pecado. Conclusão: a confusão tá formada. A solução é fazer de Cristo um filho adotivo de José. Mas a profecia requeria que houvesse uma descendência carnal...

Há também a contradição com relação ao nascimento de Cristo:

Como a profecia do Livro de Miquéias (Miquéias 5, 2), afirmava que o Messias nasceria em Belém, então os escritores do Novo Testamente tiveram que também adaptar a “história” do personagem Jesus, à essa profecia:

Mateus faz logo Jesus nascer em Belém. Já Lucas faz os supostos pais de Jesus, José e Maria, irem para Belém, devido a um censo que obrigaria José ir à cidade de seus antepassados, Belém. Onde Cristo nasce. Surpreendentemente, João, não liga para essa profecia, e faz Jesus nascer em outra cidade. Seu Evangelho demonstra claramente que seus seguidores ficaram surpresos com isso, como podemos ver na passagem de seu Evangelho: "Outros diziam: Ele é o Cristo; outros, porém, perguntavam: Porventura, o Cristo virá da Galiléia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?" Cada autor, portanto, lida de modo diferente com tal adaptação da estória.

Assim, aprendemos que a adaptação de um personagem, como Jesus, a todas essas condições proféticas, tão diferentes, acarreta certo grau de incoerência à sua estória.

Em suma, a estória de jesus é tão verdadeira quanto a imagem atribuída hoje à ele. Uma imagem de um homem branco, de cabelos castanho-claros e olhos azuis; embora seja extremamente improvável, naquela época, a um homem de origem semita; refletindo muito mais as características físicas dos pintores europeus que a criaram.

11. NÃO TEMOS COMO PROVAR QUE CRISTO EXISTIU

Torna-se um problema saber se Cristo existiu. Muitos historiadores se espantam ao constatar que um personagem tendo feito tantos fatos maravilhosos não tenha deixado pegadas suas na história. Nenhum historiador moderno registrou qualquer evidência de sua existência. O que deve ter perturbado muitos cristãos daquela época, levado-os a falsificar muitas obras (e nunca é de mais lembrar que, não tendo sido ainda inventada a imprensa, tais obras eram copiadas à mão por monges cristãos, afim de preservá-las), como a do historiador judeu Flávio Josefo, que escreveu sobre os acontecimentos da época que Cristo teria vivido. E que supostamente afirmaria nas Antiguidades Judaicas: “Agora havia acerca deste tempo Jesus, homem sábio, se é que é lícito chamá-lo homem. Pois ele foi quem operou maravilhas... Ele era o Cristo... ele surgiu a eles vivo novamente no terceiro dia, como haviam dito os divinos profetas e dez mil outras coisas maravilhosas a seu respeito.” O que se questiona, aqui, como bem viu Voltaire, é que de toda uma volumosa obra apenas algumas linhas são dedicadas a Jesus, um personagem que pela quantidade de maravilhas que efetuou faria com que qualquer historiador, não-cristão, escrevesse livros e mais livros sobre ele, no entanto, Josefo, supostamente, dedicou à ele apenas algumas insípidas linhas. E mais: depois deste pequeno trecho dedicado a Cristo, Josefo passa a expor assunto totalmente diferente, discorrendo sobre os castigos impostos ao povo humilde de Jerusalém. Demonstrando ser o texto, por si próprio, uma grosseira interpolação feita por algum apaixonado adepto cristão.

Três outros historiadores são citados pelos adeptos cristãos como testemunhas da existência de Cristo:

O historiador romano Tácito (55-120), ao escrever sobre o incêndio de Roma em seu Anais, capítulo XV, p. 54, citou:

“Nero acusa aqueles detestáveis por suas abominações que a multidão chama de cristãos. Esse nome vem de Cristo, que sob o principado de Tibério, foi mandado para o suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida momentaneamente, essa superstição horrível rebrotou novamente, não apenas na Judéia mas agora dentro de Roma”.

Já Suetônio (70-128), ao descrever a vida do imperador romano Cláudio, escreve em Vida de Cláudio, cap 25, p. 4:

“O Imperador expulsou de Roma os judeus que viraram causa permanente de desordem pela pregação de Cristo”.

E Plínio, o jovem (61-114), escrevendo para o imperador Trajano, Carta a Trajano, cap. X, p. 96, diz, o seguinte:

“Os cristãos têm o hábito de se reunir em um dia fixo para rezar ao Cristo, que consideram Deus, para cantar e jurar não cometer qualquer crime, abstendo-se de roubo, assassinato, adultério e infidelidade”.

Mais uma vez torna-se de extrema necessidade repetir a afirmação dita anteriormente:

Todos os livros e documentos, cristãos ou não-cristãos, favoráveis ou neutros à religião cristã, eram copiados à mão por sacerdotes cristãos, ao longo de toda a história antiga, afim de preservá-los e fazer com que estes não desaparecessem. Os que eram desfavoráveis à religião cristã foram imediatamente destruídos, como o livro Discurso Verdadeiro do filósofo pagão Celso, que atacou a doutrina cristã no ano 178. Celso, conhecendo um boato antigo sobre Jesus, dizia que Cristo era o fruto do relacionamento de uma judia, Maria, com um soldado romano de nome Panthera. Tal fato só chegou ao nosso conhecimento porque foi citado e negado pelo escritor cristão Orígines em seu livro - este sim amplamente reproduzido - intitulado Contra Celsum. Ato que por si só torna-se não confiável qualquer documento, que tenha sido copiado e preservado pela igreja que porventura ateste a existência de Cristo. Tal ato tornou-se tão arraigado à igreja que somente em 1968, o índex livrorum proibitorum, um serviço da igreja que classificava todos os livros contrários à crença católica, e que proibia a leitura de tais livros em estabelecimentos da igreja, ou, de modo geral, por católicos, fora desativado.

DA HISTÓRIA CRISTÃ

12. Com a descoberta, em 1945, dos chamados Evangelhos apócrifos, ou seja, de Evangelhos não aceitos pela igreja, tivemos definitivamente a prova de que existiram várias versões diferentes de Cristianismo. Isso é patente mesma na Bíblia atual, pois vemos na carta aos Gálatas, um dos documentos cristão, aceitos, mais antigo, podemos acompanhar uma discussão entre os apóstolos Paulo e Pedro: "Mas quando Pedro chegou a Antióquia, eu me opus abertamente a ele, pois é evidente que estava errado.” (Gálatas 2:11) ...“Se você [Pedro], que é judeu, vive como os pagãos, e não à maneira dos judeus, como pode obrigar os pagãos a viver à maneira dos judeus?” (Gálatas 2: 14).

Essa discussão deveu-se ao fato de que Pedro tinha uma concepção de Cristianismo diferente de Paulo. E podemos dizer que a versão vencedora, pelo fato de ser a mais conveniente com a política do imperador Constantino, foi a de Paulo; para tanto, basta apenas perceber que dos 27 livros aceitos que compõem o Novo Testamento, 13 são aceitos como de autoria de Paulo. Isto é, quase a metade.

Seria então a versão de Paulo, de um apóstolo que jamais conheceu pessoalmente Cristo, e que não pertencia ao seu grupo de discípulos, a mais verdadeira?

13. A religião cristã, assim como suas irmãs o Judaísmo e o Islamismo, sempre foi uma religião machista; desde suas origens; alimentado pelo mito da expulsão de adão do paraíso, por intermédio de Eva, sempre viu na mulher um ser inferior; e que ainda foi mais reforçada pela versão de Cristianismo de Paulo, como podemos ver em alguns de seus escritos:

"A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão. Pois não permito que a mulher ensine nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão;[...]." Epístola a Timóteo (2, 11-15).

"Como em todas as comunidades de fiéis, que as mulheres se calem nas assembléias, pois não lhes é permitido falar; que estejam submissas, como diz a lei. Se quiserem aprender algo, que perguntem em casa, a seus maridos, pois não convém a uma mulher falar na assembléia." (Primeira Epístola aos Coríntios, 14:34-35).

E ainda hoje as mulheres sentem este preconceito, já que ainda é dada à elas apenas tarefas secundárias na igreja. Este preconceito está até mesmo na definição do sexo feminino, já que a palavra feminino originou-se da contração das palavras: “fé” e “minus”, ou seja, fé menos.

