De quem é a culpa?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

LIBRA (de Marcos Salvatore)

by Victor Brecheret




consegue ouvir?
é um som vindo dali, de acolá.
um rompante sonoro de pessoa amada
além de um coração forte e em paz

cheio de alegria convencional e suave
navegação serena, equilibrada
desprovida de provas vazias
mensuradas, presumíveis

querendo a chance de dizer, de falar
desatinada pela viagem perdida
pela falta de alguém

- gosto de te provocar,
de te arregaçar os braços
na marra, por causa do orgulho
de manipular tua vontade, tua sagacidade

tua prata, teu ouro
tua flexibilidade moral
do absurdo

é quando menos se espera
pela ânsia
de não se ter mais paciência

- espera! eu fico com isso,
me serve,
me dá
me acomoda nesse incômodo de estar fora d’água

enquanto te ensino e te aprendo
portanto, não fuja
agora, chega de pensar e pensar
de me analisar

não adianta

não vê que assim pode se machucar?
e me forçar a te dar mais esperança
deve ser por isso que estamos aqui
se você quer saber

recicle-se este punho fechado
pulsador de amores, de saudosismos perenes
arrastando correntes de dia e de noite
toda sorte de odores lembrar, dele coração partido

que um dia
procurou por você de bar em bar
quase enlouquecendo por isso
fornicando com as palavras sem parar

é aquele mesmo bombeador da perversão
que usou comigo de alucinações, débitos e créditos
forçou-me ao êxodo voluntário da carne e do sangue
à promiscuidade bacante, embaralhado respirar

quase fazendo coisas
que não se menosprezam

questionáveis

mala cheia de sonhos
um destino destinado, astrologicamente dopado

mas nem tudo eu temo em contraste
quanto mais? ainda sinto, ainda posso.
nem vírgulas, nem pontos, só exclamações costuradas à mão
apenas a vil correção das estrelas

parabéns nesta data,
meu amor
minha libra de justas intenções
de peso equivalente

à força da minha boca contra a sua boca

que não me acredita
ou se rende
nem quando me jogo
do décimo andar

então para de chorar, chega de novela
deixa o que passou passar depois da ressaca
todo encanto é difícil de não se intimidar
então se atiça pro futuro que se sente

é um calor adjacente que retorna
muito à fim de se vingar

sei do quanto me quer e me gosta
mesmo sendo esses dois, dentro de nós
tão diferentes

como ondas do mar
contra as rochas

escreva com as unhas aqui
a meio caminho dos mamilos,
no meu peito exposto
a esse amor fraturado

escreva:
“me ligue amanhã,
às três da manhã
a qualquer hora
me ajude a nunca mais te procurar”

mentira!
vai estar sempre ao meu encontro
ansiosa por meditar sobre a insanidade e a razão
da minha língua contra o seu gatilho

enquanto me seca o cabelo suado

e eu falo demais, admito
e quase tudo pode durar
pode ser longo e conquistar
quase

quase pra mim
quase você

terça-feira, 4 de outubro de 2011

PRINCÍPIO ATIVO (de Marcos Salvatore)

by Thomas Karsten



O dia lá fora está tão
Virtual

Dá vontade de sair
Dobrando esquinas
Perguntando horas
Exclamando “que calor”, “que dia”, “que tempo”

Que tempo pra isso?
Em que tempo vivemos?

Esperando por alguém
Para atravessar a rua.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

bombordo [ou livre para ler com uma mão só] (de marcos salvatore)

by http://thethoughtexperiment.wordpress.com/


bêbado. completamente besta. acordo no chão da sala com esses escritos me cobrindo o corpo. entre um sábado e um domingo. repetindo chet baker, nina simone, portishead. sei do que se trata, mas resolvi publicar tudo como estava.

