De quem é a culpa?

terça-feira, 17 de julho de 2012

O MARCO DA LÉGUA (de Marcos Salvatore)

by Bill Brandt




Entro no Mauro’s, mais cedo que o de costume - nove horas. Chaco com Paulo II.
Vinte contos no bolso: três e setenta e cinco, o cigarro; cinquenta centavos, o fósforo, quatro contos a cerveja; um real para o Bill – acho que sobra dois para a van (não aceitam meia depois da meia-noite). Há tempos não escrevo nada.
Seu Bacana me serve. Conta em detalhes das experiências com cogumelos fertilizados por estrume de vaca – telepatia, gênio etc..
- Sabia que alguns estudiosos dizem que uma pessoa pode levitar naturalmente alguns centímetros? Só depende da motivação.
Apenas ouvi como de costume. Daquilo guardei a palavra “levitar”.
Ele também me contou sobre uma samaumeira gigantesca que existia atrás do Souza Franco. Numa determinada época do ano ela soltava um pólen parecido com neve. Neve.
Meu pen drive traz canções que só me fazem pensar nela. Não posso pensar nela com pouco dinheiro no bolso. Dor de cotovelo dá um sede dos diabos. Ela era a minha borboleta – mas isso é uma outra história para um outro bar, outro balcão.
Horas depois das notícias (acidentes na estrada, mortes, overdoses, voto nulo e futebol) o bar estava cheio, agindo e reagindo como em toda sexta-feira, como em toda rede “anti” social - não vou entrar em detalhes.
Às vezes penso que nossos vínculos com a inevitável inércia coletiva ao redor da mesa do bar têm relação com uns tantos ressentimentos insuspeitos: perdidos da matilha procuramos uma colina qualquer para uivar a perda do que um dia foi querido ou caro. Mas, ninguém vai confessar, muito menos eu.
Chega o Tiozinho “cospe-fogo”. Um senil dragão, conhecido por todos os seus caqueados com vidro quebrado, contorcionismo e etc, etc, e, é claro, etc..
Faz uma apresentação no meio da rua, com cegas e mudas, reverências. Sempre diz coisas que ninguém entende, nem liga por não entender. Eu presto atenção, não perco um detalhe sequer (confesso que também não saco porra nenhuma).
Todos estão surdos, como diria o Roberto, bajulando ouvintes cheios de pavulagem e conselhos altivos, enquanto aquele senhor cria um clima circense para o seu rompante pirofágico.
Pausa para um vendedor de estatísticas:
- Esse bairro, rapaz, esse bairro já foi interior dessa metrópole. Aqui tinha sítio desse lado, daquele lado. O Bosque era um quintal, porra. Limite da cidade. Tuna, Remo e Paysandu também estão aí.
- Vai dormir que tu estás é porre.
Eu estava no balcão, esperando o dinheiro acabar, mais uma vez. Tentando descobrir o motivo de estar ali, curtindo o show; foi, então, que começou a chover.
Vejo o desespero do mestre, juntando suas coisas na certeza de que sairia dali sem o pão do dia seguinte, sem nada desta vez.
- Égua, desconjuro!
Ao meu lado alguém pede a terceira música do lado B do disco tal do IRON MAIDEN. Acolá alguém fala o mais alto possível sobre quantas vezes foi em Algodoal. Outro diz que é amigo de fulano e sicrano, candidato. Seu Bacana discute o valor da conta com um terceiro indignado. Alguém desidratando a namorada de alguém, banheiro lotado, uma rebelde vontade de mijar, uma morena estilo pornô-amador me faz assim, “mmm”, com os lábios e... – bom, depois termino essa.
Reparo no tiozinho, quieto, encostado num canto de fora do Templo do Rock, esperando o toró passar. Mãos recolhidas, olhar inexpressivo.
A chuva injustiçosa passa. Belém é mulher das mais furiosas, tem mesmo dessas coisas lindas e climáticas, quase meteorológicas no humor.
- Lá vai o Tio, de novo – alguém diz, sem expressão.
Ele retoma o seu lugar no lado de fora do Bazar. Prepara-se e, um segundo antes do um novo aguaceiro descer com o cacete, desiste, dessa vez, sob o olhar imediato de todos.
Arruma suas coisas, cabisbaixo. Suspira antes do primeiro passo; antes da primeira moeda cair... depois mais uma, e outra... moedas de um real, cinquenta centavos, juro ter notado aviõezinhos de cinco, dez reais.
E enquanto durou aquela chuva de trocados, o tiozinho sorria e sorrindo, parecia estar pensando em alguém... parecia levitar.