Portanto, eu não posso aceitar uma religião que inferioriza e discrimina seres tão importantes quanto as mulheres.

14. O Cristianismo é tão machista que até mesmo sua concepção de Deus é de um Deus macho, mesmo que este não faça nem tenha sexo. E assim é, volta e meia, denominado por termos masculinos: Ele, Pai, e etc.

DA MORAL CRISTÃ

15. Para a religião cristã, como já foi visto, herdamos de Adão os castigos por sua insolência à Deus, ao nascermos. Por isso não é de surpreender que o Cristianismo odeie tanto o sexo, já que é por meio deste que nascemos e herdamos tais pecados. O que levou, por sua vez, que autores cristãos fizessem Jesus nascer de uma mulher virgem, e muitos cristãos a cultuarem, ainda hoje, a virgindade de Maria. Ou a muitas mulheres a ostentar com orgulho o fruto de seu ventre, e envergolhar-se da origem deste. Esta moral de horror ao sexo passa a ver o sexo como algo degradante, e assim tolhendo e denegrindo algo que em nós é natural, gerando uma oposição à nossa própria natureza. O que, certamente, não tem gerado bons efeitos, tendo produzido (pasmem!) até mesmo perseguições e a classificação de formas de coito permissíveis pela igreja católica. Às formas de coito não consideradas dignas do homem, por exemplo, deram o nome “coitus more canino”, isto é, coito ao modo dos cães, as formas de relação sexual em que lembra os animais, de quatro. E aos que desobedeciam tal regra, quando delatados, eram castigados até mesmo com a morte. Porém, sendo algo natural, instintivo, nenhuma proibição, ou, sentimento de culpa, iria extinguir o sexo, mas tão somente intensificá-lo e distorcê-lo, pois sabemos que tudo que é proibido é mais praticado, gerando neuroses, ou distúrbios, como os múltiplos casos de pedofilia que têm assolado hoje, e certamente, sempre, as instituições católicas, praticados por seus sacerdotes celibatários. E onde há culpa, há também castigo; gerando auto-flagelação, cujo o nome técnico dado pela igreja católica é mortificação. Dando origem a várias formas de auto-flagelação, como cintas com pontas, clausura, chicotes, etc., usados por seus sacerdotes, todos meios de aplacar os instintos naturais, vistos pela igreja como tentações demoníacas. Não admira que as igrejas estejam abarrotadas de pessoas obcecadas com os sentimentos de culpa, já que aprendem desde que nascem a identificarem em todas as coisas naturais expressões de pensamentos pecaminosos. O que tem também originado na postura incorreta da igreja de proibir métodos de redução da natalidade, e até mesmo de proibir o uso de preservativo, como meio de evitar a AIDS.

Portanto, não posso aceitar uma religião que vê algo que é natural e tão necessário em nós, como os nossos instintos, como a causa de nossa miséria.

16. É dito, na moral cristã, que deve-se tratar o outro como a si próprio. Hoje, nós sabemos que isso não é bem verdade. Pois deveríamos permitir que um irrecuperável maníaco, assassino em série, vivesse em plena liberdade, como nós? Ou deveríamos manter--nos presos juntos com eles. E assim mantermos a moral cristã intacta?

DO DEUS CRISTÃO

17. A religião cristã, assim como o Judaísmo e o Islamismo, é uma religião monoteísta, isto é, crê apena em um único Deus. Isto leva inevitavelmente muitos a acreditarem que assim como há somente um Deus, há uma única verdade e, por isso mesmo, um único modo correto de se viver. O que faz com que muitos religiosos não respeitem a opinião e o modo diferentes de viver de pessoas com idéias e crenças diferentes deles, achando sempre que os que pensam diferentes são pessoas infelizes ou erradas. O que tem gerado, não apenas muita intolerância e discussão, mas muitas guerras.

Portanto, não posso aceitar idéias que estimulam a intolerância e a discriminação, como a idéia de religião.

DO CRISTIANISMO COMO RELIGIÃO

18. Como qualquer adepto de qualquer religião, a grande maioria das pessoas tornam-se cristão apenas por hábito. Isso se dá da mesma forma que falamos português:

Por que falamos português? Porque nossos pais falavam português; porque nossos avós falavam português; porque nossos bisavôs falavam português; e assim continuamente... Até chegarmos ao fato de falarmos português por termos nascido em um país colonizado por portugueses. Da mesma forma se dá com a religião cristã. E assim como falamos português, não por esta língua ser verdadeira e ser mais importante do que outras línguas, mas porque não nos deram outra opção; somos cristãos, do mesmo modo, apenas por tradição e hábito, independente do Cristianismo ser verdadeiro ou ser a mais importante das religiões.

Portanto, não posso acreditar que uma religião é verdadeira apenas por não se ter tido outra opção em que acreditar.

19. As religiões têm como base a emoção, principalmente o medo. E o que o homem mais teme, tanto hoje quanto sempre? O medo da morte. Por isso todas as religiões tentam minimizar tal medo, mesmo aquelas que geraram “suicídio” coletivo de seus adeptos. Por isso muitos estão prontos a abraçar qualquer crença que lhes dê certo conforto emocional, que lhes possa amenizar o medo da morte, do desconhecido, da solidão, da total falta de sentido da vida, ou da morte de entes queridos, sem ter a mínima preocupação em saber se é verdadeira, pois o que lhes interessa em primeiro lugar é o conforto obtido. Tanto que muitas vezes estes reagem com VIOLÊNCIA àqueles que lhes tentam alertar sobre o perigo de sua falta de critério de verdade, como se quisessem manter-se, por livre e espontânea vontade, em tal erro, ou evitarem demonstrarem a fragilidade de tal crença. O que explica bem porque muitos, embora tendo um privilegiado intelecto, e bastante conhecimento, possuem superstições religiosas.

Porém, não posso acreditar em uma religião, como o Cristianismo, apenas porque esta me dá certo conforto espiritual.

DA CONCEPÇÃO DE LIBERDADE PARA O CRISTIANISMO

20. O Cristianismo acredita plenamente na liberdade humana de escolha, no livre arbítrio, mas todo aquele que optar por outra forma de crença, diferente da concepção cristã, será excomungado, e condenado aos piores castigos no inferno.

Uma bela concepção de liberdade, não é mesmo?, já que todos são livre desde que sigamos sempre o que nos é unicamente ditado pela igreja.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Qual é a sua Perversão? (Por Bosco Silva)



RESUMO: O presente texto tem a finalidade de analisar o sadismo, o masoquismo e a coprofilia (sexo com fezes humanas), por meio da obra do escritor Marquês de SADE; bem como da importância destes comportamentos sexuais extremos em sua literatura e filosofia.

INTRODUÇÃO

Não raro, ouvimos comentários de alguém que conhece alguma história a respeito de um terceiro que possui comportamentos sexuais estranhos; comportamentos que não se adequam ao que se convencionou chamar de normal em matéria de sexo. Assim, ouvimos, por exemplo, histórias da mulher que adora, durante suas relações sexuais, receber, de bom grado, tapas em seu rosto, ou mordidas em seu pescoço (MASOQUISMO); do jovem que pede para usar banheiros de conhecidos para roubar calcinhas das irmãs destes (FETICHISMO); ou do sujeito que, bem vestido, frequenta o banheiro público durante horas a fim de espreitar outros homens em seus momentos íntimos, olhando indiscretamente com interesse para o órgão exposto do cidadão ao seu lado (VOYEURISMO); de outro que coleciona absorvente femininos, sujos, de baixo da cama (MENOFILIA); ou ainda do sujeito que prefere ter relações sexuais com mulheres menstruadas, fantasiando as ter desvirginado durante suas relações; etc.; tais histórias parecem serem bem mais comum do que se pensa, e com o advento da internet, com seus inúmeros materiais dedicados as mais “estranhas” formas de desejos sexuais, percebemos, definitivamente, que a quantidade de tais comportamentos superam mesmo a maior estimativa que suspeitávamos existir quanto a tais comportamentos.