ando deprimido
busco o amor dentro de cada palavra,
nos rótulos das garrafas
solos de baixo sem escala, aeroporto pra pousar
não me recuso a pagar o preço da vida
mas a vida tem que aceitar o fato
de que vai ter que ser a prazo... e sem entrada,
nem fiador,
nem garantias,
nem telefones de contato
desde então
meu coração é um vinil riscado
por agulhas usadas
violino de uma corda só
sofro de doença primária, crônica, progressiva e fatal
está tudo aqui, não lá fora. anestesia geral.
dentro de mim tem um animal em profunda hibernação
mas não quero matar a pessoa errada.
- me apeguei aos pregos das asas machucando minhas costas.
seria estupidez
mas, em todo caso
- me traz mais uma música, on the rocks
mesmo sabendo que o mundo não precisa de mais ninhos
também existe o círio; festa pagã
- não há evidência de milagre nessa época
com seu espetáculo de fé do povo
            - o amor perde feio pro sexo.
viva o povo brasileiro
viva a foda laica
prostíbulos lotados,
bares enchidos,
altos índices de violência e criminalidade
lembro da corda
do frio da manhã
somos noivos de outubro
nesse eterna despedida de solteiro
o derrame de baba vaginal é um sinal de dias melhores
dias inteiros
olho pra baixo e encorajo mais um vôo
é claro, arranho um violão, depois tento de novo
canto trancado no quarto, com o volume
no volume máximo
claramente sem sabor
apaziguo a tristeza com masturbação consciente
dou em cima de qualquer mulher de olhar desafiador,
onisciência, terceiro olho em sua testa
em suas tetas, sua buceta
depois digo, na maior: “não me tente”
também venho consumindo enlatados de segunda mão
calçados e roupas usadas
pão com mortadela, pratos de arroz com feijão
não dispenso um vinhozinho barato
(cinco e cinquenta a garrafa)
economia
nem me sentir como um animal
- diz que me ama, me arruma uns trocados
- faz de mim um samba de terreiro de vila
- me dá café na cama
- despois senta a porrada
“me dá pastel.
te pago aqui.
essa fome me deixa quase morto”
cheguei tarde,
perdi a chance de me atrasar
e a palavra aconteceu sem permissão
algo em você que me calou
consegue adivinhar o que seja?
depois diz que me ama
olha só
me amarra cordas nos braços, nas mãos
depois as pernas
depois sai por aí de praça em praça
me apresentando de graça
quer me cortar as asas
quer me comer de garfo e faca
costumes, poesia-pé-na-estrada
melhor parar agora
antes que eu te leve a sério
e comece a me encontrar em outro lugar
percebeu?
não?
ou quer que eu explique?
então esquece.
e termine de me ler agora
ou então me ame logo de uma vez
rasgue o que escrevi em mil pedaços
faça chover papel picado
que eu estou com pressa de ir embora
de mãos dadas com suas mãos

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ELA DORME (de Marcos Salvatore)

by Michael Dweck


o que está feito
está feito

e agora
ela dorme


agarrada à clave de sol
tatuada no meu peito

meu leite ainda

escorre em sua boca


abre inteiro caminho
de memória
até o bico do seio direito



também nosso suor
nossa saliva viva

colorida, espalhada pelo chão
depois de tanta força

desse jeito

dedos pensativos
(...)
enrolados nos meus pelos
(...)
exaustos

terça-feira, 27 de setembro de 2011

SERENO (de Marcos Salvatore)


Dá vontade de ser
O que eu escrevo

De ir além do ponderável

Sem medo do sereno,
Sem segredos

Um romântico,
Ou apenas um sujeito da cidade

Um vulnerável
Às três da madrugada
Ao passar com tanta pressa
Pelas ruas de Belém.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

IMUNE (de Marcos Salvatore)


Paira acima de tudo:

Feitiço criado, plantado e colhido em sua terra.
Em minha água fervido, filtrado... bebido

Não lembro de como eu era
Ao sentir você
Me cobrindo aos seus cabelos modulados
Sem dó, nem piedade

Penso apenas: “eu não era, agora sou”

E te alimentar
Com as dobras de fraseado
Da poesia diagonal

Que escorre da minha língua “ophidia”
Que se infiltra, reticente
E se dissolve em sua boca

Me cala fundo
Te ouvir me decifrar
Me assimilar

Improvisar do nosso amor
Acorde por acorde
A cada dia, a cada noite

Uma nova melodia
Não transcrita
Imune à arte de dizer adeus

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

EU E KEROUAC (de Haroldo Brandão)


