De quem é a culpa?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O TELÉGRAFO SEM FIO (de Marcos Salvatore)

by Greg Tochini


O quarto na Passagem Brasília, perto do terreiro de Dona Erundina, não fedia muito, mas sentiu um cheiro estranho quando acordou pela musiquinha meio tecno-Beethoven do carro de gás que passava em frente:
- Olha a Tropigás!
Sentou na rede e acendeu um cigarro, coçou a perna esquerda (- Que mania, pequeno!), a vontade de cagar foi instantânea depois do primeiro trago; correu. A ressaca antropofágica dividia o seu tempo entre a náusea e a diarreia de carnaval – No Telégrafo é sempre Carnaval.
Mas não estamos no Carnaval, estamos? - Não. (:) Meados de junho, ao som de bombinhas e “escapoles-bole-bole” dos moleques, lá fora a “psica” rola solta. Ele se lembra de nunca ter aprendido direito a fazer papagaios (tinha medo de não conseguir e rirem dele), seu forte era o cerol, mas isso não interessa agora, porque o celular pré-pago tocou. Ele pensou: - “Porra, não tenho crédito, duas da tarde, bem na hora de cagar, essa merda toca. Vou retornar essa porra à cobrar”.
Era o “Dotô” Delegado.
- Ô, Painho?
- Fala Bezerra (“Quê que esse animal tá me ligando?).
- Homicídio para ti.
- Mas assim (...)? Combinei que levava a merendeira do Stélio Maroja, aquela nega condicional, para Outeiro amanhã de amanhã (- Tu és um puto, Painho, mas eu gosto de ti). Ponha a mão na consciência, meu patrão! Ela tem uma tia doida e solteirona que pensa que está sempre de resguardo. Vamos ter que despachar a velha para algum parente mercenário qualquer.
- Tô sabendo que tu já estás salivando para ela entrar na goma faz tempo, mas eu tô sozinho, aqui, com um taxista em estado de choque e dois defuntos no banco de trás.
- Puta que pariu! Tá ruim “mermo” o negócio, por aí?
- Um eleitor inscrito, matou a mulher com três tiros em frente a igreja do Perpétuo Socorro, depois deu um tiro no peito. O taxista veio direto para cá. Chegou todo mijado. Tô até despachando direto pro Renato Chaves.
- Tu sabes que eu entro em férias amanhã...
- Isso é besteira. Só para saber o porquê e eu te libero. Relatório besta de fazer. É coisa só para ti, bonita a moleca.
- Égua, Bezerra, vai-te para merda! Tô indo “praí”.
- RÊ, RÊ, RÊ, RÊ! Pago duas depois, lá, no Mauro’s.
No necrotério chegou, uma hora, na contramão, depois do trânsito infernal. O Moscoso, velho amigo de farra e médico legista veio recebê-lo com sua eterna camiseta escrito “Lula Lá”:
- E, aí, Moscoso?
- Peitinhos de pomba, bucetinha raspada, tacha na língua. Uma putinha.
- Fodeu antes de morrer?
- Não, mas vai. Quem sabe foi por isso que morreu. Dá-se um jeito a tudo.
- Tô perguntando contextualmente, filho da puta, tarado, do caralho! Quero acabar logo com isso.
- Três tiros fatais na mulher: coração, pulmão e outro no coração de novo, à queima roupa. Mas ele demorou cinco minutos pra morrer: o tiro pegou no estômago. Até parece que ele queria sofrer bastante.
- Tranquileza. O que tinha nas roupas?
- Duas meias passagens nos dois e um recibo de manicure-pedicure no bolso de trás da calça da moça. (...) Tu achas que vai demorar para reclamarem o corpo?
- Talvez umas 24 horas, por quê?
- Tu sabes...
- Vai te foder, Moscoso. O inferno é pouco para ti.
- Não se despensa uma mulher de touca, meu caro. Desse naipe só lá no Cosanostra.
Tinha amigos estranhos, realmente, mas isso não interessa, não interessa. O que importa é o papo que ele teve com o derradeiro condutor dos finados passageiros.
- Derrama, brother.
- Hã?
- Fala, desembucha, desenrola, vomita tudo, porra!
- Ele matou ela.
- Eu sei disso, caralho. Me conta como é que foi. Tô pronto para apresentação.
- Mas, “num” fui eu.
- Eu sei, filho da puta. Como ele matou ela, (...) por quê?
- Ele atirou nela.
- Porra, é por essas e outras que a gente senta a borracha... (!) Olha, “vamo” de novo: o que eles conversaram?
- Só ouvi os tiros. Ele falava baixinho. Só deu para ouvir o que ela disse depois dos tiros.
- E o que ela falou, porra?
- “Ai, Jurandir”.
- E depois?
- Depois do quê?