SEXO E INTERNET

A internet possibilitou uma nova era de informação, facilitando e tornando acessível a muitos, informações que até então eram privilégios de poucos; divulgando ideias e novas formas de comportamentos humanos, em que, como era de se esperar, o sexo possui um lugar de destaque, com dezenas de milhares de sites dedicados a saciar a curiosidade e o desejo de centenas de milhares de pessoas. Assim, há desde sites inocentes que se dedicam a reunir futuros casais de namorados, aos dedicados a prostituição, ou encontros de casais com fins sexuais; ou ainda os dedicados ao comércio de pequenos filmes pornôs, às formas mais extremas de sexo, como os que se dedicam a mostrar sexo entre humanos e animais; sexo entre adultos e crianças; relações sadomasoquista extremas, em que a violência e a dor são os atrativos principais; sexo entre pessoas mutiladas; relações sexuais envolvendo excrementos humanos, havendo mesmo o contato e a ingestão de urina e fezes humanas durante o ato sexual, etc.

Tais sites, a contar pela grande quantidade destes, possui - contrariando o que se pensa - um imenso público, com milhares de acessos diários; sites que, sendo pagos, demonstram que há um numeroso público sedento e disposto a pagar para vê-los, não se dedicando, portanto, apenas a saciar a curiosidade casual de alguns, mas de orientar a atividade sexual de muitos. O que deve levar muitos a questionar: ATÉ QUE PONTO TAIS COMPORTAMENTOS PODEM SER CONSIDERADOS NORMAIS, NÃO DOENTIOS?

É o que se propõe analisar este artigo.

MARQUÊS DE SADE

Embora exista uma infinidade de formas sexuais extremas, algumas, certamente, ainda sem nomes, três nos interessa por estar ligadas diretamente a obra do Marquês de SADE; e que são a base de muitas outras; são elas: o SADISMO, o MASOQUISMO e a COPROFILIA. Práticas sexuais, que como podemos notar através de relatos famosos sobre a vida do nobre francês, estavam presente também em sua vida. Mas antes um pequeno resumo de quem foi SADE e de seu pensamento:

O escritor francês Donatien-Alphonse-François de SADE (1740 – 1814), mas conhecido por Marquês de SADE, foi sem dúvida uma das mais intrigantes personagens da história; tão intrigante que chega tomar, por vezes, ares de personagem ficcional, chegando mesmo ao ponto de muitos confundirem o autor com os criminosos e pervertidos personagens de sua própria obra. Assim, não raro, muitas pretensas histórias foram contadas - mesmo em sua época - e afirmadas terem ocorrido com o nobre escritor francês, como a de ter provocado por meio de seus livros, muitos assassinatos ao instigar os leitores com suas ideias criminosas; havendo mesmo a ideia de que sua obra seria capaz de destruir a alma de qualquer leitor que a lesse.

SADE passou quase a metade de sua vida em prisões e manicômios; foi capaz de ser enclausurado por três formas diferentes de governo: primeiro pela monarquia francesa, depois pelos revolucionários franceses, e, finalmente, pelo imperador Napoleão; ora preso por sua vida libertina, ora por suas obras “pervertidas”; dono de uma personalidade capaz de abarcar aspectos, à primeira vista, considerados opostos, como a genialidade de seu pensamento e literatura e uma vida marcada por comportamentos sexuais, marcadamente vistos como “doentio”, não apenas para sua época, mas mesmo para a nossa: uma época em que pessoas podem trocar de sexo, e em que os meios de comunicação é capaz de saciar a curiosidade sexual, seja ela qual for, de qualquer um que possa dispor de tais meios; mas que ainda recebe sua filosofia com desdém e preconceito. Filosofia em que SADE, por meio de seus personagens, demonstra toda complexidade e obscuridade da sexualidade humana.

Em seu romance 120 DIAS DE SODOMA, fato repetido a quase a exaustão em algumas de suas biografias, SADE relata 600 formas de comportamentos sexuais incomuns; alguns tirados de seu próprio comportamento sexual, e outros sendo fruto de relatos impessoais de terceiros ou de viajantes vindo de outras terras e países. O que demonstra a postura moderna de SADE em considerar a sexualidade humana independente de convenções sociais ou religiosas.

SADE E A NOÇÃO DE PECADO

O sexo visto como caminho de descoberta e de união entre o humano e algo que o ultrapassa, como era visto em muitas religiões e filosofias antigas, que divinizavam o sexo, como vínculo entre o humano e o divino, e que concebiam o sexo como algo natural, isento de culpa, passou a ser visto de outra forma, com a popularização da religião cristã e da sua forte ideia de pecado; que radicalmente quebrava esta união, passando a ver no sexo algo indigno do homem; reprimindo-o como algo satânico; gerando mesmo em algumas seitas cristãs, castração em massa, como entre os SKOPTSI russos do século XVIII; ou, no mais das vezes, permitindo-o apenas como ato de procriação; ideia ainda hoje professada pela igreja católica, implícita em sua proibição a todos os métodos contraceptivos, menos, claro, a abstinência sexual - como se fosse possível se excitar sexualmente apenas com a ideia de ter um filho! -; proibição sabiamente não seguida por muitos. E quando o sexo era feito sem este objetivo era taxado indiscriminadamente como horrível pecado de luxúria.

Deste modo, o que era espontâneo no homem; o que era uma característica natural isenta de maldade, passou a ser vista de forma imprópria, chegando ao cúmulo de ser proibida ou vigiada, como aconteceu com o tribunal católico da Inquisição, que julgava, prendia, torturava e condenava à morte, pessoas que não seguiam as rígidas proibições católicas sobre o sexo.

Foi contra este modo de ver o sexo que SADE se revoltou, exigindo que voltássemos a sermos senhores de nossos corpos e desejos, bem como a vermos o sexo como algo natural ao homem, isento de culpa ou proibições.

Para SADE o sexo seria aquilo que mais nos aproximaria dos animais, por isso era taxado de indigno do homem, já que estes passaram a cultuar religiões que erroneamente concebiam o homem dividido entre um lado divino e outro animal, entre um lado superior e outro inferior, sendo o primeiro procurado, estimulado e o outro evitado ou, mais das vezes, proibido. Portanto, contrariando as proibições cristãs, SADE nos ensina a não termos vergonha do sexo, procurando-o além dos limites e das proibições que nos são impostas. O que não deve ser confundido com a simples promiscuidade. Se assim fosse, SADE jamais seria um filósofo, que como todo verdadeiro filósofo busca incessantemente o conhecimento e a verdade, mas sim apenas um homem promíscuo que buscava unicamente o prazer.

SEXO DITO NORMAL

Antes de prosseguirmos, e analisarmos algumas formas extremas de sexo, convém que definamos o que se convencionou chamar de sexo normal.

O sexo dito normal nada mais é do que o sexo orientado por regras de condutas morais, com bases, em última estância, em ideias religiosas que, como visto acima, dentro da visão cristã Católica, por exemplo, permiti o sexo apenas como ato unicamente para fins de procriação; sendo proibido tudo aquilo que foge desta ideia; sendo taxado de comportamentos sexuais antinaturais. Portanto, dentro desta visão, seriam antinaturais: a masturbação; o sexo com animais; o homossexualismo tanto feminino quanto masculino; o sexo oral e anal, etc.

O “sexo normal” seria apenas uma mera convenção, um mero acordo de conduta, dependendo de interpretações pessoais e religiosas; e que, assim como as religiões, seriam relativas, sendo nenhuma mais verdadeira que a outra; e que mudaria segundo períodos de tempo, de países e culturas diferentes. Desse modo, o que em um país seria proibido como algo antinatural, em matéria de sexo, em outro seria permitido como a coisa mais normal do mundo.

A expressão “antinatural” como forma de proibição sexual, carece mesmo de sentido; não possuindo nenhum fundamento na natureza, chegando mesmo a ser contraditória, já que tudo que existe - inclusive o homem e seus desejos sexuais, por mais diferentes que possam ser - pertencem à natureza, sendo, portanto, naturais.

PARAFILIA

O que comumente se chamou perversão sexual, ou desvio sexual, ganhou modernamente um nome menos propenso a julgamentos morais ou sentido pejorativo; tais denominações passaram assim a ser substituída pelo termo PARAFILIA (embora muitos críticos afirmam ainda que tal termo continua sendo pejorativo na maioria das circunstâncias), nome dado para atividades sexuais em que o prazer sexual se concentra em atividades, ou em objetos não relacionados diretamente com o sexo, ou em gostos específicos de parceiros sexuais, como na PEDOFILIA, em que o prazer do ato sexual está em praticá-lo com crianças.