                “Para mim só contam os que são loucos por alguma coisa, loucos por viver, loucos por falar, loucos para serem salvos, os  que querem tudo ao mesmo tempo, os que jamais bocejam, que não dizem banalidades, mas ardem, ardem, ardem como um fogo de artifício.” (Jack Kerouac)

Todas as vezes eu me trancava no quarto e não queria ver ninguém, a ressaca física e moral estava no auge e eu começava a pensar que meu tempo já era, incorrigível perscrutador do próprio umbigo olhava as pernas e achava que minha porção besouro estava se revelando. Com o travesseiro eu esmagava minha cabeça e a culpa me corroia o corpo todo, há muito tempo me inscreveram em uma história que ainda iria acontecer, não há genealogia segura mas Virgínia nos anos 30 deu para um grandississimo  filho da puta e como resultado nasceu o futuro, correto, fiel e disciplinado contador, aquele que escapou de uma prisão e caiu nas garras da minha mãe. Talvez aí esteja a origem de toda a minha teimosia, dor e falta de paz. Os cabelos grisalhos avisam  que o corpo já está saturado de som e rock’n roll mas as ruas, as luzes, as noites hipodérmicas me chamam e eu me sinto o super-homem nos paraísos- bares artificiais.  Como toda ilusão, feito miragem no deserto aquilo desaparecia e me vejo perdido entre o inferno e o céu. As costas de Deus estão pesadas e desconfio que não haverá salvação; onde a luz? Que luz?

EU E KEROUAC (de Haroldo Brandão)


                “Para mim só contam os que são loucos por alguma coisa, loucos por viver, loucos por falar, loucos para serem salvos, os  que querem tudo ao mesmo tempo, os que jamais bocejam, que não dizem banalidades, mas ardem, ardem, ardem como um fogo de artifício.” (Jack Kerouac)

Todas as vezes eu me trancava no quarto e não queria ver ninguém, a ressaca física e moral estava no auge e eu começava a pensar que meu tempo já era, incorrigível perscrutador do próprio umbigo olhava as pernas e achava que minha porção besouro estava se revelando. Com o travesseiro eu esmagava minha cabeça e a culpa me corroia o corpo todo, há muito tempo me inscreveram em uma história que ainda iria acontecer, não há genealogia segura mas Virgínia nos anos 30 deu para um grandississimo  filho da puta e como resultado nasceu o futuro, correto, fiel e disciplinado contador, aquele que escapou de uma prisão e caiu nas garras da minha mãe. Talvez aí esteja a origem de toda a minha teimosia, dor e falta de paz. Os cabelos grisalhos avisam  que o corpo já está saturado de som e rock’n roll mas as ruas, as luzes, as noites hipodérmicas me chamam e eu me sinto o super-homem nos paraísos- bares artificiais.  Como toda ilusão, feito miragem no deserto aquilo desaparecia e me vejo perdido entre o inferno e o céu. As costas de Deus estão pesadas e desconfio que não haverá salvação; onde a luz? Que luz?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

DELIRIUM TREMENS (de Marcos Salvatore)

by Irving Penn


Uma lágrima cai sobre o papel
Umedecendo a tinta das palavras

“Não se perca dos seus pés
Ao voar sobre as mangueiras”

Dentro das contradições dessa cidade
Pode-se encontrar o amor
Uma esperança, uma maneira

Da surdina inespecífica
À própria voz
Até que as notas do seu corpo vibrem no final

Tempero espontâneo
De pessoa feliz com sua metade
Traço vigoroso
Escondido na bagagem

Escondido nos espaços
De uma frase

DELIRIUM TREMENS (de Marcos Salvatore)

by Irving Penn


Uma Lágrima cai sobre o papel
Umedecendo a tinta das palavras

“Não se perca dos seus pés
Ao voar sobre as mangueiras”

Dentro das contradições dessa cidade
Pode-se encontrar o amor
Uma esperança, uma maneira

Da surdina inespecífica
À própria voz
Até que as notas do seu corpo vibrem no final

Tempero espontâneo
De pessoa feliz com sua metade
Traço vigoroso
Escondido na bagagem

Escondido nos espaços
De uma frase

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PEIXES (de Marcos Salvatore)

by Jacques Henri Lartigue

Sua fantasia está comigo
Bordada de alegria, de orgia, de empatia
Venha buscar que eu já estou saindo fora (como sempre, colado)
Vou ser feliz, não sei se volto. Estou de boa, te esperando pra valer,

Que bom.

