De quem é a culpa?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

ÁRVORES ENTRE AS CADEIRAS (de Marcos Salvatore)


 
Continuei correndo. Estava bêbado e ninguém ia me pegar. Mas pegaram. Levei uma surra tão grande que, na metade dela, comecei a pensar no Beija-Flor, isso ajudou. O sofá onde eu dormia ficava lá, na quadra 7. Eu não tinha dinheiro, nem um pingo de vergonha por estar tentando ir para a subjetiva casa onde se come. Marituba, cidade morta a pedradas. Objetivo.

Meu cachorro, Eliaquim, sempre sabia quando eu estava para chegar. Choramingava no portão. Nunca liguei para horários componentes. Eu sou também um fragmento torturante.

- Eu te ajudo a controlar o futuro. Assim tu não chegas lá; não único, aqui. Ajudo. Vem!

Voz de mulher. Loira de calças listradas. Olhos grandes e luminosos. Tom de voz macio. O Decouville é longo e sinuoso. Estrada ou rua? Não sei dizer. Ela era bonita? Feia? Também fico devendo essa. Fui com ela sem zelar por paz. Havia a estrada e um macho ferido. Sem lidar.

Manquei ao seu lado da saída para a BR até perto da antiga madeireira. Paramos lá. Vozes de gente cantando nos espreitavam por dentro do bosque adornado em tons de verde e azul. Lá.

Um céu estrelado e sem lua - nem sinal da lua. A oeste, um pálido clarão. Pandeiros. Público.

Eu não tinha medo. Queria companhia para morrer. Sentia o sangue escorrendo das perfurações nas costas e os ossos pareciam se desparafusar a cada passo, como se eu pudesse simplesmente me desmontar a qualquer instante. No começo, como se chamava isso? Libido?

- Temos que sair daqui. Mas antes, preciso mijar nas tuas costas. Te enterrar no barro e...

Não pude reagir. Fui jogado na margem lamacenta de um leito. O que tinha sobrado da camisa foi rasgado e só senti o calor daquele jorro. E como me fez bem para o frio experimental da carne e da alma. Vi que não me preocupava mais. Dos seus mamilos rosados escorria leite.

Ela me cobre com lama. Deixa meu pau de fora, minhas narinas, minha boca, meus olhos. Senta no meu pau, que cresce com o seu roçar atencioso. Uma flor presa aos seus cabelos.

- Isso é para os ferimentos. Não se perturbe se eu gemer, gritar ou rir. É um atributo antigo.

Vem um gozo sem ejaculação me queimar o rosto. – “Vai começar”, ela diz. “O show vai começar”. “Levanta e dança conosco?”. “Não é sempre que tem para todos”. “Tu vens?”.

Luzes por todos os lados. Audiência vazia. A Plastic Ono Band passa por mim para assistir ao show do Gibamones. Curtem. Sobem e tocam “9 Dream”. Brigam. Ouço os gritos de Yoko apanhando de um choroso John. Depois suas gargalhadas. A gala dele escorre do seu cu.

Poderes ao meu lado me fazem pensar no estéril “Poema” de Cazuza: - “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua, que vai ficando no caminho...”.

A mulher me banha e sopra num igarapé conciso e sem sobrenome. Me enxuga com os seus cabelos longos e trigais. Pergunta se eu gosto de romance, de filmes noir.  Cigarrinhos de palha são distribuídos. Não quero. O cara do som faz uma turnê sonora pelos últimos setenta e sete anos de jazz e blues. Gosto e peço para repetir aquela do Bird – posso morrer sem nunca ter mandado um telegrama na vida; ele enviou mais de cem em uma única noite a quem amava.

Yoko, encostada em uma árvore se abaixa e me diz: - “Tu gostas de ilusões perdidas. Mas uma vida normal tem quatro níveis de entendimento; e tu estás lidando com cinco”. Em 16 canais.

Agradeço meio assim: - “Valeu”. Suando uma gordura brilhante, durmo junto daquela perspectiva.

Não há lua para iluminar quando as luzes se apagam e sigo o meu caminho. Sem feridas, apenas cicatrizes e a impressão de que quem desapareceu fui eu, sem nenhuma explicação.

Uma segunda chance. Quantas eu já tive? Ainda há força nestes velhos braços sem raízes? Vida cheia de adversidades. Pálido reflexo deixado pela sombra de um amor desabafado. Amor?

Raul diria que agora amanhece, amanhece... amanhece o dia. Tarde demais para o choro do melhor amigo, rente ao portão. Antes de entrar, lembro que é Natal, e ligo minha árvore. Volto sem as armas da morte dos tiranos e monstros que deixei pelo caminho. A despeito das consequências da cruzada, muito bem acompanhado.