Algumas parafilias não são mais vistas como perversões, crimes ou doenças mentais, desde que não sejam capazes de substituir o sexo convencional por completo e que sejam praticadas ESPONTANEAMENTE pelo casal, sem prejuízo para ambos e terceiros; o que, claramente, neste caso, não condiz com os CRIMES de PEDOFILIA. Portanto, vemos que há tanto parafilias inofensivas quanto criminosas. Vale lembrar também que mesmo a excitabilidade sexual, obtido apenas através do mais rígido código moral, é também considerado como uma parafilia, chamada de NORMOFILIA. O que demostra que, quando se tratando de gostos sexuais, a classificação entre o que é normal e anormal é extremamente relativo; bastando lembrar que a homossexualidade e a masturbação já foram consideradas crimes e perversões, passíveis de tratamento ou de detenção.

As parafilias podem ser classificadas de acordo com o comportamento ou o objeto inserido no ato sexual, segundo normas de saúde ou critérios de sociabilidade, indo das que poderíamos classificá-las como inofensivas, passando por aquelas que classificaríamos como perigosas à saúde, às de índole violentas e mesmo criminosas.

SADISMO: da sensação de poder ao prazer sexual

No longínquo 3 de abril de 1768, num domingo de páscoa, uma bela mendiga é levada para uma suntuosa casa, com promessa de trabalho; ao chegar é trancada em um dos quartos; posteriormente, é manietada de bruços sobre uma cama; tem seu corpo chicoteado; em seguida, tem o corpo pinicado por um objeto cortante; o qual derrama múltiplas gotas de sangue, que escorrem sobre sua pele branca, entre faixas vermelhas feitas pela ponta do chicote; o sangue é estancado por pingos de cera quente que caem de uma vela, que é administrado por seu algoz, sobre suas feridas abertas. Seu algoz é um nobre francês de nome SADE.

O jovem SADE concretiza neste ato, o ápice de seu sadismo prático. O caso tornou-se conhecido como “o caso Rose Keller”.

Rose Keller o denunciará às autoridade da época, descrevendo o que está acima como o ocorrido, embora não tenha sido a mesma versão dada por SADE. Mas uma coisa é certa: SADE a teria chicoteado; costume que era tão comum em suas festinhas, e que era também administrado, com veemente exigência, por si próprio, sobre seu próprio corpo, por meio de prostitutas pagas para também fazerem este trabalho.

Tais fatos, junto com inúmeros escritos seus dedicados ao tema, originaram o termo médico SADISMO (termo dado ao prazer provindo da provocação de dor ou humilhação no outro), propagado pelo psiquiatra alemão KRAFFT-EBING; termo que também passou a ser bastante usado como sinônimo de barbárie e crueldade feitas por homens contra outros homens.

Quando se fala sobre tais assuntos, quando se lê em matérias de jornais sobre a crueldade dispendida de um humano sobre outro humano, logo a explicação que surge é que este foi tomado pela loucura, pela desrazão, pela inconsciência; como se a crueldade só pudesse existir sob a égide da loucura; é como se nós não quiséssemos reconhecer que seríamos capazes mesmo em sã consciência de atos extremos de crueldade e selvageria. Talvez esta seja uma das grandes ilusões que SADE nos ajuda a esvanecer com seus escritos. E nenhuma situação parece exemplificar melhor o que é dito do que as crueldades provocadas pelas guerras:

Nestas, homens que aparentemente pareciam conviverem em respeito mútuo, segundo leis de convivência, quando quebradas, são tomados pela barbárie, pela crueldade entre si; de modo que, diferentemente de antes, tudo parece ser permitido: estupros, infanticídio, massacres, etc. E torna-se impossível falar sobre isso sem tocar em um grande exemplo: a Alemanha nazista.

O que teria levado uma das mais ricas culturas mundiais, herdeira dos grandes valores humanistas, tida como um dos maiores exemplos de civilização, a querer eliminar povos tidos por eles como inferiores, criando campos de concentração, verdadeiras indústrias da morte, em que milhares de pessoas eram humilhadas, torturadas e por fim eram mortas, da forma mais execrável e efetiva possível, por meio de gazes venenosos que ilusoriamente saiam de chuveiros em pretensos banhos comunitários; vítimas que eram exploradas ao máximo, tendo mesmo seus corpos aproveitados como matéria prima para confecção de sabão e sandálias para o exército alemão?

Muitos serviam de cobaias para experiências macabras, como dissecação enquanto estavam vivos, ou amputação de seus membros sem anestesia; ou ainda eram jogados vivos em caldeirões com água fervente, ou expostos ao mais extremo frio, para que os médicos nazistas pudessem analisar suas reações de dor e o quanto de calor ou frio podiam suportar antes de morrerem.

E não apenas aos nazistas pode-se reconhecer este teor de crueldade, ela sempre existiu, e não somente entre povos primitivos, pois pode-se matar tanto com pedras, quanto com bombas atômicas, fruto máximo de nossa tecnologia da morte.

Ironicamente, mesmo na revolução francesa - modelo de ideal político para vários países modernos -, enquanto SADE estava preso na bastilha, por sua vida libertina, os revolucionários franceses em nome da LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE, massacravam milhares de pessoas pelas ruas de Paris, ou em praças públicas, decapitando-as por meio da guilhotina; ato que SADE viu várias vezes pela janela de sua cela, e que certamente influenciou-o bastante em sua escrita. Chegando ao cúmulo do abade Morellet sugerir, numa assembleia, que se colocasse à venda a carne dos guilhotinados, obrigando, por meio de lei, que todo cidadão se abastecesse num açougue nacional, pelo menos uma vez por semana.

Paradoxalmente, parecia que a razão tomava forma de insanidade, enquanto aquela se trancafiava, protegendo-se, em hospícios. O que nos leva a perguntar: afinal de contas, quem eram os verdadeiros loucos?

Mas talvez de um “louco”, como era considerado SADE, possa vir a explicação!

Para SADE o PODER É AFRODISÍACO. Isto é, é estimulante de prazer; um estimulante inerente aos homens, em menor ou maior grau, que tanto pode dar prazer a um déspota, provocando-lhe orgulho e sentimento de superioridade perante seus semelhantes, mantendo-o ao máximo no poder; como também a um assassino, que subjuga sua vítima, forçando-a a se submeter aos seus desejos; ou ainda ao prazer sexual com que um casal, que por meio de chicotes e algemas, apimentam a relação à dois com joguinhos sexuais de submissão e autoridade. Todos tendo a mesma origem: o sadismo inerente ao homem.

Sadismo e masoquismo seriam mesmo uma das maneiras pelas quais, durante a evolução do homem, a natureza fundamentara as noções de poder e autoridade; certamente noções bastante importantes para a sobrevivência do homem durante as primeiras sociedades humanas; em que a coesão do grupo era de suma importância para a sobrevivência deste, exercida indubitavelmente pela autoridade de um indivíduo: um líder. Ideia que é corroborada ainda hoje pela forte relação histórica entre poder e sexo, pois o sexo seria um dos grandes modos pelos quais o poder poderia ser exercido sobre alguém – exemplo, uma recente pesquisa estabeleceu que homens podem ter interesse despertado em mulheres de acordo com o seu tipo de carro. Donos de carros que demonstram controle e poder tornam-se mais atraentes para elas. Ou seja, assim como muitos animais que atraem as fêmeas oferecendo-lhes proteção e repelindo os machos adversários por meio da força, estes machos humanos estariam atraindo fêmeas por meio do luxo e do conforto econômico, que estes podem oferecê-las; e repelindo os outros machos de nossa espécie, por meio da demonstração de que são economicamente mais fortes. Em suma, embora mude os meios, os métodos são os mesmos para a natureza.

Por outro lado, a fundamentação da autoridade por meio da mais pura submissão - um instinto que ainda hoje predispões os homens a obedecerem aos seus líderes - explicaria, por sua vez, que homens comuns, sem nenhum instinto assassino, colaborem, em tempos de guerras, com atrocidades, e se tornem assassinos, bastando que um pequeno punhado de líderes os estimule para tanto, transferindo seus desejos e objetivos para seus subalternos. O que, por outro lado, também explica, como um país, com uma imensa tradição cultural humanista, no nível, então, mais alto de civilização, tenha submergido à barbárie nazista.