Atrás de tempestade e um copo d’água, de um cigarro
Jeans surrado, camiseta furada, tênis do ano passado
“There’s nothing for me here, so I will disappear”
Sem carnaval, sem árvore de natal; na melhoria total

Faço a sua corte como um puto sem lar e sem par
Antes, durante e depois de cada vendaval
Enquanto tudo pinta lá fora (eu sou assim)
Queria ter te encontrado antes, muitos anos atrás

É que uma coisa sua transa, brinda, anda comigo
Dança e canta, me confunde, me dá nexo, teto, abrigo (trigo pro pão)
Exposta e oposta ao sol e a lua nua, quando me escreve
Uma nota especial, cheia de espaços e acordes pra tocar na pele

Corra que aqui está tudo ok, e a coleta já rolou pro rock’n’roll
Que a turma toda se deu bem e esperam só por nós pra clarear
E a realidade é o limite, é um presente, eu já sei, ta tudo aí
E a vida pode mesmo ser longa, meu bem (sem dó nem “faz de conta”)

Senhorita chuva lá fora me molha e me repara noutro lugar
Toma conta de mim enquanto você não aparece para me salvar
Aguarda que o seu coração, sem pensar, entre na minha, dê um sacode geral
E venha me buscar nem que seja lá na casa do caralho

Toque o terror, bata na trave, me desatine, me anime até sangrar o alho
Coloque a rima que me falta para não te machucar

Minha batata, se assou, foi por amor, foi por acaso (alma perdida)
Levou um samba do sorriso que você me deu... aquela noite (...)

Nunca sei como agir, como falar,
Como te olhar sem beijar, sem abraçar
(tenho medo de você também me amar)
Troco as letras, as idéias da canção que eu não te dei

Que está onde está:
Livre

terça-feira, 13 de setembro de 2011

IDENTIDADE (de Marcos Salvatore)

Não sou muito de torrar as "paciência", muito menos de falar "cas parede", mas queria desabafar uma coisa: Para se conseguir uma 2ª via de identidade nessa porra, é necessário ir para uma fila do caralho, às duas da manhã e esperar que ÀS 08:30, um FILHO DO PESTE apareça para distribuir 30 SENHAS, que serão atendidas no máximo até as 10:00, e ninguém te atende mais depois disso, nem a tiro, nem a pau, nem por decreto, se Jesus aparecesse depois do horário, não tenham dúvida de que teria que voltar na madrugada seguinte. E é absurdo dizer que isso é um absurdo! Ficam lá com o dedo enfiado no cu, assistindo TV. E fico EU, como indigente, um "mato-fino" sem RG, que nem um filho da puta. Se me pegarem porre pela rua, gritando "coisas cruéis", ou dando em cima da mulher do próximo, sei lá, dando uns "coelho" com uma moça de família qualquer, vai ser porrada e cadeia na certa. Tudo porque eu me recuso a ficar a madrugada inteira, ao relento, esperando por uma merda de uma senha. A madrugada é feita pra fazer amor, meu senhor, meu irmão! Mesmo que eu broxe depois da quarta ou da quinta, não importa. Também não vou pagar propina pra furar fila nenhuma, nem vou puxar o saco seja de quem for. Quero apenas entrar naquela porra, NO HORÁRIO DE ATENDIMENTO, pegar a fila comum, não me importa o tamanho, pagar a taxa que for e sair de lá com o meu crachá de brasileiro.
Antes de mudar esse país é preciso exterminar os "GALA-SECA" de ambos os sexos, os "CU DE BURRO do QI".
MORTE AOS PARASITAS!
E Viva a Brôa de milho, a cachaça, o tucunaré, Gonzagão e Patatita do Assaré.

