De quem é a culpa?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

QUID PRO QUO (de Marcos Salvatore)

by Goya

Estendi os braços mecanicamente em direção ao criado mudo em busca do meu "vinho da madrugada" mas, meus dedos encontraram apenas a capa dura do volume de tragédias de Shakespeare. Levanto. Escovo os dentes, gargarejo no chuveiro. Corro me enxugando no caminho até a cozinha, ainda molhado. Lembrei-me da dependência matinal, observadora e compulsiva, adotada, mais criada do que parida: Acabou o pó... de café, "puta merda".
O coelho de Alice dizia: - "Estou atrasado, estou atrasado".
Atravesso a Pte. Vargas em direção ao quiosque da praça. Peço um cafezinho e, como estava de pelar de quente, fico curtindo a manhã, uma vontade de fumar que ia até o joelho; resisto bravamente. Acompanhei com o olhar uma morena linda de peitos e bunda ameaçadores que passava, notei que era casada. Estou quase assoviando para ela quando um tiozinho amanhecido, completamente bêbado, se vira pra mim e diz de peito estufado, como se fosse um pombo de avenida: - "Meu rapaz, a música paraense precisa sair dos botecos e voltar para a rua, pra rua! Em cativeiro a natureza enlouquece e vira política".
            Não sei bem se sorri amarelo, não sei se não sorri, mas paguei mais uma dose pro Tio. Ele agradeceu assim: - “Nunca pegue moeda. As moedas furam os bolsos e se espalham pela rua, se alguém pega, sai logo atrás de um poço ou uma fonte, vai atrás de perdão, mas o perdão custa caro. É o perdão que financia o pecado, meu velho, por isso existem tantas religiões, para promover o pecado, não o perdão”.
            Toca no meu ombro e seus três ou quatro dentes fazem a confissão inesperada: - “Eu sou um canalha, mano. Ex professor universitário. Meu problema é que eu dei aulas demais, era de três partidos ao mesmo tempo: um de esquerda, um de direita e um que pagava um pouco melhor por cabeça feita, pelo gado. Tinha três mulheres, e não sei quantos filhos. Acredite, meu rapaz, não é a quantidade de filhos que leva um homem à loucura, é o número de mulheres. De mulheres!”.
            Segundo a teoria do tiozinho, sua loucura tinha um fundo matrimonial: amava ao mesmo tempo três mulheres, cegas militantes regionais. Um caso amoroso com três versões da Baby Consuelo: Caboclas de interior, pele de jambu, cabelos lisos, compridos. Meninas acostumadas a subir no açaizeiro sem calcinha. Vendidas a ele ainda mocinhas, por algumas sacas de farinha, arroz e feijão (época de campanha).
Fora casado com todas, e separado, respectivamente. Numa determinada época chegou realmente a morar com as três, que, na sua ingenuidade, por incrível que pareça, acharam tudo muito natural.
Em sua sedição de letrado mau caráter, acreditava que sua generosidade sexual-populista o autorizava a sentir-se como um benfeitor, quase um santo. Dizia: - “São umas crianças que eu estou criando”. Sua auto indulgência era um ato que por si só já valiam por uma absolvição. Pensava: - “Sou quase um padre... ou um pastor”. Ao passar pelas pessoas levantava a mão espalmada e pensava: - “Deus te abençoe, seu filho da puta!”. Já se afastara muito do conceito de certo ou errado, de bem e de mal. Era um sedento por demência.
            Enlouqueceu de vez no dia em que pegou as três se ensaboando com o vizinho, um cobrador de ônibus chamado Adeodato, no quintal, debaixo de uma chuva da tarde, perto do tanque e ouvindo “Agepê”, no volume máximo. Garrafas de cerveja espalhadas, fazendo um caminho da sala para o quarto, do quarto para a cozinha e da cozinha para o quintal. Um cheiro de sarda assada e caranguejo no ar o acompanharam desde então. Era o seu tormento: acrescentar a qualquer odor, estes.
Não agiu imediatamente. Deixou-se envolver por um sentimento renovador de consciência corporal e espiritual. Sentiu-se feio como nunca, sentiu o calor sufocante do inferno bronzeando a sua face. Notou cada detalhe fulminante de horror com a terrível aceitação doente do momento. Depois foi simples, quase a letra de um chorinho antigo:
            Entrou no quarto e encontrou uma arma carregada dentro da capanga do cobrador. Foi até a geladeira e bebeu um gole sem fim de água gelada. Correu até o quintal e fuzilou a todos desastradamente. Não conseguiu fugir devido a um tiro acidental no próprio pé. Depois, a prisão, a quase cegueira pelo gás lacrimogênio, os dentes quebrados pelos cacetetes contumazes. E a... liberdade, vinte anos depois.
            Encerrou dizendo: - ‘Belém não é aqui, meu amigo. Capitalize o seu perdão enquanto é tempo”.
            Atrasado, bebo o café frio de uma só vez e encaro, como um irmão, o olhar daquele senhor. Lembrei de Shakespeare, em seu Romeu e Julieta, que, em certo momento diz: - “Sou um joguete do destino”. Faço, também, algumas confissões irrelevantes, tediosas. (...)
Quase meio-dia. Preciso ir atrás da mulher que eu amo e dizer a ela: - “Eu te amo e vim te buscar. Meu pau já está amolado e com correção monetária. Vamos fazer um pouco de sexo leigo, com juros compostos, você faz o balanço e ainda fica com o líquido”.
            Saio correndo, mas antes de ir embora, olho pra trás e falo alto pro tio: - “Ô, tio! Chama Verequete!”.
            E ele: - “Rê, rê! Pelejar, meu velho, pelejar!”.