MASOQUISMO

Se o termo sadismo se originou do nome do Marquês de SADE, adepto desta forma de atividade em seus escritos e na própria vida, como já foi visto, o termo masoquismo originou-se, por sua vez, do nome de outro escritor, do austríaco Leopold von Sacher-Masoch, que em seus inúmeros livros narra personagens masoquistas. Sacher-masoch era pessoalmente um masoquista, que teve tal atividade despertada, como muito bem narra o próprio escritor: na infância, quando ao esconder-se no quarto de uma tia, no guarda-roupa desta, entre seus casacos de peles, presenciou esta tendo relações sexuais com um homem. Ao ser descoberto, foi castigado com surras por ela, enquanto estava entre os casacos de peles, o que o fez durante o resto de sua vida, relacionar dor, humilhação e casacos de peles ao sexo.

Embora a muitos pareça descabido que alguém possa obter prazer com a própria dor e humilhação, a verdade é que o prazer e a dor sempre andaram juntas, até mesmo onde menos podemos imaginar. Tomemos, por exemplo, as religiões, principalmente aquelas em que veem na dor e na humilhação, virtudes imprescindíveis a evolução espiritual e importante modo de submissão a Deus. O Cristianismo é um bom exemplo disso:

A flagelação passou a ser um ato cotidiano em muitas ordens cristãs; como um modo de mortificação do corpo e de seus desejos, geralmente desejos sexuais. Não raro, este era o modo de alcançar êxtases religiosos. Santa Tereza usava a flagelação como prática diária; através do chicote ela alcançava estados místicos de transe; São Francisco de Assis dizia: "Humilhação é o caminho para a humildade e sem humildade, nada agrada a Deus". Muitos devotos e líderes religiosos cristãos se flagelavam, e prescreviam tal prática, como São William, São Rudolph e São Dominic. Havia mesmo ordens dedicadas a tal ato, como a Seita dos Flagelantes, organizada por Santo Antônio; que ia de cidade em cidade arrecadando novos penitentes, até uma igreja, onde se flagelavam com chicotes durante horas, em seus dorsos nus; às vezes chegavam a dezenas de milhares.

Se não era por meio do chicote era pelo meio do jejum; muitas devotas tornavam-se anoréxicas, e tal atividade tornava-se muito mais consequência de tal doença do que demonstração de fé.

Não é difícil de encontrar, por exemplo, nas vidas dos santos, atos execráveis:

São João da Cruz (1542 – 1591) afirmou, certa vez, sentir prazer em lamber feridas de leprosos; Santa Catarina de Siena (1347 – 1380) afirmou não ter comido nada tão delicioso quanto o pus dos seios de uma cancerosa.

Estas palavras foram pronunciadas por pessoas que são tidas, ainda hoje, para muitos, como modelos de virtude e de bem viver.

É que as religiões tem o grande poder de transformar o que seria um ato torpe e execrável, quando não vistos com os olhos da fé, em um belo ato de devoção e sacrifício, quando inserido em seu contexto religioso. E o que é tido muitas vezes como meramente um ato de masoquismo, quando fora da religião, pode ser cultuado como virtude quando visto pelos olhos da fé.

O prazer da dor, neste caso, não estaria certamente na forma sexual, como podemos ver em SADE ou em Sacher-Masoch, mas no PRAZER DO ALÍVIO DA PASSAGEM DA CONSCIÊNCIA DO PECADO, MARCADO POR TORTURAS PSICOLÓGICAS, PARA O BEM ESTAR DA NÃO-CULPA, já que o Cristianismo, com sua forte ideia de redimir os pecados, coloca na dor, o melhor modo. E a capacidade de sentir dor sem reclamar, como uma de suas virtudes; terminando, enfim, por associar prazer e dor, dor e salvação ou a total permissão de desejos mórbidos, vistos como virtude; o que certamente estimularia ainda muito mais nossas tendências masoquistas.

Enquanto o SADISMO seria uma relação ATIVA com o poder, com a autoridade; o MASOQUISMO, por outro lado, seria uma relação PASSIVA com estas formas de atividades. Para o masoquista, figuras poderosas estariam necessariamente ligados a exigência de punição, pois tal capacidade seria a própria essência do poder delas, por isso seriam inseparáveis do castigo. O que explica, por um lado, como já foi visto, tanto a reação masoquista com relação à religião e à figura de Deus, quanto aos “prazerosos joguinhos” sadomasoquista entre amantes.

Novamente uma boa explicação para isso, como bem observou SADE, é que tanto o sadismo quanto o masoquismo, em menor ou maior grau, são tendências inerente no ser humano, à nossa origem animal.

Em 1954, um dos primeiros pesquisadores sexuais, Alfred Kinsey, constatou que mais da metade de homens e mulheres, reagiam sexualmente com prazer a mordidas: nada muito diferentes de vários animais. E, talvez, assim como, por exemplo, alguns insetos, como algumas aranhas, ou louva-deuses, em que o macho se permite, ao fim do ato sexual, ser subjugado e devorado pela fêmea, tenha também se conservado no homem a tendência a submissão no ato sexual, identificando dor e prazer. Fato que parece se repetir continuamente nas mulheres; associação que parecer ter bases biológicas, já que o papel biológico da mulher está impregnado de dor: da menstruação, ao defloramento e, consequentemente, ao parto.

SADOMASOQUISMO

É claro que um mesmo indivíduo poderia abarcar em si tanto o papel de sádico quanto de masoquista. Sua relação com a ideia de autoridade seria tanto ativa quanto passiva; ele seria ao mesmo tempo tanto algoz quanto vítima de si mesmo; assumindo a autoridade de punir a si próprio. Tal relação denomina-se de SADOMASOQUISMO.

SEXO ANAL

Porém, antes de nos debruçarmos sobre as particularidades da COPROFILIA, é de suma importância examinarmos uma prática sexual que, embora não considerada PARAFILIA, possuía uma grande importância para o nobre escritor francês: o SEXO ANAL.

SADE o praticava não apenas de forma ativa como passiva; e não apenas com homens, mas também com mulheres. Em Marselha, por exemplo, SADE é denunciado por três prostitutas por tê-las forçado a açoitá-lo; e depois ter praticado, em cada uma, sexo anal, enquanto ao mesmo tempo recebia em seu ânus o pênis de seu criado.

A preferência de SADE pelo sexo anal pode não apenas ser explicado por esta modalidade sexual unir tanto sadismo quanto masoquismo em uma mesma atividade sexual, quanto à certa dose de blasfêmia atribuída a ela. O que fez desta atividade o ápice de sua sexualidade, pois como bem observou Simone de Beauvoir, podemos dizer que toda a sexualidade de SADE é de teor anal; contendo, pois:

SADISMO - posto que o sexo anal provocaria dor no parceiro; seria a invasão mais completa da sexualidade de um pessoa sobre a outra; seria o máximo da intimidade sexual e da conquista, etc.;

MASOQUISMO - o sexo anal permitiria a subjugação do parceiro ou da parceira, até mesmo simbolicamente, por meio de algumas posições sexuais, representando a dominação de um sobre o outro; simbolizando a atividade de um sobre a total passividade do outro, etc;

TRANSGRESSÃO – o sexo anal quebraria valores, principalmente valores cristãos, como a ideia de que o sexo seria permitido apenas para fins de procriação, e a ideia de que este seria antinatural.

SADE, por meio da transgressão, transforma mesmo a blasfêmia em prazer, misturando-a ao prazer sexual; por exemplo, durante relações sexuais suas, obrigava que suas parceiras desrespeitassem símbolos cristãos. Vale notar que, em sua época, o sexo anal, mesmo praticado de modo heterossexual, era considerado crime de sodomia, passível de detenção e mesmo de morte, tendo tal lei bases cristãs. O que certamente incluiria um atrativo a mais para SADE: o perigo. Elemento com forte poder de estimulação, pois como é sabido, ainda hoje: “O que é proibido é sempre mais procurado”.