IDENTIDADE (de Marcos Salvatore)

Não sou muito de torrar as "paciência", muito menos de falar "cas parede", mas queria desabafar uma coisa: Para se conseguir uma 2ª via de identidade nessa porra, é necessário ir para uma fila do caralho, às duas da manhã e esperar que ÀS 08:30, um FILHO DO PESTE apareça para distribuir 30 SENHAS, que serão atendidas no máximo até as 10:00, e ninguém te atende mais depois disso, nem a tiro, nem a pau, nem por decreto, se Jesus aparecesse depois do horário, não tenham dúvida de que teria que voltar na madrugada seguinte. E é absurdo dizer que isso é um absurdo! Ficam lá com o dedo enfiado no cu, assistindo TV. E fico EU, como indigente, um "mato-fino" sem RG, que nem um filho da puta. Se me pegarem porre pela rua, gritando "coisas cruéis", ou dando em cima da mulher do próximo, sei lá, dando uns "coelho" com uma moça de família qualquer, vai ser porrada e cadeia na certa. Tudo porque eu me recuso a ficar a madrugada inteira, ao relento, esperando por uma merda de uma senha. A madrugada é feita pra fazer amor, meu senhor, meu irmão! Mesmo que eu broxe depois da quarta ou da quinta, não importa. Também não vou pagar propina pra furar fila nenhuma, nem vou puxar o saco seja de quem for. Quero apenas entrar naquela porra, NO HORÁRIO DE ATENDIMENTO, pegar a fila comum, não me importa o tamanho, pagar a taxa que for e sair de lá com o meu crachá de brasileiro.
Antes de mudar esse país é preciso exterminar os "GALA-SECA" de ambos os sexos, os "CU DE BURRO do QI".
MORTE AOS PARASITAS!
E Viva a Brôa de milho, a cachaça, o tucunaré, Gonzagão e Patatita do Assaré.

domingo, 11 de setembro de 2011

GONORRÉIA VOCAL 2001 – 2011 (de Marcos Salvatore e Carlos Solaris)

Letra: Marcos Salvatore
Música: Carlos Solaris

A banda Mal Nenhum era composta por insanos, vagabundos e famintos. Mesmo depois de 10 anos, olho essa música e não consigo deixar de sentir a mesma arrogância e vulgaridade desconfortáveis da época em que tocávamos pelos pontos de ônibus da BR 316. A fita cassete (hoje perdida) gravada na minha cozinha contava com quatro canções: Br 316, Gonorréia Vocal, Interlúdio e a minha preferida: Blues do fim da tarde. (minha ex mulher tentou me matar dois dias antes) Todas compostas sob o furor de uma indigestão amorosa de macarrão com sardinha e taças e taças de vinho barato. As letras de temática perversa, masoquista, as melodias distorcidas pelos violões de cordas sujas e minha voz ainda forte, segura de sua desafinação, ainda não massacrada por noites e noites de sórdidas madrugadas, mostravam claramente o quanto eu andava ferido, indignado e chocado. As canções viraram mito, lenda. Ninguém sabe o que aconteceu com elas, mas continuam sendo tocadas por aí, em algum lugar empoeirado, mal iluminado e fedido. Gosto de pensar que mudamos pra melhor, mas até onde sei continuamos meio insanos, vagabundos e famintos. Ave Carlos Solaris, onde ele estiver.


Eu quero arregaçar
de esquina em esquina
Tentando me encontrar
Com a pessoa errada

Imatura, fútil, mal passada
Me enchendo o saco com um monte palavras
Que eu cansei de ouvir
De sentir, de repetir

Eu quero o meu sossego
Dinheiro, um amigo, um emprego
Pra me valorizar sem exagero
Convite pro fim da festa

Soltando meu confete em todas as brechas
Entornando álcool, comprimidos
Sempre depressivo, sem sentido

Isso nunca vai acabar, você tentou me matar
Não vou te ferir, não vou te machucar
Não sei lidar com isso, por isso
Vou cair na farra antes do bode chegar.

Bem, agora eu já me decidi
O melhor é ficar perdido por aí
Você não sabe quem é,
Você não sabe de mim

Mas fazer o quê se terminou tudo assim?
Se aquele lance acabou, teve fim?
Se o nosso amor nos deixou, nos passou
Uma gonorreia vocal?