Painho precisou dar umas porradas grátis no taxista por desacato a sua inteligência; copinhos esses que foram úteis, porque finalmente ele lembrou que tinha pego os dois na altura da passagem Santa Rita e que em frente a igreja ele atirou nela e que antes do sinal de Pedro Álvares com Arthur Bernardes atirou na própria barriga.
- Não consigo esquecer do cheiro de sangue com merda. (...) Posso ir agora?
- Sai da minha frente! Não, não! Volta, que tu vais me levar nessa manicure.
- Mas, mano, eu tenho que devolver o carro e...
- Que conversa é essa? Vai me levar, sim. Senão te deixo, lá, com o Bezerra. E, ele adora gordinhos feitos tu. Ele diz que nem sentem “quando enterra”. Bora, merda, procurar essa tal de dona Djeca, do recibo.
Entramos na Santa Cruz [“ulha” (!), perto de casa] e a dona Djeca já fuchicava com outra:
- Na hora, lá, né? que eu disse que eu... eu fui.... e ela disse que era 12, mas é 15... hum... achiiii, ... tá qui, enxerida! Vai “fudê” e ainda quer desconto? Égua de ti!
Foi o suficiente pro Painho saber que estava em casa:
- Boa noite, esse negócio de parágrafo D é comigo mesmo.
Dona Djeca se levanta, põe o molho de chaves dentro do sutiã; não para mais de falar:
- Olha, eu não devo nada, entendeu?
- Mas... é só...
- Não, que vocês que ficam por aí com as piriguetes e agora vem aqui.... que não sei que mais lá, não sei das quantas...
- É sobre esse recibo, porra.
- Quê que tem?
- A dona desse recibo está no necrotério agora, morta por três tiros. Bonita. Provavelmente era cheio de vida e...
- Ih, meu filho, provavelmente pegou do gastoso para gastar com o gostoso.
- E quem é Jurandir?
- Ela fez unha ontem e disse que do trabalho ia para quadra junina dançar na Praça Waldemar Henrique. Jurandir deve ser o nome do bofe.
- Sei...
Dona Djeca, depois de muito falar e falar, esclareceu que eles ensaiavam na quadra de futsal do Colégio Santo Afonso.
- Valeu, Tia. A gente se vê no próximo baile da saudade do Cacareco.
- Mas, tu és apresentado...
O nome do taxista era Aminadaby, mas isso não interessa, o que importa é que ele virou taxista porque tinha medo de um monte de gente junta, tinha cachorro e gato em casa, o que também é problema dele, não nosso.
- Ô, Derby, estaciona em frente a igreja que eu quero fazer o sinal da cruz antes de entrar.
- Mas o meu nome é...
- Eu sei, porra, mas um nome desses ninguém decora, Pequeno!
A quadrilha já estava de saída para a Praça e Painho diz:
- Polícia, porra! Jurandir, eu quero um tal de Jurandir.
Um dedo duro (sempre e em todo lugar) só faz apontar: - “É aquele, o puxador”.
- Vem cá. Quero falar contigo.
- Onde tu estavas hoje, por volta do meio dia?
- Tava em frente ao shopping, fui pagar uma conta de luz atrasada.. cortaram a luz de casa.
- E o quico?
- Como?
- Deixa para lá, só quis imitar a minha namorada (mentira!). Por falar nisso... e tu?
- Eu o quê? O senhor me conhece?
- Não precisa. Eu sou da polícia e o meu amigo Derby prata, aqui, é taxista.
- Sim, e eu o quê?
- Tu tens namorada?
- Olha, eu gosto de mulher se o senhor quiser saber e estou esperando minha namorada e...
- Calma, garoto, calma, calma, eu acredito.
- E qual é o nome dela?
- Tina... Justina. Por quê?
- Olha, rapaz. Sei que não é a melhor hora, mas eu preciso te notificar que...
Contou tudo ao garoto. Esperou a reação. Não houve reação. Jurandir limitou-se a dizer:
- Eu a amava desde pequeno. Depois que ela largou o namorado ficamos juntos. Ele batia nela. Prometeu se vingar por causa dos ciúmes. A gente ia casar depois da competição de quadrilhas. Minha inscrição na COHAB estava em cima. Ela dizia que eu era um bom puxador. Mas eu nunca acreditei, no ensaio eu errava muito. Disse que tinha um presente para mim depois que a gente ganhasse. Mas não vamos ganhar sem ela dançando.
- Ela dançava aqui?
- Sim, o ex-namorado era o parceiro. Eram os principais.
- E, ainda vais competir depois de saber de tudo isso?
- Fazer o quê? Prometi para ela que seria o puxador dessa noite. Tenho que cumprir.
- Eu te levo até lá, garoto. Vamo.
Painho odiava quadrilhas, mas, naquela noite, pode assistir àquele rapaz se despedir da mulher que amava. E, como dançou aquele menino, como levou alegria para todos. E, depois de ganharem, depois da última dança, pôde ver o garoto, banhado de papel picado, olhar para o alto e finalmente... chorar.