Tais elementos reunidos, pelo menos em parte, seria a própria essência do desejo pelo sexo anal, como podemos ver ainda hoje em relatos de casais, em que o parceiro pretende iniciar sua parceira em tal atividade. Para muitos destes, o sexo anal é o máximo da conquista sexual, principalmente quando tal possibilidade é tantas vezes negada pela parceira, não raro com argumentos que incluem desde que tal ato causa dor, é nojento, á afirmação de que é contra a natureza. Negativas que só fazem aguçar ainda mais o desejo do parceiro. Principalmente em uma cultura como a nossa que privilegia como modelo de beleza mulheres possuidoras de fartas e belas bundas, chegando mesmo tal atributo torna-se um meio de alcançar sucesso profissional, ou econômico, como podemos observar acompanhando carreiras de dançarinas, ou mesmo na vida cotidiana, em que grande parte dos homens bem sucedidos aparecerem nos meios de comunicação ostentando mulheres com “belos traseiros”, tornando as nádegas femininas status social.

TRANSGRESSÃO E PARAFILIA

Ao atribuir, revolucionariamente, à transgressão papel coadjuvante ao prazer sexual, e ao explorar ao extremo os prazeres do corpo, a transgressão terá papel fundamental no pensamento de SADE, como também em seus escritos. Tornando-se mesmo em muitas descrições de sexo extremo, em sua literatura, o elemento fundamental; o que parece refletir bem a realidade, já que muitos desejos sexuais extremos, praticados na realidade possuem a transgressão e o proibido como elementos fundamentais; como o sujeito que necessita da sensação do proibido, envolvendo a não permissão do outro, para excitar-se, como no caso de alguns exibicionistas que exibem seus órgãos sexuais para pessoas desavisadas, nas esquinas, em frente de escolas; em geral para pessoas estranhas ao seu convívio. O elemento de surpresa e de não permissão, que está por trás de seu ato proibido, são os elementos que o excitam. Fato que não aconteceria se fosse visto por ele, ou por outras pessoas, como algo natural e permitido. A transgressão é o princípio deflagrador e excitador de tal ato. Originando também atos modernos como comportamentos sexuais autodestrutíveis, como os praticados pelo movimento de homossexuais masculino denominado de BAREBACKE, em que o prazer sexual está em transgredir normas de saúde, possibilitando assim a transmissão e a infecção pelo vírus da AIDS, por meio do relacionamento com indivíduos desconhecidos, principalmente com indivíduos já infectados pelo vírus da AIDS, sem uso de preservativo.

COPROFILIA

COPROFILIA é a atração sexual por fezes humanas; que pode ser acompanhada, muitas vezes, por COPROFAGIA; que, por sua vez, significa o prazer sexual em ingerir fezes.

Como em todas as formas de extremismos, em que uma atitude extrema é alcançada gradativamente por meio de graus menores de extremismos, o sexo anal e a anilingua (manipulação anal por meio da língua) poderiam ser mesmo visto como um caminho que levaria do SADISMO e MASOQUISMO à COPROFILIA, já que este tenderia a proporcionar contato com fezes humanas.

Seguindo esta linha de raciocínio, a COPROFILIA seria a culminância de um processo de associações graduais, em que, a princípio, o futuro coprófilo sentiria atração normal por nádegas, e, gradualmente, estenderia seu desejo ao ânus; em seguida, movido por meio de associações e TRANSGRESSÕES graduais, teria sua atração voltada para a defecação do ser desejado; culminando, finalmente, no prazer de manusear, cheirar, ou até mesmo ingerir fezes humanas.

Há que se levar em conta também outros elementos, como o FETICHE; uma atividade profundamente simbólica, relatado mesmo por muitos praticantes de tais atividades; em que as fezes humanas ganhariam uma proporção gigantesca de simbolismos e metáforas em relação ao ser desejado. E em que o contato com as fezes seria visto como “uma oferta de profundidade do interior de um desejável corpo, tornando-o muito, muito íntimo”. Seria como um canibalismo simbólico, em que o contato com as fezes, a ingestão desta, seria como a absorção simbólica do objeto do desejo em seu grau máximo de intimidade.

Há também, sem dúvida, um ato de desafio, de proibido, em tal atividade que a muitos, em si, representaria um estímulo a mais.

Para alguns masoquistas o ato significaria submissão e auto degradação simbólica ao ser amado. Por isso, tal prática novamente teria um grande valor em comportamentos religiosos.
Aqui novamente, o que para muitos seria considerado repulsivo, tornar-se-ia um ato santo quando visto pelos olhos da fé cristã, ou não seria melhor dizer: quando visto pelo MASOQUISMO CRISTÃO? Como podemos ver em alguns casos:

Santa Marguerite-Marie Alacoque (1647-90), transformava vômitos de doentes em seu alimento; mais tarde ao ingerir fezes de uma doente, declarou que tal ato suscitava nela visões, em que esta aparecia atrelada com a boca nas chagas de Cristo.

O profeta Ezequiel, foi ordenado por Deus a comer fezes humanas: “E o que comeres será como bolos de cevada, e cozê-los-ás sobre o esterco que sai do homem, diante dos olhos deles.” Ezequiel 4:12. No entanto, este ao protestar, Deus muda de ideia, porém sem mudar de método: “Vê, dei-te esterco de vacas, em lugar de esterco de homem; e sobre ele prepararás o teu pão.” Ezequiel 4:15.

CONCLUSÃO

Como foi visto, algumas parafilias não são mais vistas como perversões, crimes ou doenças mentais, desde que não sejam capazes de substituir o sexo convencional por completo e que sejam praticadas ESPONTANEAMENTE pelo casal, sem prejuízo para ambos e terceiros; havendo mesmo muitos que advogam que o sadomasoquismo praticado por casais não sejam mais rotulados como parafilia.

O sexo como atividade humana, não se prende a um modelo único, como o modo correto de ser feito, rotulado de normal; ele abarca certo grau de subjetividade e fantasia que tal ideia não pode conter. Sendo que o que se convencionou de normal dentro da sexualidade humana, como a ideia católica do sexo apenas para fim de procriação, revela-se como uma ideia equivocada e, como mostra a história, mesmo perigosa. O sexo possui, por exemplo, como é visto no reino animal, papeis que vão além da própria procriação, ele promove a sociabilidade entre os indivíduos, e uma hierarquia social, natural, que identifica no líder a coerção do grupo, etc., comportamentos fundamentais para a manutenção da vida de muitos animais, inclusive o homem.

Dentro de um rígido sistema moral, a transgressão passa a tornar-se um elemento fundamental, pois mesmo que a única lei que vigorasse na natureza fosse a lei da força bruta, tal lei não seria causa de perversões sexuais, já que a transgressão, como elemento principal, deflagrador da perversão, não existiria, pois para que houvesse tal elemento, seria preciso que o sujeito transgredisse leis morais. O que só pode existir em sociedades com definido e rígido sistema moral. Aí está a grande sacada de SADE: as perversões são frutos da sociedade. De uma sociedade que ao proibir o que é natural no homem, como o desejo sexual, acaba, enfim, por intensificá-lo. Pois, bem sabemos que, tudo que é proibido é mais procurado.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Literatura Pode Ser Perigosa? - Em Pauta: Nietzsche e Sade (Por Bosco Silva)



RESUMO: O texto a seguir corresponde a uma pequena releitura do ensaio “Os perigos da Literatura: o ‘caso Sade’”, de Eliane Robert Moraes, contido no livro “Lições de Sade – ensaios sobre a imaginação libertina”, da mesma autora; porém sendo incluso também na análise a obra de Nietzsche, devido a semelhança de pensamento, repercussão, estilo, em que há a mescla de filosofia e literatura, no caso de Nietzsche, poesia e filosofia à semelhança da obra de Sade.


EM 1924, TEM INICIO UMA NOVA FORMA DE ASSASSINATO, o assassinato como teste de ideias filosóficas, e em que a literatura, melhor, a filosofia de Nietzsche, foi acusada como um dos elementos incentivadores para tal crime. É o que podemos ver através da história do caso Leopold-Loeb.

O CASO: LEOPOLD-LOEB

Nathan Freudenthal Leopold Jr. e Richard Albert Loeb, ambos, na época, com 19 e 18 anos, respectivamente, eram dois alunos com inteligência excepcional, pertencentes a Universidade de Chicago, que decidiram, em 1924, cometer o crime perfeito. Para tanto, sequestraram e mataram Bobby Franks, então um garoto de 14 anos.