GONORREIA VOCAL!
GONORREIA VOCAL!
GONORREIA VOCAL!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

BAR INFERNO (de Marcos Salvatore)

by Jan Saudek


Volto,
Chega o meu misto,
Como devagar por estar quente.

Olho pro balcão ao lado,
e algo se parece com um copo de bebida.

Princesa se senta. Garota Down.
Não deixo de pensar:
- “É você quem vai transar comigo, Baby?”

É tudo coisa de gosto:

Coisas juntas,
Porres juntos,
Canetas juntas,
Ressacas juntas.

Juncos separados. Tudo tipo. Não posso conter.
Não quero me prender à espera de alguém que se repete, sem pista.
Mesmo assim, me prendo. Pode crer.

E escrito na parede do banheiro estava:
“Venha, venha assim mesmo.
Me deixe morrer de morte merecida: suicida, homicida”.

BAR INFERNO (de Marcos Salvatore)


Volto,
Chega o meu misto,
Como devagar por estar quente.

Olho pro balcão ao lado,
e algo se parece com um copo de bebida.

Princesa se senta. Garota Down.
Não deixo de pensar:
- “É você quem vai transar comigo, Baby?”

É tudo coisa de gosto:

Coisas juntas,
Porres juntos,
Canetas juntas,
Ressacas juntas.

Juncos separados. Tudo tipo. Não posso conter.
Não quero me prender à espera de alguém que se repete, sem pista.
Mesmo assim, me prendo. Pode crer.

E escrito na parede do banheiro estava:
“Venha, venha assim mesmo.
Me deixe morrer de morte merecida: suicida, homicida”.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

CONJUGAL (de Marcos Salvatore)


Chegamos

Não tô aqui pra te entender
Você vai ver

Só vim por sua voz
ao som de um corpo inteiro

Só vim pelo prazer
Você também, que eu sei

Depois o meu
O seu primeiro

Pra te amar ao mesmo tempo
em que aprendo a fazer isso

Depois a gente mente
Sem embrulho, nove horas
Sem desperdício

Finge ciúmes, diferenças

Vai dar fome, você sabe
Antes disso a gente bebe, come, se consome

Pratos, copos e talheres
Sem compromisso de durar pra sempre

Sem essa, sem aquela
Segundas, quartas e sextas
No banho, na cama, na mesa

Não faz assim que eu não consigo respirar
Assim não sobra espaço
onde eu também possa me amar

Tira isso, põe aquilo
Que sobrou a mim pra conjugar
E a tendência é de mudança
A intenção é variar na violação e na dança

Parecido criança como quando era com a gente
E procurava, descobria, escondia, ria
Lugar qualquer pra se esconder, para chorar

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

VERAZ O PESO

Trilha sonora: (Cesárea Évora; "Calabar", de Chico Buarque)

Veraz que o peso das ervas
carregará para longe
os maus agouros,
o mal-olhado
o Mal
enfim lavado
por chás e folhas e óleos
e outros
compostos de fé.

Veraz que o peso dos peixes
em postas dispostas à venda
carregará a fome para longe
em pratos de comida contada
em reais contados
saídos de carteiras rotas.

Veraz que o peso do desejo
inscrito em corpos magros
trará para perto a satisfação paga
em esquinas e quartos de hotéis baratos
e em chão-cama feito nas sombras
com papelões fartos.

Veraz que o peso das torres
de aço fincado
manchará de azul a beira d´água,
trará à memória sem eira nem beira
a água navegada
e o vôo dos abutres
sobre velas abertas
por ventos incertos,
soprados pela vida
de pescadores atemporais.

Veraz que o peso dos barcos
atracados e reclusos
do tempo das marés
marca o ir e vir
de séquito de povos e reses
de fortunae de reveses
de séculos de baía aberta
em sinas
ou escolhas.

(Renato Gimenes)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

ALIMENTAR (de Marcos Salvatore)



me atrapalhei com as palavras
que você me deu na boca
as migalhas
tua comida nobre
abrigo rudimentar
da novela sem limite que me causou
me semeou
me captou o final