Leopold e Loeb achavam-se pessoas excepcionais, ideia tirada de suas façanhas intelectuais: ambos eram superdotados; Leopold falou suas primeiras palavras com apenas quatro meses de idade; já Loeb era, então, o mais novo graduado pela Universidade de Michigan. Ambos começaram a praticar pequenos crimes. Achando-se superiores as penalidades das leis, partiam cada vez mais para crimes mais audaciosos, até que, para testar suas capacidades, resolveram cometer o mais grave de todos: o assassinato. Passaram seis meses arquitetando-o, em seus mínimos detalhes; já haviam escolhido a vítima: o garoto Bobby Franks, que era vizinho de Loeb, e pertencia a família deste.

Ao serem descobertos pelo crime, Leopold e Loeb revelaram terem cometido o crime inspirado na filosofia de Nietzsche, em sua ideia de super-homem.

“Antes do assassinato, Leopold escreveu para Loeb: ‘Um superhomem (...) é, em virtude de certas qualidades superiores inerentes a ele, isento das leis comuns que regem os homens. Ele não é responsável por qualquer coisa que ele possa fazer.’”


Temos, pois, um caso da mais extrema violência, em que o assassinato é justificado através da ideia de superioridade, e em que o filósofo alemão Nietzsche é relacionado a este por meio de sua obra; tendo tal fato sido mesmo usado pelo advogado Clarence Darrow, à época um experiente e conceituado advogado, como meio de evitar que os réus, Leopold e Loeb, fossem levados à pena de morte, argumentando:

"Esse terrível crime era inerente a esses garotos, que se originou no passado … devemos culpar alguém que tomou os ensinamentos de Nietzsche em sua vida? … devemos realmente condenar um garoto de 19 anos pela filosofia que foi obrigado a absorver na faculdade?"

Em outras palavras, o advogado culpa a influência da filosofia de Nietzsche como a verdadeira causa de tal crime.

Mas antes de continuarmos, e tentarmos responder a pergunta título, o que diz esse filósofo?

OPENSAMENTO DE NIETZSCHE

Nietzsche (1844 – 1900) conceitua em seus escritos que a cultura ocidental fora tomada por uma forma de moral decadente, a moral dos fracos, em que por meio desta é ensinado ao homem a odiar a vida, a apostar toda sua vitalidade, sua esperança, em uma vida pós morte, esquecendo a vida concreta, e de seus deveres para com esta; uma moral da renúncia, que em nome de um paraíso hipotético, esquecem de cultuar a verdadeira vida. Nietzsche, ao contrário, crê ser portador de uma mensagem aos fortes, busca por meio desta acordar estes, convidando-os a construir o paraíso na terra, a construir uma moral forte, que ao rejeitar o além ilusório, não negue a verdadeira vida, e que não a torne mais ilusória que aquela. Esta nova moral pertenceria aos fortes que, ao contrário dos anteriores, afirmarão mesmo sobre os maiores dissabores da vida, seu querer-viver, sua vontade. A tarefa de transmutar os valores, de afirmar a vida, será, portanto, tarefa dos fortes, tornando-a cada vez melhor aos seus descendentes, tomando-a em suas mãos, e imprimindo-a o poder da mudança positiva; é tarefa dada aos homens que não temem viver, que não precisam de um consolo de além túmulo para suportar o medo da morte, e também da vida; e a esses homens Nietzsche chamava de superhomens. São tais homens, que possuem a vontade de poder mudar, estão além de bem e mal, de certo e errado, posto que são os verdadeiros criadores da verdadeira moral, já que tais valores pertencem a uma moral decadente, e que deve ser por isso mesmo derrubados.

SADE E NIETZSCHE

Curiosamente, a filosofia de Nietzsche, em parte, fora antecipada por outro filósofo, um escritor francês, chamado Marquês de Sade, que como aquele privilegiava a vontade individual, conceituava a moral de seu tempo como decadente e que subvertia as noções de bem e mal, certo e errado; e que, curiosamente, também teve sua filosofia acusada de influência criminosa, como nos conta o escritor americano Roger Shattuck, em seu livro Conhecimento Proibido, em que afirma que em dois casos de violência sexual seguida de assassinato acontecidos nas décadas de 60 e 80, nos Estados Unidos, as ideias de Sade estavam presente, pois os assassinos não apenas disseram que conheciam Sade, como também tinham cometidos tais crimes sob a influência de suas ideias.

Dois pensadores com ideias semelhantes, tendo seus nomes e ideias envolvidos em crimes, teria sido tudo mera coincidência, ou ambos tiveram participação indireta em tais crimes, provando que a literatura, sim, pode ser perigosa? Mas antes de responder a isso, o que dizia Sade?

O PENSAMENTO DE SADE

Sade (1740 – 1814), diferentemente de outros pensadores, escreveu sua filosofia em meio a romances e novelas pornográficas; o que fazia seus escritos despertar interesse em um público muito mais amplo que não estava interessado apenas em filosofia, mas também em pornografia; meio que melhor se adaptava ao seu pensamento, já que o autor pretendia que os homens retornassem a cultuar os princípios básicos da vida, ao seus instintos básicos, tido por ele como superior as outras formas de pensamento. Portanto, o sexo era um elemento fundamental em seus escritos, pois por meio dele o homem poderia sentir-se como parte da natureza, fato que a moral estabelecida parecia tentar esconder do homem, criando uma enorme barreira entre este e aquela, moral e instinto. E assim como Nietzsche, inverteu noções de bem e mal, certo e errado. Afirmou que a moral baseava-se em noções contrárias à natureza, sendo, portanto, falsa. A verdadeira moral deveria partir dos verdadeiros princípios da natureza, de nossos instintos básicos, e não distorcê-los, e negá-los como impróprio do homem, como então a moral estabelecida tinha feito com o sexo, vendo nele não algo natural ao homem e aos outros animais, mas algo impróprio do mesmo, concebendo-o como antinatural, e recheando-o de sentimentos de culpa e de pecado. Deste modo, em nome dos instintos, Sade passou a defender tudo aquilo que a moral proibia, mas que, segundo ele, era garantido pela natureza, como o assassinato; o roubo; as formas mais extremas de sexo, em que o máximo de prazer está ligado ao mais extremo egoísmo, implicando mesmo na destruição do objeto do prazer; o incesto; o homossexualismo; o aborto; etc. Ele chegou mesmo a afirmar que o assassinato, aos olhos da natureza, era um direito do homem, embora, surpreendentemente, fosse contra o frio, e anônimo, assassinato através da pena de morte, devido a esta não ser algo natural, mas mera convenção humana.

SADE E O CONHECIMENTO PROIBIDO

Em seu livro Conhecimento Proibido, Roger Shattuck (1923 – 2005) toma a obra de Sade como um grande exemplo dos perigos da literatura, pois assim como outras áreas do conhecimento, como a física atômica e a manipulação genética, a literatura ao tocar em assuntos tabus, ou questionar valores humanitários, como propõe exemplarmente a obra de Sade, toca em noções extremamente perigosas, podendo influenciar pessoas com suas ideias perigosas. Roger Shattuck chega mesmo a questionar os livros de Sade entre as obras-primas da literatura universal:

“Deveremos acolher entre nossos clássicos literários as obras de um autor que violou e inverteu todos os princípios de justiça e decência humanas desenvolvidos ao longo de 4 mil anos de vida civilizada? Terá o século XX cometido, com relação ao marquês de Sade, um dos mais monumentais erros de julgamento cultural ao colocar seus livros entre as obras-primas de nossa literatura?”

E ainda, ao refletir sobre a atitude dos escritores e editores que se dedicaram a liberar a obra sadiana para publicação: “em nome da liberdade de expressão, somos capazes de defender práticas como a indecência, a profanação e as expressões de ódio, enquanto ao mesmo tempo tememos seus efeitos sobre a comunidade”.

Contudo, Roger Shattuck, não defende a censura às obras de Sade:

“O Ocidente levou séculos construindo uma cultura que associasse o sexo a noções de ternura e vida familiar. Explorando as próprias perversões, Sade criou uma pedagogia alternativa, em que sexo é maldade e assassinato. Para ele, crianças são como "unhas a ser cortadas". Ainda assim, eu jamais apoiaria qualquer censura ou destruição de suas obras. Basta combater, com todas as armas da razão, aqueles que se iludem e pintam como grandes gênios Sade e outros como ele.”

De modo geral, Roger Shattuck diz que é difícil explicar a reabilitação de Sade e, ao tentar, a uni as ideias de Nietzsche:

"Atribuo-a mais a um sinistro desejo de morte pós-nietzschiano, característico do século XX. Esse desejo de morte busca a libertação absoluta, sabendo que levará à destruição absoluta - física, moral e espiritual".

Em suma, para Roger Shattuck não apenas a obra literária de Sade ofereceria perigo, mas toda obra que quebrasse tabus ou questionasse valores morais fundamentais, como os de certo e errado, bem e mal, etc., o que inclui a própria obra de Nietzsche, e que faz aproximar as ideias de Shattuck da defesa feita pelo advogado Clarence Darrow no caso Leopold-Loeb.

Estaria ai a verdadeira explicação para que obras como a de Sade ou de Nietzsche, tenham exercido influência em assassinos como os descritos acima, comprovando que a literatura, sim, poderia exercer uma má influência em seus leitores?

CONTRARIANDO ROGER SHATTUCK

Porém, há um outro modo de ver tal questão. Em seu ensaio, Eliane Morais aponta algumas, como as de alguns autores que saíram em defesa da obra de Sade, como a do escritor Octavio Paz, que afirmou:

“Não acredito que haja autores perigosos; melhor dizendo, o perigo de certos livros não está neles próprios, mas nas paixões de seus leitores”.

Já Maurice Heine, primeiro biógrafo de Sade, responde a questão deste modo:

“Todos os livros, uma vez nas mãos de degenerados, podem ser considerados perigosos. Não é possível prever que impulso mórbido um degenerado pode receber da mais inocente leitura. Uma narrativa sobre a vida dos santos, ou outra sobre a paixão de Joana D’arc, pode perfeitamente levar um desses infelizes a se apoderar de uma irmãzinha e assá-la viva...”

Henri Miller, mantendo a mesma linha de raciocínio, ao questionar a proibição de uma de suas obras, argumenta:

“Não é possível encontrar a obscenidade em qualquer livro, em qualquer quadro, pois ela é tão-somente uma qualidade do espírito daquele que lê, ou daquele que olha”.

Em suma, para estes autores, contrariando as ideias de Roger Shattuck, os livros seriam objetos passivos, incapazes, verdadeiramente, de influenciar alguém, no máximo refletiria apenas a mente do leitor; em outras palavras, o perigo não estaria nos livros, mas sim na mente de seus leitores.

Para tais autores, o erro na argumentação de Shattuck, seria a impossibilidade de se prever qual o efeito que um livro teria em seu leitor, mesmo um livro como o de Sade; isto é, seria impossível provar que um livro que propõe o mal tenha a maldade como um de seus efeitos em seus leitores, já que esta poderia muito bem já estar presente na mente de seu leitor; ou que um livro de amor possa provocar efeitos bons em seus leitores. Ademais, as teses de Roger Shattuck “não nos autoriza a atribuir maior ou menor eficácia a este ou aquele livro, tendo em vista apenas seu conteúdo manifesto”. Por exemplo, no final do Séc. XVIII, o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, foi acusado de incentivar centenas de suicídios na Europa; o livro conta a estória de Werther, um jovem apaixonado, que não vendo seu amor correspondido se mata. As ideias de Roger Shattuck seria incapaz de prever o efeito de tal livro em seus leitores. E mesmo um livro considerado uma fonte de sabedoria como a Bíblia, já foi inspiração para atrocidades, como a inquisição, causando mais mal que todos os outros livros em mãos de pessoas inescrupulosas.

Visto por essa nova ótica, as obras de Nietzsche não teria nenhuma culpabilidade no caso Leopold-Loeb, anulando totalmente a defesa feita pelo advogado do caso. A culpa recairia apenas sobre os algozes; a maldade já estaria presente em suas mentes antes destes conhecerem a obra de Nietzsche.

CRITICANDO A IDEIA DE PASSIVIDADE DOS LIVROS

Porém a ideia de passividade dos livros, defendida pelos autores anteriores, tem também suas falhas, pois ela não é honesta para com os autores.

Se dizemos que os livros de Sade chocam é porque eles provocam no leitor reações adversas, eles não se mantém como passividade pura, refletindo, como um espelho, apenas a mente do leitor; eles convidam o leitor a participar de uma interação mútua; creio que a grande maioria dos autores não gostariam de ser apenas espelhos de seus leitores, eles gostariam também de provocar as mais diversas sensações em seus leitores, dividindo suas ideias, seus sentimentos, seus segredos, sua mais íntima intimidade, porém para tanto é necessário que o poder de agir lhe seja intrínseco. Negar esta ideia seria também negar o poder das palavras, das ideias; seria negar o poder de toda a tradição; seria sermos injustos com autores como Sade e Nietzsche; mas não necessariamente cairíamos no erro de Roger Shattuck ou do advogado do caso Leopold-Loeb ao atribui-los uma influência má.

A LITERATURA PODE SER PERIGOSA? AS IDEIAS DE GEORGE BATAILLE

Uma saída para o impasse é dado por George Bataille (1897 – 1962). Para ele, como nos explica bem Eliane Morais, os autores da literatura considerada perigosa, aquela que Roger Shattuck inclui entre uma das formas de “conhecimento perigoso”, que manipula a representação do mal, que ultrapassa, ou mesmo invertem noções de bem e mal, certo e errado, e que tem em Sade o maior de seus representantes, buscam por meio da literatura, explorar, trazer à tona, discutir possibilidades que a realidade recusa, por meio de “ uma espécie de ‘ruptura com o mundo’ e, consequentemente, com as exigências sociais de ordem ética e moral”, mas que são latentes ao homem. Deste modo, torna-se necessário a esses autores se desvencilharem dos valores de uma tradição humanista para poderem melhor repensá-los. Portanto, torna-se imprescindível que o autor crie certa cumplicidade com o leitor, para juntos explorarem regiões insuspeitas do homem, alargando o conhecimento deste; conhecimento que somente a literatura pode fornecer. Para tanto, é necessário que o leitor veja o mal não como algo exterior a si, como algo estranho ao humano, “mas sim como uma possibilidade que o concerne”. Neste sentido somente a literatura, para Bataille, pode, por meio do campo simbólico, transgredir a lei independente de uma ordem a criar; o que a torna, em certo sentido, perigosa. Porém sendo ela um conjunto simbólico ela é inorgânica, e sendo inorgânica ela é também irresponsável: “nada pesa sobre ela. Podendo dizer tudo.”

As concepções de Bataille marcam, pois uma profunda diferença entre as concepções precedentes; de um lado, com as ideias que concebem o livro como um objeto totalmente passivo, incapaz de influenciar o leitor, um mero espelho da personalidade deste, posto que devolve aos livros o poder de mexer, influenciar o leitor, criando mesmo uma cumplicidade entre ambos; e por outro, com as ideias de Roger Shattuck, fazendo com que o leitor não seja apenas um ser passivo, em que as ideias de um livro penetre em sua mente sem nenhuma crítica ou participação com este. E enquanto para Shattuck o mais importante é prevenir sobre o perigo destes livros, para Bataille o mais importante é que estes livros são necessários para se compreender o homem, os abismos mais profundos de seu ser, alargando assim o conhecimento sobre nossa própria natureza. O que parece ter sido mesmo uma das intenções de Sade: “a filosofia deve dizer tudo”; e que sendo verdadeiro, tudo deve dizer, mesmo que seja perigoso. O que aliais, como já foi demonstrado quanto a literatura, jamais saberemos o que pode ser, de fato, perigoso, se um livro de Sade e Nietzsche ou uma triste estória de amor como a de Werther, e muito menos se a maldade está nos livros de Sade, Nietzsche ou em seus leitores.

Vale lembrar que Nietzsche e Sade jamais mataram alguém.

“Sim, sou um libertino, eu confesso, concebi tudo o que é possível conceber nesta matéria; mas seguramente não fiz tudo o que concebi e seguramente não o farei jamais. Sou um libertino, mas não um criminoso nem um assassino”. (Palavras de Sade à sua esposa)